Carta a Quem Interessar Possa IV

Oi amigo, tudo bem? Aqui as coisas até que vão bem. Eu tô com uma tosse há semanas, talvez devesse ir ao médico.

Mas não tô escrevendo pra falar de tosse.

Queria te contar que visitei onde eu morei por 10 anos, dos 9 aos 19. É um condomínio onde eu aprendi tanta coisa… Conheci sentimentos importantes também, como amizade, amor, traição, vingança. Foram 10 anos importantes e voltar pra esse lugar, mesmo que por 40 minutos, me fez chorar muito quando eu ia embora.

Não sei porque chorei tanto, não sei de verdade. Talvez saudade de quem eu era, da vida naquela época. Talvez.

Talvez seja o sentimento de comparar minhas lembranças infantis com a nova perspectiva. Aquele condomínio parecia gigante, com infinitos lugares para se esconder, para brincar, para beijar o primeiro amor, para contar segredos sem medo de quem ouviria. Era imponente.

E agora é tudo tão pequeno, tão simples, não intimida, não dá medo, mas continua a passar segurança. Sempre será a casa de primeiras vezes, será a casa da criança assustada, com 9 anos de idade, que não sabia se faria amigos. Da adolescente de 15 que se descobria, que achava que sabia o que queria e não queria. Do meu primeiro beijo, do meu primeiro amor não correspondido, do primeiro amor correspondido, das primeiras brigas entre amigos e amores, entre vizinhos.

A expectativa e exaltação de quando novas crianças ou adolescentes apareciam, primos ou sobrinhos de moradores. Criando laços e intrigas.

A guerra não declarada com os condomínios vizinhos e com o bairro de cima. Que nunca foi real, pois no fim todos acabaram amigos.

É assustador ver como as coisas mudam e, mais assustador ainda, como eu mudei. Como eu mal lembro de quem era. Me pergunto o que a Isadora de 12 anos acharia da Isadora de 26. Ela tinha tantos planos e ideias que eu não alcancei, que não consegui atingir. É doloroso pisar onde isso fica tão evidente, onde a Isadora de 12 está me olhando e me perguntando o que aconteceu, pra onde foi tudo o que ela queria ser.

Crescer dói. A gente esquece disso, mas eu tive a sorte de ser relembrada, de ter isso esfregado na minha cara. Muita gente esquece e não tem quem ou o que lembre eles, acho que isso não é bom. Da mesma forma que ficar preso ao passado faz mal, não visitá-lo às vezes também faz.

Sempre falam de equilíbrio e balanço, né?

Bom, no momento o único balanço que eu consigo pensar é no balanço do parquinho onde eu brincava e ralava os joelhos.

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Carta a quem interessar possa III

Olá, amigo. Tudo bem?

Sei que não estou escrevendo muito, não ando bem. Sabe como é, todos aqueles problemas que eu já te contei… Eles são como pessoas gritando no meu ouvido, não consigo me concentrar e colocar pra fora o que eu preciso. Então eventualmente eu explodo, como aconteceu hoje.

Eu tomei algumas decisões. Sou uma pessoa com 26 anos de idade que vai voltar para a faculdade e fazer o que eu gosto de fazer: escrever e ler. Isso se eu entrar no curso, né, mas essa é outra linha de pensamento e não estou interessada nela agora.

Um amigo, de 19 anos, que está pensando em entrar na faculdade ano que vem, disse que se sente bem de me ver voltando, aos 26, porque faz com que ele se sinta menos atrasado.

Atrasado com o quê? Por que nós precisamos seguir a fórmula que enfiam na nossa cabeça e ainda nos sentir mal se não der certo?

Choose looking up old flames, wishing you’d done it all differently
And choose watching history repeat itself
Choose your future”

Escolhi meu futuro quando tinha 18 anos e não sabia nada da vida. Ainda não sei, mas sei 4% a mais do que naquela época. Por que eu não posso tentar? Por que me sentir um fracasso? Porque é o que todo mundo carrega no olhar quando me vê.

Ainda não aprendi a conseguir ignorar tudo o que pensam de mim, apesar de estar cada vez melhor nisso.

Caso eu descubra como viver 100% impermeável, te conto o segredo. Mas, por enquanto, preciso de você pra me ouvir e me dizer que não, não errei em tentar de novo. Errado é viver infeliz por comodidade e senso comum. Errado é não tentar.

Certo?