? – Capítulo 4 (Log #4)

Capítulo 3

50º dia – Log #4

Sabe o tédio? Sabe quando você tem várias coisas do mundo à sua disposição e mesmo assim você não quer fazer nada? Ou mesmo quando acaba a luz, a bateria do celular morre e você realmente não tem o que fazer, apesar de saber que isso é por tempo determinado?

Bom, eu estou vivendo isso. Mas o verdadeiro tédio, o tédio onde os livros que sobraram já foram lidos, não tenho gerador o suficiente para gastar com filmes e séries no computador, inclusive o banho quente também está com os dias contados.

Eu reclamava de tédio sem entender bem o que é. Na verdade, quando o mundo não tinha acabado, eu até gostava. O ócio sempre foi bem-vindo à minha vida, pois acredito que pensamos melhor quando estamos com a cabeça vazia, sem telas e sem barulhos. Eu era um grande apreciador de horas e horas sozinho, só com meu gato e uma música ou até só meu gato e nada de música. Só o teto do quarto, o mundo andando lá fora e eu ali, parado, esvaziando a cabeça. O sentimento de ser uma árvore grande e antiga, com raízes maiores que minhas olheiras atuais, no meio de uma tempestade. Tudo em volta voando, cedendo, mas a árvore lá, parada, só esperando a tempestade acabar.

Eu vivia assim, esperando a tempestade acabar. Como se a vida fosse uma peça de teatro em velocidade rápida e eu estivesse na platéia, assistindo, sozinho.

A cabeça vazia eventualmente me tornou uma pessoa vazia, eu não sentia vontade de nada, ver pessoas, sair da cama, assistir um filme novo, comer uma pizza enquanto converso com os amigos. Nada. Eu vivia no automático, como se eu fosse um robô programado para viver em sociedade, conversar, trabalhar, comer, tomar banho, assistir tv, comentar o jornal com os colegas de trabalho, dar oi para o vizinho, dirigir, ir ao mercado, fazer xixi, ir a encontros com mulheres que me consideravam atraente, dormir, viver.

Agora?

Agora eu continuo vazio, mas não estou no automático. O vácuo dentro de mim foi tomado pela realidade de que o mundo finalmente parou e eu que estou em movimento. Os papéis se inverteram, o resto do mundo assiste enquanto eu vivo.

“Você acha que ser sozinho num cenário pós-apocalíptico é viver?” às vezes eu me questiono.

Pelo menos esse cenário é o que ele é: vazio, quieto, tóxico, deserto. Não há tentativas de parecer o que não é, não há normas sociais. Só o vazio e eu. E meu vazio está mais vivo do que nunca.

? – Capítulo 3 (Log #3)

Capítulo 2

Dia 42

Ansiedade. Eu sofria de ansiedade. Ela não aparecia apenas quando algo que eu julgava importante estava para acontecer, ou quando algo realmente importante, bom ou ruim, acontecia. Ela estava presente constantemente. Ir em um evento social? Lá estava ela (mesmo com pessoas já conhecidas). Deixar de ir no tal evento social? De mansinho ela aparecia. Eu perdi as contas de quantos ataques de pânico eu tive sem nenhum motivo aparente. Talvez fosse o fato de a vida ser acelerada em todas as vertentes possíveis. Tudo era para ontem. E tudo era esperado de você. Basicamente a gente era criado com base nas expectativas de nossos pais, amigos, conhecidos… da sociedade. Na verdade, pensando agora, não sei se as expectativas eram impostas pela sociedade, ou se as expectativas se impunham sobre ela. Acho que é aquele velho cliché do ovo e da galinha. Quem veio primeiro? A expectativa de que nós vivêssemos de certo modo, ou o certo modo que gerou as expectativas? Não sei. A parte engraçada disso tudo é: eu tô completamente sozinho, não tenho pressão para fazer nada. Como a hora que quero, converso com a Andressa quando quero, acordo quando quero e, mesmo assim, a ansiedade ainda me assombra. Acho que, de certa forma, fui acometido pelo mal de me sentir ansioso por não me sentir ansioso. E eu contando vantagem por ser o único a ter o presságio e ter me preparado para um momento como estes, de não ter sido escutado, por terem me achado louco quando comecei a estocar comida, me tornei um viciado em ansiedade. Eu ri quando me vi sozinho. Ri da ironia. Eles riram de mim. Eu ri deles. Mas, no final, acho que a piada era sobre mim mesmo.

Capítulo 4

? – Capítulo II ( Log #2)

Capítulo I

31º dia – Log #1

Escrevendo porque perdi as esperanças de encontrar alguém, pelo visto o Apocalipse realmente aconteceu e eu sobrei. Riram de mim quando eu dizia que estava me preparando para o fim do mundo, o apocalipse zumbi, uma bomba nuclear, mas agora eu que estou rindo! Ok, na verdade não estou, estou escrevendo um diário para não surtar de vez, afinal, faz 31 dias desde que o mundo parece ter acabado e eu não vejo ninguém. E eu nem me preparei, foi tudo sem querer. Sou uma fraude.

Para ser sincero, os primeiros dias passaram bem rápido. Fim do mundo, medo, apreensão, juntar minhas coisas, preparar tudo, ajeitar a vida sozinho, tentar construir uma companhia, falhar, tentar de novo, falhar de novo. Então o tédio, a saudade da internet, dos amigos e até das correntes de whatsapp das minhas tias. Eu reclamava do tanto de conectividade que a humanidade tinha, como dificilmente conseguíamos realmente ficar sozinhos, afinal, tinha mensagem, e-mail, rede social, ligação, só faltou o teletransporte (isso seria muito bom). E agora… Agora eu trocaria metade da minha vida para receber um BOM DIA, DEUS ESTÁ COM VOCÊ TODOS OS DIAS no whatsapp. Além de tudo isso, a sensação devastadora de que possivelmente sou o único infeliz ser vivo que sobrou nessa porcaria só aumenta. Essa, definitivamente, é a pior parte.

E meus dias estão começando a ficar enevoados, às vezes esqueço o que aconteceu por horas ou até por praticamente um dia todo. E juro que não estou abusando dos calmantes estocados. Acho que é estresse, posso ter apagão por isso, certo? Porque eu não lembro de ter reconstruído o braço da Andressa.

Capítulo 3

? – Capítulo I (Log #2)

Esse é um projeto novo meu e da Isa. A intenção é a de escrever uma história colaborativa com um porém: cada um irá escrever um capítulo sem dar ideias sobre o capítulo do outro, e sem pensarmos juntos em uma linha que a história deva seguir! Como não sabemos o que vai acontecer, não temos título ainda. Esse é o primeiro capítulo, espero que gostem!

Log #1

Por que esse anseio de sempre estarmos juntos mas nunca estarmos realmente juntos? O mundo inteiro girava em torno do conceito do “solitário acompanhado”. Veja, mesmo quando estávamos sozinhos sentíamos a necessidade de falar com as pessoas. Postávamos em nossas redes sociais esperando que as pessoas interagissem com nossos links, gifs, vídeos. Mandávamos milhões de mensagens através de aplicativos e esperávamos ser respondidos quase que instantaneamente (quando não nos retribuíam a mensagem no período de tempo em que pensávamos ser o ideal nos tornávamos neuróticos – “Será que eu escrevi algo errado?”, “Será que essa pessoa não gosta de mim?”, “Será que…?”). Teoricamente estávamos disponíveis 24 horas por dia, 7 dias por semana, fosse para atender aquela ligação de cobrança do cartão de crédito, fosse para responder a mensagem do amigo que não víamos há 4 anos mas ainda assim nos parecia ser um completo conhecido porque trocávamos informações esporádicas sobre nossas vidas a cada 15 dias por de trás de teclados, fosse para verificar o e-mail do trabalho em um domingo às 10 horas da noite ou escutaríamos poucas e boas na segunda de manhã. E, veja bem, mesmo quando nos encontrávamos,  no plano físico, não nos doávamos completamente. É difícil lembrar da última vez que eu sai com alguém e a pessoa, ou eu mesmo, não tivesse pego o celular em algum momento para fazer parte desse ciclo. Na verdade é difícil lembrar da última vez que eu vi alguém. Enfim, nada disso importa mais. O mundo teoricamente acabou. E pelo o que eu sei, eu tô realmente sozinho. E mesmo assim eu sinto essa necessidade de registrar os fatos nesse maldito diário. É como diziam: “Antigos hábitos dificilmente morrem”. Bom, tenho que achar algo para comer e reconstruir o braço direito da Andressa.

Capítulo II