Eu tenho um problema

Eu tenho um problema. Eu sei disso, oficialmente, há 3 meses. Conscientemente, há uns bons 5 anos. Inconscientemente… Provavelmente desde o primeiro gole.

“O primeiro gole é o pior”.

Pode ser o primeiro da vida, ou o primeiro daquele dia, o primeiro gole é quando eu fecho a porta e digo “tudo bem, eu consigo controlar e vai ficar tudo bem”.

Andando até a reunião, perto de casa, eu me pergunto como é, como são as pessoas. Será que eu sou a mais nova ali? Será que vão me julgar e achar que é charme? Será que é como entrar em qualquer grupo? Eu sempre sinto que ninguém gosta de mim de primeira…

A sala é pequena, com algumas cadeiras de plástico, café, água, uns biscoitos, uma lousa que mostra quantos membros, visitantes e ingressantes estão lá. Cheguei atrasada, um senhor já está falando.

Peço desculpas, licença e boa noite. Sento na primeira cadeira que vejo e ouço enquanto o senhor, na cadeira de destaque, fala. Ele dá a sua perspectiva sobre o mesmo problema que compartilhamos. Ele é um alcoólatra e um dependente químico em reabilitação.

Depois, ele lê o texto de introdução dos Alcoólicos Anônimos. O texto diz que ninguém é obrigado a falar, dar nome ou está filiado a qualquer coisa. É puramente pessoal e aberto. Não há pressão. E realmente não há.

Ele me olha, pede desculpas pois ele precisa do meu nome (não precisa ser o verdadeiro) somente para anotar e poder se dirigir a mim durante a reunião. Pergunta se tenho interesse em ingressar ou não, então eu terei meu token e a palavra por 8 minutos.

São 2 segundos em que eu penso eu realmente preciso disso? Será que não consigo manter no controle como eu venho mantendo? Mas na verdade eu não mantive controle algum. Você acha que tem, você pensa “um dia só de bar não faz diferença” ou “uma cerveja hoje e tá tudo bem”. E dias ou semanas depois você bebe até apagar porque ficou doente e não pôde ir trabalhar, então acha que será demitida. Sim, eu preciso disso.

Pego o token, o símbolo de que, em teoria, eu estou escolhendo um novo caminho para mim. Sento na cadeira e divido com aqueles desconhecidos algumas situações e sentimentos que amigos conhecem, mas não sabem como é de verdade. Todos eles já estiveram onde eu estive, nada do que eu digo é novidade, mas não sinto que os estou sendo entediante. Não é difícil, não me sinto desconfortável. Ao mesmo tempo fico triste de lembrar de coisas que fiz e machucaram outros, que isso poderia ter sido evitado. Não olho ninguém, enquanto falo mantenho os olhos no token.

Quando levanto, todos batem palmas e “você é a pessoa mais importante aqui hoje” é a frase que ouço de todos.
Os presentes tem oportunidade de falar e uma senhora, com uma vibe muito mais jovial do que de muitos de 20-e-poucos que conheço toma a palavra. Ela senta na cadeira e diz “você é a pessoa mais importante aqui hoje” e depois diz “Meu nome é <insira um nome aqui> e eu sou uma alcoólatra em recuperação”. Ela fala para todos, mas olha para mim, o tempo todo, contando como as coisas estão e como ela fica feliz de ver alguém novo tentando mudar e melhorar, que eu lembro ela mesma, mas mais calma. Ela só procurou ajuda quando não mordia só as correntes, mas sim tudo e todos.

Todos têm seus minutos para falar, dois preferem se abster.

“Boas próximas 24hrs a todos” é como você se despede saindo da cadeira.

“O importante são as próximas 24hrs, o resto você vê depois”.

É engraçado como um grupo de desconhecidos podem passar a sensação de familiaridade. Eles sabem, eles não fazem cara de espanto, eles não te julgam. Eles pensam “sim, já fiz isso” assim como eu penso enquanto os escuto.

Dividir problemas, dividir as dores, pedir ajuda… Coisas sempre difíceis para mim, mas que pareceram fáceis hoje.

Hoje foi um bom dia.

Dias ruins virão, pois eles sempre vem, assim como os bons dias.

Mas a realização e aceitação de que eu tenho um problema com bebida, e que eu preciso de ajuda, vieram hoje. E isso nunca é ruim.

“Boas próximas 24hrs”.

“Não tome o primeiro gole”.

Meu nome é Isadora e eu sou uma alcoólatra em recuperação.

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“Olha isso.”

“Mas não tem nada!”, ela disse.

“Calma, fecha os olhos e conta até 5.”

Ele levou as mãos aos olhos dela e depois de 5 segundos as retirou. Ela abriu os olhos e lá, onde ele antes indicava, duas partículas pairavam no ar.

E esse foi o início de algo incrível.

O clube das pessoas quebradas

Na verdade não é um clube. Não é um grupo fechado… São pessoas que você encontra sem querer no meio da multidão.
É como se nós pudéssemos sentir quando um de nós está perto, mesmo não nos conhecendo (ainda).

Eu os encontro, ou eles me encontram. Nós nos achamos e a conexão é óbvia pois, mesmo sem verbalizar, sabemos que nossa dor é parecida. E assim nos aproximamos, confidenciamos, idealizamos. Secretamente torcendo para que isso dure, que aquela pessoa ajude com o meu buraco no peito, do mesmo jeito que quero ser quem faz o mesmo por ela.

O clube das pessoas quebradas aumenta; meu clube. É uma coleção. Gosto de tê-los perto, gosto de sentir sua dor e falar sobre isso, ouvir o que eles querem dizer porque ninguém mais o faz.

Talvez eu seja uma sociopata que se alimenta da dor alheia. Talvez eu simplesmente saiba que meu buraco nunca será tapado, então tento ajudar com o dos outros. Talvez as duas coisas.

O clube das pessoas quebradas diminui; eu fico. Eu sempre fico. Eles vem, vão, às vezes voltam ou não, mas eu sempre espero por quem quiser entrar.

O clube das pessoas quebradas me distrai, mas também me machuca. A dor deles vira minha e eu não compartilho com ninguém.

O clube das pessoas quebradas é minha sina e meu paraíso, como tudo que eu amo.

Um dia

Todo dia é um único dia. Aquelas únicas 24hrs que passarão e você não poderá tê-las de volta.

Então por que não aproveitamos tanto quando podemos? E não, não tô falando de largar tudo e ir mochilar na Europa, que nem um bando de idiotas dizem que devemos fazer, ignorando o fato de que a maioria: não tem tempo e/ou dinheiro pra isso.

Enfim, por que não sorrir pro porteiro e ganhar um sorriso de volta, ou ganhar um olhar de “que porra é essa” e ficar rindo disso o resto do dia?
Por que não parar 2 minutos e lembrar que tudo isso aqui é temporário e que vai acabar e recomeçar e acabar?
Por que não lembrar que cada pessoa carrega um universo dentro de si mesma e que isso cria infinitas possibilidades de conexões humanas?
Por que deixar de reparar no céu enquanto você anda do ponto de ônibus pra casa?

Todos mundo tem esses momentos, eventualmente nossa cabeça para e diz “sério, olha aquilo, que negócio FODA”, mas é tão raro…

O normal é viver cada dia como se fossemos infinitos, como se todos com quem nos importamos fossem ficar aqui pra sempre. Como se brigas e mortes não existissem. Isso é de uma inocência e egocentrismo desmedidos.

Eu não sou uma pessoa carpe diem, qualquer um que me conhece, ou me lê aqui, sabe disso. Mas eu gosto de parar e sentir, ver, viver os dias lembrando que são únicos (quando não tô em crise de depressão e/ou ansiedade).

Lembro que Doctor Who me fisgou no segundo episódio da nova série, quando a Rose volta pra Terra depois de ter viajado no futuro e visto o planeta desaparecer. Ela volta e finalmente realiza que tudo aquilo que ela tá tão acostumada, que ela toma por garantido, eventualmente vai acabar. E essa é uma das melhores realizações que alguém pode ter.

Por isso, hoje, lembre-se que você não tem uma máquina do tempo (ainda?) e que pessoas e momentos são finitos.

Vivendo com Ansiedade II

Sabe aquela coisa cotidiana que todo mundo vive, passa e parece tão fácil?
Ela quase me mata. Ou me faz querer estar morta. É como se passar por aquilo fosse me fazer virar uma gelatina, como moléculas fazendo algo esquisito e me transformando em um Jabba que não tem esqueleto.

Um exame de sangue.
Uma reunião com o chefe.
Uma checagem na conta bancária.
Um show que vou sozinha.

E se eu tiver uma doença grave?
E se eu for demitida ou ouvir que estou por um fio?
E se eu ver que tenho menos do que achei que tinha?
E se todo mundo me julgar por estar sozinha? Eu pareço esquisita estando lá sem ninguém?

Isso tudo vem antes. É o sofrimento por antecipação. É viver aquilo intensamente antes mesmo de acontecer.

Quando acontece, as frases mudam de perguntas para afirmações.

Eu devo ter câncer em 90% do meu corpo.
Ele vai me demitir ele vai me demitir ele vai me demitir.
Certeza que estou devendo pro banco e agora vou viver de miojo por meses.
Sim, me acham esquisita. Quem vai num show sozinha? Por que eu não tentei convencer ninguém? Talvez eu tenha irritado meus amigos e eles estão de saco cheio de mim.

Qualquer uma dessas situações, entre um milhão de outras, pode desencadear ataque de pânico, insônia, choro, crise de ansiedade ou depressão.

E é nessas horas que você agradece ao psiquiatra pela graça divina do calmante alcançado e simplesmente aproveita enquanto se afoga naquela névoa confortável e quentinha, onde nenhum dos problemas parece grande coisa.

Pena que os efeitos não duram pra sempre.

Carta endereçada a você

Este é um texto fictício, qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

Oi, tudo bem?

Comigo está tudo bem, a vida continua a mesma coisa e eu continuo a mesma pessoa. Exceto que hoje você matou um pedacinho meu.

Não foi nada grave, nada que me tirará o sono, mas foi um pedacinho de uma parte já muito destruída e isso me deixa triste. Não por você matar esse pedaço, mas pelo jeito que você o fez.

Eu realmente segurei e escondi coisas por você. Coisas essas, inclusive, que afetavam diretamente uma pessoa muito importante pra mim, mas eu o fiz porque você era uma amiga importante também. Importante para ele, logo, importante para mim. Mas minha amizade ultrapassou o “sou amiga porque é namorada do meu amigo”, inclusive, eventualmente, parece que transcendeu.

Me rasgou por dentro te ver naquele dia do Uber, chorando por alguém que não era ele, chamando por alguém que não era ele. O que eu fiz? Te consolei, escondi e pedi para você parar com tudo aquilo, e você parou (acho).

Eventualmente, eu dei uma das minhas famosas bolas fora, realmente te dei motivos para se afastar e respeitei seu espaço. Você pediu tempo e eu esperei, esperei com uma certeza de que nossa amizade não seria abalada por algo assim. Não, não foi uma mancada boba, mas eu esperava que você me perdoasse logo.

Hoje eu vejo que, a grande verdade, é que você nunca planejou me receber de volta. Eu sou a lembrança viva de uma das coisas mais baixas que você já fez, eu estava lá quando você chamou pelo nome errado, usou apelidos bregas com alguém que não era o meu amigo e seu namorado. Mas hoje ele é, né?

E agora eu, que passei meses me sentindo uma amiga horrível, não entendendo (mas aceitando e nunca invadindo seu espaço) e sempre na esperança de que receber uma mensagem, um sinal de uma possível reconciliação,  entendi tudo. E só quero distância de quem é capaz de manipular e machucar pessoas desse jeito, tão deliberadamente.

Você faça o que quiser com a sua vida, obviamente, mas seria de bom tom parar de usar pessoas para justificar suas atitudes nocivas.

Pelo lado positivo, você me ensinou, ao quebrar mais um pedacinho meu, que confiança e lealdade são caras demais para gastar com alguém que faz o que você fez.
Espero que você esteja feliz, mas também espero que tome vergonha na cara e assuma seus erros sem jogar para os outros. É difícil, eu bem sei, mas é o certo e te faz ficar em paz com você mesma, coisa que você nunca conseguiu atingir, né?

E, se continuar assim, nem vai. Porque não merece.

Vivendo com a Depressão

É como se a gravidade fosse maior. Como se eu fosse meu próprio planeta e a gravidade fosse maior do que a da Terra.

Por isso, às vezes, é difícil sair da cama. É difícil tomar banho, trocar de roupa, ir na padaria. Tem uma força puxando você para baixo o tempo todo.

Além da força física te impedindo de seguir uma rotina comum, a cabeça… É como se seu cérebro fosse dominado pelo Tom deprimido:

Sad Tom

Esse é meu cérebro quando a depressão bate. Esse aí é o Tom com o coração partido, mas para efeitos de ilustração, serve.

Até porque, pelo menos comigo, a crise de depressão até parece um tipo de fossa. Eu me sinto  a pior pessoa do mundo, não quero falar com ninguém, não quero me mexer, só quero que o tempo passe o mais rápido possível, pular para a parte que eu fico bem e esqueci o ex. O problema é que não tem ex para esquecer, então toda a “fossa” pode durar semanas e semanas sem ter alguém para eu culpar.

“Mas, Isa, você tem um monte de amigos que se importam, alguns estão até em outros continentes e fazem de tudo pra saber se você está bem”. Pois é, eu sei. E isso me faz sentir pior, pois como pode alguém com tantas pessoas boas em volta ainda se sentir tão sozinha? A lógica não faz parte da vida quando você tá numa espiral de depressão (ou ansiedade) e seus sentimentos estão tão ajeitados quanto Taiwan depois do tsunami de 2005.

No meio disso tudo, sempre tem alguns elementos especiais que ajudam a piorar tudo. Não é culpa de ninguém, na verdade, as pessoas não são vilãs de novela mexicana e as situações não foram tramadas por essas vilãs. Mas é como se fosse. É como se tudo e todos estivessem ou conspirando contra você ou com dó ou totalmente indiferentes. E mesmo isso não sendo verdade, dói.

Dói sentir o vazio que eu carrego aqui dentro. Dói pensar que nada, ninguém, pode preencher ele a não ser eu mesma e que eu não sei de onde vou tirar essa força. Tudo dói.

E ainda tem a gravidade extra-forte do meu próprio planeta me puxando para baixo.

A carta a quem interessar possa V

Querido amigo, quanto tempo!

Perdão por não manter contato, eu normalmente escrevo quando estou muito feliz ou muito triste e passei muitos meses estando nem um e nem outro, por isso a ausência.

Você não perdeu muita coisa, meu país está em um cenário político-social cada vez pior e a economia continua uma bagunça. Obviamente quem mais sente tudo isso são os que não tem ferramentas e meios de se defender e lutar contra, mas isso fica para outra carta…

Eu decidi escrever porque percebi que, novamente, após um período de fechamento emocional, eu me abri. E foi muito fácil. Assustadoramente fácil. É fascinante como algumas pessoas são tipo o Rei Arthur com aquela espada, mas, em vez de espada e pedra, é nossa mente e disponibilidade emocional.

Em 2 horas, você sai de Ok, vamos, não custa conhecer alguém novo para Puta que pariu, fodeu com um sorriso idiota na cara.

O grande problema disso tudo é que assusta. Você não vê chegando, na verdade, você acha que aquilo, aquela pessoa, nunca te atingiria como atinge. E, do nada, você olha o telefone toda hora, espera por mensagens, agradece aos deuses da tecnologia por ter desativado o “última vez online” e os checks azuis do Whatsapp. É patético, pois você já está velho demais para essas coisas, você tem outras (grandes) preocupações e problemas. Mas o que pesa no seu dia é a porcaria de uma mensagem visualizada e não respondida em outro aplicativo.

Culpa? Ninguém tem culpa. Não há promessas, nunca houve, e não existem cobranças ou débitos. A vida é assim, nem tudo é recíproco. Nem tudo é como Call Me By Your Name, onde você vive um amor puro num cenário do verão italiano. Quem me dera fosse assim, pelo menos eu aproveitaria a paisagem.

Na verdade, é um alívio ver que eu ainda posso me sentir assim, sabe? Tem momentos em que eu acho que já vivi o que tinha para viver emocional e romanticamente, mas não, claro que não, eu tenho 27 anos. Ainda tenho espaço e tempo e vontades. Ainda sou alguém que, por mais que eu finja que não, gosto de ter outra pessoa do meu lado.

Então, amigo, é isso. Que as próximas cartas que sejam menos melancólicas e mais felizes. Ou que pelo menos eu reclame sobre outra coisa.

Ele & Ela (,) – Capítulo III (A Estrada)

Ele aproximou-se do corpo. Era um jovem em seus 20 e poucos anos. Estava estirado no meio da estrada, a parte superior numa faixa, a parte inferior na outra.

Nitidamente, o que é que houvesse acontecido com aquele rapaz resultou em um grande ferimento em sua cabeça.

Estranhou o fato do corpo estar trajado com uma jaqueta completamente igual a sua. Estranhou também o fato de suas jeans serem completamente idênticas.

(Se não fosse sua perda de memória perceberia que ali jazia o seu próprio corpo. Infelizmente sua falta de recordações lhe privava de lembranças, tais como a vez em que havia ganhado uma bicicleta em um sorteio aos cinco anos, do fato de já ter bebido tequila com larva em um de seus aniversários e o que ele fazia perambulando por ali. Mas, mais importante naquele momento era a sua completa ignorância a respeito de como era sua própria face)

Ele pensou em ligar para o serviço de emergência, porém só lhe restavam 3 tampinhas de longnecks, uma bala mentol, alguns trocados e o papel que havia passado por pelo menos duas vezes na máquina de lavar. Não havia nada a ser feito.

Decidiu seguir a estrada. Ele poderia encontrar algum telefone de emergência a beira da rodovia ou então acenar para algum carro que estivesse passando.

Olhou para os dois lados do caminho. Idênticos. Resolveu seguir um deles.

Caminhou cerca de 800 metros e deparou-se com uma placa.

“41 Km”

Prosseguiu por mais um tanto e encontrou outra sinalização.

“42 Km”

Resolveu voltar. Independente de onde vinha e para onde ia aquela via, suas maiores chances de achar um centro urbano era se dirigir em direção ao kilometro 0.

Passou pelo corpo. Sentiu calafrios ao olhá-lo novamente.

Decidiu ignorá-lo e focar em seu objetivo.

Prosseguiu em sua caminhada. Era difícil se concentrar com sua forte dor de cabeça, que agora estava em um nível nove.

40. 39. 38. 37. 36… Pouco mudava ao seu redor. As árvores continuavam permeando ambas as encostas do caminho. Nenhum carro passou, em nenhuma das direções. A única distração, se é que podemos classificar isto como distração, eram as curvas acentuadas que desenhavam aquela via. Para ele já era difícil caminhar de forma digna em linha reta. As curvas tornavam a tarefa ainda mais difícil.

Decidiu encará-las como um jogo. 20 pontos por curva feita de forma correta. -10 a cada vez que caísse em uma das valas. Após 5 kilometros sua pontuação era de -60.

Caminhou por mais 3 kilometros até que avistou luzes piscando por entre a neblina na distância. Apertou o passo. As cores foram ficando mais nítidas: um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul. Um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul.

Chegou perto o bastante para identificar uma ambulância e um carro de bombeiros estacionados no acostamento. Mais a frente havia um carro capotado, parado bem ao pé de uma árvore no lado direito.

Aproximou-se. Os bombeiros tentavam, ao que parecia, socorrer alguém de dentro do veículo acidentado. Os paramédicos carregavam um corpo já ensacado para dentro da ambulância.

Encostado no caminhão de bombeiros estava um rapaz fazendo rápidas anotações em uma prancheta.

“Ei!”, ele disse.

Nenhuma resposta.

“EI!”

Nenhuma resposta.

O rapaz agora entrava no veículo para guardar a prancheta no guarda luvas.

“Ela morreu instantaneamente na batida”, ouviu um dos paramédicos falar.

Tentou contato com o mesmo.

“Ei!”

Nenhuma resposta.

“EI!!!”

Nenhuma resposta.

“Puta que pariu, será que alguém pode me ajudar???”, ele gritou.

Nenhuma resposta. Nem mesmo olhar para ele eles olharam.

Viu mais a frente uma moça chorando no meio da estrada. Ela observava a cena.

“Ei, moça!”

“Gabriel!!! Por favor, Gabriel!!!”, ela gritou desesperadamente em direção aos entulhos.

“Moça, vai ficar tudo bem!”

“Gabriel, não desiste! Não desiste! Você ainda tem chance, Gabriel!”

“Moça, os bombeiros vão retirá-lo, fica calma.”

Neste momento um forte clarão apareceu por entre os destroços do carro e, assim como veio, se foi.

Ela olhou para ele.

“Não vai ficar tudo bem.”

Um elevador surgiu aonde antes não havia nada. Ela apertou o botão para cima e entrou.

O elevador subiu rapidamente em direção ao céu.

Ele & Ela (,) – Capítulo II (Ela)

Ela abriu os olhos. Uma única luz amarelada fazia-se notar sobre um cobertor branco. Era um teto.

Estava deitada em uma cama com grades laterais.

Olhou para os lados e conseguiu identificar alguns objetos:

– Um ar-condicionado.

– Uma poltrona reclinável.

– Um banheiro.

– Tomadas.

– Um dispenser de parede para álcool gel.

– Uma janela com travas.

– Uma máquina de ventilação mecânica.

– Um suporte para soro e medicamentos.

Estava em um hospital.

Levantou-se e viu sua mãe sentada em uma cadeira quase que de frente para a cama.

“Mãe?”

Sua mãe a olhou com os olhos já marejados, abaixou a cabeça e começou a chorar.

“Mãe? O que eu tô fazendo aqui?”

Nenhuma resposta.

Deixou a cama. Estranhou o fato de não haver nenhum acesso em seu braço. Caminhou em direção à cadeira.

Aproximou-se e acariciou os cabelos de sua mãe. O pranto da mesma intensificou-se (de um patamar inicial de 85 decibéis, agora atingira o nível de 110 – volume este que é tolerável por apenas 15 minutos aos ouvidos de um ser humano comum).

Sua mãe não emitiu nenhuma resposta, afora as lágrimas que agora caíam mais rapidamente por seu rosto.

Tentou cutucá-la, chacoalhá-la mas, mesmo assim, nenhuma resposta.

Decidiu deixar o quarto e procurar algum enfermeiro que pudesse ajudá-la.

Prosseguiu em direção ao balcão de atendimento. Lá estava uma moça morena que aparentava estar estudando o prontuário de algum paciente.

“Moça.”

Nenhuma resposta.

“Moça!”

Nenhuma resposta.

“MOÇA!”

A enfermeira agora consultava seu celular.

Ela estava vendo um vídeo.

“Senhora? Senhora? A senhora é funcionária da Assembléia?”

“Ai, ai, esse país não tem jeito…”, disse a enfermeira.

“Moça, eu sei, mas quem sabe você pode me…”, disse ela.

A enfermeira agora parecia estar lendo algo muito engraçado em seu celular pois não parava de rir.

“HAHAHAHA, ai meu Deus! Esses memes! Esse povo é tudo louco, viu!”, falou a enfermeira, virando-se e entrando por uma porta.

Ela ficou consternada.

“Que porra tá acontecendo?”, ela pensou.

Decidiu procurar algum outro enfermeiro ou algum médico.

Enquanto passava por um dos quartos notou uma forte luz branca pela janelinha do mesmo. Mais a frente deparou-se com uma saída de emergência, trancada. Cruzou com duas vending machines: uma com salgados e outra com bebidas. Havia também uma máquina de café.

Continuou andando. Encontrou algumas pessoas pelo caminho e tentou fazer contato.

Nenhuma resposta.

Chegou ao fim do corredor.

Haviam ali elevadores com apenas dois botões: um para cima e outro para baixo.

Apertou o botão para cima. Ele se iluminou e se apagou. Apertou o botão para baixo. Ele se iluminou e se apagou. Tentou novamente o botão para cima. Ele se iluminou e se apagou. Tentou novamente o botão para baixo. Ele se iluminou e se apagou. Tentou várias outras vezes e em todas o botão se iluminou e se apagou.

Um rapaz, como que do nada, apareceu do seu lado. Calmamente apertou o botão para baixo. Dessa vez o botão não se apagou.

Em cerca de segundos o elevador chegou. O moço entrou. Ela tentou segui-lo.

“Esse não é seu.”, ele disse.

A porta se fechou.