E morreu (eu, no caso) V

Parte IV

A noite.

3 anos antes.

– Vamos fazer um drinking game do Tinder hoje à noite? Lá em casa?

– Vamos.

Uma noite, 24 latas de cerveja, 3 pessoas, 3 celulares, o mesmo aplicativo aberto em todos eles.

– Mais uma foto de moça com golfinho!

– Mais uma foto de um cara sem camisa!

– Todos bebem!

Na verdade, esse drinking game é meio falho, afinal, nós beberemos a cerveja com ou sem jogo, mas pelo menos nós conseguimos uma desculpa para beber tudo. Só a juventude já não serve mais como justificativa. Passar dos 18 é ruim, sociedade, não acredite no que vendem nos filmes.

Antes do jogo, das cervejas e tirar sarro de fotos esquisitas, policiais posando ao lado de suas ARMAS (sério, gente? Alguém dá um coração para isso?) eu conheci um jovem. Ele é divertido, gosta de séries e filmes e piadas sem graça. E é bonito. Durante o jogo, eu converso com ele, bebo as cervejas e tiro sarro de fotos esquisitas.

Chega uma mensagem “Festa em casa, venham os 3”. Vamos.

Teoricamente era um dia normal, uma festa normal, com meus amigos normais.

Conversas normais, bebidas normais. Eventualmente, não lembro o que aconteceu e não aceito julgamentos pois todo mundo já fez isso alguma vez na vida, ok? Ok. Beber cerveja antes e depois e não comer direito dá nessas coisas. Lembrem disso.

E nesse meio tempo eu pedi cerveja 4 vezes pelo delivery, inventei um sinal com as mãos que virou piada interna no grupo de amigos e falei para o menino divertido, que gostava de séries e filmes e piadas sem graça que eu queria uma injeção na testa.

E dormi. No sofá. Com a bunda para cima e usando minha cabeça como apoio. Definitivamente não foi um dos meus melhores momentos. Obviamente tiraram fotos que foram parar em redes sociais e mensageiros instantâneos. Amizade é uma coisa maravilhosa.

Acordei. Dor. Inferno. Vontade de morrer. Por que beber tanto? Nunca mais vou beber. Minha cabeça vai explodir. A vida dói. Ok, preciso levantar.

Eu e um dos participantes do drinking game pré-festa vamos para a Av. Paulista, comer para tentar sobreviver à maior ressaca da história da minha vida (spoiler: não foi a maior).

Mesmo com a comida, a vontade de dormir até o apocalipse continou, então veio a decisão: cada um para sua respectiva casa, respectiva cama e esperar pela volta da respectiva vontade de viver.

No caminho, o Tinder apita com um “Olar ;)”. Minha reação é “meu deus por que um ;)? Pra quê? Qual a necessidade disso? Que tristeza… Mas ele é bonito… Parece gostar do que eu gosto… Ok, vamos lá, se eu dou chance de 2 episódios com séries, vou dar mais de uma palavra com emoticon pra ele” e mando “Olá. Bão?”.

E começou.

Parte VI

Vermelho

Acordei sozinha, sem despertador. A situação não exigia mais nenhum despertador, pois não havia trabalho para ir. Ah não, não vou contar a história de uma mulher desempregada e deprimida que tirará lágrimas dos seus olhos.

Essa é uma história sobre o fim do mundo.

Pois é, fim do mundo, apocalipse, o juízo final, a volta de jesus, chame como quiser.

Acordei, olhei para o teto e pensei no que faria aquele dia, como viver seu último dia de vida? Como aproveitar o último dia daquele mundo?

Claro que eu já planejei tudo, até parece que não, afinal, há 9 meses o tal meteoro foi descoberto vindo para o nosso planeta, daí veio o caos, o desespero, a falta de esperança, a negação, a tecnologia e a saída. Sim, a humanidade conseguiu formas de sobreviver em Marte, trabalhar sob pressão realmente faz efeito nos cientistas.

A população começou a ser enviada para lá há 3 meses, há 2 semanas todos foram evacuados. Menos os que preferiram ficar. Quem ficou, além de aceitar a morte certa, se afundou em burocracia, pois a eutanásia e suicídio assistido são legais em alguns países, mas parece que no caso de meteoro e fim do mundo a papelada é correspondente ao tamanho do desastre.

Como vocês perceberam, eu escolhi ficar.

A decisão foi fácil, pois eu já não estava empolgada com a ideia de viver anos antes do tal meteoro aparecer, mas não queria ser a filha que se matou. A neta que não quis mais viver. A namorada que foi fraca demais para superar seus problemas. Problemas estes que estão só na minha cabeça, pois minha vida sempre foi confortável. Casa, comida, família carinhosa, namorado, faculdade de nome, sucesso profissional, gato e cachorro. O pacote.

Mas minha cabeça precisava de mais. Não no sentido material ou físico, mas precisava de coisas que nem meu cérebro sabia o quê. Às vezes uma árvore com o sol batendo do ângulo certo fazia meu dia. Outras vezes, um olhar torto de um desconhecido desabava meu ânimo como um castelo de cartas na frente do ventilador.

Depressão e ansiedade estão comigo desde a adolescência, a terapia desde os vinte e os remédios controlados desde os vinte e quatro.

Então, quando anunciaram o meteoro, eu primeiramente achei triste quanta gente, que não quer morrer, iria morrer. Depois me preocupei com meus pais entrando em depressão junto comigo, seríamos uma família que só vê série embaixo da coberta. A princípio isso parece bom, mas se vocês conhecessem meus pais iam ver como é errado. Eles são felizes e agitados e falantes. Mas, como pessoas felizes, ele entraram no modus operandi pensamento positivo e deu certo, afinal, há 1 mês eles foram para Marte com meu irmão, minha cunhada e minhas duas avós.

O namorado? Bom, a morte iminente o iluminou e ele percebeu que não queria passar a vida comigo. Justo, afinal, eu também não queria passar a vida com ele.

O que mais doeu? Dar tchau para a avó materna e minha mãe. Elas foram as primeiras a aceitar minha decisão de ficar, mas não disfarçavam a dor nos seus rostos. Não deve ser fácil, não queria obrigá-las a viver isso, mas não seria desonesta comigo.

O lado bom é que minha gata ficou. Primeiro ela ia junto, mas na hora de ir embora ela, que sempre era obediente, fugiu da caixinha de viagem e se enfiou num canto da cama que só outro gato conseguiria alcançar e nós não tínhamos tempo de treinar um bicho para isso. Então ela está aqui comigo, na cama, me olhando enquanto eu crio coragem para levantar.

Levantei e passei o dia lendo, comendo e assistindo coisas baixadas no meu computador. Netflix, Youtube, sites para baixar filmes, a internet em si, não existiam, então eu agradeci minha mania de gostar de rever filmes e, por isso, não excluí-los após assistir uma vez.

Quando deu o horário, 15:35, peguei a gata e fui para o parque atrás de casa. Ele estava abandonado há meses, então as plantas estavam altas e quase cobrindo meu banco preferido, mas ainda conseguia sentar lá.

Sentei, olhei para o céu, ele estava vermelho. Não vermelho bonito-como-o-por-do-sol, um vermelho assustador, vivo, nunca visto e que não seria considerado natural há 9 meses. Mas eu gostei, sempre gostei de vermelho, qualquer tom. É a cor da paixão, da força, e ironicamente são sentimentos que faltavam em mim há anos.

Mais ironicamente, esse céu, que deveria me causar pânico e vontade de correr e esconder embaixo da cama até minha mãe me socorrer, me deu paz. O tipo de paz que, talvez, só quem alcançou o nirvana experimentou. A paz de quem sabe que sua dor vai acabar finalmente, a dor que foi carregada por anos, que nunca foi dividida. A dor da vida, que só acaba com um infarte fulminante, um câncer terminal, um ônibus te atropelando ou um meteoro gigantesco acabando com seu planeta.

A paz da morte.