Ele & Ela (,) – Capítulo III (A Estrada)

Ele aproximou-se do corpo. Era um jovem em seus 20 e poucos anos. Estava estirado no meio da estrada, a parte superior numa faixa, a parte inferior na outra.

Nitidamente, o que é que houvesse acontecido com aquele rapaz resultou em um grande ferimento em sua cabeça.

Estranhou o fato do corpo estar trajado com uma jaqueta completamente igual a sua. Estranhou também o fato de suas jeans serem completamente idênticas.

(Se não fosse sua perda de memória perceberia que ali jazia o seu próprio corpo. Infelizmente sua falta de recordações lhe privava de lembranças, tais como a vez em que havia ganhado uma bicicleta em um sorteio aos cinco anos, do fato de já ter bebido tequila com larva em um de seus aniversários e o que ele fazia perambulando por ali. Mas, mais importante naquele momento era a sua completa ignorância a respeito de como era sua própria face)

Ele pensou em ligar para o serviço de emergência, porém só lhe restavam 3 tampinhas de longnecks, uma bala mentol, alguns trocados e o papel que havia passado por pelo menos duas vezes na máquina de lavar. Não havia nada a ser feito.

Decidiu seguir a estrada. Ele poderia encontrar algum telefone de emergência a beira da rodovia ou então acenar para algum carro que estivesse passando.

Olhou para os dois lados do caminho. Idênticos. Resolveu seguir um deles.

Caminhou cerca de 800 metros e deparou-se com uma placa.

“41 Km”

Prosseguiu por mais um tanto e encontrou outra sinalização.

“42 Km”

Resolveu voltar. Independente de onde vinha e para onde ia aquela via, suas maiores chances de achar um centro urbano era se dirigir em direção ao kilometro 0.

Passou pelo corpo. Sentiu calafrios ao olhá-lo novamente.

Decidiu ignorá-lo e focar em seu objetivo.

Prosseguiu em sua caminhada. Era difícil se concentrar com sua forte dor de cabeça, que agora estava em um nível nove.

40. 39. 38. 37. 36… Pouco mudava ao seu redor. As árvores continuavam permeando ambas as encostas do caminho. Nenhum carro passou, em nenhuma das direções. A única distração, se é que podemos classificar isto como distração, eram as curvas acentuadas que desenhavam aquela via. Para ele já era difícil caminhar de forma digna em linha reta. As curvas tornavam a tarefa ainda mais difícil.

Decidiu encará-las como um jogo. 20 pontos por curva feita de forma correta. -10 a cada vez que caísse em uma das valas. Após 5 kilometros sua pontuação era de -60.

Caminhou por mais 3 kilometros até que avistou luzes piscando por entre a neblina na distância. Apertou o passo. As cores foram ficando mais nítidas: um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul. Um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul.

Chegou perto o bastante para identificar uma ambulância e um carro de bombeiros estacionados no acostamento. Mais a frente havia um carro capotado, parado bem ao pé de uma árvore no lado direito.

Aproximou-se. Os bombeiros tentavam, ao que parecia, socorrer alguém de dentro do veículo acidentado. Os paramédicos carregavam um corpo já ensacado para dentro da ambulância.

Encostado no caminhão de bombeiros estava um rapaz fazendo rápidas anotações em uma prancheta.

“Ei!”, ele disse.

Nenhuma resposta.

“EI!”

Nenhuma resposta.

O rapaz agora entrava no veículo para guardar a prancheta no guarda luvas.

“Ela morreu instantaneamente na batida”, ouviu um dos paramédicos falar.

Tentou contato com o mesmo.

“Ei!”

Nenhuma resposta.

“EI!!!”

Nenhuma resposta.

“Puta que pariu, será que alguém pode me ajudar???”, ele gritou.

Nenhuma resposta. Nem mesmo olhar para ele eles olharam.

Viu mais a frente uma moça chorando no meio da estrada. Ela observava a cena.

“Ei, moça!”

“Gabriel!!! Por favor, Gabriel!!!”, ela gritou desesperadamente em direção aos entulhos.

“Moça, vai ficar tudo bem!”

“Gabriel, não desiste! Não desiste! Você ainda tem chance, Gabriel!”

“Moça, os bombeiros vão retirá-lo, fica calma.”

Neste momento um forte clarão apareceu por entre os destroços do carro e, assim como veio, se foi.

Ela olhou para ele.

“Não vai ficar tudo bem.”

Um elevador surgiu aonde antes não havia nada. Ela apertou o botão para cima e entrou.

O elevador subiu rapidamente em direção ao céu.

Como acontece I

Primeiro, não conseguem se cansar do outro. Horas e horas conversando, todos os dias, sobre tudo. É como heroína para um viciado, nunca é o bastante e a sensação deve ser o que dizem ser de um cérebro completamente feliz.

Veem coisas na rua e lembram um do outro, fazem mini surpresas com presentinhos – para mostrar como se importam, como lembram, como amam.

Todas as músicas felizes de amor são sobre eles. E, eventualmente, encontram aquela que será marcada para sempre como deles. A vida é boa, faz sentido, ambos tem tudo o que importa.

A primeira viagem juntos é combinada em 2 dias, pois a ansiedade não dá espaço para a espera. Mas não vai embora enquanto o dia marcado não chega, é como finalmente encontrar um poço escrito “felicidade” e ele está a dias de distância.

Um fim de semana sozinhos, conhecendo um novo lugar, um ao outro, comendo, rindo, dormindo… E há quem duvide que perfeição exista.

A viagem acaba, cada um vai para sua casa, mas já estão conversando por mensagem no celular. A distância já dói. Internamente os dois se perguntam quando irão morar na mesma casa e dividir tudo como tanto tem vontade.

Com o passar das semanas a ânsia de conversar o tempo todo diminui mais por um lado do que pelo outro. Um deles está tentando uma promoção no trabalho, o outro quer se demitir. O primeiro não tem mais tempo de falar o dia inteiro no celular, o segundo guarda mágoa por isso.

A primeira briga chega como uma chuva de verão, aquele tipo de chuva quando o céu permanece cinza por dias e, no dia certo, o dia parece noite. As nuvens mais escuras se aproximam lentamente primeiro, depois chegam de uma vez. E a discussão que começou porque um deles dormiu em vez de ligar pro outro, vira uma briga sobre todas as pequenas coisas ignoradas durante o início mágico e perfeito.

As pazes trazem uma sensação ainda maior de felicidade, pois trazem alívio junto, é a prova de que o amor deles pode superar até a pior tempestade dos últimos 5 anos. Tudo é calmo e alegre, como aquele dia perfeito da primavera. Sol, um parque, a grama e crianças correndo em volta. Nada pode acabar com aquilo.

Obviamente outras brigam vem, maiores ou menores do que a primeira, e deixam marcas profundas na memória ou não são lembradas depois de 10 dias. Coisas boas também. A rotina se estabelece com alguns pontos positivos e negativos periodicamente.

O problema da rotina é que ela é como a tempestade da 1ª briga. É o elefante branco na sala. Eles ignoram, fingem que não veem aquele céu cinza escurecendo a cada dia, ou aquele elefante bebendo água da fonte de decoração da estante. Pois ninguém quer brigar, ninguém quer assumir que tem algo errado. Dói pensar que não está dando certo com alguém tão amado. Eles esquecem que a rotina mata.

Esquecem que rotina, brigas, preguiça etc. fazem parte da vida de casal, que tudo isso é normal e precisam enfrentar ou estão estancando o buraco negro com um band-aid super desenvolvido. Se comportam como crianças com medo do bicho-papão, a possível confirmação dos seus medos: aquilo não é para sempre.

Continua.

Felicidade

A sensação quente enche o braço, transcorre pelas mãos, pelos dedos, pinga em volta.

A mente lembra de momentos aleatórios e desconexos. Como aquele dia em que acordei no parque e o sol estava quente, mas não quente desagradável, e sim como entrar em casa depois de andar na rua quando está frio. Uma quentura que te acolhe e te abraça e passa segurança.

Também lembro do dia em que visitamos um parque novo, sentamos na grama e ouvimos nossa banda preferida enquanto tirávamos fotos e acreditávamos que nunca acabaria.

O dia em que conversamos e concordamos que precisávamos dar um jeito de ficarmos juntos, porque a vida era ok quando separados, mas muito melhor um com o outro.

Aquela vez em que implorei para você não ir embora enquanto as lágrimas escorriam sobre meu rosto. Quentes por menos de 2 segundos, então frias como os seus olhos ao olhar os meus.

O dia em que cozinhamos e brincamos e rimos e comemos e dormimos, um dia tão simples, mas, ainda assim, tão completo e perfeito.

Quando decidimos que éramos eternos.

E o dia em que chorei abraçada em você, porque guardei coisas demais e meu corpo não aguentou o que minha mente planejou. E até hoje lembramos de Vanguart por causa disso.

Todas as vezes que, mesmo sem pedir, amigos me apoiaram e mandaram mensagens ou ligaram para me lembrar de que eles estão sempre ali.

Os cachorros, os gatos, os filhotes. Os livros, os filmes, as discussões, as brigas, as pazes.

Minha mãe. Minha avó. Meus amigos próximos. Ah, é tão bom pensar neles.

Mas a quentura diminui com o passar dos segundos. Um arrepio, o frio, a tensão automática quando meu cérebro percebe que algo deu errado, os músculos relaxando quando meu cérebro percebe que não tem mais o que fazer, então ele resolve desligar.

O sangue fora faz falta dentro, então não sinto mais nada, só algo comparado ao sono.

Não tem mais dor, lembranças, quentura ou frio. Só névoa e a sensação de estar caindo no sono. O sono merecido depois de tanta dor.

E morreu (eu, no caso) VI

Parte V

Eu gosto de relembrar essas coisas. Amigos, namorado, dias legais, me faz sentir que minha vida foi bem vivida e aproveitada. É estranho uma pessoa suicida dizer isso?

De qualquer forma, agora o velório está mais quieto, minha mãe foi dormir em casa um pouco, então meu pai e irmão ficaram, mas meu irmão precisou dormir no carro para não cair dormindo na minha cara (seria uma baita cena). Então sobrou meu pai, um tio do Paraná que eu vi 1 (uma) vez na vida e eu. Talvez “eu” conte por 2, então até que era uma quantidade respeitável de seres por ali.

Eu, mesmo fantasma ou espírito ou seja lá o que eu virei, conto. Posso não ser um ser vivo, mas eu sou um ser… Sei lá do quê. Segundo o materialismo, nós existimos enquanto sentimos, física e emocionalmente, então eu… Sou. Se você discorda, que vá discutir com o Gottfried Leibniz.

Talvez eu tenha moldado um pouco a teoria a meu favor? Sim, mas como eu morri e vocês não, meu voto vale mais. Obrigada.

E enquanto eu tento relembrar mais sobre materialismo, sei que até o Marx enfiou algo sobre isso no Comunismo, PLAU surge uma pessoa de cabelo longo, calça jeans, camiseta azul clara, chinelo e expressão de quem está fazendo o que não deveria. Um cara. Um cara esquisito. Um cara esquisito que surgiu do nada e que estava olhando diretamente para mim (“mim” leia-se: quem está contando a história, não quem está deitada na caixa de madeira com algodão no nariz, na garganta e em todos os orifícios possíveis [que fase]).

– Olá – disse o jovem esquisitão.

– … Oi? Por que você tá falando comigo e não com meu corpo no caixão? Você é uma daquelas pessoas que fazem projeção astral e ainda enxergam espíritos? Ou eu estou vendo coisas? Tem como um espírito, ou o que quer que eu seja, ser esquizofrênico pós-morte? Porque em vida eu fui muita coisa, mas não fui esquizofrênica. Eu acho. E se eu fui? Será que eu imaginei tudo que aconteceu? Será que eu tô imaginando tudo isso enquanto estou internada em um hospital psiquiátrico? MEU DEUS ALGUÉM ME AJUDA EU NÃO POSSO TER FICADO MALUC – fui interrompida no meio do meu surto psicótico.

– Primeiro: eu posso te ver e falar com você porque sim. Ainda não é hora de explicar; segundo: por favor, não me ofenda dizendo que sou uma daquelas pessoas que ingerem quantidades exageradas de psicotrópicos e saem dizendo que viveram uma “projeção astral”; – sim, ele fez aspas com as mãos – e terceiro: como você consegue falar tanta asneira e tão rápido? Acredito que não seja esquizofrênica, mas talvez tenha acabado de ter um quase ataque de pânico misturado com crise psicótica. Ainda bem que não temos facas por perto – E riu da própria piada.

Ele falava sorrindo o tempo inteiro, um sorriso de canto, como se ele estivesse sendo sarcástico o tempo inteiro, e mesmo assim a sua postura e seu olhar criavam ares de alguém importante. Como se eu estivesse perante um aristocrata do mundo dos mortos.

Ao mesmo tempo que fiz minha análise do indivíduo, tentei pensar numa resposta:

– Não dá para matar quem já morreu.

– Oi?

– Você falou “ainda bem que não temos facas por perto” como se, no meu surto, eu pudesse te matar. Eu já morri, você surgiu do nada, então acredito que também já tenha morrido, ou seja, não tem como te matar novamente. – concluí com um tom de “eu posso ser trouxa, mas não sou só isso, colega”.

– Ah, isso será muito divertido. – ele respondeu com o mesmo sorrido sarcástico e PLAU sumiu como apareceu: do nada.

Definitivamente tem muitas novidades nessa pós-vida. Quando pensava na morte enquanto viva, nunca imaginei que seria tão movimentado, que existisse isso de aparecer e desaparecer e que um cara, que chama drogas de “psicotrópicos”, viria no meu velório para me chamar de maluca.

O que será que vai acontecer quando esse velório infinito acabar? Eu quero ver o cemitério, ver o Assis (espero que não tenham esquecido dele lá na Parte I) e descobrir como é um pós-vida sem gente viva chorando no meu corpo morto.

E morreu (eu, no caso) IV

Parte III

Voltando ao atual status da minha (pós-) vida, chegou uma das piores horas.

Não sei se vocês já tiveram, ou tem, aquela sensação de só olhar para alguém e pensar “eu te amo” enquanto a pessoa está comendo macarrão e com o rosto todo sujo de molho. Eu tive.

E ele chegou. Enquanto tios, tias, avós, avôs, conhecidos, gente que eu nunca vi na vida, cercavam meu caixão marrom-cor-de-depressão, ele ficou na porta do velório. Olhando de longe, com as mãos no bolso da jaqueta (pelo jeito estava frio, todo mundo estava com mil blusas e andando igual aquele fantasma gigante de marshmallow de Caça Fantasmas) e olhando para a direção de onde eu estaria.

Mesmo depois de morrer, mesmo não sentindo coisas, meu Eu Fantasma precisou chegar até ele, ficar perto. Não tive coragem de tentar encostar, porque se eu atravessar ou sentir ou bater em uma barreira invisível, vou querer morrer de novo. E isso deve dar trabalho.

Ele estava triste, mas não chorando. Conheço ele. Chorou muito quando recebeu a notícia, se trancou no banheiro do trabalho e chorou por… Com certeza muito tempo. E em casa ele chorou mais, até dormir, e até chorou um pouco quando acordou, pensando em como seria chegar aqui. Não me levem a mal, não estou dizendo que nossa, eu era tão maravilhosa que mereço as Cataratas do Niagara em água salgada… Eu só o conheço. Ele sofre sozinho, engole tudo, e no meio de todo mundo vira uma pedra onde todos podem se apoiar. Talvez ninguém use o apoio, mas ele tem um jeito que só se olhar para ele você sabe que pode se apoiar. É como uma poltrona muito confortável na loja de móveis que você não precisa sentar, mas que talvez, quem sabe, você sentará só porque ela é confortável.e vai te deixar um pouco mais feliz.

E essa foi a primeira vez que eu meio que me arrependi.

Meus pais chorando? Não. Meu irmão deprimido, mal conseguindo falar? Pfff, por favor. Minha avó dizendo que não aguenta mais perder pessoas amadas? Passeio no parque.

Mas ele, com as mãos na jaquetas, tentando me ver de longe, porque pisar na sala do velório em si seria absurdamente dolorido e tornaria tudo 100% real, doeu.

Doeu tanto que pensei em deitar em cima do meu corpo pra ver se meu Eu Fantasma conectaria de novo com meu Eu Morto, mas eu não conseguia me mexer, não conseguia sair de perto dele, funcionava como um imã, só que para namoradas mortas.

Eu queria pedir desculpa, queria abraçá-lo, queria tirar ele daquele lugar deprimente e levá-lo para comer pizza. Mas não podia. Mal podia sair de perto da porcaria do caixão, quem dirá ir para a pizzaria mais próxima com meu namorado vivo. Fora que a situação toda seria esquisita, ele chegando na pizzaria e pedindo mesa para dois e o atendente vendo só ele e todo desconforto de parecer esquizofrênico.

O quanto você aceitaria libertar seu sofrimento em detrimento do sofrimento alheio? Sofrimento dos seus pais, irmãos, tios, avós, namorad(o/a)?

A nossa existência, normalmente, se limita a nós. Mas, ao mesmo tempo, aos outros.

Qualquer pessoa que já pensou em se matar também considerou como seria a vida após a dela terminar. Como seus pais, filhos, marido/namorado, amigos, parentes reagiriam? Como seria cada postura em frente ao seu caixão? Pois bem, sempre pensei nisso, mas, apesar de imaginar como seria a sua reação, isso não foi alívio.

Talvez tenha sido mais dolorido por saber sua reação e ainda assim seguir em frente com meus planos. Meu egoísmo se cruza com a esperança de perdão e aceitação da  tal dor. A dor de perder um amor da vida. A dor de ver uma pessoa desistir de tudo, inclusive de você. Quanto isso te dói?

Enfim, sim, eu estou meio arrependida.

Parte V

E morreu (eu, no caso) III

Parte II

A rotina.

2 anos antes.

Acordar. Acordar, enrolar na cama, pensar se não vale a pena inventar uma desculpa e chegar mais tarde, olhar as mensagens no celular, responder algumas, ignorar outras e perceber que se passaram 15 minutos.

É por isso que eu gosto de acordar 1 hora antes de sair para trabalhar. Sim, odeio acordar rápido, sair correndo, escovar os dentes enquanto coloco o sapato e visto a calça. Não, não é para mim. Sim, amo dormir, dormir e comer, mas também gosto de ter meu tempo para tudo. Portanto, sim, eu acordo 1 hora antes de sair para o trabalho. Ou você aceita ou pode me processar. Na verdade, como eu morri, não pode não. Mas agora vou contar a história ambientando 2014, então talvez você possa sim me processar do presente no passado. Algum físico quântico aí pode me ajudar nessa questão?

Enfim, acordei, levantei, coloquei a roupa, escovei os dentes e sentei no sofá com a bolsa do lado para poder assistir um pouco de TV e enrolar antes de sair. Eu gosto dessa rotina. E eu gosto de ver TV antes de trabalhar, senão eu fico totalmente por fora de tudo que acontece e pareço criança no meio dos adultos nas conversas do almoço na firma.

Eu sou muito distraída, avoada, indiferente (mas não do jeito “too cool for school, eu não ligo para vocês, mortais” e sim do jeito “vivo tanto no mundo da Lua que o se o Silvio Santos soltar um aviãozinho na minha cabeça, não vou perceber) e isso me fez parecer distante. Na verdade, eu vejo todo mundo, observo, ouço, só não gosto de fazer barulho, ser o centro das atenções, falar. Falar está, definitivamente, em um lugar muito baixo na minha lista de prioridades, próximo de comer bacalhau, ler Paulo Coelho e dividir minha comida. Mas ver pessoas, ver como elas são, como reagem às coisas, às outras pessoas, é meu passatempo preferido e meu jeito de sobreviver no meio de gente. Porque ficar sozinha é outro passatempo preferido.

Não que eu não goste de gente, mas é difícil. É cansativo. É como se eu entendesse tão bem o que todos sentem, que acabo sentindo, então viro um catalisador de sentimentos. E se você é uma pessoa que convive em sociedade, com certeza encontra um número considerável de pessoas por dia e bom, acho que não preciso explicar além disso.

De qualquer forma, no ônibus para o trabalho eu leio. Me obrigo a ler porque o caminho para o trabalho ou faculdade sempre foi o momento da leitura e, mesmo após a ansiedade e os celulares com internet rápida demais, jogos, redes sociais, mensageiros instantâneos e vídeos de gatinhos, minha leitura ficou escassa. E eu odeio isso. Gosto de ler. Sabe a Rory de Gilmore Girls? Sou tipo ela, mas sem a pele perfeita, os olhos azuis, os avós ricos e Yale. Na verdade, nossa única semelhança é o amor pelos livros. Talvez ela não tenha sido a melhor comparação.

Desço do ônibus e preciso andar uns 10 minutos até o trabalho, continuo lendo, correndo risco de ser atropelada por carros, motos, bicicletas, monociclos, patinetes, pessoas, gatos, cachorros, elefantes (se eu morasse na Índia), bebês etc. Mas quando o livro é bom e a gente sabe que vai passar 8 horas longe dele, afinal, almoço é hora de socializar, precisamos aproveitar ao máximo.

Chegar no trabalho, dar bom dia para todo mundo que aparece, mas com principal entusiasmo para o porteiro, a recepcionista e as faxineiras. São minhas pessoas preferidas do trabalho. Meus colegas ainda não chegaram, então tenho alguns minutos sozinha e isso  vale ouro no planeta de onde venho.

Almoço, conversas, pessoas legais, pessoas não tão legais, pessoas. Alguém vai sair da empresa, outro alguém começou a namorar, mas outro alguém acabou de terminar um noivado de 8 anos. Enquanto isso, outro alguém está grávida e vai sair de licença maternidade eventualmente, então precisamos de um temporário para o lugar. Futebol, política, religião, novela, jornal, o presidente, o chefe, o moço bonito da padaria da esquina.

Vejam bem, eu gostaria de participar de alguns desses assuntos, de verdade, e não para corrigir e fazer discurso e parecer incrível, só unicamente porque quero participar. Mas  (na maioria das) às vezes não consigo, fico esperando uma brecha para poder entrar e ela não aparece e eu tenho medo de falar algo e todos me olharem como se eu fosse um peixe andando de bicicleta numa esteira de academia. Então eu só como minha comida, olho, escuto, faço sons de quem está prestando atenção, mexo a cabeça e espero.

Não é chato, não é ruim, mas às vezes seria bom conseguir participar.

Parte IV