A carta a quem interessar possa V

Querido amigo, quanto tempo!

Perdão por não manter contato, eu normalmente escrevo quando estou muito feliz ou muito triste e passei muitos meses estando nem um e nem outro, por isso a ausência.

Você não perdeu muita coisa, meu país está em um cenário político-social cada vez pior e a economia continua uma bagunça. Obviamente quem mais sente tudo isso são os que não tem ferramentas e meios de se defender e lutar contra, mas isso fica para outra carta…

Eu decidi escrever porque percebi que, novamente, após um período de fechamento emocional, eu me abri. E foi muito fácil. Assustadoramente fácil. É fascinante como algumas pessoas são tipo o Rei Arthur com aquela espada, mas, em vez de espada e pedra, é nossa mente e disponibilidade emocional.

Em 2 horas, você sai de Ok, vamos, não custa conhecer alguém novo para Puta que pariu, fodeu com um sorriso idiota na cara.

O grande problema disso tudo é que assusta. Você não vê chegando, na verdade, você acha que aquilo, aquela pessoa, nunca te atingiria como atinge. E, do nada, você olha o telefone toda hora, espera por mensagens, agradece aos deuses da tecnologia por ter desativado o “última vez online” e os checks azuis do Whatsapp. É patético, pois você já está velho demais para essas coisas, você tem outras (grandes) preocupações e problemas. Mas o que pesa no seu dia é a porcaria de uma mensagem visualizada e não respondida em outro aplicativo.

Culpa? Ninguém tem culpa. Não há promessas, nunca houve, e não existem cobranças ou débitos. A vida é assim, nem tudo é recíproco. Nem tudo é como Call Me By Your Name, onde você vive um amor puro num cenário do verão italiano. Quem me dera fosse assim, pelo menos eu aproveitaria a paisagem.

Na verdade, é um alívio ver que eu ainda posso me sentir assim, sabe? Tem momentos em que eu acho que já vivi o que tinha para viver emocional e romanticamente, mas não, claro que não, eu tenho 27 anos. Ainda tenho espaço e tempo e vontades. Ainda sou alguém que, por mais que eu finja que não, gosto de ter outra pessoa do meu lado.

Então, amigo, é isso. Que as próximas cartas que sejam menos melancólicas e mais felizes. Ou que pelo menos eu reclame sobre outra coisa.

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Ele & Ela (,) – Capítulo III (A Estrada)

Ele aproximou-se do corpo. Era um jovem em seus 20 e poucos anos. Estava estirado no meio da estrada, a parte superior numa faixa, a parte inferior na outra.

Nitidamente, o que é que houvesse acontecido com aquele rapaz resultou em um grande ferimento em sua cabeça.

Estranhou o fato do corpo estar trajado com uma jaqueta completamente igual a sua. Estranhou também o fato de suas jeans serem completamente idênticas.

(Se não fosse sua perda de memória perceberia que ali jazia o seu próprio corpo. Infelizmente sua falta de recordações lhe privava de lembranças, tais como a vez em que havia ganhado uma bicicleta em um sorteio aos cinco anos, do fato de já ter bebido tequila com larva em um de seus aniversários e o que ele fazia perambulando por ali. Mas, mais importante naquele momento era a sua completa ignorância a respeito de como era sua própria face)

Ele pensou em ligar para o serviço de emergência, porém só lhe restavam 3 tampinhas de longnecks, uma bala mentol, alguns trocados e o papel que havia passado por pelo menos duas vezes na máquina de lavar. Não havia nada a ser feito.

Decidiu seguir a estrada. Ele poderia encontrar algum telefone de emergência a beira da rodovia ou então acenar para algum carro que estivesse passando.

Olhou para os dois lados do caminho. Idênticos. Resolveu seguir um deles.

Caminhou cerca de 800 metros e deparou-se com uma placa.

“41 Km”

Prosseguiu por mais um tanto e encontrou outra sinalização.

“42 Km”

Resolveu voltar. Independente de onde vinha e para onde ia aquela via, suas maiores chances de achar um centro urbano era se dirigir em direção ao kilometro 0.

Passou pelo corpo. Sentiu calafrios ao olhá-lo novamente.

Decidiu ignorá-lo e focar em seu objetivo.

Prosseguiu em sua caminhada. Era difícil se concentrar com sua forte dor de cabeça, que agora estava em um nível nove.

40. 39. 38. 37. 36… Pouco mudava ao seu redor. As árvores continuavam permeando ambas as encostas do caminho. Nenhum carro passou, em nenhuma das direções. A única distração, se é que podemos classificar isto como distração, eram as curvas acentuadas que desenhavam aquela via. Para ele já era difícil caminhar de forma digna em linha reta. As curvas tornavam a tarefa ainda mais difícil.

Decidiu encará-las como um jogo. 20 pontos por curva feita de forma correta. -10 a cada vez que caísse em uma das valas. Após 5 kilometros sua pontuação era de -60.

Caminhou por mais 3 kilometros até que avistou luzes piscando por entre a neblina na distância. Apertou o passo. As cores foram ficando mais nítidas: um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul. Um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul.

Chegou perto o bastante para identificar uma ambulância e um carro de bombeiros estacionados no acostamento. Mais a frente havia um carro capotado, parado bem ao pé de uma árvore no lado direito.

Aproximou-se. Os bombeiros tentavam, ao que parecia, socorrer alguém de dentro do veículo acidentado. Os paramédicos carregavam um corpo já ensacado para dentro da ambulância.

Encostado no caminhão de bombeiros estava um rapaz fazendo rápidas anotações em uma prancheta.

“Ei!”, ele disse.

Nenhuma resposta.

“EI!”

Nenhuma resposta.

O rapaz agora entrava no veículo para guardar a prancheta no guarda luvas.

“Ela morreu instantaneamente na batida”, ouviu um dos paramédicos falar.

Tentou contato com o mesmo.

“Ei!”

Nenhuma resposta.

“EI!!!”

Nenhuma resposta.

“Puta que pariu, será que alguém pode me ajudar???”, ele gritou.

Nenhuma resposta. Nem mesmo olhar para ele eles olharam.

Viu mais a frente uma moça chorando no meio da estrada. Ela observava a cena.

“Ei, moça!”

“Gabriel!!! Por favor, Gabriel!!!”, ela gritou desesperadamente em direção aos entulhos.

“Moça, vai ficar tudo bem!”

“Gabriel, não desiste! Não desiste! Você ainda tem chance, Gabriel!”

“Moça, os bombeiros vão retirá-lo, fica calma.”

Neste momento um forte clarão apareceu por entre os destroços do carro e, assim como veio, se foi.

Ela olhou para ele.

“Não vai ficar tudo bem.”

Um elevador surgiu aonde antes não havia nada. Ela apertou o botão para cima e entrou.

O elevador subiu rapidamente em direção ao céu.

Ele & Ela (,) – Capítulo II (Ela)

Ela abriu os olhos. Uma única luz amarelada fazia-se notar sobre um cobertor branco. Era um teto.

Estava deitada em uma cama com grades laterais.

Olhou para os lados e conseguiu identificar alguns objetos:

– Um ar-condicionado.

– Uma poltrona reclinável.

– Um banheiro.

– Tomadas.

– Um dispenser de parede para álcool gel.

– Uma janela com travas.

– Uma máquina de ventilação mecânica.

– Um suporte para soro e medicamentos.

Estava em um hospital.

Levantou-se e viu sua mãe sentada em uma cadeira quase que de frente para a cama.

“Mãe?”

Sua mãe a olhou com os olhos já marejados, abaixou a cabeça e começou a chorar.

“Mãe? O que eu tô fazendo aqui?”

Nenhuma resposta.

Deixou a cama. Estranhou o fato de não haver nenhum acesso em seu braço. Caminhou em direção à cadeira.

Aproximou-se e acariciou os cabelos de sua mãe. O pranto da mesma intensificou-se (de um patamar inicial de 85 decibéis, agora atingira o nível de 110 – volume este que é tolerável por apenas 15 minutos aos ouvidos de um ser humano comum).

Sua mãe não emitiu nenhuma resposta, afora as lágrimas que agora caíam mais rapidamente por seu rosto.

Tentou cutucá-la, chacoalhá-la mas, mesmo assim, nenhuma resposta.

Decidiu deixar o quarto e procurar algum enfermeiro que pudesse ajudá-la.

Prosseguiu em direção ao balcão de atendimento. Lá estava uma moça morena que aparentava estar estudando o prontuário de algum paciente.

“Moça.”

Nenhuma resposta.

“Moça!”

Nenhuma resposta.

“MOÇA!”

A enfermeira agora consultava seu celular.

Ela estava vendo um vídeo.

“Senhora? Senhora? A senhora é funcionária da Assembléia?”

“Ai, ai, esse país não tem jeito…”, disse a enfermeira.

“Moça, eu sei, mas quem sabe você pode me…”, disse ela.

A enfermeira agora parecia estar lendo algo muito engraçado em seu celular pois não parava de rir.

“HAHAHAHA, ai meu Deus! Esses memes! Esse povo é tudo louco, viu!”, falou a enfermeira, virando-se e entrando por uma porta.

Ela ficou consternada.

“Que porra tá acontecendo?”, ela pensou.

Decidiu procurar algum outro enfermeiro ou algum médico.

Enquanto passava por um dos quartos notou uma forte luz branca pela janelinha do mesmo. Mais a frente deparou-se com uma saída de emergência, trancada. Cruzou com duas vending machines: uma com salgados e outra com bebidas. Havia também uma máquina de café.

Continuou andando. Encontrou algumas pessoas pelo caminho e tentou fazer contato.

Nenhuma resposta.

Chegou ao fim do corredor.

Haviam ali elevadores com apenas dois botões: um para cima e outro para baixo.

Apertou o botão para cima. Ele se iluminou e se apagou. Apertou o botão para baixo. Ele se iluminou e se apagou. Tentou novamente o botão para cima. Ele se iluminou e se apagou. Tentou novamente o botão para baixo. Ele se iluminou e se apagou. Tentou várias outras vezes e em todas o botão se iluminou e se apagou.

Um rapaz, como que do nada, apareceu do seu lado. Calmamente apertou o botão para baixo. Dessa vez o botão não se apagou.

Em cerca de segundos o elevador chegou. O moço entrou. Ela tentou segui-lo.

“Esse não é seu.”, ele disse.

A porta se fechou.

Ele & Ela (,) – Capítulo I (Ele)

Ele abriu os olhos. Tudo o que podia ver eram pontinhos brancos que espalhavam-se sob um manto negro.

“O céu!”, ele pensou.

Percebeu que estava deitado. Haviam poucas nuvens acompanhadas de uma fina brisa naquela noite.

Virou a cabeça para o lado. Viu um coelho.

“Um coelho!”, ele pensou.

Decidiu examinar o que havia do outro lado.

“Árvores!”, ele pensou.

Aos poucos tentou levantar-se – sentiu fortes dores em locais que ele nem imaginava que existiam em seu corpo. Com um grande esforço, porém, depois de alguns segundos estava de pé.

Por alguns instantes coelho e árvores revezaram-se ao seu redor. Coelho. Árvores. Coelho. Árvores. Coelho. Árvores. Cambaleou. Por instinto fechou os olhos. O resultado não foi dos melhores. Coelhárvores. Coelhárvores. Coelhárvores. Abriu novamente os olhos e desta vez tentou fixá-los em um sicômoro, árvore que destoava das demais pela sua gigantesca copa. O coelho e as árvores passaram a girar de forma mais lenta, até que finalmente decidiram parar nos seus locais originais. Já o sicômoro havia sumido.

Após se recompor e adquirir coragem caminhou por alguns metros em linha reta.

Algo o estava incomodando. Não sabia se era o fato de não saber quem era, o que tinha feito em sua vida até ali, ter se esquecido do próprio nome, um sicômoro gigantesco ter sumido em sua frente ou a intensa dor de cabeça que agora o acometia.

Depois de alguns momentos de autoanálise decidiu que a prioridade naquele momento era sua dor de cabeça.

Passou as mãos e os olhos sobre o seu corpo para descobrir o que estava vestindo. Poderia existir algum tipo de remédio em algum bolso.

Percebeu estar trajando uma jaqueta verde musgo.

(Uma curiosidade sobre aquela jaqueta: ela havia sido adquirida há alguns anos pela pechincha de 15 euros numa cidadezinha chamada Colônia, na Alemanha, enquanto ele comemorava com seus amigos o carnaval local. Infelizmente ele não tinha nenhuma recordação sobre o fato).

A jaqueta possuía sete bolsos. Mas, ao investigá-los, não encontrou nenhum sinal de remédio. Achou alguns trocados, recibos (em sua maioria de estacionamentos) e duas balas mentol. Colocou uma na boca.

Agora concentrava-se na calça jeans. Quatro bolsos. Três tampinhas de longnecks e um papel com algo escrito, mas ilegível. Percebeu que o papel teria passado por, pelo menos, duas vezes em uma máquina de lavar.

Decidiu olhar para baixo.

“Amarelo. Duas. Cinza.”, pensou.

Estava no meio de uma estrada, com uma faixa que ia para um lugar e voltava de outro, e outra que voltava desse mesmo lugar e levava para outro. Em ambas as pontas a estrada se perdia por entre árvores, nevoeiro e escuridão. Não havia luz, não havia som.

Uma música começou a tocar em sua cabeça:

“There was blood and glass all over and there was nobody there but me…”

Pontadas acompanhavam o baixo e a voz de Bruce Springsteen.

Olhou novamente para onde o coelho estava. Não havia mais nada ali. Neste momento, o animal adentrava a floresta, buscando por sua toca.

“Coelho… quatro patas…”, ele pensou.

Olhou para as árvores, que começavam a balançar devido a fina brisa passava por ali.

“Árvore… verde…”, ele pensou.

Olhou para baixo, e viu marcas de pneu que se estendiam por cerca de dez metros, como se algum carro tivesse tentado brecar bruscamente.

“Estrada…”, ele pensou.

Então, um turbilhão de memórias  veio a sua mente, fazendo com que sua dor, que antes seria categorizada como um oito em uma triagem de pronto socorro, se tornasse um onze.

Em algum momento anterior ao seu despertar tinha sido atingido por um Celta verde enquanto caminhava pela estrada. O que ele fazia perambulando por ali, não fazia ideia.

“Eita.”, ele pensou.

Olhou para trás e viu sangue no meio da estrada. Seguiu a trilha vermelha no asfalto com os olhos até chegar a um vulto inerte estirado no chão…

Um corpo.

E o chapéu?

Acordei e foi como sempre. Odeio acordar cedo apesar de fazer isso há mais de 15 anos. Nunca acostumei, mesmo na escola, acordar cedo é para os nerds e os CDFs, era o que eu dizia.

Levanto, preciso tomar banho pois bebi demais ontem à noite e só dormi quando cheguei em casa, cheiro a alcool e cigarro. Não é a melhor combinação para a ocasião.

Banho tomado, terno colocado, café da manhã a ser tomado. Tudo em ordem, tudo ótimo, tudo como um comercial de margarina mostraria. Eu vivo um cliché. Odeio? Não, eu amo meu cliché. Amo minha esposa, que para mim é perfeita, amo minhas filhas que são o diabo na terra, mas quais crianças não são? Sim, eu amo meu comercial de margarina.

Após o café da manhã, deixo as crianças na escola, elas não precisam ver o que está vindo, elas ainda não são obrigadas a lidar com todo o pacote que a vida oferece. Elas podem simplesmente ser crianças. E eu invejo isso.

Chegamos ao funeral e ele está lá, com a mesma expressão de serenidade de sempre. A mesma expressão a qual ele me recebeu quando invadi sua casa do nada, quando pedi para que ele morasse comigo e quando o chamei de “pai” pela primeira vez.

Não, não esqueci o pai que me criou, que me levou para a piscina para os passeios, que me fez esquecer os barulhos esquisitos que a casa fazia. Esse pai… Ele não pode ser esquecido. Ele é o melhor pai do mundo.

Esse pai, o que eu estou olhando agora, ele me faz lembrar de todo o resto do meu dia: acordar, esquecer, banho, terno, café da manhã, escola, velório. Ele é o pai que participou do que nós chamamos de biologia. Ele é o pai que eu não tive, mesmo que eu não saiba o que isso signifique.

O chapéu e o gato ficaram. O chapéu não vale R$5,00 e o gato vale menos do que os remédios para asma, mas eles são meu pai. Ele são o que restou, o que eu tenho, e eu não vou largar. Eu tenho duas origens e as duas fazem parte de mim.

Lembra?

Lembra aquele dia que você escreveu que se perdeu e não sabia mais o que queria?
Lembra aquele dia que você chorou e tomou remédio para dormir porque tudo doía?
Lembra aquele dia que você sentiu o peso do vazio e a presença do nada?
Lembra aquele dia que você quase desistiu e pulou da murada?

Não faz isso, não se perde
Não chora, não esquece
Não desiste, não pula
Eu tô aqui, todos os dias, a qualquer custo.

Carta a Quem Interessar Possa IV

Oi amigo, tudo bem? Aqui as coisas até que vão bem. Eu tô com uma tosse há semanas, talvez devesse ir ao médico.

Mas não tô escrevendo pra falar de tosse.

Queria te contar que visitei onde eu morei por 10 anos, dos 9 aos 19. É um condomínio onde eu aprendi tanta coisa… Conheci sentimentos importantes também, como amizade, amor, traição, vingança. Foram 10 anos importantes e voltar pra esse lugar, mesmo que por 40 minutos, me fez chorar muito quando eu ia embora.

Não sei porque chorei tanto, não sei de verdade. Talvez saudade de quem eu era, da vida naquela época. Talvez.

Talvez seja o sentimento de comparar minhas lembranças infantis com a nova perspectiva. Aquele condomínio parecia gigante, com infinitos lugares para se esconder, para brincar, para beijar o primeiro amor, para contar segredos sem medo de quem ouviria. Era imponente.

E agora é tudo tão pequeno, tão simples, não intimida, não dá medo, mas continua a passar segurança. Sempre será a casa de primeiras vezes, será a casa da criança assustada, com 9 anos de idade, que não sabia se faria amigos. Da adolescente de 15 que se descobria, que achava que sabia o que queria e não queria. Do meu primeiro beijo, do meu primeiro amor não correspondido, do primeiro amor correspondido, das primeiras brigas entre amigos e amores, entre vizinhos.

A expectativa e exaltação de quando novas crianças ou adolescentes apareciam, primos ou sobrinhos de moradores. Criando laços e intrigas.

A guerra não declarada com os condomínios vizinhos e com o bairro de cima. Que nunca foi real, pois no fim todos acabaram amigos.

É assustador ver como as coisas mudam e, mais assustador ainda, como eu mudei. Como eu mal lembro de quem era. Me pergunto o que a Isadora de 12 anos acharia da Isadora de 26. Ela tinha tantos planos e ideias que eu não alcancei, que não consegui atingir. É doloroso pisar onde isso fica tão evidente, onde a Isadora de 12 está me olhando e me perguntando o que aconteceu, pra onde foi tudo o que ela queria ser.

Crescer dói. A gente esquece disso, mas eu tive a sorte de ser relembrada, de ter isso esfregado na minha cara. Muita gente esquece e não tem quem ou o que lembre eles, acho que isso não é bom. Da mesma forma que ficar preso ao passado faz mal, não visitá-lo às vezes também faz.

Sempre falam de equilíbrio e balanço, né?

Bom, no momento o único balanço que eu consigo pensar é no balanço do parquinho onde eu brincava e ralava os joelhos.

Paixão, amor e arco-íris

É esquisito se abrir pro mundo de novo depois de meses e meses se enganando, dizendo pra si mesma que você estava bem e pronto. Que você não conseguia se envolver com ninguém simplesmente porque não encontrou alguém que clicasse com você.

Mas não é bem assim. Leva tempo. E eu namorei, basicamente, por 9 anos direto com alguns meses de pausa aqui e ali, mas sempre voltando ao relacionamento sério.

Quando você vive tanto tempo envolvida seriamente com alguém (ou alguéns), voltar à vida solteira é difícil. Principalmente se você é como eu e seus namorados/namoradas eram seus melhores amigos, aquelas pessoas pra quem você conta tudo: desde a pessoa que tropeçou na escada do metrô hoje de manhã até o medo irracional que veio de lugar nenhum de que você vai ser demitida hoje.

Então, quando você perde isso, esse conforto, vem a tentativa de se abrir igualmente para os amigos. Muitos conseguem, fazem isso mesmo quando estão namorando. Eu não, eu sou mais fechada, prefiro não concentrar muita informação minha em mais de uma pessoa. Tenho pequenos satélites, pessoas com quem eu converso sobre assuntos X e Y, mas não sobre Z. E com quem eu converso sobre Z, não me aprofundo sobre X e Y etc.

Consequentemente, você se sente sozinha e, por isso, acaba com algumas paixões platônicas. É uma tentativa inútil de dizer “estou aberta sim, olha aí, eu sinto algo por essa pessoa” mas é tipo tirar a água de um barco afundando com uma colher. É só uma desculpa, um band-aid, uma pequena mentira que você diz pra si mesma para que não precise lidar com seu fechamento. É o estado de negação.

E assim vão os dias, as semanas, os meses, as pessoas. Pessoas legais entram e saem da sua vida, tentam te deixar à vontade para falar, para dividir e, por óbvio, você não consegue. E não é de propósito, não é porque você não quer, só não acontece, não sai. Você quer confiar, quer se apoiar, mas não dá.

Até que um dia a vida te dá um tapa na cabeça: tem alguém que te fez sentir algo, que te fez querer se abrir de novo, que só de estar ali já te deixa bem. E o que você faz? Surta. Surta bonito, porque foram meses longe desse sentimento, você até se convenceu de que não queria nada com ninguém, mas na verdade você só não tinha encontrado esse alguém ainda.

E não, esse não é um texto sobre amor, paixão e arco-íris.

Porque apesar de ter alguém que finalmente te tirou daquele coma emocional, não quer dizer que vocês serão um casal feliz para sempre. Na verdade, não quer dizer nem que vocês serão um casal pra começo de conversa. Só quer dizer que você finalmente tá pronta, que você não precisa mais se esconder ou fugir, quer dizer que você se deu tempo para se recuperar e voltar ao normal.

Essa pessoa, a que te ajudou a perceber isso, ela não te deve nada e você não deve nada pra ela. Caso vocês acabem sendo um casal: ótimo. Senão: ótimo também, tem várias pessoas por aí. Essa primeira só foi a o sinal verde de que internamente você se respeitou e se deu espaço para curar o que precisava ser curado, para mudar o que precisava ser mudado e criar novas ideias, novos desejos.

Esse não é um texto sobre amor, paixão e arco-íris. Esse é um texto sobre você parar de se enganar e aceitar que as coisas levam tempo, gafanhoto.

Uma história triste sobre Tristeza

Desde que me lembro nunca consegui entender porque ele é assim. Quando era criança, a minha mãe dizia que ele estava triste e por isso gritava e quebrava as coisas, televisão e som altos era culpa de uma surdez causada por ouvir walkman alto demais. Mas não era sempre que isso acontecida, nos finais de semana ele não estava triste e, por isso, não gritava e não quebrava nada, e a surdez também não dava as caras. Tudo era calmo em casa, quieto, a não ser por vezes que minha mãe chorava escondido e não falava com ninguém. Acho que ela fica triste de um jeito diferente.

A partir dos 9 anos eu comecei a ter amigos com quem brincar e tinha vergonha quando ele chegava cambelando e passava por mim e pelas outras crianças. Os mais velhos, com 12 ou 13 anos, desviavam o olhar, envergonhados por mim e por ele, os mais novos olhavam curiosos pra entender porque ele estava daquele jeito. Era uma doença? Uma brincadeira? Eu ainda achava que ele estava triste mas não absolvia o porquê da situação ser tão diferente de quando os outros estavam infelizes. Quando eu ficava triste só chorava, às vezes escondido e às vezes não, mas não precisava fazer que nem ele: cambalear, cheirar estranho e gritar comigo e com o meu irmão por coisas que eu não entendia.

Com 12 anos veio o câncer. Algo que os médicos poderiam ter descoberto antes, mas uns achavam que era um borrão no exame, outros nem enxergavam o “borrão”. Eu só fiquei triste, minha mãe estava triste e eu não conseguia ficar bem olhando ela daquele jeito. O tumor era operável e a porcentagem de tudo dar certo era alta, mas ela estava desesperada porque seu marido, seu amor, tinha um tumor. No dia da operação eu fui até o hospital com toda a família, incluindo tios e avós, ele já estava internado desde o dia anterior e eu o vi, dei um abraço e fui embora. Chorava muito, não queria dormir fora da minha casa, longe da minha cama e do meu irmão, que iria para a casa da Tia Lene e eu para a casa da Vó Ivone. Foram horas chorando sem parar e até hoje eu acho que não foi por ele, acho que foi pelo sofrimento da minha mãe e do meu irmão que eu observei tão de perto.

Três anos depois eu já era uma adolescente rebelde, com amigos virtuais e um ex namorado. Ele era um sobrevivente do câncer, que estava bebendo e fumando de novo. A nossa relação já não podia ser chamada assim, de “relação”, era uma convivência amigável nas noites e fins de semana sóbrios, nas noites em que ele chegava em casa, dava um beijo na testa de todo mundo e ficava sozinho no quarto, assistindo filmes antigos ou trabalhando. Noites felizes, ao contrário da maioria em que ele chegava e ainda gritava e quebrava coisas. Mas agora eu entendia o que ele falava, entendia os palavrões, os insultos e as revoltas. Revoltado com pessoas da empresa, do bar ou da televisão, mas ele descontava em mim, a filha mais velha que ficava tempo demais no computador, que nunca falava com ele e nunca respondia nada quando ele perguntava qualquer coisa de porre. A raiva que sentia por ele aumentava e comecei a sentir a mesma coisa pela minha mãe e irmão. Ela observa o sofrimento dos filhos e ainda está casada com ele, enquanto meu irmão sofria mas conseguia perdoar tudo rapidamente, como se o que a gente ouvisse fosse algo bobo, de uma criança. Acho que a raiva vinha da inveja de não ter essa capacidade de perdoar e esquecer.

22 anos, eu trabalho, estudo e não fico em casa direito. Saio as 11 e volto meia noite, quem aguenta tudo é a minha mãe. Com ele a relação continua tão monossilábica quanto antes, há mágoa demais e perdão de menos pelas duas partes. Ele não se perdoa e eu também não o perdoo, ele tem mágoa por isso e eu tenho mágoa por tudo.

35 anos, casada, dois filhos e um emprego que eu amo. Minha família é o contrário do que foi aquela onde eu cresci. Ninguém berra, xinga ou deixa a mágoa impregnar no corpo, o diálogo existe e somos quase uma porcaria de clichê de filme americano. Recebo o telefonema do meu irmão. Ele morreu. Teve um enfarte fulminante em casa, sóbrio, mas nem chegou ao hospital e minha mãe precisa de ajuda. Ela não está em choque, chorando sem parar ou algo assim, na verdade ela não chorou e não consegue parar quieta. É assim que ela fez em 2010 com o meu avô, alguns anos depois com a minha avó e agora com ele. Há meses eu não o via, muito menos meus filhos que sempre perguntam do vô e da vó, mas eu ainda não conseguia lidar com as pessoas que me ajudaram a ser tão amarga.
Agora ele se foi, nunca mais terei a oportunidade de tentar e ter um pai de verdade, que eu ligo quando preciso de conselhos e que joga bola com meus filhos nos feriados.
A verdade é que eu estou brava, não pelos mesmos motivos de antes, mas por ele ter ido sem eu conseguir conversar, sem ter dito “tudo bem, pai, já passou e ficar guardando essas coisas não adianta, não fica assim”, ou “pai, eu já te desculpei e agora vamos mudar de assunto porque o Palmeiras vai jogar”, ou só “claro que eu te desculpo”.

Vivendo com Ansiedade I

É tudo sobre as pequenas coisas.

Meia hora de distração significa meia hora sem lembrar da pedra que carrego no fundo do estômago e que me deixa nervosa o tempo todo, como se a vida estivesse passando numa tela bem na minha frente em slow motion e eu só estivesse assistindo enquanto vivo a 200km/h.
Um episódio de uma série que eu gosto, alguns capítulos de um livro bom, conversa com alguém que faça o relógio andar numa velocidade normal: pequenas coisas que fazem a existência um pouco menos dolorida.

Eu conto o dia de meia em meia hora. “Daqui a meia hora posso me trocar”, “daqui a meia hora posso sair”, “em meia hora posso começar a limpar o quarto, então termino quando tiver faltando 1 hora para almoçar, então posso ver 2 episódios de meia hora de uma série”.

E não pode ser qualquer série, quem dera fosse. Séries trazem sensações e algumas dessas sensações não distraem da pedra no estômago, na verdade só me fazem lembrar dela mais ainda.

Não estar trabalhando também não ajuda, não tenho com o que me distrair o dia todo, não fico cansada como normalmente ficaria. Fico mentalmente cansada, mas meu corpo continua bem e desperto porque eu não fiz nada com ele.
Exercícios físicos são uma resposta óbvia para esse problema, mas eles me deixam ansiosa também. 15 minutos correndo e eu me pergunto “por que ainda não me distrai? Por que ainda tenho a pedra aqui comigo? Qual o meu problema?” e desisto. O ponto deve ser “não desistir” nesse caso, mas entro em pânico percebendo que ainda estou ansiosa mesmo correndo e isso acaba me deixando pior.

Talvez o problema não seja esquecer a pedra ou sumir com ela, mas só aprender a conviver em harmonia. Provavelmente ela não vai embora e eu não posso só me deixar afundar como ela afundou na minha barriga.

Só que eu não sei se estou no caminho certo. Tenho remédios, tenho terapia, tenho amigos, tenho tudo. Mas ainda sinto como se estivesse vivendo na 5ª marcha enquanto o resto do mundo está na 2ª.