Sem título

2º texto enviado para nós pelo projeto de contribuição dos leitores!

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Sou boa em física, sempre fui, sempre gostei desse lance de estudar o porquê das coisas, de entender o universo, talvez porque eu não consigo me entender. Conheci um garoto que me fez encontrar sentido na frase “os opostos se atraem”, lei básica da física: cargas opostas se atraem, positivo e negativo tendem a ficar juntos. Eu de touro, ele de leão. Eu focada no futuro, ele nem acreditava que teria um. Eu  uma tagarela incurável, ele um ouvinte perfeito. Eu acreditando que nunca mais amaria alguém, ele nem sequer tinha amado. Pois é, tinha tudo pra dar errado, mas deu certo, por pouco tempo, mas deu. Eu amei ele, ele me amou, mas tive que deixar ele ir porque ainda não sei amar direito, tenho medo das coisas que sinto, tenho medo das coisas que não sei explicar. A fórmula pra peso é igual a massa vezes gravidade, mas nem ela seria capaz de calcular o peso que caiu sobre o meu coração de ver ele com outra, rindo pra outra, todos os risos eram meus, e agora são dela. Lamento muito tudo isso, mas só tenho a mim mesma pra culpar. Quem sabe um dia eu consiga me entender e consiga amar alguém sem ter medo do que vai acontecer, quem sabe um dia me sobre coragem pra arriscar nas coisas imprevisíveis.
-Anônimo

01.01.2016

Projeto de publicação de textos enviados para nós. Aqui vai o primeiro:

(Originalmente escrita em 01/01/2016)

Parecia uma peregrinação. Uma romaria. Para alguns, talvez até mesmo uma cruzada. Um sem-número dos mais variados tipos de pessoas seguia em fila, no escuro, como se tal movimentação fosse uma espécie de sina. Apesar da falta de iluminação, todos ali seguiam o mesmo trajeto que a humanidade faz desde que se estruturou: o caminho do mar. Logo chega a areia. Ainda úmida pela maré do fim da tarde, ainda quente pelo calor que a umidade retém. Apesar da escuridão, é possível distinguir pequenos grupos de pessoas. A maioria é de famílias e amigos próximos, mas há sempre o dos amigos, dos conhecidos e até os dos desconhecidos. Um pouco de tudo, em detrimento de todas as diferenças. As semelhanças, por mais triviais que sejam, são o que chamam a atenção: as garrafas de bebidas — baratas ou caras, nacionais ou importadas: a universalidade do ébrio é inquestionável -, velas acesas e orações sendo murmuradas. Um pouco de aflição mas, principalmente, sorrisos. Dos mais diferentes tipos e intensidades, mas todos carregados do mesmo sentimento. O fim do ano se aproxima. Estamos nos últimos momentos de 2015. Ao longo da praia já são visíveis explosões dos fogos de artifício. O tempo que o som leva pra chegar de lá até o presente local é curto, mas já é o suficiente para fazer com que os mais atentos comecem o estouro de suas bebidas gaseificadas e suas marchas em direção ao infinito onde o céu encontra o mar. O ponto onde os deuses se encontram. Onde há paz. Onde nada chega, mas tudo almeja. O estouro dos fogos faz-se generalizado. Já é ano novo em toda a praia, e não apenas naquele ponto longínqüo. Não era uma corrida, tampouco um só evento, mas foi dada a largada. Independentemente das querelas, angústias e sofrimentos, a costa enche-se de abraços, lágrimas de felicidade, beijos e indistintas declarações de amor. O céu, apesar de claro e aberto, está sem lua, dando à escuridão o direito de reinar. Mas nem mesmo o horizonte permaneceu incólume à contínua linha de frente composta de branco que adentra o atlântico. Uma linha que avança em cada ponto a seu próprio modo, mas continuamente, até onde a vista alcança. Todos olham fixamente para frente. Para o passado. Para o futuro. Para o mais distante do mar. Alguns pulam ondas, alguns contemplam o momento. Alguns simplesmente entram sem muita cerimônia. Mas a constante é o respeito, por mais que dissimulado. É quando colocamos de lado todas as — literalmente — histórias de pescador acerca da temerosidade que o mar nos desperta. Neste dia acolhemos apenas as que envolvem a magnanimidade e a beleza do “azul” em “planeta azul”. O mar é imponente. Ele castiga. Destrói. Mas também afaga. Naufraga embarcações mas também lava almas. Basta saber ter respeito. E, neste dia, almas foram lavadas. Dado fim às formalidades ritualísticas, resta a muda contemplação de tudo o que acontece simultaneamente. Seja a surpresa de um céu limpo, seja o imponente rugido do mar, o sentimento de paz reinante ou o show de fogos. Show de fogos, este, a única fonte de iluminação. Entre zunidos ligeiros, ribombos grosseiros e explosões amorfas, os mais diversos brilhos, cores e sentimentos iluminam por alguns segundos os rostos aliviados e tranqüilos da platéia de branco. E, na intermitência de luzes, sons e olhares, um mudo, silencioso e sincero sorriso resplandece no rosto dos dois, num inefável e imprevisível encontro dos olhos. Um igualmente mudo sentimento do amor ressoa em suas mentes enquanto as faíscas no céu brilham na profundidade de seus olhos. No obscuro de seus corações, ao menos hoje, há um brilho que ilumina todas as cavidades cardíacas, até mesmo as há tempos abandonadas.

Por: Gabriel Teixeira https://medium.com/@gabrieltxg