E morreu (Eu, no caso) XI

Parte X

2 meses antes.

Qual é o meu problema? Por que não consigo ser feliz? Por que tanta ansiedade e desconforto na minha própria vida? Eu não assinei nada disso no contrato.

Ir dormir virou mais uma parte deprimente do meu dia, pois eu sei que não vou conseguir ter um sono decente e ainda vou acordar super cedo e ter um dia longo. Longo porque eu não tenho nada pra fazer o dia todo, longo porque passo o dia ansiosa e desesperada por algo que não sei o que é.

Meus pulsos já não aguentam mais tantas cicatrizes. E eu já não aguento mais tantos olhares sobre eles quando estou no ônibus ou no trem.

Meu limite parece me esperar a cada esquina, a cada 5 minutos que levam 20 pra passar. Quando que eu deixei de ser a pessoa feliz e com vontade de viver para ser esse fantasma que mal reflete o que um dia já fui?

Não sei se os remédios ajudam ou atrapalham, não sei o que fazer ou o que pensar pois não sei se sou eu, a depressão ou os remédios pensando. Quem toma as decisões? Quem está no comando?

Eu não sei.

Sinto que não sou eu, eu não sou assim, eu não vivo assim. Mas se eu não faço nada, se eu só me deixo afundar, a culpa é tão minha quanto da doença e dos comprimidos.

Sinto saudade de sentir prazer. De sentir alegria. De esperar por algo, qualquer coisa.

Na verdade nem tudo está perdido, tem alguém que me faz pensar no “e se”, que me faz esperar pelo fim de semana, que é quando poderemos nos ver. Tem. Mas eu sou muita coisa pra ele lidar, muita coisa pra qualquer um lidar.

Eu mesma não sei lidar.

E morreu (Eu, no caso) X

Parte IX

Eu estava contemplando a vida (morte?) e ele entrou.

Ele, sempre com aquele jeito perdido e meio torto, de quem não está 100% confortável na própria pele. Sempre, desde que nos conhecemos, ele tem esse jeito. Como se aguardasse que algo o assustasse do nada, apesar de tentar fingir confiança. Era engraçado.

Nós ficamos juntos por 3 anos. 3 anos marcados por idas e vindas, e mais idas e vindas. Nossas personalidades são explosivas demais, mas não queríamos aceitar a distância, então sempre voltávamos. Até o último dia.

No último dia, nós havíamos terminado há alguns meses, talvez 4? E eu acabei o encontrando em um dos milhões de jogos que nós dois sempre íamos. Como o término não foi brigado, acabamos assistindo o jogo juntos, pois foram 3 anos desse jeito e sentíamos saudade.

Sim, assistimos o jogo. Conversamos um pouco sobre a vida no intervalo, mas nada demais, pois o contato via facebook e telegram ainda existia. Então, não era um encontro tão pesado.

Resolvemos comer umas esfihas depois do jogo, e então a conversa realmente pesou. Falamos sobre os meses separados. Eu, apaixonada por aquele que já contei sobre. Ele, vivendo uma vida sem qualquer tipo de ligação afetiva, era tudo físico. Eu não ligava de ouvir sobre, mas ele nunca se sentiu confortável em falar sobre seus “casos” comigo, afinal, ele foi meu namorado. Ele foi o namorado que eu sempre pensei “finalmente, é ele”, mas não foi. Não era. Nunca foi, na verdade.

Sempre mais melhores amigos do que namorados.

O dia do jogo foi uma sexta-feira, fiquei com ele até domingo à noite.

Domingo, enquanto decidíamos o que assistir antes de dormir, eu estava com sono demais para assistir qualquer coisa. Só queria deitar em silêncio com ele. Ele queria um filme, uma série, um desenho, qualquer coisa, e eu poderia deitar no colo dele. Eu ainda não namorava, mas a culpa pesou durante os 3 dias.

Eventualmente acabamos abraçados no sofá, como dois namorados, como fazíamos antes, e eu percebi que aquela seria a última vez que ele me seguraria daquele jeito. Que ele estaria tão perto. Não, não era questão de estar apaixonada por ele, porque eu não estava, era sobre o fim de um ciclo que foi maravilhoso (apesar de muita dor e mágoa). O fim do ciclo onde eu namorei, mais uma vez, meu meu melhor amigo. As lágrimas vieram e eu só conseguia o abraçar como se o que estivesse embaixo fosse um penhasco com estacas e fogo e vários Michel Temer embaixo. Ele percebeu as lágrimas e as beijou. Beijou minhas bochechas, meus olhos, minha testa, meu pescoço, meus lábios. E o abraço apertado virou um beijo apertado. O beijo aperto virou a fusão de duas mentes e dois corpos que sabiam que nunca mais se encontrariam daquela forma. A dor tão presente quanto o amor. A esperança dele e a minha culpa também, ambas olhando de lado.

Do sofá acabamos na cama. O dia estava quente e com o passar do tempo, o suor mais parecia nossa pele derretida, se fundindo, nos conectando, estávamos derretendo um no outro.

No fim, declarações de ex-namorados, abraços, respirações descompassadas e pesadas. Era o fim de tudo, apesar de eu só ir embora no outro dia de manhã. Sabíamos que tinha acabado e que não se repetiria. E, assim, ficamos lado a lado, com calor demais para nos abraçar, mas com as mãos entrelaçadas, suor escorrendo pelo corpo como se tivéssemos acabado de tomar banho, a dor e o amor entrelaçados entre nossas mãos. A esperança dele e a minha culpa ainda olhando de lado, aguardando.

Engraçado, tem uma música chamada 23, da banda Americana Jimmy Eat World. Eu sempre a relacionei com meu outro ex-namorado, pois JEW era “nossa banda”, mas essa música… Ela não é de um namoro, ela é sobre mim enquanto em um relacionamento.

No one else will know these lonely dreams
No one else will know that part of me

(…)

It was my turn to decide
I knew this was our time
No one else will have me like you do
No one else will have me, only you

E morreu IX (eu, no caso)

Parte VIII

Três anos antes

Viajar e encontrar as duas pessoas que eu talvez ame do jeito mais romântico possível, pois o contato é limitado e a comunicação completamente escassa, então sou livre para sempre manter as coisas boas em mente. Mas são meus padrinhos, são meus pais-caso-eu-fique-sem-pais, são as pessoas para quem meus pais biológicos cederam meus cuidados e vida em caso de necessidade.

Se você parar para pensar, é algo grande. Escolher alguém para ser você quando você não estiver aqui.

O normal é ser um parente de sangue, acho, pelo menos a maioria dos meus amigos tem tios e tias como padrinhos e madrinhas.

Mas eu não. Meu padrinho e madrinha são dois amigos da família, duas pessoas que meus pais pensaram “ok, eles podem fazer nosso trabalho bem feito caso TUDO DÊ ERRADO”.

E olha… Eles poderiam mesmo.

Chegar naquela cidade e encontrar aquele que eu sinto falta quase todos os dias, pois com ele sim há diálogo, há proximidade, há um laço criado além do laço imposto socialmente. Ele é conforto, é segurança, é conversa, abraço, risada. Ele não precisa de nada além de uma frase para me fazer falar como não falo nem com amigos. Ele é um dos principais personagens da minha vida tão curta.

Ela? Ela é tudo que eu queria ser. Ela chuta bundas, sabe que carrega um poder tão grande que poderia dominar o mundo, pois é daquelas que sempre sabe o que dizer, como dizer e para quem dizer.

Os dois tem o melhor abraço do mundo.

Moram em uma cidade linda, calma, onde não tenho ansiedade ou depressão, só tenho vento e mar e areia. A cidade é deles, pois eles são a cidade.

Estando ali, apesar de meu consciente não pensar no que está por vir, o inconsciente deixa claro que está tudo bem.

“Sofi, como anda a vida?” é a pergunta quando estamos só eu e ele.

A resposta vem vomitada, como se eu fosse uma criança que acabou de brincar de pega-pega e precisa de água. Ele é o copo de água e eu sou a criança. Ele é o alívio. Ele ouve, balança a cabeça, não julga, não faz cara feia. Pergunta se eu estou bem, se tudo o que tenho decidido está me fazendo bem. Ele não quer controle, ele quer informações e participar mesmo que seja só ouvindo.

Há semanas eu me comecei a me fechar lentamente para o mundo. Não acho que seja algo grave, mas eu sinto falta de falar com alguém com um rosto, pois minha vida social está limitada a amigos online. E até eles, que dividem vários problemas comigo, não me confortam como ele. Meu padrinho é minha ilha deserta particular para onde posso fugir quando tudo fica pesado demais

O que mais eu poderia querer?

Nesses momentos, nunca pensava que acabaria onde acabei.

Parte X

E morreu VIII (eu, no caso)

Parte VII

18 nesse antes

Essa viagem vai ser boa demais. Meu deus, eu mal posso esperar pra sair de São Paulo. Amo essa cidade, mas, ao mesmo tempo, todos precisam de férias daqui uma hora ou outra.

Chapada dos Veadeiros. Nunca fui. Fico ansiosa enquanto espero o avião.

Gosto da natureza, apesar de ter muito medo de alguns indivíduos componentes dessa sociedade natual (aranhas). Vamos aproveitar tudo, vamos sentir o vento no rosto, ouvir como ele bate nas folhas e na grama. Essa grama que se mexe ao menor toque do mesmo vento. Sim, eu estou ansiosamente poética.

Cheguei no aeroporto, todos da firma juntos e ansiosos, ninguém veio aqui antes.

Transporte. Hotel. Meu quarto dividido com a moça da recepção, eu gosto dela, ela é calma, mas, ao mesmo tempo, tem uma animação que não me irrita. Sabe? Ela não é AI MEU DEUS VAMOS TODOS PULAR E SE AMAR E SER FELIZES JUNTOS OBAAAA, ela é alguém que não ativa meus ataques de pânico. Nada contra quem ativa, mas prefiro ficar longe.

De qualquer forma, no primeiro dia só chegamos ao hotel, jantamos e ficamos pelo hotel, não tinha o que fazer.

Algumas pessoas deram um perdido nos monitores e foram para outros quartos. Um moço do 4o ano de Ciências Contábeis veio pro meu quarto no lugar da moça da recepção. Nem tive tempo de aprender o nome dela. Acho que é assim que se faz quando você é jovem (ela é mais velha que eu).

Enfim, dormi. Ah, foi bom, foi calmo e acordei com a moça me balançando, como se ela tivesse do meu lado quando dormi.

Café da manhã é marcado pelas fofocas da noite anterior, ressaca para alguns e muita coisa para outros – tipo eu.

Saindo do hotel, entrando no translado que vai nos levar ao parque, tenho a sensação de que esqueci alguma coisa. É sempre assim. Checo a mochila com garrafa de água, celular, uns biscoitos e barras de cereal pra fome e a caixinha dos meus óculos escuros. Eu sei que tô esquecendo algo, mas não dá mais tempo de descobrir.

Chegando no parque, a caminhada é longa e não muito simpática, precisamos subir pedras e o sol está torrando meu ros-ESQUECI O PROTETOR SOLAR. É isso, terei câncer de pele. Que cabeçuda. Quem esquece o protetor solar? Euzinha.

– Vamos na beira da pedra? – diz minha colega de quarto que não dormiu comigo, me tirando da bronca mental que estou dando em mim mesma.

– Achei que você tivesse medo de altura – respondo, mas já me juntando à ela porque quero muito ver a paisagem.

Chegamos na beira de um pico. O instrutor nos explicou qual pico, o porquê daquele nome, sua idade e quanto tempo de existência.

Ignorei tudo.

Ignorei o que o pico foi ou seria.

O que ele poderia passar aos outros.

Na beira do precipício, eu só poderia ouvir vento uivando livremente e como um animal fugido do cativeiro.

Olho para baixo, ouço a grama, as folhas, o vento que nunca me deixa em paz. Sinto uma linha se formando na minha frente, ela corta a beira do pico e o espaço à sua frente, como a linha da plataforma do metrô. Consigo até ouvir a voz metálica dizendo “Favor, não ultrapassa a linha entre a via e a plataforma” porque, no mesmo instante, estou na Estação da Sé, esperando meu metrô e paro com meus pés na plataforma, sentindo aquela atração familiar que me puxa para os trilhos. Sempre uma decisão, sempre uma escolha. Ultrapassar a plataforma? Ultrapassar a linha do penhasco? Por que eu sempre me sinto assim? Por que o desejo de pular, de dar o único passo em direção do que seria o fim? O tão esperado fim… Fim de muitas coisas, da dor invisível aos olhos de todos, da decepção, do desespero, das dúvidas, do sentimento de ser um peso morto. Sim, é um fim esperado, desejado até. Seriam quantos segundos até o chão rochoso lá embaixo? O metrô está vindo, com um passo eu deixaria de ser eu para ser mais uma estatística da Estação Sé. Será que vale à pena?

– Sofia? Vamos voltar?

A colega de quarto que não dormiu no quarto me chamou.

Alguns segundos de vento, de escolha, de pílula azul ou vermelha, se passaram. Escolhi a azul.

– Sim, vamos voltar.

Parte IX

E morreu (Eu, no caso) VII

Parte VI

Passado o susto do Jovem Cabeludo e Metido, percebi que meu pai finalmente estava falando comigo. Ele parou do lado do caixão, pegou na minha mão, e começou a falar baixinho.

É feio ouvir a conversa dos outros, mas, teoricamente, ele estava falando comigo, então acho que não é ser inconveniente, certo? Certo.

Eu e meu pai sempre tivemos uma relação boa. Boa demais. Ótima. Incrível. Ele sempre foi meu amigo, e não pai-amigo, e sim amigo mesmo. Apesar de às vezes ele ter que ser pai-amigo pra poder me dar umas broncas e usar o tom “a sociedade me deu autoridade sobre você, então se prepara”.

Muitas pessoas acham que precisam ser amigas dos pais porque, bom… são os pais. Mas eu nunca senti essa necessidade, inclusive, a relação com minha mãe sempre foi típica Mãe & Filha, porque não tínhamos a conexão que eu tinha com meu pai. Aposto que ele tentou argumentar por causa das roupas que colocaram no meu corpo, ele sabe que a última coisa que eu iria querer é ser enterrada de roupa social. Minha mãe sempre se orgulhou muito da minha vida profissional, meu curso na faculdade, mas meu pai sabia que não era bem assim.

Só que ele também entende que velórios e enterros não são para os mortos, então ele deve ter cedido ao que minha mãe queria e fim, é o jeito dele. É o que eu faria também.

Talvez vocês queiram saber o que ele disse.

Talvez vocês queiram saber o que eu respondi.

Talvez a única coisa que interesse, nesse ponto, é dizer que ele pediu desculpas por um velório tão longo, por não ter vindo falar comigo antes e por não ter conseguido mudar minha decisão.

E eu respondi que não tem problema, que entendia e que ninguém poderia ter tirado aquela tristeza de mim, o peso de viver só pode ser aliviado de uma forma e somente a dona daquela vida poderia fazer algo sobre. E foi o que eu fiz.

Parte VIII

E morreu (eu, no caso) VI

Parte V

Eu gosto de relembrar essas coisas. Amigos, namorado, dias legais, me faz sentir que minha vida foi bem vivida e aproveitada. É estranho uma pessoa suicida dizer isso?

De qualquer forma, agora o velório está mais quieto, minha mãe foi dormir em casa um pouco, então meu pai e irmão ficaram, mas meu irmão precisou dormir no carro para não cair dormindo na minha cara (seria uma baita cena). Então sobrou meu pai, um tio do Paraná que eu vi 1 (uma) vez na vida e eu. Talvez “eu” conte por 2, então até que era uma quantidade respeitável de seres por ali.

Eu, mesmo fantasma ou espírito ou seja lá o que eu virei, conto. Posso não ser um ser vivo, mas eu sou um ser… Sei lá do quê. Segundo o materialismo, nós existimos enquanto sentimos, física e emocionalmente, então eu… Sou. Se você discorda, que vá discutir com o Gottfried Leibniz.

Talvez eu tenha moldado um pouco a teoria a meu favor? Sim, mas como eu morri e vocês não, meu voto vale mais. Obrigada.

E enquanto eu tento relembrar mais sobre materialismo, sei que até o Marx enfiou algo sobre isso no Comunismo, PLAU surge uma pessoa de cabelo longo, calça jeans, camiseta azul clara, chinelo e expressão de quem está fazendo o que não deveria. Um cara. Um cara esquisito. Um cara esquisito que surgiu do nada e que estava olhando diretamente para mim (“mim” leia-se: quem está contando a história, não quem está deitada na caixa de madeira com algodão no nariz, na garganta e em todos os orifícios possíveis [que fase]).

– Olá – disse o jovem esquisitão.

– … Oi? Por que você tá falando comigo e não com meu corpo no caixão? Você é uma daquelas pessoas que fazem projeção astral e ainda enxergam espíritos? Ou eu estou vendo coisas? Tem como um espírito, ou o que quer que eu seja, ser esquizofrênico pós-morte? Porque em vida eu fui muita coisa, mas não fui esquizofrênica. Eu acho. E se eu fui? Será que eu imaginei tudo que aconteceu? Será que eu tô imaginando tudo isso enquanto estou internada em um hospital psiquiátrico? MEU DEUS ALGUÉM ME AJUDA EU NÃO POSSO TER FICADO MALUC – fui interrompida no meio do meu surto psicótico.

– Primeiro: eu posso te ver e falar com você porque sim. Ainda não é hora de explicar; segundo: por favor, não me ofenda dizendo que sou uma daquelas pessoas que ingerem quantidades exageradas de psicotrópicos e saem dizendo que viveram uma “projeção astral”; – sim, ele fez aspas com as mãos – e terceiro: como você consegue falar tanta asneira e tão rápido? Acredito que não seja esquizofrênica, mas talvez tenha acabado de ter um quase ataque de pânico misturado com crise psicótica. Ainda bem que não temos facas por perto – E riu da própria piada.

Ele falava sorrindo o tempo inteiro, um sorriso de canto, como se ele estivesse sendo sarcástico o tempo inteiro, e mesmo assim a sua postura e seu olhar criavam ares de alguém importante. Como se eu estivesse perante um aristocrata do mundo dos mortos.

Ao mesmo tempo que fiz minha análise do indivíduo, tentei pensar numa resposta:

– Não dá para matar quem já morreu.

– Oi?

– Você falou “ainda bem que não temos facas por perto” como se, no meu surto, eu pudesse te matar. Eu já morri, você surgiu do nada, então acredito que também já tenha morrido, ou seja, não tem como te matar novamente. – concluí com um tom de “eu posso ser trouxa, mas não sou só isso, colega”.

– Ah, isso será muito divertido. – ele respondeu com o mesmo sorrido sarcástico e PLAU sumiu como apareceu: do nada.

Definitivamente tem muitas novidades nessa pós-vida. Quando pensava na morte enquanto viva, nunca imaginei que seria tão movimentado, que existisse isso de aparecer e desaparecer e que um cara, que chama drogas de “psicotrópicos”, viria no meu velório para me chamar de maluca.

O que será que vai acontecer quando esse velório infinito acabar? Eu quero ver o cemitério, ver o Assis (espero que não tenham esquecido dele lá na Parte I) e descobrir como é um pós-vida sem gente viva chorando no meu corpo morto.

E morreu (eu, no caso) V

Parte IV

A noite.

3 anos antes.

– Vamos fazer um drinking game do Tinder hoje à noite? Lá em casa?

– Vamos.

Uma noite, 24 latas de cerveja, 3 pessoas, 3 celulares, o mesmo aplicativo aberto em todos eles.

– Mais uma foto de moça com golfinho!

– Mais uma foto de um cara sem camisa!

– Todos bebem!

Na verdade, esse drinking game é meio falho, afinal, nós beberemos a cerveja com ou sem jogo, mas pelo menos nós conseguimos uma desculpa para beber tudo. Só a juventude já não serve mais como justificativa. Passar dos 18 é ruim, sociedade, não acredite no que vendem nos filmes.

Antes do jogo, das cervejas e tirar sarro de fotos esquisitas, policiais posando ao lado de suas ARMAS (sério, gente? Alguém dá um coração para isso?) eu conheci um jovem. Ele é divertido, gosta de séries e filmes e piadas sem graça. E é bonito. Durante o jogo, eu converso com ele, bebo as cervejas e tiro sarro de fotos esquisitas.

Chega uma mensagem “Festa em casa, venham os 3”. Vamos.

Teoricamente era um dia normal, uma festa normal, com meus amigos normais.

Conversas normais, bebidas normais. Eventualmente, não lembro o que aconteceu e não aceito julgamentos pois todo mundo já fez isso alguma vez na vida, ok? Ok. Beber cerveja antes e depois e não comer direito dá nessas coisas. Lembrem disso.

E nesse meio tempo eu pedi cerveja 4 vezes pelo delivery, inventei um sinal com as mãos que virou piada interna no grupo de amigos e falei para o menino divertido, que gostava de séries e filmes e piadas sem graça que eu queria uma injeção na testa.

E dormi. No sofá. Com a bunda para cima e usando minha cabeça como apoio. Definitivamente não foi um dos meus melhores momentos. Obviamente tiraram fotos que foram parar em redes sociais e mensageiros instantâneos. Amizade é uma coisa maravilhosa.

Acordei. Dor. Inferno. Vontade de morrer. Por que beber tanto? Nunca mais vou beber. Minha cabeça vai explodir. A vida dói. Ok, preciso levantar.

Eu e um dos participantes do drinking game pré-festa vamos para a Av. Paulista, comer para tentar sobreviver à maior ressaca da história da minha vida (spoiler: não foi a maior).

Mesmo com a comida, a vontade de dormir até o apocalipse continou, então veio a decisão: cada um para sua respectiva casa, respectiva cama e esperar pela volta da respectiva vontade de viver.

No caminho, o Tinder apita com um “Olar ;)”. Minha reação é “meu deus por que um ;)? Pra quê? Qual a necessidade disso? Que tristeza… Mas ele é bonito… Parece gostar do que eu gosto… Ok, vamos lá, se eu dou chance de 2 episódios com séries, vou dar mais de uma palavra com emoticon pra ele” e mando “Olá. Bão?”.

E começou.

Parte VI

E morreu (eu, no caso) IV

Parte III

Voltando ao atual status da minha (pós-) vida, chegou uma das piores horas.

Não sei se vocês já tiveram, ou tem, aquela sensação de só olhar para alguém e pensar “eu te amo” enquanto a pessoa está comendo macarrão e com o rosto todo sujo de molho. Eu tive.

E ele chegou. Enquanto tios, tias, avós, avôs, conhecidos, gente que eu nunca vi na vida, cercavam meu caixão marrom-cor-de-depressão, ele ficou na porta do velório. Olhando de longe, com as mãos no bolso da jaqueta (pelo jeito estava frio, todo mundo estava com mil blusas e andando igual aquele fantasma gigante de marshmallow de Caça Fantasmas) e olhando para a direção de onde eu estaria.

Mesmo depois de morrer, mesmo não sentindo coisas, meu Eu Fantasma precisou chegar até ele, ficar perto. Não tive coragem de tentar encostar, porque se eu atravessar ou sentir ou bater em uma barreira invisível, vou querer morrer de novo. E isso deve dar trabalho.

Ele estava triste, mas não chorando. Conheço ele. Chorou muito quando recebeu a notícia, se trancou no banheiro do trabalho e chorou por… Com certeza muito tempo. E em casa ele chorou mais, até dormir, e até chorou um pouco quando acordou, pensando em como seria chegar aqui. Não me levem a mal, não estou dizendo que nossa, eu era tão maravilhosa que mereço as Cataratas do Niagara em água salgada… Eu só o conheço. Ele sofre sozinho, engole tudo, e no meio de todo mundo vira uma pedra onde todos podem se apoiar. Talvez ninguém use o apoio, mas ele tem um jeito que só se olhar para ele você sabe que pode se apoiar. É como uma poltrona muito confortável na loja de móveis que você não precisa sentar, mas que talvez, quem sabe, você sentará só porque ela é confortável.e vai te deixar um pouco mais feliz.

E essa foi a primeira vez que eu meio que me arrependi.

Meus pais chorando? Não. Meu irmão deprimido, mal conseguindo falar? Pfff, por favor. Minha avó dizendo que não aguenta mais perder pessoas amadas? Passeio no parque.

Mas ele, com as mãos na jaquetas, tentando me ver de longe, porque pisar na sala do velório em si seria absurdamente dolorido e tornaria tudo 100% real, doeu.

Doeu tanto que pensei em deitar em cima do meu corpo pra ver se meu Eu Fantasma conectaria de novo com meu Eu Morto, mas eu não conseguia me mexer, não conseguia sair de perto dele, funcionava como um imã, só que para namoradas mortas.

Eu queria pedir desculpa, queria abraçá-lo, queria tirar ele daquele lugar deprimente e levá-lo para comer pizza. Mas não podia. Mal podia sair de perto da porcaria do caixão, quem dirá ir para a pizzaria mais próxima com meu namorado vivo. Fora que a situação toda seria esquisita, ele chegando na pizzaria e pedindo mesa para dois e o atendente vendo só ele e todo desconforto de parecer esquizofrênico.

O quanto você aceitaria libertar seu sofrimento em detrimento do sofrimento alheio? Sofrimento dos seus pais, irmãos, tios, avós, namorad(o/a)?

A nossa existência, normalmente, se limita a nós. Mas, ao mesmo tempo, aos outros.

Qualquer pessoa que já pensou em se matar também considerou como seria a vida após a dela terminar. Como seus pais, filhos, marido/namorado, amigos, parentes reagiriam? Como seria cada postura em frente ao seu caixão? Pois bem, sempre pensei nisso, mas, apesar de imaginar como seria a sua reação, isso não foi alívio.

Talvez tenha sido mais dolorido por saber sua reação e ainda assim seguir em frente com meus planos. Meu egoísmo se cruza com a esperança de perdão e aceitação da  tal dor. A dor de perder um amor da vida. A dor de ver uma pessoa desistir de tudo, inclusive de você. Quanto isso te dói?

Enfim, sim, eu estou meio arrependida.

Parte V

E morreu (eu, no caso) III

Parte II

A rotina.

2 anos antes.

Acordar. Acordar, enrolar na cama, pensar se não vale a pena inventar uma desculpa e chegar mais tarde, olhar as mensagens no celular, responder algumas, ignorar outras e perceber que se passaram 15 minutos.

É por isso que eu gosto de acordar 1 hora antes de sair para trabalhar. Sim, odeio acordar rápido, sair correndo, escovar os dentes enquanto coloco o sapato e visto a calça. Não, não é para mim. Sim, amo dormir, dormir e comer, mas também gosto de ter meu tempo para tudo. Portanto, sim, eu acordo 1 hora antes de sair para o trabalho. Ou você aceita ou pode me processar. Na verdade, como eu morri, não pode não. Mas agora vou contar a história ambientando 2014, então talvez você possa sim me processar do presente no passado. Algum físico quântico aí pode me ajudar nessa questão?

Enfim, acordei, levantei, coloquei a roupa, escovei os dentes e sentei no sofá com a bolsa do lado para poder assistir um pouco de TV e enrolar antes de sair. Eu gosto dessa rotina. E eu gosto de ver TV antes de trabalhar, senão eu fico totalmente por fora de tudo que acontece e pareço criança no meio dos adultos nas conversas do almoço na firma.

Eu sou muito distraída, avoada, indiferente (mas não do jeito “too cool for school, eu não ligo para vocês, mortais” e sim do jeito “vivo tanto no mundo da Lua que o se o Silvio Santos soltar um aviãozinho na minha cabeça, não vou perceber) e isso me fez parecer distante. Na verdade, eu vejo todo mundo, observo, ouço, só não gosto de fazer barulho, ser o centro das atenções, falar. Falar está, definitivamente, em um lugar muito baixo na minha lista de prioridades, próximo de comer bacalhau, ler Paulo Coelho e dividir minha comida. Mas ver pessoas, ver como elas são, como reagem às coisas, às outras pessoas, é meu passatempo preferido e meu jeito de sobreviver no meio de gente. Porque ficar sozinha é outro passatempo preferido.

Não que eu não goste de gente, mas é difícil. É cansativo. É como se eu entendesse tão bem o que todos sentem, que acabo sentindo, então viro um catalisador de sentimentos. E se você é uma pessoa que convive em sociedade, com certeza encontra um número considerável de pessoas por dia e bom, acho que não preciso explicar além disso.

De qualquer forma, no ônibus para o trabalho eu leio. Me obrigo a ler porque o caminho para o trabalho ou faculdade sempre foi o momento da leitura e, mesmo após a ansiedade e os celulares com internet rápida demais, jogos, redes sociais, mensageiros instantâneos e vídeos de gatinhos, minha leitura ficou escassa. E eu odeio isso. Gosto de ler. Sabe a Rory de Gilmore Girls? Sou tipo ela, mas sem a pele perfeita, os olhos azuis, os avós ricos e Yale. Na verdade, nossa única semelhança é o amor pelos livros. Talvez ela não tenha sido a melhor comparação.

Desço do ônibus e preciso andar uns 10 minutos até o trabalho, continuo lendo, correndo risco de ser atropelada por carros, motos, bicicletas, monociclos, patinetes, pessoas, gatos, cachorros, elefantes (se eu morasse na Índia), bebês etc. Mas quando o livro é bom e a gente sabe que vai passar 8 horas longe dele, afinal, almoço é hora de socializar, precisamos aproveitar ao máximo.

Chegar no trabalho, dar bom dia para todo mundo que aparece, mas com principal entusiasmo para o porteiro, a recepcionista e as faxineiras. São minhas pessoas preferidas do trabalho. Meus colegas ainda não chegaram, então tenho alguns minutos sozinha e isso  vale ouro no planeta de onde venho.

Almoço, conversas, pessoas legais, pessoas não tão legais, pessoas. Alguém vai sair da empresa, outro alguém começou a namorar, mas outro alguém acabou de terminar um noivado de 8 anos. Enquanto isso, outro alguém está grávida e vai sair de licença maternidade eventualmente, então precisamos de um temporário para o lugar. Futebol, política, religião, novela, jornal, o presidente, o chefe, o moço bonito da padaria da esquina.

Vejam bem, eu gostaria de participar de alguns desses assuntos, de verdade, e não para corrigir e fazer discurso e parecer incrível, só unicamente porque quero participar. Mas  (na maioria das) às vezes não consigo, fico esperando uma brecha para poder entrar e ela não aparece e eu tenho medo de falar algo e todos me olharem como se eu fosse um peixe andando de bicicleta numa esteira de academia. Então eu só como minha comida, olho, escuto, faço sons de quem está prestando atenção, mexo a cabeça e espero.

Não é chato, não é ruim, mas às vezes seria bom conseguir participar.

Parte IV

E morreu (eu, no caso) II

Parte I

Enquanto penso sobre selfies com espíritos e quanto sucesso eu faria no famigerado site assustador.com, uma amiga tentava colocar chá no copo e, quando colocou a garrafa térmica no lugar, a garrafa encostou no interruptor de luz. Aqui temos dois pontos importantes: 1) era chá de erva doce. O chá certo para momentos de nervosismo não é de camomila?; 2) que tipo de arquiteto coloca o interruptor na mesa do café do velório?

Agora ficou meio óbvio o que aconteceu, né?! E foi engraçado. A luz piscou e, como eu previ, metade das pessoas gritaram para alguma divindade, a outra metade falou EITA e começou a procurar o celular. Enquanto isso, minha amiga fazia cara de quem não viu nada e, ao mesmo tempo, de quem tinha engolido três filhotes de panda de uma vez só.

Minha mãe olhou em volta, inclusive para (ou através de) mim, provavelmente achando que foi um sinal meu, um jeito de mostrar que eu estou lá. Sim, mãe, eu estou aqui. Não, mãe, não fui eu que pisquei a luz. Mas isso me fez rir muito, se servir de consolo. Talvez não sirva, pois a filha dela morreu, mas não é menos dolorido imaginar que a pessoa está rindo em vez de chorando e querendo voltar para aquela vida chata, difícil e sem graça?

A minha mãe é uma senhora que foi classificada como a tia legal pelos meus amigos que sempre viviam em casa, casa essa que mais parecia uma estação rodoviária graças à grande rotação de pessoas todos os dias.
Receber amigos e conversar e fazer bagunça sempre foi uma característica da minha família, e o sangue italiano adicionava outros elementos: falar alto, mexer as mãos e, consequentemente, quebrar muitos copos, vasos, bater a mão na parede sem querer etc. E, por mais improvável que pareça, eu sempre tive esse humor… diferente, e mesmo assim tive uma montanha de amigos legais. Pessoas que eram atraídas pela minha personalidade brilhante assim como mariposas são atraídas pela luz, mas sem a parte de queimar e morrer. A única que morreu no ciclo de amigos fui eu.

De qualquer forma, a minha mãe conversava, fazia comida e pronto, ganhou todo mundo. Comida é o caminho. Fica a lição de quem morreu e, consequentemente, já sabe quais são as prioridades na vida.
E acabo de perceber que morto não come.
Nunca mais irei em uma festa junina, comer um monte de fogazza e pizza e churrasco e milho e caldo de feijão.
Rodízio de pizza? Dê adeus. Festival de foundue? Tchau. Arroz, feijão, bife e farofa da minha mãe? Foi bom te conhecer e ter o privilégio de te comer como se estivesse passando fome há uma semana.

É, agora esse negócio de morrer realmente me abateu. Desculpem, preciso de uns momentos para me recuperar desse choque.

Parte III