Uma Vida em 4 Minutos IV – El Fin

[Pfvr não leia se não leu as 3 primeiras partes – Tão aqui ó]

 

Ela passou os últimos meses pensando nisso sem parar.

Como ela acabava irritada facilmente, como pequenas coisas – antes ignoradas pois fúteis demais – a fazia virar uma pessoa passiva-agressiva.

Como ela mudou com ele. Como ela mudou. Ele também, mas com uma curva mais aberta, concluiu.

Era egoísmo fazer isso, desse jeito, mas ela sentia que ia explodir. Ela queria poder ser honesta com o seu melhor amigo.

You will remember
When this is blown over
And everything’s all by the way
When I grow older
I will be there at your side
To remind you how I still love you
I still love you

Hurry back, hurry back
Don’t take it away from me
Because you don’t know
What it means to me
Love of my life
Love of my life
Yeah

“Eu não tentei sentar no gato do Vini, mas você vai querer me esfolar” ela disse, sorrindo. Conseguia sorrir porque amenizar as quedas, os resultados dos desastres, era seu dia a dia.

Ele a olhou daquele jeito “não sei se você tá me zoando ou não”, era um olhar com o qual ela se acostumou. Deixou de achar bonitinho, talvez fosse hora de se preocupar.

“Eu vou embora, quero terminar” ela disse, querendo olhar pro chão, mas sabendo que não deveria. Enquanto ele a olhava daquele jeito “não sei se você tá me zoando ou não”.

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Uma Vida em 4 Minutos III

As primeiras notas do piano começaram a tocar e ela, que estava envolvida na bolha política-social-direito-agradar clientes, olhou em volta. Ele não estava perto apesar d’ela jurar que o tinha visto há menos de 2 minutos conversando com o maior cliente do Societário, um senhor, dono de uma cadeia de lavanderias, que o adorava. Provavelmente por ser desajeitado e falar sem pensar. Esse tipo de comportamento pode ser um alívio para nós, que somos obrigados a tratar a rotina com uma polidez que, muitas vezes, é tão real quanto os valores morais pregados em igrejas e ignorados assim que a missa termina.

Ele saiu do banheiro, ouviu as mesmas primeiras notas do piano e foi para o meio do salão, onde a esperaria.

Ela olhou em volta o viu, parado, a encarando. Um sorriso torto no rosto e a palma da mão a convidando para se juntar a ele.

Suas mãos se tocaram assim que seu amigo de décadas começou a cantar

Love of my life, you’ve hurt me
You’ve broken my heart
And now you leave me

“Love of my life?” ela perguntou, mas com um tom de afirmação ao fundo.
“Sim?” ele sempre se perguntava o que aquela cabeça estava pensando. Era impossível adivinhar, apesar de ser o contrário com ele… Ela sempre, sempre sabia.
“Eu escutei tanto essa música durante aquela época” seu tom não era de tristeza, mas de alguém perdida em lembranças “a nossa música”, ela adicionou com um sorrisinho sarcástico.

Love of my life, can’t you see?
Bring it back, bring it back
Don’t take it away from me
Because you don’t know
What it means to me

“Podemos não lembrar da época em que eu era um imbecil?” ele revirou os olhos, ela riu “Meu amor, você ainda é meio imbecil, mas só parte”. “Obrigado por isso” ele riu também, mas lembrando do dia em que ouviu essa música com ela pela primeira vez, uma lembrança muito mais doce.
Eles já se conheciam há meses, mas ela era uma amiga dos amigos, nunca foram próximos até o incidente que os aproximaria ou a faria voar pela janela.

“Lembra do dia que eu sentei no gato do Vini e você ficou brava porque achou que eu tinha feito de propósito?”
“Lembro. A primeira vez que ouvimos Love of my Life juntos, eu queria te esfolar vivo por assustar o gato daquele jeito. Mas quando você pediu desculpas eu percebi que era só mais um tapado e estabanado, não um idiota que gosta de maltratar bichinhos”.

Love of my life, don’t leave me
You’ve stolen my love
And now desert me

Eles dançavam ao som da música em um movimento que, provavelmente, não seria classificado como dança pois ela o abraçava pelo pescoço enquanto ele a segurava pela cintura. Um abraço tão abertado quanto a dor e a felicidade que, ao mesmo tempo, ocupava a bolha criada pelos dois naquele salão.

Uma Vida em 4 Minutos II

“Pronto?” foi o que ela perguntou quando se aproximou daquele rosto corado.
“Eu sempre estou pronto para empresários e banqueiros e gente rica, passar vergonha é meu passatempo preferido.”
“Que bom, porque hoje vai ser um saco, preciso de você para me manter sã e lembrar que há vida além do escritório”

Ele bateu continência e fez um gesto, indicando pra ela ir na frente.

Com as portas do salão abrindo, os dois com as mãos dadas, imaginaram sua cama confortável. Ela, pela 2ª vez em 30 minutos e se perguntava, pela 1001ª vez no dia, por que não inventou uma desculpa e ficou em casa… Por que não fugir desse jantar? Ela era boa o suficiente para não precisar fazer social com os clientes em todas os eventos do escritório.
Mas já era hora de entrar em modo advogada e parar de sofrer por algo que ela havia se comprometido em fazer. E outra… Ela já estava ali, os outros dois sócios a viram.
Ligou o botão “advogada”, fácil de instalar com os anos, e foi conversar com os dois colegas.

Ele acompanhou, fez toda a dança dos cumprimentos e do “como vão as coisas” com o sócio do Contencioso e o de Societário. A santíssima trindade de um dos escritórios mais renomados da cidade, ele ponderava sobre um mundo onde haveria uma só pessoa como os três. E como isso seria assustador.
Cada um deles era relacionado a empresários, banqueiros, políticos, socialites etc, ou seja, os convidados. Levou anos para ele acostumar com esses jantares, ela ascendeu tão rápido, tão nova, que ele se sentiu Ícaro voando muito próximo ao Sol. Tomou um gole de vinho para esquecer aquela lembrança amarga.

Enquanto ele lembrava de seu mini-inferno pessoal, já no passado, ela conversava amenidades com os colegas. Ambos dois homens que ela respeitava, apesar dos conflitos internos de egos entre equipes, os três faziam um bom time. Ela e Societário foram colegas na faculdada, mesma turma. Contencioso era dois anos mais velho, veterano quando eles foram aprovados no curso.
Engraçado chamar uma criança de 20 anos de veterano a essa altura da vida.

E morreu (Eu, no caso) XI

Parte X

2 meses antes.

Qual é o meu problema? Por que não consigo ser feliz? Por que tanta ansiedade e desconforto na minha própria vida? Eu não assinei nada disso no contrato.

Ir dormir virou mais uma parte deprimente do meu dia, pois eu sei que não vou conseguir ter um sono decente e ainda vou acordar super cedo e ter um dia longo. Longo porque eu não tenho nada pra fazer o dia todo, longo porque passo o dia ansiosa e desesperada por algo que não sei o que é.

Meus pulsos já não aguentam mais tantas cicatrizes. E eu já não aguento mais tantos olhares sobre eles quando estou no ônibus ou no trem.

Meu limite parece me esperar a cada esquina, a cada 5 minutos que levam 20 pra passar. Quando que eu deixei de ser a pessoa feliz e com vontade de viver para ser esse fantasma que mal reflete o que um dia já fui?

Não sei se os remédios ajudam ou atrapalham, não sei o que fazer ou o que pensar pois não sei se sou eu, a depressão ou os remédios pensando. Quem toma as decisões? Quem está no comando?

Eu não sei.

Sinto que não sou eu, eu não sou assim, eu não vivo assim. Mas se eu não faço nada, se eu só me deixo afundar, a culpa é tão minha quanto da doença e dos comprimidos.

Sinto saudade de sentir prazer. De sentir alegria. De esperar por algo, qualquer coisa.

Na verdade nem tudo está perdido, tem alguém que me faz pensar no “e se”, que me faz esperar pelo fim de semana, que é quando poderemos nos ver. Tem. Mas eu sou muita coisa pra ele lidar, muita coisa pra qualquer um lidar.

Eu mesma não sei lidar.

Como acontece II

Parte I

Uma briga sobre um detalhe idiota, o amigo dele faz um comentário que ela não gostou e a discussão, mais uma vez vira algo gigante, os faz terminar.

São meses de vazio, desesperança e desilusão. Onde encontrarei isso de novo? Não existe.

Pessoas vem e vão, semi-relacionamentos ou até relacionamentos sérios, mas nada dura. Nada. Pois sabem que um pertence ao outro e vice versa. No entanto as tentativas são  válidas,  pois acham que juntos nunca darão certo. Não interessa quanto amor sintam, só amor não é o suficiente.

Depois de meses tentando uma amizade falida, o amor fala mais alto e eles decidem estar juntos de novo. Magoam quem estava no meio, quem não deveria ser machucado por algo assim, pois desde o começo a ideia não era essa, não era volta, não era tentar de novo. Ambos se sentem mal, não gostam de machucar pessoas boas por quem eles tem tanto carinho. Isso machuca também.

Só que a vida pode ser óbvia às vezes. Ela pode esfregar na sua cara que, sim, você pode viver e ficar bem sem a outra pessoa. Você pode ser completo sozinho ou com outro que não te complete do mesmo jeito. Só que não é igual, não é o mesmo preenchimento. Sempre falta um pedaço. É como tentar montar um quebra-cabeças e duas peças quase se encaixam completamente, mas falta 0.01% e isso incomoda. Esse 0.01% sempre estará ali e sempre será um grande e se?

Mas a vida também os ensinou que não adianta insistir no mesmo erro.

Que todos temos limites e precisamos ser egoístas algumas vezes, pensar em nós mesmos e nos contentar com o que nos deixa bem. Pode não ser maravilhoso como antes, mas é bom, é calmo, é fácil e confortável. Por que não aceitar? Por que trocar isso pela turbulência e incerteza?

Não, eles não farão isso. Eles não precisam. Eles não querem.

E morreu (eu, no caso) VI

Parte V

Eu gosto de relembrar essas coisas. Amigos, namorado, dias legais, me faz sentir que minha vida foi bem vivida e aproveitada. É estranho uma pessoa suicida dizer isso?

De qualquer forma, agora o velório está mais quieto, minha mãe foi dormir em casa um pouco, então meu pai e irmão ficaram, mas meu irmão precisou dormir no carro para não cair dormindo na minha cara (seria uma baita cena). Então sobrou meu pai, um tio do Paraná que eu vi 1 (uma) vez na vida e eu. Talvez “eu” conte por 2, então até que era uma quantidade respeitável de seres por ali.

Eu, mesmo fantasma ou espírito ou seja lá o que eu virei, conto. Posso não ser um ser vivo, mas eu sou um ser… Sei lá do quê. Segundo o materialismo, nós existimos enquanto sentimos, física e emocionalmente, então eu… Sou. Se você discorda, que vá discutir com o Gottfried Leibniz.

Talvez eu tenha moldado um pouco a teoria a meu favor? Sim, mas como eu morri e vocês não, meu voto vale mais. Obrigada.

E enquanto eu tento relembrar mais sobre materialismo, sei que até o Marx enfiou algo sobre isso no Comunismo, PLAU surge uma pessoa de cabelo longo, calça jeans, camiseta azul clara, chinelo e expressão de quem está fazendo o que não deveria. Um cara. Um cara esquisito. Um cara esquisito que surgiu do nada e que estava olhando diretamente para mim (“mim” leia-se: quem está contando a história, não quem está deitada na caixa de madeira com algodão no nariz, na garganta e em todos os orifícios possíveis [que fase]).

– Olá – disse o jovem esquisitão.

– … Oi? Por que você tá falando comigo e não com meu corpo no caixão? Você é uma daquelas pessoas que fazem projeção astral e ainda enxergam espíritos? Ou eu estou vendo coisas? Tem como um espírito, ou o que quer que eu seja, ser esquizofrênico pós-morte? Porque em vida eu fui muita coisa, mas não fui esquizofrênica. Eu acho. E se eu fui? Será que eu imaginei tudo que aconteceu? Será que eu tô imaginando tudo isso enquanto estou internada em um hospital psiquiátrico? MEU DEUS ALGUÉM ME AJUDA EU NÃO POSSO TER FICADO MALUC – fui interrompida no meio do meu surto psicótico.

– Primeiro: eu posso te ver e falar com você porque sim. Ainda não é hora de explicar; segundo: por favor, não me ofenda dizendo que sou uma daquelas pessoas que ingerem quantidades exageradas de psicotrópicos e saem dizendo que viveram uma “projeção astral”; – sim, ele fez aspas com as mãos – e terceiro: como você consegue falar tanta asneira e tão rápido? Acredito que não seja esquizofrênica, mas talvez tenha acabado de ter um quase ataque de pânico misturado com crise psicótica. Ainda bem que não temos facas por perto – E riu da própria piada.

Ele falava sorrindo o tempo inteiro, um sorriso de canto, como se ele estivesse sendo sarcástico o tempo inteiro, e mesmo assim a sua postura e seu olhar criavam ares de alguém importante. Como se eu estivesse perante um aristocrata do mundo dos mortos.

Ao mesmo tempo que fiz minha análise do indivíduo, tentei pensar numa resposta:

– Não dá para matar quem já morreu.

– Oi?

– Você falou “ainda bem que não temos facas por perto” como se, no meu surto, eu pudesse te matar. Eu já morri, você surgiu do nada, então acredito que também já tenha morrido, ou seja, não tem como te matar novamente. – concluí com um tom de “eu posso ser trouxa, mas não sou só isso, colega”.

– Ah, isso será muito divertido. – ele respondeu com o mesmo sorrido sarcástico e PLAU sumiu como apareceu: do nada.

Definitivamente tem muitas novidades nessa pós-vida. Quando pensava na morte enquanto viva, nunca imaginei que seria tão movimentado, que existisse isso de aparecer e desaparecer e que um cara, que chama drogas de “psicotrópicos”, viria no meu velório para me chamar de maluca.

O que será que vai acontecer quando esse velório infinito acabar? Eu quero ver o cemitério, ver o Assis (espero que não tenham esquecido dele lá na Parte I) e descobrir como é um pós-vida sem gente viva chorando no meu corpo morto.

01.01.2016

Projeto de publicação de textos enviados para nós. Aqui vai o primeiro:

(Originalmente escrita em 01/01/2016)

Parecia uma peregrinação. Uma romaria. Para alguns, talvez até mesmo uma cruzada. Um sem-número dos mais variados tipos de pessoas seguia em fila, no escuro, como se tal movimentação fosse uma espécie de sina. Apesar da falta de iluminação, todos ali seguiam o mesmo trajeto que a humanidade faz desde que se estruturou: o caminho do mar. Logo chega a areia. Ainda úmida pela maré do fim da tarde, ainda quente pelo calor que a umidade retém. Apesar da escuridão, é possível distinguir pequenos grupos de pessoas. A maioria é de famílias e amigos próximos, mas há sempre o dos amigos, dos conhecidos e até os dos desconhecidos. Um pouco de tudo, em detrimento de todas as diferenças. As semelhanças, por mais triviais que sejam, são o que chamam a atenção: as garrafas de bebidas — baratas ou caras, nacionais ou importadas: a universalidade do ébrio é inquestionável -, velas acesas e orações sendo murmuradas. Um pouco de aflição mas, principalmente, sorrisos. Dos mais diferentes tipos e intensidades, mas todos carregados do mesmo sentimento. O fim do ano se aproxima. Estamos nos últimos momentos de 2015. Ao longo da praia já são visíveis explosões dos fogos de artifício. O tempo que o som leva pra chegar de lá até o presente local é curto, mas já é o suficiente para fazer com que os mais atentos comecem o estouro de suas bebidas gaseificadas e suas marchas em direção ao infinito onde o céu encontra o mar. O ponto onde os deuses se encontram. Onde há paz. Onde nada chega, mas tudo almeja. O estouro dos fogos faz-se generalizado. Já é ano novo em toda a praia, e não apenas naquele ponto longínqüo. Não era uma corrida, tampouco um só evento, mas foi dada a largada. Independentemente das querelas, angústias e sofrimentos, a costa enche-se de abraços, lágrimas de felicidade, beijos e indistintas declarações de amor. O céu, apesar de claro e aberto, está sem lua, dando à escuridão o direito de reinar. Mas nem mesmo o horizonte permaneceu incólume à contínua linha de frente composta de branco que adentra o atlântico. Uma linha que avança em cada ponto a seu próprio modo, mas continuamente, até onde a vista alcança. Todos olham fixamente para frente. Para o passado. Para o futuro. Para o mais distante do mar. Alguns pulam ondas, alguns contemplam o momento. Alguns simplesmente entram sem muita cerimônia. Mas a constante é o respeito, por mais que dissimulado. É quando colocamos de lado todas as — literalmente — histórias de pescador acerca da temerosidade que o mar nos desperta. Neste dia acolhemos apenas as que envolvem a magnanimidade e a beleza do “azul” em “planeta azul”. O mar é imponente. Ele castiga. Destrói. Mas também afaga. Naufraga embarcações mas também lava almas. Basta saber ter respeito. E, neste dia, almas foram lavadas. Dado fim às formalidades ritualísticas, resta a muda contemplação de tudo o que acontece simultaneamente. Seja a surpresa de um céu limpo, seja o imponente rugido do mar, o sentimento de paz reinante ou o show de fogos. Show de fogos, este, a única fonte de iluminação. Entre zunidos ligeiros, ribombos grosseiros e explosões amorfas, os mais diversos brilhos, cores e sentimentos iluminam por alguns segundos os rostos aliviados e tranqüilos da platéia de branco. E, na intermitência de luzes, sons e olhares, um mudo, silencioso e sincero sorriso resplandece no rosto dos dois, num inefável e imprevisível encontro dos olhos. Um igualmente mudo sentimento do amor ressoa em suas mentes enquanto as faíscas no céu brilham na profundidade de seus olhos. No obscuro de seus corações, ao menos hoje, há um brilho que ilumina todas as cavidades cardíacas, até mesmo as há tempos abandonadas.

Por: Gabriel Teixeira https://medium.com/@gabrieltxg

E morreu (eu, no caso) V

Parte IV

A noite.

3 anos antes.

– Vamos fazer um drinking game do Tinder hoje à noite? Lá em casa?

– Vamos.

Uma noite, 24 latas de cerveja, 3 pessoas, 3 celulares, o mesmo aplicativo aberto em todos eles.

– Mais uma foto de moça com golfinho!

– Mais uma foto de um cara sem camisa!

– Todos bebem!

Na verdade, esse drinking game é meio falho, afinal, nós beberemos a cerveja com ou sem jogo, mas pelo menos nós conseguimos uma desculpa para beber tudo. Só a juventude já não serve mais como justificativa. Passar dos 18 é ruim, sociedade, não acredite no que vendem nos filmes.

Antes do jogo, das cervejas e tirar sarro de fotos esquisitas, policiais posando ao lado de suas ARMAS (sério, gente? Alguém dá um coração para isso?) eu conheci um jovem. Ele é divertido, gosta de séries e filmes e piadas sem graça. E é bonito. Durante o jogo, eu converso com ele, bebo as cervejas e tiro sarro de fotos esquisitas.

Chega uma mensagem “Festa em casa, venham os 3”. Vamos.

Teoricamente era um dia normal, uma festa normal, com meus amigos normais.

Conversas normais, bebidas normais. Eventualmente, não lembro o que aconteceu e não aceito julgamentos pois todo mundo já fez isso alguma vez na vida, ok? Ok. Beber cerveja antes e depois e não comer direito dá nessas coisas. Lembrem disso.

E nesse meio tempo eu pedi cerveja 4 vezes pelo delivery, inventei um sinal com as mãos que virou piada interna no grupo de amigos e falei para o menino divertido, que gostava de séries e filmes e piadas sem graça que eu queria uma injeção na testa.

E dormi. No sofá. Com a bunda para cima e usando minha cabeça como apoio. Definitivamente não foi um dos meus melhores momentos. Obviamente tiraram fotos que foram parar em redes sociais e mensageiros instantâneos. Amizade é uma coisa maravilhosa.

Acordei. Dor. Inferno. Vontade de morrer. Por que beber tanto? Nunca mais vou beber. Minha cabeça vai explodir. A vida dói. Ok, preciso levantar.

Eu e um dos participantes do drinking game pré-festa vamos para a Av. Paulista, comer para tentar sobreviver à maior ressaca da história da minha vida (spoiler: não foi a maior).

Mesmo com a comida, a vontade de dormir até o apocalipse continou, então veio a decisão: cada um para sua respectiva casa, respectiva cama e esperar pela volta da respectiva vontade de viver.

No caminho, o Tinder apita com um “Olar ;)”. Minha reação é “meu deus por que um ;)? Pra quê? Qual a necessidade disso? Que tristeza… Mas ele é bonito… Parece gostar do que eu gosto… Ok, vamos lá, se eu dou chance de 2 episódios com séries, vou dar mais de uma palavra com emoticon pra ele” e mando “Olá. Bão?”.

E começou.

Parte VI

Não tem título

Os dois atravessam a noite sem se aprofundar em nenhum dos casos que os assola.

Um está arrasado pelo fim do que parecia ser infinito e, provavelmente, infinito será apesar das interrupções.

Outro está preocupado com a frieza que se aproxima do relacionamento. Não sabe se é uma frieza sazonal ou perene.

De qualquer forma, os dois bebem, pensam e falam sobrem o que quer que seja, menos o que mais ocupa suas respectivas mentes.

A vida, as pessoas, o pessimismo, a morte, a perda e suas consequências, o mercado, o jornal, a rotina, a vida. Mas não a própria vida, nada diretamente ligando a eles.

A vida, essa coisa que parece tão ínfima e tão infinita ao mesmo tempo. Temos a sensação de que viveremos para sempre, mas assistimos aos idosos irem e nos perguntamos até qual ano aguentaremos. Como seria a última etapa do que consideram o ciclo da vida?

Você quer viver muito? Pouco? O que acha de tudo isso? Será que sua visão sobre isso realmente conta?

–  Ah, está muito velha para opinar; ou

– Você é nova(o) demais para opinar.

E a vontade da pessoa vai para exatamente de onde veio: lugar algum. Pois ninguém sabe de onde veio ou para onde vai cada um. Esse é um enigma que, apesar de sua mãe acertar quando vai chover ou não, ninguém pode te orientar.

E morreu (eu, no caso) III

Parte II

A rotina.

2 anos antes.

Acordar. Acordar, enrolar na cama, pensar se não vale a pena inventar uma desculpa e chegar mais tarde, olhar as mensagens no celular, responder algumas, ignorar outras e perceber que se passaram 15 minutos.

É por isso que eu gosto de acordar 1 hora antes de sair para trabalhar. Sim, odeio acordar rápido, sair correndo, escovar os dentes enquanto coloco o sapato e visto a calça. Não, não é para mim. Sim, amo dormir, dormir e comer, mas também gosto de ter meu tempo para tudo. Portanto, sim, eu acordo 1 hora antes de sair para o trabalho. Ou você aceita ou pode me processar. Na verdade, como eu morri, não pode não. Mas agora vou contar a história ambientando 2014, então talvez você possa sim me processar do presente no passado. Algum físico quântico aí pode me ajudar nessa questão?

Enfim, acordei, levantei, coloquei a roupa, escovei os dentes e sentei no sofá com a bolsa do lado para poder assistir um pouco de TV e enrolar antes de sair. Eu gosto dessa rotina. E eu gosto de ver TV antes de trabalhar, senão eu fico totalmente por fora de tudo que acontece e pareço criança no meio dos adultos nas conversas do almoço na firma.

Eu sou muito distraída, avoada, indiferente (mas não do jeito “too cool for school, eu não ligo para vocês, mortais” e sim do jeito “vivo tanto no mundo da Lua que o se o Silvio Santos soltar um aviãozinho na minha cabeça, não vou perceber) e isso me fez parecer distante. Na verdade, eu vejo todo mundo, observo, ouço, só não gosto de fazer barulho, ser o centro das atenções, falar. Falar está, definitivamente, em um lugar muito baixo na minha lista de prioridades, próximo de comer bacalhau, ler Paulo Coelho e dividir minha comida. Mas ver pessoas, ver como elas são, como reagem às coisas, às outras pessoas, é meu passatempo preferido e meu jeito de sobreviver no meio de gente. Porque ficar sozinha é outro passatempo preferido.

Não que eu não goste de gente, mas é difícil. É cansativo. É como se eu entendesse tão bem o que todos sentem, que acabo sentindo, então viro um catalisador de sentimentos. E se você é uma pessoa que convive em sociedade, com certeza encontra um número considerável de pessoas por dia e bom, acho que não preciso explicar além disso.

De qualquer forma, no ônibus para o trabalho eu leio. Me obrigo a ler porque o caminho para o trabalho ou faculdade sempre foi o momento da leitura e, mesmo após a ansiedade e os celulares com internet rápida demais, jogos, redes sociais, mensageiros instantâneos e vídeos de gatinhos, minha leitura ficou escassa. E eu odeio isso. Gosto de ler. Sabe a Rory de Gilmore Girls? Sou tipo ela, mas sem a pele perfeita, os olhos azuis, os avós ricos e Yale. Na verdade, nossa única semelhança é o amor pelos livros. Talvez ela não tenha sido a melhor comparação.

Desço do ônibus e preciso andar uns 10 minutos até o trabalho, continuo lendo, correndo risco de ser atropelada por carros, motos, bicicletas, monociclos, patinetes, pessoas, gatos, cachorros, elefantes (se eu morasse na Índia), bebês etc. Mas quando o livro é bom e a gente sabe que vai passar 8 horas longe dele, afinal, almoço é hora de socializar, precisamos aproveitar ao máximo.

Chegar no trabalho, dar bom dia para todo mundo que aparece, mas com principal entusiasmo para o porteiro, a recepcionista e as faxineiras. São minhas pessoas preferidas do trabalho. Meus colegas ainda não chegaram, então tenho alguns minutos sozinha e isso  vale ouro no planeta de onde venho.

Almoço, conversas, pessoas legais, pessoas não tão legais, pessoas. Alguém vai sair da empresa, outro alguém começou a namorar, mas outro alguém acabou de terminar um noivado de 8 anos. Enquanto isso, outro alguém está grávida e vai sair de licença maternidade eventualmente, então precisamos de um temporário para o lugar. Futebol, política, religião, novela, jornal, o presidente, o chefe, o moço bonito da padaria da esquina.

Vejam bem, eu gostaria de participar de alguns desses assuntos, de verdade, e não para corrigir e fazer discurso e parecer incrível, só unicamente porque quero participar. Mas  (na maioria das) às vezes não consigo, fico esperando uma brecha para poder entrar e ela não aparece e eu tenho medo de falar algo e todos me olharem como se eu fosse um peixe andando de bicicleta numa esteira de academia. Então eu só como minha comida, olho, escuto, faço sons de quem está prestando atenção, mexo a cabeça e espero.

Não é chato, não é ruim, mas às vezes seria bom conseguir participar.

Parte IV