Uma Vida em 4 Minutos IV – El Fin

[Pfvr não leia se não leu as 3 primeiras partes – Tão aqui ó]

 

Ela passou os últimos meses pensando nisso sem parar.

Como ela acabava irritada facilmente, como pequenas coisas – antes ignoradas pois fúteis demais – a fazia virar uma pessoa passiva-agressiva.

Como ela mudou com ele. Como ela mudou. Ele também, mas com uma curva mais aberta, concluiu.

Era egoísmo fazer isso, desse jeito, mas ela sentia que ia explodir. Ela queria poder ser honesta com o seu melhor amigo.

You will remember
When this is blown over
And everything’s all by the way
When I grow older
I will be there at your side
To remind you how I still love you
I still love you

Hurry back, hurry back
Don’t take it away from me
Because you don’t know
What it means to me
Love of my life
Love of my life
Yeah

“Eu não tentei sentar no gato do Vini, mas você vai querer me esfolar” ela disse, sorrindo. Conseguia sorrir porque amenizar as quedas, os resultados dos desastres, era seu dia a dia.

Ele a olhou daquele jeito “não sei se você tá me zoando ou não”, era um olhar com o qual ela se acostumou. Deixou de achar bonitinho, talvez fosse hora de se preocupar.

“Eu vou embora, quero terminar” ela disse, querendo olhar pro chão, mas sabendo que não deveria. Enquanto ele a olhava daquele jeito “não sei se você tá me zoando ou não”.

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Uma Vida em 4 Minutos III

As primeiras notas do piano começaram a tocar e ela, que estava envolvida na bolha política-social-direito-agradar clientes, olhou em volta. Ele não estava perto apesar d’ela jurar que o tinha visto há menos de 2 minutos conversando com o maior cliente do Societário, um senhor, dono de uma cadeia de lavanderias, que o adorava. Provavelmente por ser desajeitado e falar sem pensar. Esse tipo de comportamento pode ser um alívio para nós, que somos obrigados a tratar a rotina com uma polidez que, muitas vezes, é tão real quanto os valores morais pregados em igrejas e ignorados assim que a missa termina.

Ele saiu do banheiro, ouviu as mesmas primeiras notas do piano e foi para o meio do salão, onde a esperaria.

Ela olhou em volta o viu, parado, a encarando. Um sorriso torto no rosto e a palma da mão a convidando para se juntar a ele.

Suas mãos se tocaram assim que seu amigo de décadas começou a cantar

Love of my life, you’ve hurt me
You’ve broken my heart
And now you leave me

“Love of my life?” ela perguntou, mas com um tom de afirmação ao fundo.
“Sim?” ele sempre se perguntava o que aquela cabeça estava pensando. Era impossível adivinhar, apesar de ser o contrário com ele… Ela sempre, sempre sabia.
“Eu escutei tanto essa música durante aquela época” seu tom não era de tristeza, mas de alguém perdida em lembranças “a nossa música”, ela adicionou com um sorrisinho sarcástico.

Love of my life, can’t you see?
Bring it back, bring it back
Don’t take it away from me
Because you don’t know
What it means to me

“Podemos não lembrar da época em que eu era um imbecil?” ele revirou os olhos, ela riu “Meu amor, você ainda é meio imbecil, mas só parte”. “Obrigado por isso” ele riu também, mas lembrando do dia em que ouviu essa música com ela pela primeira vez, uma lembrança muito mais doce.
Eles já se conheciam há meses, mas ela era uma amiga dos amigos, nunca foram próximos até o incidente que os aproximaria ou a faria voar pela janela.

“Lembra do dia que eu sentei no gato do Vini e você ficou brava porque achou que eu tinha feito de propósito?”
“Lembro. A primeira vez que ouvimos Love of my Life juntos, eu queria te esfolar vivo por assustar o gato daquele jeito. Mas quando você pediu desculpas eu percebi que era só mais um tapado e estabanado, não um idiota que gosta de maltratar bichinhos”.

Love of my life, don’t leave me
You’ve stolen my love
And now desert me

Eles dançavam ao som da música em um movimento que, provavelmente, não seria classificado como dança pois ela o abraçava pelo pescoço enquanto ele a segurava pela cintura. Um abraço tão abertado quanto a dor e a felicidade que, ao mesmo tempo, ocupava a bolha criada pelos dois naquele salão.

Uma vida em 4 minutos I

Ela dirigia e pensava no escritório: quantos contratos para cuidar, quanto tempo que faltava e quantas broncas dar por ter uma equipe preguiçosa. Também pensava na sua cama, em casa, tão confortável e convidativa, totalmente o contrário do vestido de gala, salto e cinta que precisaria usar durante aquela noite.

Ele ia no banco do passageiro, inquieto, mexendo no rádio, procurando uma estação. Tentando se distrair do fato de que hoje era o prazo para receber uma posição sobre seu livro. O livro que ele dedicou 8 meses, sem trabalhar fora de casa, o que causou algumas discussões com ela por semanas, mas, eventualmente, se acertaram. Eles sempre se acertam.
A preocupação com o estresse dela, sobre o evento para o qual iam, ficava no canto do seu cérebro como uma criancinha cutucando uma amoeba; ele sabe quão boa ela é com contratos, cláusulas, negociações, e quanto odeia essas formalidades que a profissão traz junto. Como, por exemplo, jantares absurdamente caros, com clientes absurdamente ricos, para ter conversas absurdamente inúteis.

Em algum momento, rateando pelo rádio, após desistir de ouvir qualquer coisa do seus celulares, pois esse era um daqueles dias, ele parou rapidamente depois de ouvir as últimas notas no piano, aquela doce e deveras atrevida voz

Love of my life
Love of my life
Yeah.

Os dois se encararam por 2 segundos, dividiram um sorriso que era somente deles, ninguém mais no mundo entenderia o porquê de 3 versos de uma música os fariam expressar tamanho segredo com olhares que seriam tanto de ternura quanto de crianças levadas.

Porém, ao fim das notas, o momento de intimidade quase mágico, delicado como a luz de um vaga-lume, se foi e ambos voltaram às preocupações daquela noite.

Ela estava com a maquiagem e o cabelo feitos, precisaria entrar no hotel para se vestir antes de ir para o salão, colocar a máscara de sócia do escritório e ser amável com todas aquelas pessoas que, há 10 anos, ela nunca imaginou que chamaria de “clientes”.

Ele, como plus one, vestia seu terno-de-sempre para ocasiões onde não podia simplesmente usar seus jeans e camisetas, mas mantinha o bom e velho Converse preto e vermelho. Ele era um escritor, toda sua integridade perante a sociedade já estava comprometida de qualquer maneira.

Ela veio para o lobby, encontrar com ele para entrarem naquele mundo superficial e com muito champagne do bom.

Ele sabia que ela estava totalmente desconfortável. Odiava usar salto, mas não pôde deixar de pensar que aquela pessoa sempre o impressionava, há mais de quinze anos, em multiplas e inusitadas situações, com a força e coragem de enfrentar noites como aquela e cenários piores e continuar com aquele olhar e sorriso de quem sabe exatamente o que se passa na sua cabeça.

15 anos, ela pensou, e ele ainda fica vermelho quando eu o encaro.

E o chapéu?

Acordei e foi como sempre. Odeio acordar cedo apesar de fazer isso há mais de 15 anos. Nunca acostumei, mesmo na escola, acordar cedo é para os nerds e os CDFs, era o que eu dizia.

Levanto, preciso tomar banho pois bebi demais ontem à noite e só dormi quando cheguei em casa, cheiro a alcool e cigarro. Não é a melhor combinação para a ocasião.

Banho tomado, terno colocado, café da manhã a ser tomado. Tudo em ordem, tudo ótimo, tudo como um comercial de margarina mostraria. Eu vivo um cliché. Odeio? Não, eu amo meu cliché. Amo minha esposa, que para mim é perfeita, amo minhas filhas que são o diabo na terra, mas quais crianças não são? Sim, eu amo meu comercial de margarina.

Após o café da manhã, deixo as crianças na escola, elas não precisam ver o que está vindo, elas ainda não são obrigadas a lidar com todo o pacote que a vida oferece. Elas podem simplesmente ser crianças. E eu invejo isso.

Chegamos ao funeral e ele está lá, com a mesma expressão de serenidade de sempre. A mesma expressão a qual ele me recebeu quando invadi sua casa do nada, quando pedi para que ele morasse comigo e quando o chamei de “pai” pela primeira vez.

Não, não esqueci o pai que me criou, que me levou para a piscina para os passeios, que me fez esquecer os barulhos esquisitos que a casa fazia. Esse pai… Ele não pode ser esquecido. Ele é o melhor pai do mundo.

Esse pai, o que eu estou olhando agora, ele me faz lembrar de todo o resto do meu dia: acordar, esquecer, banho, terno, café da manhã, escola, velório. Ele é o pai que participou do que nós chamamos de biologia. Ele é o pai que eu não tive, mesmo que eu não saiba o que isso signifique.

O chapéu e o gato ficaram. O chapéu não vale R$5,00 e o gato vale menos do que os remédios para asma, mas eles são meu pai. Ele são o que restou, o que eu tenho, e eu não vou largar. Eu tenho duas origens e as duas fazem parte de mim.

Solteirice

Acordo e tem algumas notificações no celular: whatsapp, facebook, twiter… Tinder.

Novas mensagens, novas combinações. Ser mulher no Tinder parece fácil, mas é quase como navegar no meio de uma tempestade dentro de um carrinho de supermercado.

Você conhece um cara, ele é super sério, quase esnobe, fala sobre qualquer assunto e no fim é um semi-traficante (acho que o termo seria aviãozinho, é o cara que pega a sua maconha com o traficante, sabe?).

Aí você conhece uma moça que é super maravilhosa, engraçada, foda, a conversa flui, mas sua cabeça tá toda errada e você sabe que não é justo arrastar alguém pra esse buraco negro.

Tem o cara de esquerda que grita “bicha” no tiro de meta no estádio, tem a menina de 19 anos que tá experimentando e você sabe que não tem mais saco pra isso. Tem o cara dos áudios, que te adiciona no whatsapp e te manda 20 áudios de 6 segundos cada e é super animado pra falar sobre qualquer coisa que não te interessa. Tem aquela moça que te conhece há 2 dias e já quer saber quais serão os nomes dos 4 gatos que vocês vão adotar.

Tem seu ex.

Tem seu outro ex.

Tem aquela menina que você ficou uma vez.

Tem aquele outro cara que era seu amigo até vocês ficarem, depois a amizade morreu ali.

Tem uns golfinhos, tem policiais, tem muitos abdomens desnudos.

Tem amigos que namoram e tem uma vida de casal feliz tentando te arranjar com qualquer tranqueira que eles conhecem, porque parece que você tá naquele estágio da solteirice que dói de olhar.

E as conversas?

“Oi, tudo bem?”
“Tudo e com você?”
“Tudo também. O que faz da vida?”
“Ah eu sou monitor de touro mecânico em Barretos aos fins de semana, e você?”
“… professora”

E quando você tenta conversar com algum amigo sobre tudo isso e a resposta automática é “você é maravilhosa sozinha, não precisa de ninguém”
“Não, eu sei, mas é que às vezes eu me sinto sozi-”
“VOCÊ É COMPLETA E MARAVILHOSA SOZINHA”
“Verdade” *eu só queria reclamar um pouco da vida meu deus do céu*

Tem um filme chamado O Lagosta que fala sobre um mundo (não tão) distópico onde ser solteiro é contra a lei. E, caso você atinja certa idade sem ter um parceiro, você é transformado em um animal da sua escolha. Pelo menos a gente pode escolher o bicho, né?

E o filme mostra como a gente faz coisas imbecis para tentar agradar a outra pessoa, pra fazer com quem ela se identifique com a gente, tipo fingir que é um psicopata ou que tem sangramento crônico das vias nasais. Ou, no ápice do medo de não ser aceito por quem você ama, talvez perder a visão para os dois ficarem iguais.

Às vezes eu me pergunto quão ruim seria ter meus pais falando TOMA, SE CASA COM ESSA PESSOA AQUI PORQUE A GENTE TÁ MANDANDO porque pelo menos eu não precisaria escolher e nem lidar com um bando de policial militar no Tinder. A não ser que a pessoa escolhida fosse um PM, daí a vida clandestina seria minha companheira.

 

Um dia perfeito

Bom, já que você perguntou, aqui vai:

“Acordo, sem despertador, porque é domingo e eu não sou obrigada. A cama está quentinha, confortável, como se me abraçasse dizendo “você é só minha”. E então você me abraça e sinto meu corpo se entregando à preguiça, ao sono.

Acordo novamente, agora sozinha na cama, ouço você na sala com a TV, o campeonato inglês passando e você resmungando sobre um impedimento que não aconteceu. Sorrio pra mim mesma e lembro que queria ver esse jogo, então levanto e levo o edredon para o sofá, pois sei que você vai estar lá sem camisa e hoje está frio. Não um frio absurdo, mas 18ºC é frio pra quem viveu meses com a mínima em 23ºC.

Durante o jogo, minha mãe liga. Amanhã é aniversário da minha avó, 79 anos, e hoje iremos levá-la para almoçar em algum lugar, comemoração simples e só com as filhas e a neta. Eu digo que vou me aprontar e peço para que me enviem o endereço do lugar.

Eu conheço minha família, então sei que, como marcaram às 13hrs, chegarão realmente após às 14:45, então deito novamente no sofá, me enfio embaixo do edredon com você e assistimos ao resto do jogo em silêncio, exceto pelos momentos de revolta ou risada porque o Liverpool marcou. Ou quase.

Ajudo você a preparar seu almoço, pois, apesar da minha avó te amar e sempre querer te ver, hoje é dia das filhas e da neta. Fazemos macarrão, como todo domingo. Na verdade, eu faço o macarrão, pois meu molho é muito melhor que o seu, e você se concentra no frango grelhado.

Enquanto você almoça, tomo banho ouvindo Jimmy Eat World e acabo perdida em algumas lembranças dos 18 anos. Não dói, é uma saudade feliz, saudade do que foi bom e valeu o tempo investido.

Já na rua, com o fone de ouvido, vestido, meia calça roxa e rasgada, All Star e jaqueta jeans, penso no que dar de presente de aniversário para a vó. Qualquer coisa que eu der vai deixar ela feliz ao ponto de quase chorar, ao mesmo tempo em que ela me dá uma bronca por ter gasto dinheiro com presentes. Sorrio para o chão.

Chego ao shopping 14:50, pois a senhora avó não queria em lugar nenhum senão o pior shopping da cidade. Menor, com menos opções e com mais gente. Mas é seu aniversário, então ela que manda.

Chego junto com ela e minha mãe, que foi buscá-la em casa, e está feliz por me ver participar desse dia. Normalmente eu invento uma desculpa ou simplesmente não apareço. É difícil lidar com pessoas, especialmente com família, mas quando é sobre a minha avó eu não fujo. Ela é um dos meus maiores presentes.

Almoço, sorvete, conversa na mesa, andança pelo shopping, uma tia compra um casaco, outra tia compra um sapato, eu penso em comprar uma bota, mas deixo para lá porque preciso economizar.

Volto para casa, encontro você me esperando com uma pizza para jantar. Continua do mesmo jeito que o deixei: moletom, chinelo e sem camisa. Pego uma camiseta de manga longa velha pra você, porque não dá pra aguentar te olhar assim nesse frio. 16ºC agora.

Comemos, conto como foi o dia, como a vó perguntou de você, como ela disse que gosta tanto de você e sente saudade. E como ela tirou sarro de mim por segurar sua bengala, dizendo que eu estava “esquentando o pau dela”.

Comemos demais, 3 pedaços e meio cada um, então a única decisão sábia é deitar no sofá e levar 40 minutos para decidir o que assistir na Netflix.

Alguns episódios de um desenho maluco e aleatório depois, vamos deitar na cama.

Você me abraça quentinho, como um aquecedor humano. Seu cheiro é maravilhoso, cheiro de lar, de felicidade.

E decide perguntar: o que seria um dia perfeito para mim?”

O dia em que fui salvo por John Lennon

Quando completamos 18 anos temos que, obrigatoriamente, nos alistar. Isso não é uma tarefa fácil se seu nome é Roberto Carlos. Ainda mais no ano que um deles jogava no Corinthians e a frase “brilha muito no Corinthians tinha acabado de ser cunhada; e o outro, o cantor, completava 50 anos de carreira. Ou seja, eu ia me ferrar.

Durante as 3 primeiras visitas ao centro militar a mesma coisa:

“Roberto Carlos”

Já começavam os risos, os famosos “esse cara sou eu” e “quando eu estou aqui”, etc.

Lembro que na 4a um dos militares lembrou da frase do Pânico na hora “brilha muito no Corinthians”… rs.

Pois bem. Na última vez, a vez em que eu seria dispensado, colotaram o pessoal sentado em 5 bancos diferentes, distribuídos verticalmente. O militar lá na frente chamava o nome, você levantava e ia até a mesa dele entregar o documento e vê-lo sendo carimbado com o mais doce sabor de liberdade que você pode provar aos 17/18 anos.

Porém, se o seu nome é Roberto Carlos, esse gosto pode ser bem amargo.

O militar começou chamando:

“Artur”

“Bruno”

“Caue”

Enquanto isso eu já suava frio sabendo que iria me ferrar bonitamente em cerca de segundos.

“Diego”

“Eduardo”

“Fabio”

Puta merda, o que que eu faço? Tô ferrado.

“Gabriel”

“Henrique”

“Igor”

Eis que surge um salvador:

“John Lennon”

Todos riram. Eu não. Mas eu sabia que Roberto Carlos não seria tão bom quanto um John Lennon. De lá, até o final foi só alegria. Quando gritaram o meu nome nenhuma reação.

Gostaria de deixar aqui o meu muito obrigado para John Lennon, que se sacrificou para que eu não sofresse o que ele sofreu. Eu te amo, John Lennon, mesmo você não sabendo.