Como acontece II

Parte I

Uma briga sobre um detalhe idiota, o amigo dele faz um comentário que ela não gostou e a discussão, mais uma vez vira algo gigante, os faz terminar.

São meses de vazio, desesperança e desilusão. Onde encontrarei isso de novo? Não existe.

Pessoas vem e vão, semi-relacionamentos ou até relacionamentos sérios, mas nada dura. Nada. Pois sabem que um pertence ao outro e vice versa. No entanto as tentativas são  válidas,  pois acham que juntos nunca darão certo. Não interessa quanto amor sintam, só amor não é o suficiente.

Depois de meses tentando uma amizade falida, o amor fala mais alto e eles decidem estar juntos de novo. Magoam quem estava no meio, quem não deveria ser machucado por algo assim, pois desde o começo a ideia não era essa, não era volta, não era tentar de novo. Ambos se sentem mal, não gostam de machucar pessoas boas por quem eles tem tanto carinho. Isso machuca também.

Só que a vida pode ser óbvia às vezes. Ela pode esfregar na sua cara que, sim, você pode viver e ficar bem sem a outra pessoa. Você pode ser completo sozinho ou com outro que não te complete do mesmo jeito. Só que não é igual, não é o mesmo preenchimento. Sempre falta um pedaço. É como tentar montar um quebra-cabeças e duas peças quase se encaixam completamente, mas falta 0.01% e isso incomoda. Esse 0.01% sempre estará ali e sempre será um grande e se?

Mas a vida também os ensinou que não adianta insistir no mesmo erro.

Que todos temos limites e precisamos ser egoístas algumas vezes, pensar em nós mesmos e nos contentar com o que nos deixa bem. Pode não ser maravilhoso como antes, mas é bom, é calmo, é fácil e confortável. Por que não aceitar? Por que trocar isso pela turbulência e incerteza?

Não, eles não farão isso. Eles não precisam. Eles não querem.

E morreu (eu, no caso) III

Parte II

A rotina.

2 anos antes.

Acordar. Acordar, enrolar na cama, pensar se não vale a pena inventar uma desculpa e chegar mais tarde, olhar as mensagens no celular, responder algumas, ignorar outras e perceber que se passaram 15 minutos.

É por isso que eu gosto de acordar 1 hora antes de sair para trabalhar. Sim, odeio acordar rápido, sair correndo, escovar os dentes enquanto coloco o sapato e visto a calça. Não, não é para mim. Sim, amo dormir, dormir e comer, mas também gosto de ter meu tempo para tudo. Portanto, sim, eu acordo 1 hora antes de sair para o trabalho. Ou você aceita ou pode me processar. Na verdade, como eu morri, não pode não. Mas agora vou contar a história ambientando 2014, então talvez você possa sim me processar do presente no passado. Algum físico quântico aí pode me ajudar nessa questão?

Enfim, acordei, levantei, coloquei a roupa, escovei os dentes e sentei no sofá com a bolsa do lado para poder assistir um pouco de TV e enrolar antes de sair. Eu gosto dessa rotina. E eu gosto de ver TV antes de trabalhar, senão eu fico totalmente por fora de tudo que acontece e pareço criança no meio dos adultos nas conversas do almoço na firma.

Eu sou muito distraída, avoada, indiferente (mas não do jeito “too cool for school, eu não ligo para vocês, mortais” e sim do jeito “vivo tanto no mundo da Lua que o se o Silvio Santos soltar um aviãozinho na minha cabeça, não vou perceber) e isso me fez parecer distante. Na verdade, eu vejo todo mundo, observo, ouço, só não gosto de fazer barulho, ser o centro das atenções, falar. Falar está, definitivamente, em um lugar muito baixo na minha lista de prioridades, próximo de comer bacalhau, ler Paulo Coelho e dividir minha comida. Mas ver pessoas, ver como elas são, como reagem às coisas, às outras pessoas, é meu passatempo preferido e meu jeito de sobreviver no meio de gente. Porque ficar sozinha é outro passatempo preferido.

Não que eu não goste de gente, mas é difícil. É cansativo. É como se eu entendesse tão bem o que todos sentem, que acabo sentindo, então viro um catalisador de sentimentos. E se você é uma pessoa que convive em sociedade, com certeza encontra um número considerável de pessoas por dia e bom, acho que não preciso explicar além disso.

De qualquer forma, no ônibus para o trabalho eu leio. Me obrigo a ler porque o caminho para o trabalho ou faculdade sempre foi o momento da leitura e, mesmo após a ansiedade e os celulares com internet rápida demais, jogos, redes sociais, mensageiros instantâneos e vídeos de gatinhos, minha leitura ficou escassa. E eu odeio isso. Gosto de ler. Sabe a Rory de Gilmore Girls? Sou tipo ela, mas sem a pele perfeita, os olhos azuis, os avós ricos e Yale. Na verdade, nossa única semelhança é o amor pelos livros. Talvez ela não tenha sido a melhor comparação.

Desço do ônibus e preciso andar uns 10 minutos até o trabalho, continuo lendo, correndo risco de ser atropelada por carros, motos, bicicletas, monociclos, patinetes, pessoas, gatos, cachorros, elefantes (se eu morasse na Índia), bebês etc. Mas quando o livro é bom e a gente sabe que vai passar 8 horas longe dele, afinal, almoço é hora de socializar, precisamos aproveitar ao máximo.

Chegar no trabalho, dar bom dia para todo mundo que aparece, mas com principal entusiasmo para o porteiro, a recepcionista e as faxineiras. São minhas pessoas preferidas do trabalho. Meus colegas ainda não chegaram, então tenho alguns minutos sozinha e isso  vale ouro no planeta de onde venho.

Almoço, conversas, pessoas legais, pessoas não tão legais, pessoas. Alguém vai sair da empresa, outro alguém começou a namorar, mas outro alguém acabou de terminar um noivado de 8 anos. Enquanto isso, outro alguém está grávida e vai sair de licença maternidade eventualmente, então precisamos de um temporário para o lugar. Futebol, política, religião, novela, jornal, o presidente, o chefe, o moço bonito da padaria da esquina.

Vejam bem, eu gostaria de participar de alguns desses assuntos, de verdade, e não para corrigir e fazer discurso e parecer incrível, só unicamente porque quero participar. Mas  (na maioria das) às vezes não consigo, fico esperando uma brecha para poder entrar e ela não aparece e eu tenho medo de falar algo e todos me olharem como se eu fosse um peixe andando de bicicleta numa esteira de academia. Então eu só como minha comida, olho, escuto, faço sons de quem está prestando atenção, mexo a cabeça e espero.

Não é chato, não é ruim, mas às vezes seria bom conseguir participar.

Parte IV

Vermelho

Acordei sozinha, sem despertador. A situação não exigia mais nenhum despertador, pois não havia trabalho para ir. Ah não, não vou contar a história de uma mulher desempregada e deprimida que tirará lágrimas dos seus olhos.

Essa é uma história sobre o fim do mundo.

Pois é, fim do mundo, apocalipse, o juízo final, a volta de jesus, chame como quiser.

Acordei, olhei para o teto e pensei no que faria aquele dia, como viver seu último dia de vida? Como aproveitar o último dia daquele mundo?

Claro que eu já planejei tudo, até parece que não, afinal, há 9 meses o tal meteoro foi descoberto vindo para o nosso planeta, daí veio o caos, o desespero, a falta de esperança, a negação, a tecnologia e a saída. Sim, a humanidade conseguiu formas de sobreviver em Marte, trabalhar sob pressão realmente faz efeito nos cientistas.

A população começou a ser enviada para lá há 3 meses, há 2 semanas todos foram evacuados. Menos os que preferiram ficar. Quem ficou, além de aceitar a morte certa, se afundou em burocracia, pois a eutanásia e suicídio assistido são legais em alguns países, mas parece que no caso de meteoro e fim do mundo a papelada é correspondente ao tamanho do desastre.

Como vocês perceberam, eu escolhi ficar.

A decisão foi fácil, pois eu já não estava empolgada com a ideia de viver anos antes do tal meteoro aparecer, mas não queria ser a filha que se matou. A neta que não quis mais viver. A namorada que foi fraca demais para superar seus problemas. Problemas estes que estão só na minha cabeça, pois minha vida sempre foi confortável. Casa, comida, família carinhosa, namorado, faculdade de nome, sucesso profissional, gato e cachorro. O pacote.

Mas minha cabeça precisava de mais. Não no sentido material ou físico, mas precisava de coisas que nem meu cérebro sabia o quê. Às vezes uma árvore com o sol batendo do ângulo certo fazia meu dia. Outras vezes, um olhar torto de um desconhecido desabava meu ânimo como um castelo de cartas na frente do ventilador.

Depressão e ansiedade estão comigo desde a adolescência, a terapia desde os vinte e os remédios controlados desde os vinte e quatro.

Então, quando anunciaram o meteoro, eu primeiramente achei triste quanta gente, que não quer morrer, iria morrer. Depois me preocupei com meus pais entrando em depressão junto comigo, seríamos uma família que só vê série embaixo da coberta. A princípio isso parece bom, mas se vocês conhecessem meus pais iam ver como é errado. Eles são felizes e agitados e falantes. Mas, como pessoas felizes, ele entraram no modus operandi pensamento positivo e deu certo, afinal, há 1 mês eles foram para Marte com meu irmão, minha cunhada e minhas duas avós.

O namorado? Bom, a morte iminente o iluminou e ele percebeu que não queria passar a vida comigo. Justo, afinal, eu também não queria passar a vida com ele.

O que mais doeu? Dar tchau para a avó materna e minha mãe. Elas foram as primeiras a aceitar minha decisão de ficar, mas não disfarçavam a dor nos seus rostos. Não deve ser fácil, não queria obrigá-las a viver isso, mas não seria desonesta comigo.

O lado bom é que minha gata ficou. Primeiro ela ia junto, mas na hora de ir embora ela, que sempre era obediente, fugiu da caixinha de viagem e se enfiou num canto da cama que só outro gato conseguiria alcançar e nós não tínhamos tempo de treinar um bicho para isso. Então ela está aqui comigo, na cama, me olhando enquanto eu crio coragem para levantar.

Levantei e passei o dia lendo, comendo e assistindo coisas baixadas no meu computador. Netflix, Youtube, sites para baixar filmes, a internet em si, não existiam, então eu agradeci minha mania de gostar de rever filmes e, por isso, não excluí-los após assistir uma vez.

Quando deu o horário, 15:35, peguei a gata e fui para o parque atrás de casa. Ele estava abandonado há meses, então as plantas estavam altas e quase cobrindo meu banco preferido, mas ainda conseguia sentar lá.

Sentei, olhei para o céu, ele estava vermelho. Não vermelho bonito-como-o-por-do-sol, um vermelho assustador, vivo, nunca visto e que não seria considerado natural há 9 meses. Mas eu gostei, sempre gostei de vermelho, qualquer tom. É a cor da paixão, da força, e ironicamente são sentimentos que faltavam em mim há anos.

Mais ironicamente, esse céu, que deveria me causar pânico e vontade de correr e esconder embaixo da cama até minha mãe me socorrer, me deu paz. O tipo de paz que, talvez, só quem alcançou o nirvana experimentou. A paz de quem sabe que sua dor vai acabar finalmente, a dor que foi carregada por anos, que nunca foi dividida. A dor da vida, que só acaba com um infarte fulminante, um câncer terminal, um ônibus te atropelando ou um meteoro gigantesco acabando com seu planeta.

A paz da morte.