Ele & Ela (,) – Capítulo III (A Estrada)

Ele aproximou-se do corpo. Era um jovem em seus 20 e poucos anos. Estava estirado no meio da estrada, a parte superior numa faixa, a parte inferior na outra.

Nitidamente, o que é que houvesse acontecido com aquele rapaz resultou em um grande ferimento em sua cabeça.

Estranhou o fato do corpo estar trajado com uma jaqueta completamente igual a sua. Estranhou também o fato de suas jeans serem completamente idênticas.

(Se não fosse sua perda de memória perceberia que ali jazia o seu próprio corpo. Infelizmente sua falta de recordações lhe privava de lembranças, tais como a vez em que havia ganhado uma bicicleta em um sorteio aos cinco anos, do fato de já ter bebido tequila com larva em um de seus aniversários e o que ele fazia perambulando por ali. Mas, mais importante naquele momento era a sua completa ignorância a respeito de como era sua própria face)

Ele pensou em ligar para o serviço de emergência, porém só lhe restavam 3 tampinhas de longnecks, uma bala mentol, alguns trocados e o papel que havia passado por pelo menos duas vezes na máquina de lavar. Não havia nada a ser feito.

Decidiu seguir a estrada. Ele poderia encontrar algum telefone de emergência a beira da rodovia ou então acenar para algum carro que estivesse passando.

Olhou para os dois lados do caminho. Idênticos. Resolveu seguir um deles.

Caminhou cerca de 800 metros e deparou-se com uma placa.

“41 Km”

Prosseguiu por mais um tanto e encontrou outra sinalização.

“42 Km”

Resolveu voltar. Independente de onde vinha e para onde ia aquela via, suas maiores chances de achar um centro urbano era se dirigir em direção ao kilometro 0.

Passou pelo corpo. Sentiu calafrios ao olhá-lo novamente.

Decidiu ignorá-lo e focar em seu objetivo.

Prosseguiu em sua caminhada. Era difícil se concentrar com sua forte dor de cabeça, que agora estava em um nível nove.

40. 39. 38. 37. 36… Pouco mudava ao seu redor. As árvores continuavam permeando ambas as encostas do caminho. Nenhum carro passou, em nenhuma das direções. A única distração, se é que podemos classificar isto como distração, eram as curvas acentuadas que desenhavam aquela via. Para ele já era difícil caminhar de forma digna em linha reta. As curvas tornavam a tarefa ainda mais difícil.

Decidiu encará-las como um jogo. 20 pontos por curva feita de forma correta. -10 a cada vez que caísse em uma das valas. Após 5 kilometros sua pontuação era de -60.

Caminhou por mais 3 kilometros até que avistou luzes piscando por entre a neblina na distância. Apertou o passo. As cores foram ficando mais nítidas: um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul. Um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul.

Chegou perto o bastante para identificar uma ambulância e um carro de bombeiros estacionados no acostamento. Mais a frente havia um carro capotado, parado bem ao pé de uma árvore no lado direito.

Aproximou-se. Os bombeiros tentavam, ao que parecia, socorrer alguém de dentro do veículo acidentado. Os paramédicos carregavam um corpo já ensacado para dentro da ambulância.

Encostado no caminhão de bombeiros estava um rapaz fazendo rápidas anotações em uma prancheta.

“Ei!”, ele disse.

Nenhuma resposta.

“EI!”

Nenhuma resposta.

O rapaz agora entrava no veículo para guardar a prancheta no guarda luvas.

“Ela morreu instantaneamente na batida”, ouviu um dos paramédicos falar.

Tentou contato com o mesmo.

“Ei!”

Nenhuma resposta.

“EI!!!”

Nenhuma resposta.

“Puta que pariu, será que alguém pode me ajudar???”, ele gritou.

Nenhuma resposta. Nem mesmo olhar para ele eles olharam.

Viu mais a frente uma moça chorando no meio da estrada. Ela observava a cena.

“Ei, moça!”

“Gabriel!!! Por favor, Gabriel!!!”, ela gritou desesperadamente em direção aos entulhos.

“Moça, vai ficar tudo bem!”

“Gabriel, não desiste! Não desiste! Você ainda tem chance, Gabriel!”

“Moça, os bombeiros vão retirá-lo, fica calma.”

Neste momento um forte clarão apareceu por entre os destroços do carro e, assim como veio, se foi.

Ela olhou para ele.

“Não vai ficar tudo bem.”

Um elevador surgiu aonde antes não havia nada. Ela apertou o botão para cima e entrou.

O elevador subiu rapidamente em direção ao céu.

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Como acontece II

Parte I

Uma briga sobre um detalhe idiota, o amigo dele faz um comentário que ela não gostou e a discussão, mais uma vez vira algo gigante, os faz terminar.

São meses de vazio, desesperança e desilusão. Onde encontrarei isso de novo? Não existe.

Pessoas vem e vão, semi-relacionamentos ou até relacionamentos sérios, mas nada dura. Nada. Pois sabem que um pertence ao outro e vice versa. No entanto as tentativas são  válidas,  pois acham que juntos nunca darão certo. Não interessa quanto amor sintam, só amor não é o suficiente.

Depois de meses tentando uma amizade falida, o amor fala mais alto e eles decidem estar juntos de novo. Magoam quem estava no meio, quem não deveria ser machucado por algo assim, pois desde o começo a ideia não era essa, não era volta, não era tentar de novo. Ambos se sentem mal, não gostam de machucar pessoas boas por quem eles tem tanto carinho. Isso machuca também.

Só que a vida pode ser óbvia às vezes. Ela pode esfregar na sua cara que, sim, você pode viver e ficar bem sem a outra pessoa. Você pode ser completo sozinho ou com outro que não te complete do mesmo jeito. Só que não é igual, não é o mesmo preenchimento. Sempre falta um pedaço. É como tentar montar um quebra-cabeças e duas peças quase se encaixam completamente, mas falta 0.01% e isso incomoda. Esse 0.01% sempre estará ali e sempre será um grande e se?

Mas a vida também os ensinou que não adianta insistir no mesmo erro.

Que todos temos limites e precisamos ser egoístas algumas vezes, pensar em nós mesmos e nos contentar com o que nos deixa bem. Pode não ser maravilhoso como antes, mas é bom, é calmo, é fácil e confortável. Por que não aceitar? Por que trocar isso pela turbulência e incerteza?

Não, eles não farão isso. Eles não precisam. Eles não querem.

Como acontece I

Primeiro, não conseguem se cansar do outro. Horas e horas conversando, todos os dias, sobre tudo. É como heroína para um viciado, nunca é o bastante e a sensação deve ser o que dizem ser de um cérebro completamente feliz.

Veem coisas na rua e lembram um do outro, fazem mini surpresas com presentinhos – para mostrar como se importam, como lembram, como amam.

Todas as músicas felizes de amor são sobre eles. E, eventualmente, encontram aquela que será marcada para sempre como deles. A vida é boa, faz sentido, ambos tem tudo o que importa.

A primeira viagem juntos é combinada em 2 dias, pois a ansiedade não dá espaço para a espera. Mas não vai embora enquanto o dia marcado não chega, é como finalmente encontrar um poço escrito “felicidade” e ele está a dias de distância.

Um fim de semana sozinhos, conhecendo um novo lugar, um ao outro, comendo, rindo, dormindo… E há quem duvide que perfeição exista.

A viagem acaba, cada um vai para sua casa, mas já estão conversando por mensagem no celular. A distância já dói. Internamente os dois se perguntam quando irão morar na mesma casa e dividir tudo como tanto tem vontade.

Com o passar das semanas a ânsia de conversar o tempo todo diminui mais por um lado do que pelo outro. Um deles está tentando uma promoção no trabalho, o outro quer se demitir. O primeiro não tem mais tempo de falar o dia inteiro no celular, o segundo guarda mágoa por isso.

A primeira briga chega como uma chuva de verão, aquele tipo de chuva quando o céu permanece cinza por dias e, no dia certo, o dia parece noite. As nuvens mais escuras se aproximam lentamente primeiro, depois chegam de uma vez. E a discussão que começou porque um deles dormiu em vez de ligar pro outro, vira uma briga sobre todas as pequenas coisas ignoradas durante o início mágico e perfeito.

As pazes trazem uma sensação ainda maior de felicidade, pois trazem alívio junto, é a prova de que o amor deles pode superar até a pior tempestade dos últimos 5 anos. Tudo é calmo e alegre, como aquele dia perfeito da primavera. Sol, um parque, a grama e crianças correndo em volta. Nada pode acabar com aquilo.

Obviamente outras brigam vem, maiores ou menores do que a primeira, e deixam marcas profundas na memória ou não são lembradas depois de 10 dias. Coisas boas também. A rotina se estabelece com alguns pontos positivos e negativos periodicamente.

O problema da rotina é que ela é como a tempestade da 1ª briga. É o elefante branco na sala. Eles ignoram, fingem que não veem aquele céu cinza escurecendo a cada dia, ou aquele elefante bebendo água da fonte de decoração da estante. Pois ninguém quer brigar, ninguém quer assumir que tem algo errado. Dói pensar que não está dando certo com alguém tão amado. Eles esquecem que a rotina mata.

Esquecem que rotina, brigas, preguiça etc. fazem parte da vida de casal, que tudo isso é normal e precisam enfrentar ou estão estancando o buraco negro com um band-aid super desenvolvido. Se comportam como crianças com medo do bicho-papão, a possível confirmação dos seus medos: aquilo não é para sempre.

Continua.

E então?

Então, a vida nunca foi como eu planejei, acho que nenhuma vida é assim, né?

Pois bem, cá estou eu, numa noite de sexta-feira, bebendo sozinha e sendo babá de um gato. Adicionado à essa equação da diversão está o filme Passageiros. Muito ruim, não vou entrar nesse assunto.

De qualquer forma, o filme me fez pensar sobre as últimas pessoas com quem eu me relacionei de forma romântica e como, mesmo eu querendo, não consegui levar nada pra frente.

Eu sou uma pessoa fácil de se relacionar porque, depois de passar a ansiedade social (hey, é fácil para os outros), eu me sinto confortável para falar muito. Então, você não sendo uma pessoa total e completamente desagradável, assunto provavelmente não vai faltar.

E, assim, eu acabei me envolvendo com algumas pessoas. Ainda me envolvo, na verdade. Esperando aquele frio na barriga e não achando essa porcaria em lugar nenhum.

E agora vem o ponto principal que eu queria chegar: eu baseio minhas relações nas anteriores, situações atuais em situações passadas. Minhas duas relações de peso aconteceram depois de eu me apaixonar rápido e ver a pessoa fazendo o mesmo. Agora isso não acontece. Na verdade, a pessoa pode até sentir algo, mas eu não.

Quando você sou eu e você pensa como eu, você espera as coisas como eu disse aqui em cima, e quando essas coisas não acontecem você simplesmente pensa “ok, não foi dessa vez”.

Mas, entretanto, todavia, e se você também tem a capacidade de crescer o sentimento com o tempo? Mas você, na verdade, foge disso porque, talvez, você não esteja pronto? Ou porque você tem transtorno da personalidade limítrofe e sua cabeça é tão bagunçada quanto o quarto de um adolescente clichê?

Como saber se é você ou o transtorno tomando as decisões?

Então você decide continuar e tentar mais com as pessoas, sentindo que está se traindo e enganando as pessoas, pois não é assim que você se acostumou a lidar com relações. Mas não pode confiar em si mesmo.

E então? Se você não posso confiar em si mesmo, talvez esteja forçando algo que não é real e nunca será porque acha que a doença te controla.

E então… Talvez você só desista?

Mas, o transtorno é na sua cabeça, parte de você. E então?

Um dia perfeito

Bom, já que você perguntou, aqui vai:

“Acordo, sem despertador, porque é domingo e eu não sou obrigada. A cama está quentinha, confortável, como se me abraçasse dizendo “você é só minha”. E então você me abraça e sinto meu corpo se entregando à preguiça, ao sono.

Acordo novamente, agora sozinha na cama, ouço você na sala com a TV, o campeonato inglês passando e você resmungando sobre um impedimento que não aconteceu. Sorrio pra mim mesma e lembro que queria ver esse jogo, então levanto e levo o edredon para o sofá, pois sei que você vai estar lá sem camisa e hoje está frio. Não um frio absurdo, mas 18ºC é frio pra quem viveu meses com a mínima em 23ºC.

Durante o jogo, minha mãe liga. Amanhã é aniversário da minha avó, 79 anos, e hoje iremos levá-la para almoçar em algum lugar, comemoração simples e só com as filhas e a neta. Eu digo que vou me aprontar e peço para que me enviem o endereço do lugar.

Eu conheço minha família, então sei que, como marcaram às 13hrs, chegarão realmente após às 14:45, então deito novamente no sofá, me enfio embaixo do edredon com você e assistimos ao resto do jogo em silêncio, exceto pelos momentos de revolta ou risada porque o Liverpool marcou. Ou quase.

Ajudo você a preparar seu almoço, pois, apesar da minha avó te amar e sempre querer te ver, hoje é dia das filhas e da neta. Fazemos macarrão, como todo domingo. Na verdade, eu faço o macarrão, pois meu molho é muito melhor que o seu, e você se concentra no frango grelhado.

Enquanto você almoça, tomo banho ouvindo Jimmy Eat World e acabo perdida em algumas lembranças dos 18 anos. Não dói, é uma saudade feliz, saudade do que foi bom e valeu o tempo investido.

Já na rua, com o fone de ouvido, vestido, meia calça roxa e rasgada, All Star e jaqueta jeans, penso no que dar de presente de aniversário para a vó. Qualquer coisa que eu der vai deixar ela feliz ao ponto de quase chorar, ao mesmo tempo em que ela me dá uma bronca por ter gasto dinheiro com presentes. Sorrio para o chão.

Chego ao shopping 14:50, pois a senhora avó não queria em lugar nenhum senão o pior shopping da cidade. Menor, com menos opções e com mais gente. Mas é seu aniversário, então ela que manda.

Chego junto com ela e minha mãe, que foi buscá-la em casa, e está feliz por me ver participar desse dia. Normalmente eu invento uma desculpa ou simplesmente não apareço. É difícil lidar com pessoas, especialmente com família, mas quando é sobre a minha avó eu não fujo. Ela é um dos meus maiores presentes.

Almoço, sorvete, conversa na mesa, andança pelo shopping, uma tia compra um casaco, outra tia compra um sapato, eu penso em comprar uma bota, mas deixo para lá porque preciso economizar.

Volto para casa, encontro você me esperando com uma pizza para jantar. Continua do mesmo jeito que o deixei: moletom, chinelo e sem camisa. Pego uma camiseta de manga longa velha pra você, porque não dá pra aguentar te olhar assim nesse frio. 16ºC agora.

Comemos, conto como foi o dia, como a vó perguntou de você, como ela disse que gosta tanto de você e sente saudade. E como ela tirou sarro de mim por segurar sua bengala, dizendo que eu estava “esquentando o pau dela”.

Comemos demais, 3 pedaços e meio cada um, então a única decisão sábia é deitar no sofá e levar 40 minutos para decidir o que assistir na Netflix.

Alguns episódios de um desenho maluco e aleatório depois, vamos deitar na cama.

Você me abraça quentinho, como um aquecedor humano. Seu cheiro é maravilhoso, cheiro de lar, de felicidade.

E decide perguntar: o que seria um dia perfeito para mim?”

Felicidade

A sensação quente enche o braço, transcorre pelas mãos, pelos dedos, pinga em volta.

A mente lembra de momentos aleatórios e desconexos. Como aquele dia em que acordei no parque e o sol estava quente, mas não quente desagradável, e sim como entrar em casa depois de andar na rua quando está frio. Uma quentura que te acolhe e te abraça e passa segurança.

Também lembro do dia em que visitamos um parque novo, sentamos na grama e ouvimos nossa banda preferida enquanto tirávamos fotos e acreditávamos que nunca acabaria.

O dia em que conversamos e concordamos que precisávamos dar um jeito de ficarmos juntos, porque a vida era ok quando separados, mas muito melhor um com o outro.

Aquela vez em que implorei para você não ir embora enquanto as lágrimas escorriam sobre meu rosto. Quentes por menos de 2 segundos, então frias como os seus olhos ao olhar os meus.

O dia em que cozinhamos e brincamos e rimos e comemos e dormimos, um dia tão simples, mas, ainda assim, tão completo e perfeito.

Quando decidimos que éramos eternos.

E o dia em que chorei abraçada em você, porque guardei coisas demais e meu corpo não aguentou o que minha mente planejou. E até hoje lembramos de Vanguart por causa disso.

Todas as vezes que, mesmo sem pedir, amigos me apoiaram e mandaram mensagens ou ligaram para me lembrar de que eles estão sempre ali.

Os cachorros, os gatos, os filhotes. Os livros, os filmes, as discussões, as brigas, as pazes.

Minha mãe. Minha avó. Meus amigos próximos. Ah, é tão bom pensar neles.

Mas a quentura diminui com o passar dos segundos. Um arrepio, o frio, a tensão automática quando meu cérebro percebe que algo deu errado, os músculos relaxando quando meu cérebro percebe que não tem mais o que fazer, então ele resolve desligar.

O sangue fora faz falta dentro, então não sinto mais nada, só algo comparado ao sono.

Não tem mais dor, lembranças, quentura ou frio. Só névoa e a sensação de estar caindo no sono. O sono merecido depois de tanta dor.

Ele & Ela (,) – Capítulo II (Ela)

Ela abriu os olhos. Uma única luz amarelada fazia-se notar sobre um cobertor branco. Era um teto.

Estava deitada em uma cama com grades laterais.

Olhou para os lados e conseguiu identificar alguns objetos:

– Um ar-condicionado.

– Uma poltrona reclinável.

– Um banheiro.

– Tomadas.

– Um dispenser de parede para álcool gel.

– Uma janela com travas.

– Uma máquina de ventilação mecânica.

– Um suporte para soro e medicamentos.

Estava em um hospital.

Levantou-se e viu sua mãe sentada em uma cadeira quase que de frente para a cama.

“Mãe?”

Sua mãe a olhou com os olhos já marejados, abaixou a cabeça e começou a chorar.

“Mãe? O que eu tô fazendo aqui?”

Nenhuma resposta.

Deixou a cama. Estranhou o fato de não haver nenhum acesso em seu braço. Caminhou em direção à cadeira.

Aproximou-se e acariciou os cabelos de sua mãe. O pranto da mesma intensificou-se (de um patamar inicial de 85 decibéis, agora atingira o nível de 110 – volume este que é tolerável por apenas 15 minutos aos ouvidos de um ser humano comum).

Sua mãe não emitiu nenhuma resposta, afora as lágrimas que agora caíam mais rapidamente por seu rosto.

Tentou cutucá-la, chacoalhá-la mas, mesmo assim, nenhuma resposta.

Decidiu deixar o quarto e procurar algum enfermeiro que pudesse ajudá-la.

Prosseguiu em direção ao balcão de atendimento. Lá estava uma moça morena que aparentava estar estudando o prontuário de algum paciente.

“Moça.”

Nenhuma resposta.

“Moça!”

Nenhuma resposta.

“MOÇA!”

A enfermeira agora consultava seu celular.

Ela estava vendo um vídeo.

“Senhora? Senhora? A senhora é funcionária da Assembléia?”

“Ai, ai, esse país não tem jeito…”, disse a enfermeira.

“Moça, eu sei, mas quem sabe você pode me…”, disse ela.

A enfermeira agora parecia estar lendo algo muito engraçado em seu celular pois não parava de rir.

“HAHAHAHA, ai meu Deus! Esses memes! Esse povo é tudo louco, viu!”, falou a enfermeira, virando-se e entrando por uma porta.

Ela ficou consternada.

“Que porra tá acontecendo?”, ela pensou.

Decidiu procurar algum outro enfermeiro ou algum médico.

Enquanto passava por um dos quartos notou uma forte luz branca pela janelinha do mesmo. Mais a frente deparou-se com uma saída de emergência, trancada. Cruzou com duas vending machines: uma com salgados e outra com bebidas. Havia também uma máquina de café.

Continuou andando. Encontrou algumas pessoas pelo caminho e tentou fazer contato.

Nenhuma resposta.

Chegou ao fim do corredor.

Haviam ali elevadores com apenas dois botões: um para cima e outro para baixo.

Apertou o botão para cima. Ele se iluminou e se apagou. Apertou o botão para baixo. Ele se iluminou e se apagou. Tentou novamente o botão para cima. Ele se iluminou e se apagou. Tentou novamente o botão para baixo. Ele se iluminou e se apagou. Tentou várias outras vezes e em todas o botão se iluminou e se apagou.

Um rapaz, como que do nada, apareceu do seu lado. Calmamente apertou o botão para baixo. Dessa vez o botão não se apagou.

Em cerca de segundos o elevador chegou. O moço entrou. Ela tentou segui-lo.

“Esse não é seu.”, ele disse.

A porta se fechou.

O dia em que fui salvo por John Lennon

Quando completamos 18 anos temos que, obrigatoriamente, nos alistar. Isso não é uma tarefa fácil se seu nome é Roberto Carlos. Ainda mais no ano que um deles jogava no Corinthians e a frase “brilha muito no Corinthians tinha acabado de ser cunhada; e o outro, o cantor, completava 50 anos de carreira. Ou seja, eu ia me ferrar.

Durante as 3 primeiras visitas ao centro militar a mesma coisa:

“Roberto Carlos”

Já começavam os risos, os famosos “esse cara sou eu” e “quando eu estou aqui”, etc.

Lembro que na 4a um dos militares lembrou da frase do Pânico na hora “brilha muito no Corinthians”… rs.

Pois bem. Na última vez, a vez em que eu seria dispensado, colotaram o pessoal sentado em 5 bancos diferentes, distribuídos verticalmente. O militar lá na frente chamava o nome, você levantava e ia até a mesa dele entregar o documento e vê-lo sendo carimbado com o mais doce sabor de liberdade que você pode provar aos 17/18 anos.

Porém, se o seu nome é Roberto Carlos, esse gosto pode ser bem amargo.

O militar começou chamando:

“Artur”

“Bruno”

“Caue”

Enquanto isso eu já suava frio sabendo que iria me ferrar bonitamente em cerca de segundos.

“Diego”

“Eduardo”

“Fabio”

Puta merda, o que que eu faço? Tô ferrado.

“Gabriel”

“Henrique”

“Igor”

Eis que surge um salvador:

“John Lennon”

Todos riram. Eu não. Mas eu sabia que Roberto Carlos não seria tão bom quanto um John Lennon. De lá, até o final foi só alegria. Quando gritaram o meu nome nenhuma reação.

Gostaria de deixar aqui o meu muito obrigado para John Lennon, que se sacrificou para que eu não sofresse o que ele sofreu. Eu te amo, John Lennon, mesmo você não sabendo.

Páginas 2 e 3 de um diário achado no km 427 da BR-116.

Às vezes eu sinto que tenho tantas cicatrizes e tantos traumas que o melhor que eu poderia fazer é me esconder. Viver em uma caverna no meio da mata de vez. Mas aí eu lembro que minhas habilidades de sobrevivência numa escala de 0 a 10 estão bem próximas do zero. Eu não sei acender fogueira. Eu não sei pescar. Não é raro eu me confundir amarrando o meu cadarço. Eu morreria em 3 dias no máximo.

Eu já fui pra caverna. Algumas vezes. Algumas vezes eu pensei em até diminuir o prazo de 3 dias e simplesmente me mudar pro limbo. Não foram poucas vezes, não foram muitas. Foram vezes. Acontece. Não deveria. Não gosto de falar da caverna.

Muitas vezes eu pensei em morar na casa de campo por mais tempo. Já cheguei a viver por anos na casa de campo. Mas sempre acontecia alguma coisa que me fazia voltar para cidade. Um emprego, um momento difícil passado por um parente e, em raras ocasiões, situações em que eu me via compelido por mim mesmo. Nunca valeu a pena. Ia, ficava alguns meses e logo voltava pra quietude do interior, aonde eu poderia fazer o que bem entendesse, na hora que me fosse conveniente.

A cidade, ela é linda de longe. Ela é linda nos primeiros dias. Tudo é encantador até você se dar conta que aquilo é uma forma de histeria coletiva. Bom, pelo menos para mim. Muita gente vive bem na cidade. Eu não. Eu não sei viver na cidade. Eu não sei viver me misturando à maré que de manhã vai do ponto A para o ponto B e de noite faz o caminho inverso, indo do ponto B para o ponto A. Muito menos consigo abdicar da minha liberdade pelo bem comum. Não que a minha liberdade e minhas vontades girem em torno de atos delituosos ou impróprios. Mas veja, a convivência impõe certas restrições naturais. Afinal ninguém nasce livre de verdade – não escolhemos a língua que iremos falar, o sistema político em que iremos viver, a classe social a qual iremos pertencer… tão pouco aonde iremos viver. Você pode dizer: “Ah, mas no campo essa falsa liberdade também existe.”. Sim, é verdade. Mas quando se convive com tantas pessoas, de uma forma muito mais intensa, as regras precisam ser mais duras. É muito mais difícil controlar milhões do que milhares, então é natural que a opressão seja maior.  Para mim maior do que os benefícios de se viver de uma forma coletiva.

Hoje vivo num meio termo. Passo uma temporada no interior e uma temporada na metrópole. Na caverna faz tempo que não passo e espero continuar assim. A tentação é forte mas a umidade e a escuridão são maiores.

Acho que omiti uma parte: eu queria saber viver na cidade. Tenho inveja de quem se adapta e de quem consegue colher os frutos. A cultura, a ciência, a troca de informação que é tão intensa no burgo e a convivência que ele proporciona. Queria poder me tornar parte de um organismo vivo feito de pedra e carne.

A carta a quem interessar possa II

Querido amigo, sou eu novamente.

Como vai? Aproveitou o Carnaval? Pulou, cantou, conheceu pessoas, bebeu, chorou, beijou, fez xixi onde não deveria?

Talvez meu conceito de Carnaval seja meio deturpado. Desculpa.

De qualquer forma, dessa vez não escrevo para saber de você, preciso falar de algumas coisas.

Você conhece doenças como depressão e ansiedade, eu acredito, pois falo muito nelas. Também conhece síndrome da personalidade limítrofe e avpd (um nome chique em inglês pra te chamar de Pessoa Que se Fecha e Isola do Mundo Mesmo Querendo e Precisando de Atenção)?
Fui diagnosticada com essas duas coisas aí. Uma porcaria ser uma porcaria, como diria um amigo.

Essas coisas juntas me fazem sentir como se eu tivesse acabado de acordar em uma nave daquelas enviadas para popular um planeta distante. Você sabe, como nos filmes, a pessoa dorme meio que em conserva, como um picles, e do nada ela acorda, sabe-se lá o porquê, e está sozinha. Apesar de, sim, estar junto de uma quantidade de gente para popular uma porra de um planeta, a pessoa se sente total e completamente solitária, afinal, tá todo mundo dormindo. Então, sim, existem pessoas ali, mas é impossível manter uma comunicação porque o outro lado não ouve.

No caso da nave, ninguém ouve porque estão dormindo, no meu caso é porque eu não falo mesmo.
“Por quê? Você conhece tanta gente e tem tantos amigos” você dirá. E é uma bom ponto.

Os médicos disseram que esse é um dos efeitos das doenças. Me isolar dentro da minha própria cabeça e não falar com ninguém. Quando eu falo, me sinto um peso morto, uma tarefa chata que meus amigos precisam cumprir. Então eu prefiro ficar quieta.
E também porque meus pensamentos sempre soam tão idiotas e inúteis quando ensaio na cabeça o que dizer a eles…
Eu não sou importante, preciso ajudar os outros porque eu não valho a pena.

E, no fim, nem isso eu consigo. Nem ajudar alguém. E então o vazio vem de novo. Mas não é um vazio realmente oco, ele me deixa dormente e com coragem de finalmente acabar com esse peso e essa tarefa que eu sou para todo mundo.

Eu nunca desejaria esse sentimento pra alguém. Essa vontade de só livrar as pessoas da sua companhia. Mas ao mesmo tempo pensar que sua família vai precisar gastar dinheiro com o enterro e essas coisas. E como sua mãe vai se sentir ao enterrar um filho.

São pensamentos esquisitos e bagunçados, amigo, são difíceis de lidar e eles não vão embora tão fácil.

Eu estou escrevendo pra você porque, como não consigo falar com ninguém de carne e osso, você é minha única esperança de conseguir me abrir.
Por favor, não me julgue. Eu quero melhorar, quero voltar a ser aquela pessoa que todo mundo fala que reclama e reclama, mas gosta da vida.
Aquela pessoa que vive. E vive mesmo, não só sobrevive. Sobrevida é algo que eu não quero e então eu preciso melhorar ou o vazio volta.