Uma Vida em 4 Minutos II

“Pronto?” foi o que ela perguntou quando se aproximou daquele rosto corado.
“Eu sempre estou pronto para empresários e banqueiros e gente rica, passar vergonha é meu passatempo preferido.”
“Que bom, porque hoje vai ser um saco, preciso de você para me manter sã e lembrar que há vida além do escritório”

Ele bateu continência e fez um gesto, indicando pra ela ir na frente.

Com as portas do salão abrindo, os dois com as mãos dadas, imaginaram sua cama confortável. Ela, pela 2ª vez em 30 minutos e se perguntava, pela 1001ª vez no dia, por que não inventou uma desculpa e ficou em casa… Por que não fugir desse jantar? Ela era boa o suficiente para não precisar fazer social com os clientes em todas os eventos do escritório.
Mas já era hora de entrar em modo advogada e parar de sofrer por algo que ela havia se comprometido em fazer. E outra… Ela já estava ali, os outros dois sócios a viram.
Ligou o botão “advogada”, fácil de instalar com os anos, e foi conversar com os dois colegas.

Ele acompanhou, fez toda a dança dos cumprimentos e do “como vão as coisas” com o sócio do Contencioso e o de Societário. A santíssima trindade de um dos escritórios mais renomados da cidade, ele ponderava sobre um mundo onde haveria uma só pessoa como os três. E como isso seria assustador.
Cada um deles era relacionado a empresários, banqueiros, políticos, socialites etc, ou seja, os convidados. Levou anos para ele acostumar com esses jantares, ela ascendeu tão rápido, tão nova, que ele se sentiu Ícaro voando muito próximo ao Sol. Tomou um gole de vinho para esquecer aquela lembrança amarga.

Enquanto ele lembrava de seu mini-inferno pessoal, já no passado, ela conversava amenidades com os colegas. Ambos dois homens que ela respeitava, apesar dos conflitos internos de egos entre equipes, os três faziam um bom time. Ela e Societário foram colegas na faculdada, mesma turma. Contencioso era dois anos mais velho, veterano quando eles foram aprovados no curso.
Engraçado chamar uma criança de 20 anos de veterano a essa altura da vida.

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Vivendo com Ansiedade III

O coração parece estar a 180bpm, mas não está nem a 80.
A cabeça não para de pensar em todas, mas todas as coisas ruins que aconteceram, estão acontecendo e que acontecerão.
E, no fundo, tem a depressão, como uma névoa que toma minha cabeça e me deixa dormente.

Me sinto quase a personificação de um paradoxo quando isso acontece: por um lado, a sensação de que meu coração vai explodir e, por outro, parece que a gravidade é 10 vezes mais forte só em volta do meu corpo, e eu não consigo me mexer.

É como se eu fosse segurar um espirro e isso desencadeasse uma combustão interna, sem sinais externos.

É cansativo, é desesperador. É um buraco escuro, úmido, que não é confortável, mas drena as energias e eu penso “preciso sair daqui”.

Falar ou pensar é tão mais fácil do que fazer…

E tudo isso leva à culpa que eu sinto, como se eu fosse fraca e preguiçosa.

Lembro do meu Seu Armando dizendo que tudo isso é “desculpinha esfarrapada”. Quem nunca teve um desses, não é mesmo?

Ou vários.