Paixão, amor e arco-íris

É esquisito se abrir pro mundo de novo depois de meses e meses se enganando, dizendo pra si mesma que você estava bem e pronto. Que você não conseguia se envolver com ninguém simplesmente porque não encontrou alguém que clicasse com você.

Mas não é bem assim. Leva tempo. E eu namorei, basicamente, por 9 anos direto com alguns meses de pausa aqui e ali, mas sempre voltando ao relacionamento sério.

Quando você vive tanto tempo envolvida seriamente com alguém (ou alguéns), voltar à vida solteira é difícil. Principalmente se você é como eu e seus namorados/namoradas eram seus melhores amigos, aquelas pessoas pra quem você conta tudo: desde a pessoa que tropeçou na escada do metrô hoje de manhã até o medo irracional que veio de lugar nenhum de que você vai ser demitida hoje.

Então, quando você perde isso, esse conforto, vem a tentativa de se abrir igualmente para os amigos. Muitos conseguem, fazem isso mesmo quando estão namorando. Eu não, eu sou mais fechada, prefiro não concentrar muita informação minha em mais de uma pessoa. Tenho pequenos satélites, pessoas com quem eu converso sobre assuntos X e Y, mas não sobre Z. E com quem eu converso sobre Z, não me aprofundo sobre X e Y etc.

Consequentemente, você se sente sozinha e, por isso, acaba com algumas paixões platônicas. É uma tentativa inútil de dizer “estou aberta sim, olha aí, eu sinto algo por essa pessoa” mas é tipo tirar a água de um barco afundando com uma colher. É só uma desculpa, um band-aid, uma pequena mentira que você diz pra si mesma para que não precise lidar com seu fechamento. É o estado de negação.

E assim vão os dias, as semanas, os meses, as pessoas. Pessoas legais entram e saem da sua vida, tentam te deixar à vontade para falar, para dividir e, por óbvio, você não consegue. E não é de propósito, não é porque você não quer, só não acontece, não sai. Você quer confiar, quer se apoiar, mas não dá.

Até que um dia a vida te dá um tapa na cabeça: tem alguém que te fez sentir algo, que te fez querer se abrir de novo, que só de estar ali já te deixa bem. E o que você faz? Surta. Surta bonito, porque foram meses longe desse sentimento, você até se convenceu de que não queria nada com ninguém, mas na verdade você só não tinha encontrado esse alguém ainda.

E não, esse não é um texto sobre amor, paixão e arco-íris.

Porque apesar de ter alguém que finalmente te tirou daquele coma emocional, não quer dizer que vocês serão um casal feliz para sempre. Na verdade, não quer dizer nem que vocês serão um casal pra começo de conversa. Só quer dizer que você finalmente tá pronta, que você não precisa mais se esconder ou fugir, quer dizer que você se deu tempo para se recuperar e voltar ao normal.

Essa pessoa, a que te ajudou a perceber isso, ela não te deve nada e você não deve nada pra ela. Caso vocês acabem sendo um casal: ótimo. Senão: ótimo também, tem várias pessoas por aí. Essa primeira só foi a o sinal verde de que internamente você se respeitou e se deu espaço para curar o que precisava ser curado, para mudar o que precisava ser mudado e criar novas ideias, novos desejos.

Esse não é um texto sobre amor, paixão e arco-íris. Esse é um texto sobre você parar de se enganar e aceitar que as coisas levam tempo, gafanhoto.

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Uma história triste sobre Tristeza

Desde que me lembro nunca consegui entender porque ele é assim. Quando era criança, a minha mãe dizia que ele estava triste e por isso gritava e quebrava as coisas, televisão e som altos era culpa de uma surdez causada por ouvir walkman alto demais. Mas não era sempre que isso acontecida, nos finais de semana ele não estava triste e, por isso, não gritava e não quebrava nada, e a surdez também não dava as caras. Tudo era calmo em casa, quieto, a não ser por vezes que minha mãe chorava escondido e não falava com ninguém. Acho que ela fica triste de um jeito diferente.

A partir dos 9 anos eu comecei a ter amigos com quem brincar e tinha vergonha quando ele chegava cambelando e passava por mim e pelas outras crianças. Os mais velhos, com 12 ou 13 anos, desviavam o olhar, envergonhados por mim e por ele, os mais novos olhavam curiosos pra entender porque ele estava daquele jeito. Era uma doença? Uma brincadeira? Eu ainda achava que ele estava triste mas não absolvia o porquê da situação ser tão diferente de quando os outros estavam infelizes. Quando eu ficava triste só chorava, às vezes escondido e às vezes não, mas não precisava fazer que nem ele: cambalear, cheirar estranho e gritar comigo e com o meu irmão por coisas que eu não entendia.

Com 12 anos veio o câncer. Algo que os médicos poderiam ter descoberto antes, mas uns achavam que era um borrão no exame, outros nem enxergavam o “borrão”. Eu só fiquei triste, minha mãe estava triste e eu não conseguia ficar bem olhando ela daquele jeito. O tumor era operável e a porcentagem de tudo dar certo era alta, mas ela estava desesperada porque seu marido, seu amor, tinha um tumor. No dia da operação eu fui até o hospital com toda a família, incluindo tios e avós, ele já estava internado desde o dia anterior e eu o vi, dei um abraço e fui embora. Chorava muito, não queria dormir fora da minha casa, longe da minha cama e do meu irmão, que iria para a casa da Tia Lene e eu para a casa da Vó Ivone. Foram horas chorando sem parar e até hoje eu acho que não foi por ele, acho que foi pelo sofrimento da minha mãe e do meu irmão que eu observei tão de perto.

Três anos depois eu já era uma adolescente rebelde, com amigos virtuais e um ex namorado. Ele era um sobrevivente do câncer, que estava bebendo e fumando de novo. A nossa relação já não podia ser chamada assim, de “relação”, era uma convivência amigável nas noites e fins de semana sóbrios, nas noites em que ele chegava em casa, dava um beijo na testa de todo mundo e ficava sozinho no quarto, assistindo filmes antigos ou trabalhando. Noites felizes, ao contrário da maioria em que ele chegava e ainda gritava e quebrava coisas. Mas agora eu entendia o que ele falava, entendia os palavrões, os insultos e as revoltas. Revoltado com pessoas da empresa, do bar ou da televisão, mas ele descontava em mim, a filha mais velha que ficava tempo demais no computador, que nunca falava com ele e nunca respondia nada quando ele perguntava qualquer coisa de porre. A raiva que sentia por ele aumentava e comecei a sentir a mesma coisa pela minha mãe e irmão. Ela observa o sofrimento dos filhos e ainda está casada com ele, enquanto meu irmão sofria mas conseguia perdoar tudo rapidamente, como se o que a gente ouvisse fosse algo bobo, de uma criança. Acho que a raiva vinha da inveja de não ter essa capacidade de perdoar e esquecer.

22 anos, eu trabalho, estudo e não fico em casa direito. Saio as 11 e volto meia noite, quem aguenta tudo é a minha mãe. Com ele a relação continua tão monossilábica quanto antes, há mágoa demais e perdão de menos pelas duas partes. Ele não se perdoa e eu também não o perdoo, ele tem mágoa por isso e eu tenho mágoa por tudo.

35 anos, casada, dois filhos e um emprego que eu amo. Minha família é o contrário do que foi aquela onde eu cresci. Ninguém berra, xinga ou deixa a mágoa impregnar no corpo, o diálogo existe e somos quase uma porcaria de clichê de filme americano. Recebo o telefonema do meu irmão. Ele morreu. Teve um enfarte fulminante em casa, sóbrio, mas nem chegou ao hospital e minha mãe precisa de ajuda. Ela não está em choque, chorando sem parar ou algo assim, na verdade ela não chorou e não consegue parar quieta. É assim que ela fez em 2010 com o meu avô, alguns anos depois com a minha avó e agora com ele. Há meses eu não o via, muito menos meus filhos que sempre perguntam do vô e da vó, mas eu ainda não conseguia lidar com as pessoas que me ajudaram a ser tão amarga.
Agora ele se foi, nunca mais terei a oportunidade de tentar e ter um pai de verdade, que eu ligo quando preciso de conselhos e que joga bola com meus filhos nos feriados.
A verdade é que eu estou brava, não pelos mesmos motivos de antes, mas por ele ter ido sem eu conseguir conversar, sem ter dito “tudo bem, pai, já passou e ficar guardando essas coisas não adianta, não fica assim”, ou “pai, eu já te desculpei e agora vamos mudar de assunto porque o Palmeiras vai jogar”, ou só “claro que eu te desculpo”.

E morreu (Eu, no caso) XI

Parte X

2 meses antes.

Qual é o meu problema? Por que não consigo ser feliz? Por que tanta ansiedade e desconforto na minha própria vida? Eu não assinei nada disso no contrato.

Ir dormir virou mais uma parte deprimente do meu dia, pois eu sei que não vou conseguir ter um sono decente e ainda vou acordar super cedo e ter um dia longo. Longo porque eu não tenho nada pra fazer o dia todo, longo porque passo o dia ansiosa e desesperada por algo que não sei o que é.

Meus pulsos já não aguentam mais tantas cicatrizes. E eu já não aguento mais tantos olhares sobre eles quando estou no ônibus ou no trem.

Meu limite parece me esperar a cada esquina, a cada 5 minutos que levam 20 pra passar. Quando que eu deixei de ser a pessoa feliz e com vontade de viver para ser esse fantasma que mal reflete o que um dia já fui?

Não sei se os remédios ajudam ou atrapalham, não sei o que fazer ou o que pensar pois não sei se sou eu, a depressão ou os remédios pensando. Quem toma as decisões? Quem está no comando?

Eu não sei.

Sinto que não sou eu, eu não sou assim, eu não vivo assim. Mas se eu não faço nada, se eu só me deixo afundar, a culpa é tão minha quanto da doença e dos comprimidos.

Sinto saudade de sentir prazer. De sentir alegria. De esperar por algo, qualquer coisa.

Na verdade nem tudo está perdido, tem alguém que me faz pensar no “e se”, que me faz esperar pelo fim de semana, que é quando poderemos nos ver. Tem. Mas eu sou muita coisa pra ele lidar, muita coisa pra qualquer um lidar.

Eu mesma não sei lidar.

Solteirice

Acordo e tem algumas notificações no celular: whatsapp, facebook, twiter… Tinder.

Novas mensagens, novas combinações. Ser mulher no Tinder parece fácil, mas é quase como navegar no meio de uma tempestade dentro de um carrinho de supermercado.

Você conhece um cara, ele é super sério, quase esnobe, fala sobre qualquer assunto e no fim é um semi-traficante (acho que o termo seria aviãozinho, é o cara que pega a sua maconha com o traficante, sabe?).

Aí você conhece uma moça que é super maravilhosa, engraçada, foda, a conversa flui, mas sua cabeça tá toda errada e você sabe que não é justo arrastar alguém pra esse buraco negro.

Tem o cara de esquerda que grita “bicha” no tiro de meta no estádio, tem a menina de 19 anos que tá experimentando e você sabe que não tem mais saco pra isso. Tem o cara dos áudios, que te adiciona no whatsapp e te manda 20 áudios de 6 segundos cada e é super animado pra falar sobre qualquer coisa que não te interessa. Tem aquela moça que te conhece há 2 dias e já quer saber quais serão os nomes dos 4 gatos que vocês vão adotar.

Tem seu ex.

Tem seu outro ex.

Tem aquela menina que você ficou uma vez.

Tem aquele outro cara que era seu amigo até vocês ficarem, depois a amizade morreu ali.

Tem uns golfinhos, tem policiais, tem muitos abdomens desnudos.

Tem amigos que namoram e tem uma vida de casal feliz tentando te arranjar com qualquer tranqueira que eles conhecem, porque parece que você tá naquele estágio da solteirice que dói de olhar.

E as conversas?

“Oi, tudo bem?”
“Tudo e com você?”
“Tudo também. O que faz da vida?”
“Ah eu sou monitor de touro mecânico em Barretos aos fins de semana, e você?”
“… professora”

E quando você tenta conversar com algum amigo sobre tudo isso e a resposta automática é “você é maravilhosa sozinha, não precisa de ninguém”
“Não, eu sei, mas é que às vezes eu me sinto sozi-”
“VOCÊ É COMPLETA E MARAVILHOSA SOZINHA”
“Verdade” *eu só queria reclamar um pouco da vida meu deus do céu*

Tem um filme chamado O Lagosta que fala sobre um mundo (não tão) distópico onde ser solteiro é contra a lei. E, caso você atinja certa idade sem ter um parceiro, você é transformado em um animal da sua escolha. Pelo menos a gente pode escolher o bicho, né?

E o filme mostra como a gente faz coisas imbecis para tentar agradar a outra pessoa, pra fazer com quem ela se identifique com a gente, tipo fingir que é um psicopata ou que tem sangramento crônico das vias nasais. Ou, no ápice do medo de não ser aceito por quem você ama, talvez perder a visão para os dois ficarem iguais.

Às vezes eu me pergunto quão ruim seria ter meus pais falando TOMA, SE CASA COM ESSA PESSOA AQUI PORQUE A GENTE TÁ MANDANDO porque pelo menos eu não precisaria escolher e nem lidar com um bando de policial militar no Tinder. A não ser que a pessoa escolhida fosse um PM, daí a vida clandestina seria minha companheira.

 

Como acontece II

Parte I

Uma briga sobre um detalhe idiota, o amigo dele faz um comentário que ela não gostou e a discussão, mais uma vez vira algo gigante, os faz terminar.

São meses de vazio, desesperança e desilusão. Onde encontrarei isso de novo? Não existe.

Pessoas vem e vão, semi-relacionamentos ou até relacionamentos sérios, mas nada dura. Nada. Pois sabem que um pertence ao outro e vice versa. No entanto as tentativas são  válidas,  pois acham que juntos nunca darão certo. Não interessa quanto amor sintam, só amor não é o suficiente.

Depois de meses tentando uma amizade falida, o amor fala mais alto e eles decidem estar juntos de novo. Magoam quem estava no meio, quem não deveria ser machucado por algo assim, pois desde o começo a ideia não era essa, não era volta, não era tentar de novo. Ambos se sentem mal, não gostam de machucar pessoas boas por quem eles tem tanto carinho. Isso machuca também.

Só que a vida pode ser óbvia às vezes. Ela pode esfregar na sua cara que, sim, você pode viver e ficar bem sem a outra pessoa. Você pode ser completo sozinho ou com outro que não te complete do mesmo jeito. Só que não é igual, não é o mesmo preenchimento. Sempre falta um pedaço. É como tentar montar um quebra-cabeças e duas peças quase se encaixam completamente, mas falta 0.01% e isso incomoda. Esse 0.01% sempre estará ali e sempre será um grande e se?

Mas a vida também os ensinou que não adianta insistir no mesmo erro.

Que todos temos limites e precisamos ser egoístas algumas vezes, pensar em nós mesmos e nos contentar com o que nos deixa bem. Pode não ser maravilhoso como antes, mas é bom, é calmo, é fácil e confortável. Por que não aceitar? Por que trocar isso pela turbulência e incerteza?

Não, eles não farão isso. Eles não precisam. Eles não querem.

E então?

Então, a vida nunca foi como eu planejei, acho que nenhuma vida é assim, né?

Pois bem, cá estou eu, numa noite de sexta-feira, bebendo sozinha e sendo babá de um gato. Adicionado à essa equação da diversão está o filme Passageiros. Muito ruim, não vou entrar nesse assunto.

De qualquer forma, o filme me fez pensar sobre as últimas pessoas com quem eu me relacionei de forma romântica e como, mesmo eu querendo, não consegui levar nada pra frente.

Eu sou uma pessoa fácil de se relacionar porque, depois de passar a ansiedade social (hey, é fácil para os outros), eu me sinto confortável para falar muito. Então, você não sendo uma pessoa total e completamente desagradável, assunto provavelmente não vai faltar.

E, assim, eu acabei me envolvendo com algumas pessoas. Ainda me envolvo, na verdade. Esperando aquele frio na barriga e não achando essa porcaria em lugar nenhum.

E agora vem o ponto principal que eu queria chegar: eu baseio minhas relações nas anteriores, situações atuais em situações passadas. Minhas duas relações de peso aconteceram depois de eu me apaixonar rápido e ver a pessoa fazendo o mesmo. Agora isso não acontece. Na verdade, a pessoa pode até sentir algo, mas eu não.

Quando você sou eu e você pensa como eu, você espera as coisas como eu disse aqui em cima, e quando essas coisas não acontecem você simplesmente pensa “ok, não foi dessa vez”.

Mas, entretanto, todavia, e se você também tem a capacidade de crescer o sentimento com o tempo? Mas você, na verdade, foge disso porque, talvez, você não esteja pronto? Ou porque você tem transtorno da personalidade limítrofe e sua cabeça é tão bagunçada quanto o quarto de um adolescente clichê?

Como saber se é você ou o transtorno tomando as decisões?

Então você decide continuar e tentar mais com as pessoas, sentindo que está se traindo e enganando as pessoas, pois não é assim que você se acostumou a lidar com relações. Mas não pode confiar em si mesmo.

E então? Se você não posso confiar em si mesmo, talvez esteja forçando algo que não é real e nunca será porque acha que a doença te controla.

E então… Talvez você só desista?

Mas, o transtorno é na sua cabeça, parte de você. E então?

Um dia perfeito

Bom, já que você perguntou, aqui vai:

“Acordo, sem despertador, porque é domingo e eu não sou obrigada. A cama está quentinha, confortável, como se me abraçasse dizendo “você é só minha”. E então você me abraça e sinto meu corpo se entregando à preguiça, ao sono.

Acordo novamente, agora sozinha na cama, ouço você na sala com a TV, o campeonato inglês passando e você resmungando sobre um impedimento que não aconteceu. Sorrio pra mim mesma e lembro que queria ver esse jogo, então levanto e levo o edredon para o sofá, pois sei que você vai estar lá sem camisa e hoje está frio. Não um frio absurdo, mas 18ºC é frio pra quem viveu meses com a mínima em 23ºC.

Durante o jogo, minha mãe liga. Amanhã é aniversário da minha avó, 79 anos, e hoje iremos levá-la para almoçar em algum lugar, comemoração simples e só com as filhas e a neta. Eu digo que vou me aprontar e peço para que me enviem o endereço do lugar.

Eu conheço minha família, então sei que, como marcaram às 13hrs, chegarão realmente após às 14:45, então deito novamente no sofá, me enfio embaixo do edredon com você e assistimos ao resto do jogo em silêncio, exceto pelos momentos de revolta ou risada porque o Liverpool marcou. Ou quase.

Ajudo você a preparar seu almoço, pois, apesar da minha avó te amar e sempre querer te ver, hoje é dia das filhas e da neta. Fazemos macarrão, como todo domingo. Na verdade, eu faço o macarrão, pois meu molho é muito melhor que o seu, e você se concentra no frango grelhado.

Enquanto você almoça, tomo banho ouvindo Jimmy Eat World e acabo perdida em algumas lembranças dos 18 anos. Não dói, é uma saudade feliz, saudade do que foi bom e valeu o tempo investido.

Já na rua, com o fone de ouvido, vestido, meia calça roxa e rasgada, All Star e jaqueta jeans, penso no que dar de presente de aniversário para a vó. Qualquer coisa que eu der vai deixar ela feliz ao ponto de quase chorar, ao mesmo tempo em que ela me dá uma bronca por ter gasto dinheiro com presentes. Sorrio para o chão.

Chego ao shopping 14:50, pois a senhora avó não queria em lugar nenhum senão o pior shopping da cidade. Menor, com menos opções e com mais gente. Mas é seu aniversário, então ela que manda.

Chego junto com ela e minha mãe, que foi buscá-la em casa, e está feliz por me ver participar desse dia. Normalmente eu invento uma desculpa ou simplesmente não apareço. É difícil lidar com pessoas, especialmente com família, mas quando é sobre a minha avó eu não fujo. Ela é um dos meus maiores presentes.

Almoço, sorvete, conversa na mesa, andança pelo shopping, uma tia compra um casaco, outra tia compra um sapato, eu penso em comprar uma bota, mas deixo para lá porque preciso economizar.

Volto para casa, encontro você me esperando com uma pizza para jantar. Continua do mesmo jeito que o deixei: moletom, chinelo e sem camisa. Pego uma camiseta de manga longa velha pra você, porque não dá pra aguentar te olhar assim nesse frio. 16ºC agora.

Comemos, conto como foi o dia, como a vó perguntou de você, como ela disse que gosta tanto de você e sente saudade. E como ela tirou sarro de mim por segurar sua bengala, dizendo que eu estava “esquentando o pau dela”.

Comemos demais, 3 pedaços e meio cada um, então a única decisão sábia é deitar no sofá e levar 40 minutos para decidir o que assistir na Netflix.

Alguns episódios de um desenho maluco e aleatório depois, vamos deitar na cama.

Você me abraça quentinho, como um aquecedor humano. Seu cheiro é maravilhoso, cheiro de lar, de felicidade.

E decide perguntar: o que seria um dia perfeito para mim?”

A carta a quem interessar possa II

Querido amigo, sou eu novamente.

Como vai? Aproveitou o Carnaval? Pulou, cantou, conheceu pessoas, bebeu, chorou, beijou, fez xixi onde não deveria?

Talvez meu conceito de Carnaval seja meio deturpado. Desculpa.

De qualquer forma, dessa vez não escrevo para saber de você, preciso falar de algumas coisas.

Você conhece doenças como depressão e ansiedade, eu acredito, pois falo muito nelas. Também conhece síndrome da personalidade limítrofe e avpd (um nome chique em inglês pra te chamar de Pessoa Que se Fecha e Isola do Mundo Mesmo Querendo e Precisando de Atenção)?
Fui diagnosticada com essas duas coisas aí. Uma porcaria ser uma porcaria, como diria um amigo.

Essas coisas juntas me fazem sentir como se eu tivesse acabado de acordar em uma nave daquelas enviadas para popular um planeta distante. Você sabe, como nos filmes, a pessoa dorme meio que em conserva, como um picles, e do nada ela acorda, sabe-se lá o porquê, e está sozinha. Apesar de, sim, estar junto de uma quantidade de gente para popular uma porra de um planeta, a pessoa se sente total e completamente solitária, afinal, tá todo mundo dormindo. Então, sim, existem pessoas ali, mas é impossível manter uma comunicação porque o outro lado não ouve.

No caso da nave, ninguém ouve porque estão dormindo, no meu caso é porque eu não falo mesmo.
“Por quê? Você conhece tanta gente e tem tantos amigos” você dirá. E é uma bom ponto.

Os médicos disseram que esse é um dos efeitos das doenças. Me isolar dentro da minha própria cabeça e não falar com ninguém. Quando eu falo, me sinto um peso morto, uma tarefa chata que meus amigos precisam cumprir. Então eu prefiro ficar quieta.
E também porque meus pensamentos sempre soam tão idiotas e inúteis quando ensaio na cabeça o que dizer a eles…
Eu não sou importante, preciso ajudar os outros porque eu não valho a pena.

E, no fim, nem isso eu consigo. Nem ajudar alguém. E então o vazio vem de novo. Mas não é um vazio realmente oco, ele me deixa dormente e com coragem de finalmente acabar com esse peso e essa tarefa que eu sou para todo mundo.

Eu nunca desejaria esse sentimento pra alguém. Essa vontade de só livrar as pessoas da sua companhia. Mas ao mesmo tempo pensar que sua família vai precisar gastar dinheiro com o enterro e essas coisas. E como sua mãe vai se sentir ao enterrar um filho.

São pensamentos esquisitos e bagunçados, amigo, são difíceis de lidar e eles não vão embora tão fácil.

Eu estou escrevendo pra você porque, como não consigo falar com ninguém de carne e osso, você é minha única esperança de conseguir me abrir.
Por favor, não me julgue. Eu quero melhorar, quero voltar a ser aquela pessoa que todo mundo fala que reclama e reclama, mas gosta da vida.
Aquela pessoa que vive. E vive mesmo, não só sobrevive. Sobrevida é algo que eu não quero e então eu preciso melhorar ou o vazio volta.

Quando eu conheci Holden Caulfield de novo

Um grupo enorme de pessoas em um aplicativo de mensagens.

Brigas, discussões, piadas, memes, uma caralhada de gente idiota.

E uma foto de perfil. Um desenho. Um garoto com um cigarro na boca e um chapéu de caça vermelho.

Eu reconheceria aquele desenho em qualquer lugar, aos 26 anos, com aquele livro fazendo parte da minha vida desde os 14, é difícil perder referências.

Ele tem a boca grande, ele fala sem freios, como se soubesse todas as verdades que nós ignoramos, pois somos phonies. Mas é claro como tudo vem com dor, insegurança e medo. É o famoso escudo da insegurança.

Obviamente, a vontade de conhecer, e entender o que fez dele assim, veio. Mas eu não poderia só chegar falando, invadindo. É como tentar juntar polo positivo com positivo de dois ímãs, eu seria repelida ao mesmo tempo em que faria o mesmo. O sentimento é de frustração, porque, ao contrário de quando conheci o Holden aos 13 anos, nós vivíamos na mesma cidade e precisávamos um do outro. Agora, ele não precisa de mim. Ele tem mecanismos de defesa que tomaram conta dele e que ele já não consegue controlar.

Como ele mesmo disse, nós sabemos o que vai acontecer quando chegamos perto de algumas pessoas. Nós sentimos. Mas ainda assim…

Ele sofre, ele sente dor o tempo todo. Ele é bom, ele é puro, ele não quer que as pessoas conheçam essa dor, apesar de ele saber que essa dor o faz enxergar melhor o que muitos ignoram. Mas a dor também o cega para as coisas óbvias, ela o afasta de coisas que poderiam ser boas.

E ele odeia que eu fale dele desse jeito, porque eu não o conheço. Nunca conhecerei.

Básico

15 minutos olhando para a tela, esperando as palavras chegarem facilmente como acontece quando não estou feliz.

Escrever triste ou com raiva é fácil, escrever quando você está em paz ou alegre é um pouco mais complicado.

Eu digo isso para ele, que preciso de prática. Ele concorda, mas diz que eu consigo. É a sua frase, dizer isso é automático quando alguém tem dificuldade com qualquer coisa: “você consegue”. É engraçado porque, ao mesmo tempo que soa quase irônico, é sincero também. Ele é assim, dificilmente vai ser direto, a piada é seu jeito de esconder como se importa.

Eu sou uma pessoa mais feliz por tê-lo na minha vida, ele é um grande alívio, um porto seguro, um pouco de sanidade no meio de tanta loucura, apesar do jeito caótico e zombeteiro. Em pouco tempo eu já o amo e sinto falta quando não conversamos.

Ele não se abre, não sei se é porque não se acha importante ou interessante o suficiente para falar de si mesmo. Ou porque ele também prefere ouvir em vez de falar. Engraçado, ele é muito melhor que eu nisso, geralmente sou a ouvinte das pessoas, desde amigos próximos ou não tão próximos até gente aleatória que nunca conversou comigo. Mas com ele o assunto sou eu ou coisas da vida. Nunca ele. O único dia que foi sobre ele eu me senti assistindo um cometa que só passa a cada 70 anos, aproveitei cada palavra dita, cada opinião, cada história. O jeito como ele se expressa, como ele se diverte em me enrolar para falar, pois sabe que eu sou curiosa e estou sedenta por mais. Sou um norte americano e ele é um presidente decente. E ele sabe disso.

Lembro da primeira vez que conversamos de verdade, horas depois de eu ter puxado assunto enquanto bêbada, peço desculpas por isso e falamos sobre aleatoriedades como filmes e quadrinhos. A conversa acaba porque ele precisa estudar e eu o chamo de inteligente, ele não gosta, diz que sou condescendente. Nós não nos conhecemos ainda, então obviamente eu não sabia que ele odeia qualquer tipo de rótulo porque isso cria expectativas. E ele não sabia que eu não faço elogios ao vento.

Dias e dias passam e, quando algo ruim acontece comigo e eu preciso ficar longe das pessoas, ele pergunta o que há e se eu estou bem. Bem ali, pouco menos de um mês atrás, começa.

Não parece que o conheço há poucos meses, não parece que viramos amigos há 3 semanas. A falta que sinto quando não estamos falando (normalmente porque um dos dois está dormindo, afinal, diferentes fuso horários) não é de quem se conhece há 3 meses.

E esse título não faz sentido algum, porque de “básico” ele não tem nada, mas a palavra lembra o nome dele, então vou deixar assim.