Paixão, amor e arco-íris

É esquisito se abrir pro mundo de novo depois de meses e meses se enganando, dizendo pra si mesma que você estava bem e pronto. Que você não conseguia se envolver com ninguém simplesmente porque não encontrou alguém que clicasse com você.

Mas não é bem assim. Leva tempo. E eu namorei, basicamente, por 9 anos direto com alguns meses de pausa aqui e ali, mas sempre voltando ao relacionamento sério.

Quando você vive tanto tempo envolvida seriamente com alguém (ou alguéns), voltar à vida solteira é difícil. Principalmente se você é como eu e seus namorados/namoradas eram seus melhores amigos, aquelas pessoas pra quem você conta tudo: desde a pessoa que tropeçou na escada do metrô hoje de manhã até o medo irracional que veio de lugar nenhum de que você vai ser demitida hoje.

Então, quando você perde isso, esse conforto, vem a tentativa de se abrir igualmente para os amigos. Muitos conseguem, fazem isso mesmo quando estão namorando. Eu não, eu sou mais fechada, prefiro não concentrar muita informação minha em mais de uma pessoa. Tenho pequenos satélites, pessoas com quem eu converso sobre assuntos X e Y, mas não sobre Z. E com quem eu converso sobre Z, não me aprofundo sobre X e Y etc.

Consequentemente, você se sente sozinha e, por isso, acaba com algumas paixões platônicas. É uma tentativa inútil de dizer “estou aberta sim, olha aí, eu sinto algo por essa pessoa” mas é tipo tirar a água de um barco afundando com uma colher. É só uma desculpa, um band-aid, uma pequena mentira que você diz pra si mesma para que não precise lidar com seu fechamento. É o estado de negação.

E assim vão os dias, as semanas, os meses, as pessoas. Pessoas legais entram e saem da sua vida, tentam te deixar à vontade para falar, para dividir e, por óbvio, você não consegue. E não é de propósito, não é porque você não quer, só não acontece, não sai. Você quer confiar, quer se apoiar, mas não dá.

Até que um dia a vida te dá um tapa na cabeça: tem alguém que te fez sentir algo, que te fez querer se abrir de novo, que só de estar ali já te deixa bem. E o que você faz? Surta. Surta bonito, porque foram meses longe desse sentimento, você até se convenceu de que não queria nada com ninguém, mas na verdade você só não tinha encontrado esse alguém ainda.

E não, esse não é um texto sobre amor, paixão e arco-íris.

Porque apesar de ter alguém que finalmente te tirou daquele coma emocional, não quer dizer que vocês serão um casal feliz para sempre. Na verdade, não quer dizer nem que vocês serão um casal pra começo de conversa. Só quer dizer que você finalmente tá pronta, que você não precisa mais se esconder ou fugir, quer dizer que você se deu tempo para se recuperar e voltar ao normal.

Essa pessoa, a que te ajudou a perceber isso, ela não te deve nada e você não deve nada pra ela. Caso vocês acabem sendo um casal: ótimo. Senão: ótimo também, tem várias pessoas por aí. Essa primeira só foi a o sinal verde de que internamente você se respeitou e se deu espaço para curar o que precisava ser curado, para mudar o que precisava ser mudado e criar novas ideias, novos desejos.

Esse não é um texto sobre amor, paixão e arco-íris. Esse é um texto sobre você parar de se enganar e aceitar que as coisas levam tempo, gafanhoto.

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Uma história triste sobre Tristeza

Desde que me lembro nunca consegui entender porque ele é assim. Quando era criança, a minha mãe dizia que ele estava triste e por isso gritava e quebrava as coisas, televisão e som altos era culpa de uma surdez causada por ouvir walkman alto demais. Mas não era sempre que isso acontecida, nos finais de semana ele não estava triste e, por isso, não gritava e não quebrava nada, e a surdez também não dava as caras. Tudo era calmo em casa, quieto, a não ser por vezes que minha mãe chorava escondido e não falava com ninguém. Acho que ela fica triste de um jeito diferente.

A partir dos 9 anos eu comecei a ter amigos com quem brincar e tinha vergonha quando ele chegava cambelando e passava por mim e pelas outras crianças. Os mais velhos, com 12 ou 13 anos, desviavam o olhar, envergonhados por mim e por ele, os mais novos olhavam curiosos pra entender porque ele estava daquele jeito. Era uma doença? Uma brincadeira? Eu ainda achava que ele estava triste mas não absolvia o porquê da situação ser tão diferente de quando os outros estavam infelizes. Quando eu ficava triste só chorava, às vezes escondido e às vezes não, mas não precisava fazer que nem ele: cambalear, cheirar estranho e gritar comigo e com o meu irmão por coisas que eu não entendia.

Com 12 anos veio o câncer. Algo que os médicos poderiam ter descoberto antes, mas uns achavam que era um borrão no exame, outros nem enxergavam o “borrão”. Eu só fiquei triste, minha mãe estava triste e eu não conseguia ficar bem olhando ela daquele jeito. O tumor era operável e a porcentagem de tudo dar certo era alta, mas ela estava desesperada porque seu marido, seu amor, tinha um tumor. No dia da operação eu fui até o hospital com toda a família, incluindo tios e avós, ele já estava internado desde o dia anterior e eu o vi, dei um abraço e fui embora. Chorava muito, não queria dormir fora da minha casa, longe da minha cama e do meu irmão, que iria para a casa da Tia Lene e eu para a casa da Vó Ivone. Foram horas chorando sem parar e até hoje eu acho que não foi por ele, acho que foi pelo sofrimento da minha mãe e do meu irmão que eu observei tão de perto.

Três anos depois eu já era uma adolescente rebelde, com amigos virtuais e um ex namorado. Ele era um sobrevivente do câncer, que estava bebendo e fumando de novo. A nossa relação já não podia ser chamada assim, de “relação”, era uma convivência amigável nas noites e fins de semana sóbrios, nas noites em que ele chegava em casa, dava um beijo na testa de todo mundo e ficava sozinho no quarto, assistindo filmes antigos ou trabalhando. Noites felizes, ao contrário da maioria em que ele chegava e ainda gritava e quebrava coisas. Mas agora eu entendia o que ele falava, entendia os palavrões, os insultos e as revoltas. Revoltado com pessoas da empresa, do bar ou da televisão, mas ele descontava em mim, a filha mais velha que ficava tempo demais no computador, que nunca falava com ele e nunca respondia nada quando ele perguntava qualquer coisa de porre. A raiva que sentia por ele aumentava e comecei a sentir a mesma coisa pela minha mãe e irmão. Ela observa o sofrimento dos filhos e ainda está casada com ele, enquanto meu irmão sofria mas conseguia perdoar tudo rapidamente, como se o que a gente ouvisse fosse algo bobo, de uma criança. Acho que a raiva vinha da inveja de não ter essa capacidade de perdoar e esquecer.

22 anos, eu trabalho, estudo e não fico em casa direito. Saio as 11 e volto meia noite, quem aguenta tudo é a minha mãe. Com ele a relação continua tão monossilábica quanto antes, há mágoa demais e perdão de menos pelas duas partes. Ele não se perdoa e eu também não o perdoo, ele tem mágoa por isso e eu tenho mágoa por tudo.

35 anos, casada, dois filhos e um emprego que eu amo. Minha família é o contrário do que foi aquela onde eu cresci. Ninguém berra, xinga ou deixa a mágoa impregnar no corpo, o diálogo existe e somos quase uma porcaria de clichê de filme americano. Recebo o telefonema do meu irmão. Ele morreu. Teve um enfarte fulminante em casa, sóbrio, mas nem chegou ao hospital e minha mãe precisa de ajuda. Ela não está em choque, chorando sem parar ou algo assim, na verdade ela não chorou e não consegue parar quieta. É assim que ela fez em 2010 com o meu avô, alguns anos depois com a minha avó e agora com ele. Há meses eu não o via, muito menos meus filhos que sempre perguntam do vô e da vó, mas eu ainda não conseguia lidar com as pessoas que me ajudaram a ser tão amarga.
Agora ele se foi, nunca mais terei a oportunidade de tentar e ter um pai de verdade, que eu ligo quando preciso de conselhos e que joga bola com meus filhos nos feriados.
A verdade é que eu estou brava, não pelos mesmos motivos de antes, mas por ele ter ido sem eu conseguir conversar, sem ter dito “tudo bem, pai, já passou e ficar guardando essas coisas não adianta, não fica assim”, ou “pai, eu já te desculpei e agora vamos mudar de assunto porque o Palmeiras vai jogar”, ou só “claro que eu te desculpo”.

Vivendo com Ansiedade I

É tudo sobre as pequenas coisas.

Meia hora de distração significa meia hora sem lembrar da pedra que carrego no fundo do estômago e que me deixa nervosa o tempo todo, como se a vida estivesse passando numa tela bem na minha frente em slow motion e eu só estivesse assistindo enquanto vivo a 200km/h.
Um episódio de uma série que eu gosto, alguns capítulos de um livro bom, conversa com alguém que faça o relógio andar numa velocidade normal: pequenas coisas que fazem a existência um pouco menos dolorida.

Eu conto o dia de meia em meia hora. “Daqui a meia hora posso me trocar”, “daqui a meia hora posso sair”, “em meia hora posso começar a limpar o quarto, então termino quando tiver faltando 1 hora para almoçar, então posso ver 2 episódios de meia hora de uma série”.

E não pode ser qualquer série, quem dera fosse. Séries trazem sensações e algumas dessas sensações não distraem da pedra no estômago, na verdade só me fazem lembrar dela mais ainda.

Não estar trabalhando também não ajuda, não tenho com o que me distrair o dia todo, não fico cansada como normalmente ficaria. Fico mentalmente cansada, mas meu corpo continua bem e desperto porque eu não fiz nada com ele.
Exercícios físicos são uma resposta óbvia para esse problema, mas eles me deixam ansiosa também. 15 minutos correndo e eu me pergunto “por que ainda não me distrai? Por que ainda tenho a pedra aqui comigo? Qual o meu problema?” e desisto. O ponto deve ser “não desistir” nesse caso, mas entro em pânico percebendo que ainda estou ansiosa mesmo correndo e isso acaba me deixando pior.

Talvez o problema não seja esquecer a pedra ou sumir com ela, mas só aprender a conviver em harmonia. Provavelmente ela não vai embora e eu não posso só me deixar afundar como ela afundou na minha barriga.

Só que eu não sei se estou no caminho certo. Tenho remédios, tenho terapia, tenho amigos, tenho tudo. Mas ainda sinto como se estivesse vivendo na 5ª marcha enquanto o resto do mundo está na 2ª.

Solteirice

Acordo e tem algumas notificações no celular: whatsapp, facebook, twiter… Tinder.

Novas mensagens, novas combinações. Ser mulher no Tinder parece fácil, mas é quase como navegar no meio de uma tempestade dentro de um carrinho de supermercado.

Você conhece um cara, ele é super sério, quase esnobe, fala sobre qualquer assunto e no fim é um semi-traficante (acho que o termo seria aviãozinho, é o cara que pega a sua maconha com o traficante, sabe?).

Aí você conhece uma moça que é super maravilhosa, engraçada, foda, a conversa flui, mas sua cabeça tá toda errada e você sabe que não é justo arrastar alguém pra esse buraco negro.

Tem o cara de esquerda que grita “bicha” no tiro de meta no estádio, tem a menina de 19 anos que tá experimentando e você sabe que não tem mais saco pra isso. Tem o cara dos áudios, que te adiciona no whatsapp e te manda 20 áudios de 6 segundos cada e é super animado pra falar sobre qualquer coisa que não te interessa. Tem aquela moça que te conhece há 2 dias e já quer saber quais serão os nomes dos 4 gatos que vocês vão adotar.

Tem seu ex.

Tem seu outro ex.

Tem aquela menina que você ficou uma vez.

Tem aquele outro cara que era seu amigo até vocês ficarem, depois a amizade morreu ali.

Tem uns golfinhos, tem policiais, tem muitos abdomens desnudos.

Tem amigos que namoram e tem uma vida de casal feliz tentando te arranjar com qualquer tranqueira que eles conhecem, porque parece que você tá naquele estágio da solteirice que dói de olhar.

E as conversas?

“Oi, tudo bem?”
“Tudo e com você?”
“Tudo também. O que faz da vida?”
“Ah eu sou monitor de touro mecânico em Barretos aos fins de semana, e você?”
“… professora”

E quando você tenta conversar com algum amigo sobre tudo isso e a resposta automática é “você é maravilhosa sozinha, não precisa de ninguém”
“Não, eu sei, mas é que às vezes eu me sinto sozi-”
“VOCÊ É COMPLETA E MARAVILHOSA SOZINHA”
“Verdade” *eu só queria reclamar um pouco da vida meu deus do céu*

Tem um filme chamado O Lagosta que fala sobre um mundo (não tão) distópico onde ser solteiro é contra a lei. E, caso você atinja certa idade sem ter um parceiro, você é transformado em um animal da sua escolha. Pelo menos a gente pode escolher o bicho, né?

E o filme mostra como a gente faz coisas imbecis para tentar agradar a outra pessoa, pra fazer com quem ela se identifique com a gente, tipo fingir que é um psicopata ou que tem sangramento crônico das vias nasais. Ou, no ápice do medo de não ser aceito por quem você ama, talvez perder a visão para os dois ficarem iguais.

Às vezes eu me pergunto quão ruim seria ter meus pais falando TOMA, SE CASA COM ESSA PESSOA AQUI PORQUE A GENTE TÁ MANDANDO porque pelo menos eu não precisaria escolher e nem lidar com um bando de policial militar no Tinder. A não ser que a pessoa escolhida fosse um PM, daí a vida clandestina seria minha companheira.

 

Carta a quem interessar possa III

Olá, amigo. Tudo bem?

Sei que não estou escrevendo muito, não ando bem. Sabe como é, todos aqueles problemas que eu já te contei… Eles são como pessoas gritando no meu ouvido, não consigo me concentrar e colocar pra fora o que eu preciso. Então eventualmente eu explodo, como aconteceu hoje.

Eu tomei algumas decisões. Sou uma pessoa com 26 anos de idade que vai voltar para a faculdade e fazer o que eu gosto de fazer: escrever e ler. Isso se eu entrar no curso, né, mas essa é outra linha de pensamento e não estou interessada nela agora.

Um amigo, de 19 anos, que está pensando em entrar na faculdade ano que vem, disse que se sente bem de me ver voltando, aos 26, porque faz com que ele se sinta menos atrasado.

Atrasado com o quê? Por que nós precisamos seguir a fórmula que enfiam na nossa cabeça e ainda nos sentir mal se não der certo?

Choose looking up old flames, wishing you’d done it all differently
And choose watching history repeat itself
Choose your future”

Escolhi meu futuro quando tinha 18 anos e não sabia nada da vida. Ainda não sei, mas sei 4% a mais do que naquela época. Por que eu não posso tentar? Por que me sentir um fracasso? Porque é o que todo mundo carrega no olhar quando me vê.

Ainda não aprendi a conseguir ignorar tudo o que pensam de mim, apesar de estar cada vez melhor nisso.

Caso eu descubra como viver 100% impermeável, te conto o segredo. Mas, por enquanto, preciso de você pra me ouvir e me dizer que não, não errei em tentar de novo. Errado é viver infeliz por comodidade e senso comum. Errado é não tentar.

Certo?

Como acontece II

Parte I

Uma briga sobre um detalhe idiota, o amigo dele faz um comentário que ela não gostou e a discussão, mais uma vez vira algo gigante, os faz terminar.

São meses de vazio, desesperança e desilusão. Onde encontrarei isso de novo? Não existe.

Pessoas vem e vão, semi-relacionamentos ou até relacionamentos sérios, mas nada dura. Nada. Pois sabem que um pertence ao outro e vice versa. No entanto as tentativas são  válidas,  pois acham que juntos nunca darão certo. Não interessa quanto amor sintam, só amor não é o suficiente.

Depois de meses tentando uma amizade falida, o amor fala mais alto e eles decidem estar juntos de novo. Magoam quem estava no meio, quem não deveria ser machucado por algo assim, pois desde o começo a ideia não era essa, não era volta, não era tentar de novo. Ambos se sentem mal, não gostam de machucar pessoas boas por quem eles tem tanto carinho. Isso machuca também.

Só que a vida pode ser óbvia às vezes. Ela pode esfregar na sua cara que, sim, você pode viver e ficar bem sem a outra pessoa. Você pode ser completo sozinho ou com outro que não te complete do mesmo jeito. Só que não é igual, não é o mesmo preenchimento. Sempre falta um pedaço. É como tentar montar um quebra-cabeças e duas peças quase se encaixam completamente, mas falta 0.01% e isso incomoda. Esse 0.01% sempre estará ali e sempre será um grande e se?

Mas a vida também os ensinou que não adianta insistir no mesmo erro.

Que todos temos limites e precisamos ser egoístas algumas vezes, pensar em nós mesmos e nos contentar com o que nos deixa bem. Pode não ser maravilhoso como antes, mas é bom, é calmo, é fácil e confortável. Por que não aceitar? Por que trocar isso pela turbulência e incerteza?

Não, eles não farão isso. Eles não precisam. Eles não querem.

E então?

Então, a vida nunca foi como eu planejei, acho que nenhuma vida é assim, né?

Pois bem, cá estou eu, numa noite de sexta-feira, bebendo sozinha e sendo babá de um gato. Adicionado à essa equação da diversão está o filme Passageiros. Muito ruim, não vou entrar nesse assunto.

De qualquer forma, o filme me fez pensar sobre as últimas pessoas com quem eu me relacionei de forma romântica e como, mesmo eu querendo, não consegui levar nada pra frente.

Eu sou uma pessoa fácil de se relacionar porque, depois de passar a ansiedade social (hey, é fácil para os outros), eu me sinto confortável para falar muito. Então, você não sendo uma pessoa total e completamente desagradável, assunto provavelmente não vai faltar.

E, assim, eu acabei me envolvendo com algumas pessoas. Ainda me envolvo, na verdade. Esperando aquele frio na barriga e não achando essa porcaria em lugar nenhum.

E agora vem o ponto principal que eu queria chegar: eu baseio minhas relações nas anteriores, situações atuais em situações passadas. Minhas duas relações de peso aconteceram depois de eu me apaixonar rápido e ver a pessoa fazendo o mesmo. Agora isso não acontece. Na verdade, a pessoa pode até sentir algo, mas eu não.

Quando você sou eu e você pensa como eu, você espera as coisas como eu disse aqui em cima, e quando essas coisas não acontecem você simplesmente pensa “ok, não foi dessa vez”.

Mas, entretanto, todavia, e se você também tem a capacidade de crescer o sentimento com o tempo? Mas você, na verdade, foge disso porque, talvez, você não esteja pronto? Ou porque você tem transtorno da personalidade limítrofe e sua cabeça é tão bagunçada quanto o quarto de um adolescente clichê?

Como saber se é você ou o transtorno tomando as decisões?

Então você decide continuar e tentar mais com as pessoas, sentindo que está se traindo e enganando as pessoas, pois não é assim que você se acostumou a lidar com relações. Mas não pode confiar em si mesmo.

E então? Se você não posso confiar em si mesmo, talvez esteja forçando algo que não é real e nunca será porque acha que a doença te controla.

E então… Talvez você só desista?

Mas, o transtorno é na sua cabeça, parte de você. E então?

Um dia perfeito

Bom, já que você perguntou, aqui vai:

“Acordo, sem despertador, porque é domingo e eu não sou obrigada. A cama está quentinha, confortável, como se me abraçasse dizendo “você é só minha”. E então você me abraça e sinto meu corpo se entregando à preguiça, ao sono.

Acordo novamente, agora sozinha na cama, ouço você na sala com a TV, o campeonato inglês passando e você resmungando sobre um impedimento que não aconteceu. Sorrio pra mim mesma e lembro que queria ver esse jogo, então levanto e levo o edredon para o sofá, pois sei que você vai estar lá sem camisa e hoje está frio. Não um frio absurdo, mas 18ºC é frio pra quem viveu meses com a mínima em 23ºC.

Durante o jogo, minha mãe liga. Amanhã é aniversário da minha avó, 79 anos, e hoje iremos levá-la para almoçar em algum lugar, comemoração simples e só com as filhas e a neta. Eu digo que vou me aprontar e peço para que me enviem o endereço do lugar.

Eu conheço minha família, então sei que, como marcaram às 13hrs, chegarão realmente após às 14:45, então deito novamente no sofá, me enfio embaixo do edredon com você e assistimos ao resto do jogo em silêncio, exceto pelos momentos de revolta ou risada porque o Liverpool marcou. Ou quase.

Ajudo você a preparar seu almoço, pois, apesar da minha avó te amar e sempre querer te ver, hoje é dia das filhas e da neta. Fazemos macarrão, como todo domingo. Na verdade, eu faço o macarrão, pois meu molho é muito melhor que o seu, e você se concentra no frango grelhado.

Enquanto você almoça, tomo banho ouvindo Jimmy Eat World e acabo perdida em algumas lembranças dos 18 anos. Não dói, é uma saudade feliz, saudade do que foi bom e valeu o tempo investido.

Já na rua, com o fone de ouvido, vestido, meia calça roxa e rasgada, All Star e jaqueta jeans, penso no que dar de presente de aniversário para a vó. Qualquer coisa que eu der vai deixar ela feliz ao ponto de quase chorar, ao mesmo tempo em que ela me dá uma bronca por ter gasto dinheiro com presentes. Sorrio para o chão.

Chego ao shopping 14:50, pois a senhora avó não queria em lugar nenhum senão o pior shopping da cidade. Menor, com menos opções e com mais gente. Mas é seu aniversário, então ela que manda.

Chego junto com ela e minha mãe, que foi buscá-la em casa, e está feliz por me ver participar desse dia. Normalmente eu invento uma desculpa ou simplesmente não apareço. É difícil lidar com pessoas, especialmente com família, mas quando é sobre a minha avó eu não fujo. Ela é um dos meus maiores presentes.

Almoço, sorvete, conversa na mesa, andança pelo shopping, uma tia compra um casaco, outra tia compra um sapato, eu penso em comprar uma bota, mas deixo para lá porque preciso economizar.

Volto para casa, encontro você me esperando com uma pizza para jantar. Continua do mesmo jeito que o deixei: moletom, chinelo e sem camisa. Pego uma camiseta de manga longa velha pra você, porque não dá pra aguentar te olhar assim nesse frio. 16ºC agora.

Comemos, conto como foi o dia, como a vó perguntou de você, como ela disse que gosta tanto de você e sente saudade. E como ela tirou sarro de mim por segurar sua bengala, dizendo que eu estava “esquentando o pau dela”.

Comemos demais, 3 pedaços e meio cada um, então a única decisão sábia é deitar no sofá e levar 40 minutos para decidir o que assistir na Netflix.

Alguns episódios de um desenho maluco e aleatório depois, vamos deitar na cama.

Você me abraça quentinho, como um aquecedor humano. Seu cheiro é maravilhoso, cheiro de lar, de felicidade.

E decide perguntar: o que seria um dia perfeito para mim?”

O dia em que fui salvo por John Lennon

Quando completamos 18 anos temos que, obrigatoriamente, nos alistar. Isso não é uma tarefa fácil se seu nome é Roberto Carlos. Ainda mais no ano que um deles jogava no Corinthians e a frase “brilha muito no Corinthians tinha acabado de ser cunhada; e o outro, o cantor, completava 50 anos de carreira. Ou seja, eu ia me ferrar.

Durante as 3 primeiras visitas ao centro militar a mesma coisa:

“Roberto Carlos”

Já começavam os risos, os famosos “esse cara sou eu” e “quando eu estou aqui”, etc.

Lembro que na 4a um dos militares lembrou da frase do Pânico na hora “brilha muito no Corinthians”… rs.

Pois bem. Na última vez, a vez em que eu seria dispensado, colotaram o pessoal sentado em 5 bancos diferentes, distribuídos verticalmente. O militar lá na frente chamava o nome, você levantava e ia até a mesa dele entregar o documento e vê-lo sendo carimbado com o mais doce sabor de liberdade que você pode provar aos 17/18 anos.

Porém, se o seu nome é Roberto Carlos, esse gosto pode ser bem amargo.

O militar começou chamando:

“Artur”

“Bruno”

“Caue”

Enquanto isso eu já suava frio sabendo que iria me ferrar bonitamente em cerca de segundos.

“Diego”

“Eduardo”

“Fabio”

Puta merda, o que que eu faço? Tô ferrado.

“Gabriel”

“Henrique”

“Igor”

Eis que surge um salvador:

“John Lennon”

Todos riram. Eu não. Mas eu sabia que Roberto Carlos não seria tão bom quanto um John Lennon. De lá, até o final foi só alegria. Quando gritaram o meu nome nenhuma reação.

Gostaria de deixar aqui o meu muito obrigado para John Lennon, que se sacrificou para que eu não sofresse o que ele sofreu. Eu te amo, John Lennon, mesmo você não sabendo.

Páginas 2 e 3 de um diário achado no km 427 da BR-116.

Às vezes eu sinto que tenho tantas cicatrizes e tantos traumas que o melhor que eu poderia fazer é me esconder. Viver em uma caverna no meio da mata de vez. Mas aí eu lembro que minhas habilidades de sobrevivência numa escala de 0 a 10 estão bem próximas do zero. Eu não sei acender fogueira. Eu não sei pescar. Não é raro eu me confundir amarrando o meu cadarço. Eu morreria em 3 dias no máximo.

Eu já fui pra caverna. Algumas vezes. Algumas vezes eu pensei em até diminuir o prazo de 3 dias e simplesmente me mudar pro limbo. Não foram poucas vezes, não foram muitas. Foram vezes. Acontece. Não deveria. Não gosto de falar da caverna.

Muitas vezes eu pensei em morar na casa de campo por mais tempo. Já cheguei a viver por anos na casa de campo. Mas sempre acontecia alguma coisa que me fazia voltar para cidade. Um emprego, um momento difícil passado por um parente e, em raras ocasiões, situações em que eu me via compelido por mim mesmo. Nunca valeu a pena. Ia, ficava alguns meses e logo voltava pra quietude do interior, aonde eu poderia fazer o que bem entendesse, na hora que me fosse conveniente.

A cidade, ela é linda de longe. Ela é linda nos primeiros dias. Tudo é encantador até você se dar conta que aquilo é uma forma de histeria coletiva. Bom, pelo menos para mim. Muita gente vive bem na cidade. Eu não. Eu não sei viver na cidade. Eu não sei viver me misturando à maré que de manhã vai do ponto A para o ponto B e de noite faz o caminho inverso, indo do ponto B para o ponto A. Muito menos consigo abdicar da minha liberdade pelo bem comum. Não que a minha liberdade e minhas vontades girem em torno de atos delituosos ou impróprios. Mas veja, a convivência impõe certas restrições naturais. Afinal ninguém nasce livre de verdade – não escolhemos a língua que iremos falar, o sistema político em que iremos viver, a classe social a qual iremos pertencer… tão pouco aonde iremos viver. Você pode dizer: “Ah, mas no campo essa falsa liberdade também existe.”. Sim, é verdade. Mas quando se convive com tantas pessoas, de uma forma muito mais intensa, as regras precisam ser mais duras. É muito mais difícil controlar milhões do que milhares, então é natural que a opressão seja maior.  Para mim maior do que os benefícios de se viver de uma forma coletiva.

Hoje vivo num meio termo. Passo uma temporada no interior e uma temporada na metrópole. Na caverna faz tempo que não passo e espero continuar assim. A tentação é forte mas a umidade e a escuridão são maiores.

Acho que omiti uma parte: eu queria saber viver na cidade. Tenho inveja de quem se adapta e de quem consegue colher os frutos. A cultura, a ciência, a troca de informação que é tão intensa no burgo e a convivência que ele proporciona. Queria poder me tornar parte de um organismo vivo feito de pedra e carne.