Éramos Nós

Acordei e, por 5 segundos, tinha 7 anos novamente e me preparava para sair às pressas de casa com mãe e irmão.

Mas, ao contrário dos 27 anos que passei morando com a minha família, dessa vez não era comigo. Era a vizinha com medo, ouvindo xingos, vendo ele quebrar coisas. Era ela.

Mas ainda era eu. 2 da manhã, gritos, coisas voando para a parede, choro, portas batendo. Ela sou eu. E minha mãe. E mais uma infinidade de “elas”. Nós.

A história se repete, de novo, como tantas vezes eu já vi: ele quebra tudo, nós pedimos por favor; ele xinga, nós choramos; ele continua, nós saímos, ligamos para a mãe, amigos ou irmãos. Ele se arrepende e chora, nós voltamos.

Eu me sinto impotente e fraca pois nunca consegui “ajudar” ninguém. Relações abusivas são como uma cortina de fumaça, inclusive para quem não é o alvo literal do violão voador.

Sempre serei eu, ela, nós. Esse tipo de experiência deixa marcas fundas, ela tremia, chorava, estava com vergonha e medo. Eu também.

Ainda não sei como nós ainda conseguimos algumas noites de sono. Mas sei que, hoje, nós não dormiremos de novo.

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Uma Vida em 4 Minutos IV – El Fin

[Pfvr não leia se não leu as 3 primeiras partes – Tão aqui ó]

 

Ela passou os últimos meses pensando nisso sem parar.

Como ela acabava irritada facilmente, como pequenas coisas – antes ignoradas pois fúteis demais – a fazia virar uma pessoa passiva-agressiva.

Como ela mudou com ele. Como ela mudou. Ele também, mas com uma curva mais aberta, concluiu.

Era egoísmo fazer isso, desse jeito, mas ela sentia que ia explodir. Ela queria poder ser honesta com o seu melhor amigo.

You will remember
When this is blown over
And everything’s all by the way
When I grow older
I will be there at your side
To remind you how I still love you
I still love you

Hurry back, hurry back
Don’t take it away from me
Because you don’t know
What it means to me
Love of my life
Love of my life
Yeah

“Eu não tentei sentar no gato do Vini, mas você vai querer me esfolar” ela disse, sorrindo. Conseguia sorrir porque amenizar as quedas, os resultados dos desastres, era seu dia a dia.

Ele a olhou daquele jeito “não sei se você tá me zoando ou não”, era um olhar com o qual ela se acostumou. Deixou de achar bonitinho, talvez fosse hora de se preocupar.

“Eu vou embora, quero terminar” ela disse, querendo olhar pro chão, mas sabendo que não deveria. Enquanto ele a olhava daquele jeito “não sei se você tá me zoando ou não”.

Uma Vida em 4 Minutos III

As primeiras notas do piano começaram a tocar e ela, que estava envolvida na bolha política-social-direito-agradar clientes, olhou em volta. Ele não estava perto apesar d’ela jurar que o tinha visto há menos de 2 minutos conversando com o maior cliente do Societário, um senhor, dono de uma cadeia de lavanderias, que o adorava. Provavelmente por ser desajeitado e falar sem pensar. Esse tipo de comportamento pode ser um alívio para nós, que somos obrigados a tratar a rotina com uma polidez que, muitas vezes, é tão real quanto os valores morais pregados em igrejas e ignorados assim que a missa termina.

Ele saiu do banheiro, ouviu as mesmas primeiras notas do piano e foi para o meio do salão, onde a esperaria.

Ela olhou em volta o viu, parado, a encarando. Um sorriso torto no rosto e a palma da mão a convidando para se juntar a ele.

Suas mãos se tocaram assim que seu amigo de décadas começou a cantar

Love of my life, you’ve hurt me
You’ve broken my heart
And now you leave me

“Love of my life?” ela perguntou, mas com um tom de afirmação ao fundo.
“Sim?” ele sempre se perguntava o que aquela cabeça estava pensando. Era impossível adivinhar, apesar de ser o contrário com ele… Ela sempre, sempre sabia.
“Eu escutei tanto essa música durante aquela época” seu tom não era de tristeza, mas de alguém perdida em lembranças “a nossa música”, ela adicionou com um sorrisinho sarcástico.

Love of my life, can’t you see?
Bring it back, bring it back
Don’t take it away from me
Because you don’t know
What it means to me

“Podemos não lembrar da época em que eu era um imbecil?” ele revirou os olhos, ela riu “Meu amor, você ainda é meio imbecil, mas só parte”. “Obrigado por isso” ele riu também, mas lembrando do dia em que ouviu essa música com ela pela primeira vez, uma lembrança muito mais doce.
Eles já se conheciam há meses, mas ela era uma amiga dos amigos, nunca foram próximos até o incidente que os aproximaria ou a faria voar pela janela.

“Lembra do dia que eu sentei no gato do Vini e você ficou brava porque achou que eu tinha feito de propósito?”
“Lembro. A primeira vez que ouvimos Love of my Life juntos, eu queria te esfolar vivo por assustar o gato daquele jeito. Mas quando você pediu desculpas eu percebi que era só mais um tapado e estabanado, não um idiota que gosta de maltratar bichinhos”.

Love of my life, don’t leave me
You’ve stolen my love
And now desert me

Eles dançavam ao som da música em um movimento que, provavelmente, não seria classificado como dança pois ela o abraçava pelo pescoço enquanto ele a segurava pela cintura. Um abraço tão abertado quanto a dor e a felicidade que, ao mesmo tempo, ocupava a bolha criada pelos dois naquele salão.

Uma Vida em 4 Minutos II

“Pronto?” foi o que ela perguntou quando se aproximou daquele rosto corado.
“Eu sempre estou pronto para empresários e banqueiros e gente rica, passar vergonha é meu passatempo preferido.”
“Que bom, porque hoje vai ser um saco, preciso de você para me manter sã e lembrar que há vida além do escritório”

Ele bateu continência e fez um gesto, indicando pra ela ir na frente.

Com as portas do salão abrindo, os dois com as mãos dadas, imaginaram sua cama confortável. Ela, pela 2ª vez em 30 minutos e se perguntava, pela 1001ª vez no dia, por que não inventou uma desculpa e ficou em casa… Por que não fugir desse jantar? Ela era boa o suficiente para não precisar fazer social com os clientes em todas os eventos do escritório.
Mas já era hora de entrar em modo advogada e parar de sofrer por algo que ela havia se comprometido em fazer. E outra… Ela já estava ali, os outros dois sócios a viram.
Ligou o botão “advogada”, fácil de instalar com os anos, e foi conversar com os dois colegas.

Ele acompanhou, fez toda a dança dos cumprimentos e do “como vão as coisas” com o sócio do Contencioso e o de Societário. A santíssima trindade de um dos escritórios mais renomados da cidade, ele ponderava sobre um mundo onde haveria uma só pessoa como os três. E como isso seria assustador.
Cada um deles era relacionado a empresários, banqueiros, políticos, socialites etc, ou seja, os convidados. Levou anos para ele acostumar com esses jantares, ela ascendeu tão rápido, tão nova, que ele se sentiu Ícaro voando muito próximo ao Sol. Tomou um gole de vinho para esquecer aquela lembrança amarga.

Enquanto ele lembrava de seu mini-inferno pessoal, já no passado, ela conversava amenidades com os colegas. Ambos dois homens que ela respeitava, apesar dos conflitos internos de egos entre equipes, os três faziam um bom time. Ela e Societário foram colegas na faculdada, mesma turma. Contencioso era dois anos mais velho, veterano quando eles foram aprovados no curso.
Engraçado chamar uma criança de 20 anos de veterano a essa altura da vida.

A carta a quem interessar possa VI

Amigo, não escrevo há meses e, por isso, peço desculpas.
Acabei presa nos meus próprios problemas e esqueci de manter contato e hoje, claramente, preciso desabafar e por isso estou escrevendo.

Espero que você não se importe, amizades acabam sendo assim, certo? O contato se baseia unicamente no que as partes precisam e, no nosso caso, nós nos escrevemos quando precisamos desabafar.
No meu caso, queria te fazer uma pergunta:

O que fazer quando você quer, sente que precisa e é como se seu corpo fosse explodir em bilhões de pedacinhos caso você não conseguisse um pouco de contato físico, mas, ao mesmo tempo, a ideia de deixar outro ser humano te tocar é… assustadora e agoniante?

A falta que o toque específico, com o perfume certo, da pessoa certa faz falta às vezes. E o cérebro vai a milhão, tentando encontrar formas e desculpas pra conseguir tudo aquilo de novo. O pior de tudo é saber que não existe nada disso, que, na verdade, sua mente se acostumou com aquela pessoa e o caminho mais fácil contra a solidão seria ter tudo aquilo de volta.

A solidão é sempre pintada como algo negativo, como a escuridão. Ficar sozinho pode significar o fim de algo, algo que talvez você desse como garantido; ou talvez nem estivesse totalmente feliz, mas acomodado. Somos ensinados desde criança: tenha muitos amigos, encontre sua alma gêmea, não fique sozinho, seja bem sucedido em todos os aspectos da sua vida.

Mas ninguém te avisa que ter tudo isso beira o impossível. Que ser feliz em um relacionamento romântico dá trabalho porque não é só você, não é só 1 corpo. São 2 pessoas, dois cérebros, dois corpos com infinitas vontades, medos, desejos, segredos. Que escolher uma faculdade com 17/18 anos pode levar a uma vida profissional frustrada. E que amizades são tão frágeis quanto as mentiras que contamos a nós mesmos para seguir em frente, ainda buscando um sucesso artificial.

O final, o encerramento de relações pode trazer a solidão que normalmente é vista como entrar em um túnel escuro ou cair em um poço. Escura, fria, nada amistosa. Mas não seria ela a melhor professora para te ensinar que é possível se reinventar, mudar, começar de novo?

Afinal, todo fim é bom. Basta lembrar de seguir em frente ou subir de novo. O mundo vai estar aqui, esperando.

Ele & Ela (,) – Capítulo III (A Estrada)

Ele aproximou-se do corpo. Era um jovem em seus 20 e poucos anos. Estava estirado no meio da estrada, a parte superior numa faixa, a parte inferior na outra.

Nitidamente, o que é que houvesse acontecido com aquele rapaz resultou em um grande ferimento em sua cabeça.

Estranhou o fato do corpo estar trajado com uma jaqueta completamente igual a sua. Estranhou também o fato de suas jeans serem completamente idênticas.

(Se não fosse sua perda de memória perceberia que ali jazia o seu próprio corpo. Infelizmente sua falta de recordações lhe privava de lembranças, tais como a vez em que havia ganhado uma bicicleta em um sorteio aos cinco anos, do fato de já ter bebido tequila com larva em um de seus aniversários e o que ele fazia perambulando por ali. Mas, mais importante naquele momento era a sua completa ignorância a respeito de como era sua própria face)

Ele pensou em ligar para o serviço de emergência, porém só lhe restavam 3 tampinhas de longnecks, uma bala mentol, alguns trocados e o papel que havia passado por pelo menos duas vezes na máquina de lavar. Não havia nada a ser feito.

Decidiu seguir a estrada. Ele poderia encontrar algum telefone de emergência a beira da rodovia ou então acenar para algum carro que estivesse passando.

Olhou para os dois lados do caminho. Idênticos. Resolveu seguir um deles.

Caminhou cerca de 800 metros e deparou-se com uma placa.

“41 Km”

Prosseguiu por mais um tanto e encontrou outra sinalização.

“42 Km”

Resolveu voltar. Independente de onde vinha e para onde ia aquela via, suas maiores chances de achar um centro urbano era se dirigir em direção ao kilometro 0.

Passou pelo corpo. Sentiu calafrios ao olhá-lo novamente.

Decidiu ignorá-lo e focar em seu objetivo.

Prosseguiu em sua caminhada. Era difícil se concentrar com sua forte dor de cabeça, que agora estava em um nível nove.

40. 39. 38. 37. 36… Pouco mudava ao seu redor. As árvores continuavam permeando ambas as encostas do caminho. Nenhum carro passou, em nenhuma das direções. A única distração, se é que podemos classificar isto como distração, eram as curvas acentuadas que desenhavam aquela via. Para ele já era difícil caminhar de forma digna em linha reta. As curvas tornavam a tarefa ainda mais difícil.

Decidiu encará-las como um jogo. 20 pontos por curva feita de forma correta. -10 a cada vez que caísse em uma das valas. Após 5 kilometros sua pontuação era de -60.

Caminhou por mais 3 kilometros até que avistou luzes piscando por entre a neblina na distância. Apertou o passo. As cores foram ficando mais nítidas: um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul. Um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul.

Chegou perto o bastante para identificar uma ambulância e um carro de bombeiros estacionados no acostamento. Mais a frente havia um carro capotado, parado bem ao pé de uma árvore no lado direito.

Aproximou-se. Os bombeiros tentavam, ao que parecia, socorrer alguém de dentro do veículo acidentado. Os paramédicos carregavam um corpo já ensacado para dentro da ambulância.

Encostado no caminhão de bombeiros estava um rapaz fazendo rápidas anotações em uma prancheta.

“Ei!”, ele disse.

Nenhuma resposta.

“EI!”

Nenhuma resposta.

O rapaz agora entrava no veículo para guardar a prancheta no guarda luvas.

“Ela morreu instantaneamente na batida”, ouviu um dos paramédicos falar.

Tentou contato com o mesmo.

“Ei!”

Nenhuma resposta.

“EI!!!”

Nenhuma resposta.

“Puta que pariu, será que alguém pode me ajudar???”, ele gritou.

Nenhuma resposta. Nem mesmo olhar para ele eles olharam.

Viu mais a frente uma moça chorando no meio da estrada. Ela observava a cena.

“Ei, moça!”

“Gabriel!!! Por favor, Gabriel!!!”, ela gritou desesperadamente em direção aos entulhos.

“Moça, vai ficar tudo bem!”

“Gabriel, não desiste! Não desiste! Você ainda tem chance, Gabriel!”

“Moça, os bombeiros vão retirá-lo, fica calma.”

Neste momento um forte clarão apareceu por entre os destroços do carro e, assim como veio, se foi.

Ela olhou para ele.

“Não vai ficar tudo bem.”

Um elevador surgiu aonde antes não havia nada. Ela apertou o botão para cima e entrou.

O elevador subiu rapidamente em direção ao céu.

Ele & Ela (,) – Capítulo II (Ela)

Ela abriu os olhos. Uma única luz amarelada fazia-se notar sobre um cobertor branco. Era um teto.

Estava deitada em uma cama com grades laterais.

Olhou para os lados e conseguiu identificar alguns objetos:

– Um ar-condicionado.

– Uma poltrona reclinável.

– Um banheiro.

– Tomadas.

– Um dispenser de parede para álcool gel.

– Uma janela com travas.

– Uma máquina de ventilação mecânica.

– Um suporte para soro e medicamentos.

Estava em um hospital.

Levantou-se e viu sua mãe sentada em uma cadeira quase que de frente para a cama.

“Mãe?”

Sua mãe a olhou com os olhos já marejados, abaixou a cabeça e começou a chorar.

“Mãe? O que eu tô fazendo aqui?”

Nenhuma resposta.

Deixou a cama. Estranhou o fato de não haver nenhum acesso em seu braço. Caminhou em direção à cadeira.

Aproximou-se e acariciou os cabelos de sua mãe. O pranto da mesma intensificou-se (de um patamar inicial de 85 decibéis, agora atingira o nível de 110 – volume este que é tolerável por apenas 15 minutos aos ouvidos de um ser humano comum).

Sua mãe não emitiu nenhuma resposta, afora as lágrimas que agora caíam mais rapidamente por seu rosto.

Tentou cutucá-la, chacoalhá-la mas, mesmo assim, nenhuma resposta.

Decidiu deixar o quarto e procurar algum enfermeiro que pudesse ajudá-la.

Prosseguiu em direção ao balcão de atendimento. Lá estava uma moça morena que aparentava estar estudando o prontuário de algum paciente.

“Moça.”

Nenhuma resposta.

“Moça!”

Nenhuma resposta.

“MOÇA!”

A enfermeira agora consultava seu celular.

Ela estava vendo um vídeo.

“Senhora? Senhora? A senhora é funcionária da Assembléia?”

“Ai, ai, esse país não tem jeito…”, disse a enfermeira.

“Moça, eu sei, mas quem sabe você pode me…”, disse ela.

A enfermeira agora parecia estar lendo algo muito engraçado em seu celular pois não parava de rir.

“HAHAHAHA, ai meu Deus! Esses memes! Esse povo é tudo louco, viu!”, falou a enfermeira, virando-se e entrando por uma porta.

Ela ficou consternada.

“Que porra tá acontecendo?”, ela pensou.

Decidiu procurar algum outro enfermeiro ou algum médico.

Enquanto passava por um dos quartos notou uma forte luz branca pela janelinha do mesmo. Mais a frente deparou-se com uma saída de emergência, trancada. Cruzou com duas vending machines: uma com salgados e outra com bebidas. Havia também uma máquina de café.

Continuou andando. Encontrou algumas pessoas pelo caminho e tentou fazer contato.

Nenhuma resposta.

Chegou ao fim do corredor.

Haviam ali elevadores com apenas dois botões: um para cima e outro para baixo.

Apertou o botão para cima. Ele se iluminou e se apagou. Apertou o botão para baixo. Ele se iluminou e se apagou. Tentou novamente o botão para cima. Ele se iluminou e se apagou. Tentou novamente o botão para baixo. Ele se iluminou e se apagou. Tentou várias outras vezes e em todas o botão se iluminou e se apagou.

Um rapaz, como que do nada, apareceu do seu lado. Calmamente apertou o botão para baixo. Dessa vez o botão não se apagou.

Em cerca de segundos o elevador chegou. O moço entrou. Ela tentou segui-lo.

“Esse não é seu.”, ele disse.

A porta se fechou.

E o chapéu?

Acordei e foi como sempre. Odeio acordar cedo apesar de fazer isso há mais de 15 anos. Nunca acostumei, mesmo na escola, acordar cedo é para os nerds e os CDFs, era o que eu dizia.

Levanto, preciso tomar banho pois bebi demais ontem à noite e só dormi quando cheguei em casa, cheiro a alcool e cigarro. Não é a melhor combinação para a ocasião.

Banho tomado, terno colocado, café da manhã a ser tomado. Tudo em ordem, tudo ótimo, tudo como um comercial de margarina mostraria. Eu vivo um cliché. Odeio? Não, eu amo meu cliché. Amo minha esposa, que para mim é perfeita, amo minhas filhas que são o diabo na terra, mas quais crianças não são? Sim, eu amo meu comercial de margarina.

Após o café da manhã, deixo as crianças na escola, elas não precisam ver o que está vindo, elas ainda não são obrigadas a lidar com todo o pacote que a vida oferece. Elas podem simplesmente ser crianças. E eu invejo isso.

Chegamos ao funeral e ele está lá, com a mesma expressão de serenidade de sempre. A mesma expressão a qual ele me recebeu quando invadi sua casa do nada, quando pedi para que ele morasse comigo e quando o chamei de “pai” pela primeira vez.

Não, não esqueci o pai que me criou, que me levou para a piscina para os passeios, que me fez esquecer os barulhos esquisitos que a casa fazia. Esse pai… Ele não pode ser esquecido. Ele é o melhor pai do mundo.

Esse pai, o que eu estou olhando agora, ele me faz lembrar de todo o resto do meu dia: acordar, esquecer, banho, terno, café da manhã, escola, velório. Ele é o pai que participou do que nós chamamos de biologia. Ele é o pai que eu não tive, mesmo que eu não saiba o que isso signifique.

O chapéu e o gato ficaram. O chapéu não vale R$5,00 e o gato vale menos do que os remédios para asma, mas eles são meu pai. Ele são o que restou, o que eu tenho, e eu não vou largar. Eu tenho duas origens e as duas fazem parte de mim.

Uma história triste sobre Tristeza

Desde que me lembro nunca consegui entender porque ele é assim. Quando era criança, a minha mãe dizia que ele estava triste e por isso gritava e quebrava as coisas, televisão e som altos era culpa de uma surdez causada por ouvir walkman alto demais. Mas não era sempre que isso acontecida, nos finais de semana ele não estava triste e, por isso, não gritava e não quebrava nada, e a surdez também não dava as caras. Tudo era calmo em casa, quieto, a não ser por vezes que minha mãe chorava escondido e não falava com ninguém. Acho que ela fica triste de um jeito diferente.

A partir dos 9 anos eu comecei a ter amigos com quem brincar e tinha vergonha quando ele chegava cambelando e passava por mim e pelas outras crianças. Os mais velhos, com 12 ou 13 anos, desviavam o olhar, envergonhados por mim e por ele, os mais novos olhavam curiosos pra entender porque ele estava daquele jeito. Era uma doença? Uma brincadeira? Eu ainda achava que ele estava triste mas não absolvia o porquê da situação ser tão diferente de quando os outros estavam infelizes. Quando eu ficava triste só chorava, às vezes escondido e às vezes não, mas não precisava fazer que nem ele: cambalear, cheirar estranho e gritar comigo e com o meu irmão por coisas que eu não entendia.

Com 12 anos veio o câncer. Algo que os médicos poderiam ter descoberto antes, mas uns achavam que era um borrão no exame, outros nem enxergavam o “borrão”. Eu só fiquei triste, minha mãe estava triste e eu não conseguia ficar bem olhando ela daquele jeito. O tumor era operável e a porcentagem de tudo dar certo era alta, mas ela estava desesperada porque seu marido, seu amor, tinha um tumor. No dia da operação eu fui até o hospital com toda a família, incluindo tios e avós, ele já estava internado desde o dia anterior e eu o vi, dei um abraço e fui embora. Chorava muito, não queria dormir fora da minha casa, longe da minha cama e do meu irmão, que iria para a casa da Tia Lene e eu para a casa da Vó Ivone. Foram horas chorando sem parar e até hoje eu acho que não foi por ele, acho que foi pelo sofrimento da minha mãe e do meu irmão que eu observei tão de perto.

Três anos depois eu já era uma adolescente rebelde, com amigos virtuais e um ex namorado. Ele era um sobrevivente do câncer, que estava bebendo e fumando de novo. A nossa relação já não podia ser chamada assim, de “relação”, era uma convivência amigável nas noites e fins de semana sóbrios, nas noites em que ele chegava em casa, dava um beijo na testa de todo mundo e ficava sozinho no quarto, assistindo filmes antigos ou trabalhando. Noites felizes, ao contrário da maioria em que ele chegava e ainda gritava e quebrava coisas. Mas agora eu entendia o que ele falava, entendia os palavrões, os insultos e as revoltas. Revoltado com pessoas da empresa, do bar ou da televisão, mas ele descontava em mim, a filha mais velha que ficava tempo demais no computador, que nunca falava com ele e nunca respondia nada quando ele perguntava qualquer coisa de porre. A raiva que sentia por ele aumentava e comecei a sentir a mesma coisa pela minha mãe e irmão. Ela observa o sofrimento dos filhos e ainda está casada com ele, enquanto meu irmão sofria mas conseguia perdoar tudo rapidamente, como se o que a gente ouvisse fosse algo bobo, de uma criança. Acho que a raiva vinha da inveja de não ter essa capacidade de perdoar e esquecer.

22 anos, eu trabalho, estudo e não fico em casa direito. Saio as 11 e volto meia noite, quem aguenta tudo é a minha mãe. Com ele a relação continua tão monossilábica quanto antes, há mágoa demais e perdão de menos pelas duas partes. Ele não se perdoa e eu também não o perdoo, ele tem mágoa por isso e eu tenho mágoa por tudo.

35 anos, casada, dois filhos e um emprego que eu amo. Minha família é o contrário do que foi aquela onde eu cresci. Ninguém berra, xinga ou deixa a mágoa impregnar no corpo, o diálogo existe e somos quase uma porcaria de clichê de filme americano. Recebo o telefonema do meu irmão. Ele morreu. Teve um enfarte fulminante em casa, sóbrio, mas nem chegou ao hospital e minha mãe precisa de ajuda. Ela não está em choque, chorando sem parar ou algo assim, na verdade ela não chorou e não consegue parar quieta. É assim que ela fez em 2010 com o meu avô, alguns anos depois com a minha avó e agora com ele. Há meses eu não o via, muito menos meus filhos que sempre perguntam do vô e da vó, mas eu ainda não conseguia lidar com as pessoas que me ajudaram a ser tão amarga.
Agora ele se foi, nunca mais terei a oportunidade de tentar e ter um pai de verdade, que eu ligo quando preciso de conselhos e que joga bola com meus filhos nos feriados.
A verdade é que eu estou brava, não pelos mesmos motivos de antes, mas por ele ter ido sem eu conseguir conversar, sem ter dito “tudo bem, pai, já passou e ficar guardando essas coisas não adianta, não fica assim”, ou “pai, eu já te desculpei e agora vamos mudar de assunto porque o Palmeiras vai jogar”, ou só “claro que eu te desculpo”.

E morreu (Eu, no caso) XI

Parte X

2 meses antes.

Qual é o meu problema? Por que não consigo ser feliz? Por que tanta ansiedade e desconforto na minha própria vida? Eu não assinei nada disso no contrato.

Ir dormir virou mais uma parte deprimente do meu dia, pois eu sei que não vou conseguir ter um sono decente e ainda vou acordar super cedo e ter um dia longo. Longo porque eu não tenho nada pra fazer o dia todo, longo porque passo o dia ansiosa e desesperada por algo que não sei o que é.

Meus pulsos já não aguentam mais tantas cicatrizes. E eu já não aguento mais tantos olhares sobre eles quando estou no ônibus ou no trem.

Meu limite parece me esperar a cada esquina, a cada 5 minutos que levam 20 pra passar. Quando que eu deixei de ser a pessoa feliz e com vontade de viver para ser esse fantasma que mal reflete o que um dia já fui?

Não sei se os remédios ajudam ou atrapalham, não sei o que fazer ou o que pensar pois não sei se sou eu, a depressão ou os remédios pensando. Quem toma as decisões? Quem está no comando?

Eu não sei.

Sinto que não sou eu, eu não sou assim, eu não vivo assim. Mas se eu não faço nada, se eu só me deixo afundar, a culpa é tão minha quanto da doença e dos comprimidos.

Sinto saudade de sentir prazer. De sentir alegria. De esperar por algo, qualquer coisa.

Na verdade nem tudo está perdido, tem alguém que me faz pensar no “e se”, que me faz esperar pelo fim de semana, que é quando poderemos nos ver. Tem. Mas eu sou muita coisa pra ele lidar, muita coisa pra qualquer um lidar.

Eu mesma não sei lidar.