Éramos Nós

Acordei e, por 5 segundos, tinha 7 anos novamente e me preparava para sair às pressas de casa com mãe e irmão.

Mas, ao contrário dos 27 anos que passei morando com a minha família, dessa vez não era comigo. Era a vizinha com medo, ouvindo xingos, vendo ele quebrar coisas. Era ela.

Mas ainda era eu. 2 da manhã, gritos, coisas voando para a parede, choro, portas batendo. Ela sou eu. E minha mãe. E mais uma infinidade de “elas”. Nós.

A história se repete, de novo, como tantas vezes eu já vi: ele quebra tudo, nós pedimos por favor; ele xinga, nós choramos; ele continua, nós saímos, ligamos para a mãe, amigos ou irmãos. Ele se arrepende e chora, nós voltamos.

Eu me sinto impotente e fraca pois nunca consegui “ajudar” ninguém. Relações abusivas são como uma cortina de fumaça, inclusive para quem não é o alvo literal do violão voador.

Sempre serei eu, ela, nós. Esse tipo de experiência deixa marcas fundas, ela tremia, chorava, estava com vergonha e medo. Eu também.

Ainda não sei como nós ainda conseguimos algumas noites de sono. Mas sei que, hoje, nós não dormiremos de novo.

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Uma Vida em 4 Minutos IV – El Fin

[Pfvr não leia se não leu as 3 primeiras partes – Tão aqui ó]

 

Ela passou os últimos meses pensando nisso sem parar.

Como ela acabava irritada facilmente, como pequenas coisas – antes ignoradas pois fúteis demais – a fazia virar uma pessoa passiva-agressiva.

Como ela mudou com ele. Como ela mudou. Ele também, mas com uma curva mais aberta, concluiu.

Era egoísmo fazer isso, desse jeito, mas ela sentia que ia explodir. Ela queria poder ser honesta com o seu melhor amigo.

You will remember
When this is blown over
And everything’s all by the way
When I grow older
I will be there at your side
To remind you how I still love you
I still love you

Hurry back, hurry back
Don’t take it away from me
Because you don’t know
What it means to me
Love of my life
Love of my life
Yeah

“Eu não tentei sentar no gato do Vini, mas você vai querer me esfolar” ela disse, sorrindo. Conseguia sorrir porque amenizar as quedas, os resultados dos desastres, era seu dia a dia.

Ele a olhou daquele jeito “não sei se você tá me zoando ou não”, era um olhar com o qual ela se acostumou. Deixou de achar bonitinho, talvez fosse hora de se preocupar.

“Eu vou embora, quero terminar” ela disse, querendo olhar pro chão, mas sabendo que não deveria. Enquanto ele a olhava daquele jeito “não sei se você tá me zoando ou não”.

Uma Vida em 4 Minutos III

As primeiras notas do piano começaram a tocar e ela, que estava envolvida na bolha política-social-direito-agradar clientes, olhou em volta. Ele não estava perto apesar d’ela jurar que o tinha visto há menos de 2 minutos conversando com o maior cliente do Societário, um senhor, dono de uma cadeia de lavanderias, que o adorava. Provavelmente por ser desajeitado e falar sem pensar. Esse tipo de comportamento pode ser um alívio para nós, que somos obrigados a tratar a rotina com uma polidez que, muitas vezes, é tão real quanto os valores morais pregados em igrejas e ignorados assim que a missa termina.

Ele saiu do banheiro, ouviu as mesmas primeiras notas do piano e foi para o meio do salão, onde a esperaria.

Ela olhou em volta o viu, parado, a encarando. Um sorriso torto no rosto e a palma da mão a convidando para se juntar a ele.

Suas mãos se tocaram assim que seu amigo de décadas começou a cantar

Love of my life, you’ve hurt me
You’ve broken my heart
And now you leave me

“Love of my life?” ela perguntou, mas com um tom de afirmação ao fundo.
“Sim?” ele sempre se perguntava o que aquela cabeça estava pensando. Era impossível adivinhar, apesar de ser o contrário com ele… Ela sempre, sempre sabia.
“Eu escutei tanto essa música durante aquela época” seu tom não era de tristeza, mas de alguém perdida em lembranças “a nossa música”, ela adicionou com um sorrisinho sarcástico.

Love of my life, can’t you see?
Bring it back, bring it back
Don’t take it away from me
Because you don’t know
What it means to me

“Podemos não lembrar da época em que eu era um imbecil?” ele revirou os olhos, ela riu “Meu amor, você ainda é meio imbecil, mas só parte”. “Obrigado por isso” ele riu também, mas lembrando do dia em que ouviu essa música com ela pela primeira vez, uma lembrança muito mais doce.
Eles já se conheciam há meses, mas ela era uma amiga dos amigos, nunca foram próximos até o incidente que os aproximaria ou a faria voar pela janela.

“Lembra do dia que eu sentei no gato do Vini e você ficou brava porque achou que eu tinha feito de propósito?”
“Lembro. A primeira vez que ouvimos Love of my Life juntos, eu queria te esfolar vivo por assustar o gato daquele jeito. Mas quando você pediu desculpas eu percebi que era só mais um tapado e estabanado, não um idiota que gosta de maltratar bichinhos”.

Love of my life, don’t leave me
You’ve stolen my love
And now desert me

Eles dançavam ao som da música em um movimento que, provavelmente, não seria classificado como dança pois ela o abraçava pelo pescoço enquanto ele a segurava pela cintura. Um abraço tão abertado quanto a dor e a felicidade que, ao mesmo tempo, ocupava a bolha criada pelos dois naquele salão.

Uma Vida em 4 Minutos II

“Pronto?” foi o que ela perguntou quando se aproximou daquele rosto corado.
“Eu sempre estou pronto para empresários e banqueiros e gente rica, passar vergonha é meu passatempo preferido.”
“Que bom, porque hoje vai ser um saco, preciso de você para me manter sã e lembrar que há vida além do escritório”

Ele bateu continência e fez um gesto, indicando pra ela ir na frente.

Com as portas do salão abrindo, os dois com as mãos dadas, imaginaram sua cama confortável. Ela, pela 2ª vez em 30 minutos e se perguntava, pela 1001ª vez no dia, por que não inventou uma desculpa e ficou em casa… Por que não fugir desse jantar? Ela era boa o suficiente para não precisar fazer social com os clientes em todas os eventos do escritório.
Mas já era hora de entrar em modo advogada e parar de sofrer por algo que ela havia se comprometido em fazer. E outra… Ela já estava ali, os outros dois sócios a viram.
Ligou o botão “advogada”, fácil de instalar com os anos, e foi conversar com os dois colegas.

Ele acompanhou, fez toda a dança dos cumprimentos e do “como vão as coisas” com o sócio do Contencioso e o de Societário. A santíssima trindade de um dos escritórios mais renomados da cidade, ele ponderava sobre um mundo onde haveria uma só pessoa como os três. E como isso seria assustador.
Cada um deles era relacionado a empresários, banqueiros, políticos, socialites etc, ou seja, os convidados. Levou anos para ele acostumar com esses jantares, ela ascendeu tão rápido, tão nova, que ele se sentiu Ícaro voando muito próximo ao Sol. Tomou um gole de vinho para esquecer aquela lembrança amarga.

Enquanto ele lembrava de seu mini-inferno pessoal, já no passado, ela conversava amenidades com os colegas. Ambos dois homens que ela respeitava, apesar dos conflitos internos de egos entre equipes, os três faziam um bom time. Ela e Societário foram colegas na faculdada, mesma turma. Contencioso era dois anos mais velho, veterano quando eles foram aprovados no curso.
Engraçado chamar uma criança de 20 anos de veterano a essa altura da vida.

Vivendo com Ansiedade III

O coração parece estar a 180bpm, mas não está nem a 80.
A cabeça não para de pensar em todas, mas todas as coisas ruins que aconteceram, estão acontecendo e que acontecerão.
E, no fundo, tem a depressão, como uma névoa que toma minha cabeça e me deixa dormente.

Me sinto quase a personificação de um paradoxo quando isso acontece: por um lado, a sensação de que meu coração vai explodir e, por outro, parece que a gravidade é 10 vezes mais forte só em volta do meu corpo, e eu não consigo me mexer.

É como se eu fosse segurar um espirro e isso desencadeasse uma combustão interna, sem sinais externos.

É cansativo, é desesperador. É um buraco escuro, úmido, que não é confortável, mas drena as energias e eu penso “preciso sair daqui”.

Falar ou pensar é tão mais fácil do que fazer…

E tudo isso leva à culpa que eu sinto, como se eu fosse fraca e preguiçosa.

Lembro do meu Seu Armando dizendo que tudo isso é “desculpinha esfarrapada”. Quem nunca teve um desses, não é mesmo?

Ou vários.

Uma vida em 4 minutos I

Ela dirigia e pensava no escritório: quantos contratos para cuidar, quanto tempo que faltava e quantas broncas dar por ter uma equipe preguiçosa. Também pensava na sua cama, em casa, tão confortável e convidativa, totalmente o contrário do vestido de gala, salto e cinta que precisaria usar durante aquela noite.

Ele ia no banco do passageiro, inquieto, mexendo no rádio, procurando uma estação. Tentando se distrair do fato de que hoje era o prazo para receber uma posição sobre seu livro. O livro que ele dedicou 8 meses, sem trabalhar fora de casa, o que causou algumas discussões com ela por semanas, mas, eventualmente, se acertaram. Eles sempre se acertam.
A preocupação com o estresse dela, sobre o evento para o qual iam, ficava no canto do seu cérebro como uma criancinha cutucando uma amoeba; ele sabe quão boa ela é com contratos, cláusulas, negociações, e quanto odeia essas formalidades que a profissão traz junto. Como, por exemplo, jantares absurdamente caros, com clientes absurdamente ricos, para ter conversas absurdamente inúteis.

Em algum momento, rateando pelo rádio, após desistir de ouvir qualquer coisa do seus celulares, pois esse era um daqueles dias, ele parou rapidamente depois de ouvir as últimas notas no piano, aquela doce e deveras atrevida voz

Love of my life
Love of my life
Yeah.

Os dois se encararam por 2 segundos, dividiram um sorriso que era somente deles, ninguém mais no mundo entenderia o porquê de 3 versos de uma música os fariam expressar tamanho segredo com olhares que seriam tanto de ternura quanto de crianças levadas.

Porém, ao fim das notas, o momento de intimidade quase mágico, delicado como a luz de um vaga-lume, se foi e ambos voltaram às preocupações daquela noite.

Ela estava com a maquiagem e o cabelo feitos, precisaria entrar no hotel para se vestir antes de ir para o salão, colocar a máscara de sócia do escritório e ser amável com todas aquelas pessoas que, há 10 anos, ela nunca imaginou que chamaria de “clientes”.

Ele, como plus one, vestia seu terno-de-sempre para ocasiões onde não podia simplesmente usar seus jeans e camisetas, mas mantinha o bom e velho Converse preto e vermelho. Ele era um escritor, toda sua integridade perante a sociedade já estava comprometida de qualquer maneira.

Ela veio para o lobby, encontrar com ele para entrarem naquele mundo superficial e com muito champagne do bom.

Ele sabia que ela estava totalmente desconfortável. Odiava usar salto, mas não pôde deixar de pensar que aquela pessoa sempre o impressionava, há mais de quinze anos, em multiplas e inusitadas situações, com a força e coragem de enfrentar noites como aquela e cenários piores e continuar com aquele olhar e sorriso de quem sabe exatamente o que se passa na sua cabeça.

15 anos, ela pensou, e ele ainda fica vermelho quando eu o encaro.

A carta a quem interessar possa VI

Amigo, não escrevo há meses e, por isso, peço desculpas.
Acabei presa nos meus próprios problemas e esqueci de manter contato e hoje, claramente, preciso desabafar e por isso estou escrevendo.

Espero que você não se importe, amizades acabam sendo assim, certo? O contato se baseia unicamente no que as partes precisam e, no nosso caso, nós nos escrevemos quando precisamos desabafar.
No meu caso, queria te fazer uma pergunta:

O que fazer quando você quer, sente que precisa e é como se seu corpo fosse explodir em bilhões de pedacinhos caso você não conseguisse um pouco de contato físico, mas, ao mesmo tempo, a ideia de deixar outro ser humano te tocar é… assustadora e agoniante?

A falta que o toque específico, com o perfume certo, da pessoa certa faz falta às vezes. E o cérebro vai a milhão, tentando encontrar formas e desculpas pra conseguir tudo aquilo de novo. O pior de tudo é saber que não existe nada disso, que, na verdade, sua mente se acostumou com aquela pessoa e o caminho mais fácil contra a solidão seria ter tudo aquilo de volta.

A solidão é sempre pintada como algo negativo, como a escuridão. Ficar sozinho pode significar o fim de algo, algo que talvez você desse como garantido; ou talvez nem estivesse totalmente feliz, mas acomodado. Somos ensinados desde criança: tenha muitos amigos, encontre sua alma gêmea, não fique sozinho, seja bem sucedido em todos os aspectos da sua vida.

Mas ninguém te avisa que ter tudo isso beira o impossível. Que ser feliz em um relacionamento romântico dá trabalho porque não é só você, não é só 1 corpo. São 2 pessoas, dois cérebros, dois corpos com infinitas vontades, medos, desejos, segredos. Que escolher uma faculdade com 17/18 anos pode levar a uma vida profissional frustrada. E que amizades são tão frágeis quanto as mentiras que contamos a nós mesmos para seguir em frente, ainda buscando um sucesso artificial.

O final, o encerramento de relações pode trazer a solidão que normalmente é vista como entrar em um túnel escuro ou cair em um poço. Escura, fria, nada amistosa. Mas não seria ela a melhor professora para te ensinar que é possível se reinventar, mudar, começar de novo?

Afinal, todo fim é bom. Basta lembrar de seguir em frente ou subir de novo. O mundo vai estar aqui, esperando.

Envelhecer (e amadurecer) emocionalmente

“quando você é mais novo, você acredita que vai ter muita gente pra se conectar. Mais tarde você percebe que isso só acontece algumas vezes”

Eu tive muita sorte. Sempre encontrei facilmente pessoas com quem a conexão foi rápida e fácil, seja para amizade ou romanticamente.

Mas, um dia, eu percebi que isso tinha acabado. Que anos de facilidade e quase nenhum esforço estão sendo compensados por não conseguir engatar uma conversa interessante por mais de 5 minutos com 98.7% das pessoas que acabo de conhecer. É como se minha gama de paciência ou assuntos estivesse muito mais limitada.

Por um lado é triste, sinto falta daquela vida onde eu tinha 89 grupos de amigos diferentes. Por outro lado, agora tenho os que valem à pena e novidades só vão pra frente mesmo quando a conexão é boa demais pra ser verdade.

E é isso que acontece agora. Eu não sou mais a menina de 23 anos que fica 24/7 pensando na mesma pessoa. Eu trabalho, converso com meus amigos, faço minhas coisas, mas você tá sempre no cantinho da minha cabeça. E nas horas que, teoricamente, já são “nossas”, porque meu cérebro acostumou assim, a saudade bate e dói.

É estranho porque eu não esperava mais esse tipo de coisa. Como te disse, me sinto uma adolescente e isso não é agradável.

Eu fico ansiosa ruim, com medo, triste, alegre, ansiosa bom, com sono (👀) e não é a primeira vez que sinto tudo isso, mas parece que é. Ao mesmo tempo que me apavora, me deixa extasiada.

Deixa eu tirar um bando de selfies idiotas com você e postar no Instagram?

Primeiras coisas antes

Primeiro você nasce, então aprende a andar.
Primeiro você aprende a andar, então aprende a correr.
Primeiro você corre, então para.

Primeiro você aprende sobre a letra A, então você escreve uma frase.
Primeiro você escreve uma frase, então você escreve um parágrafo.
Primeiro você escreve um parágrafo, então você escreve uma página inteira e continua.

Primeiro você diz “oi”, então você conversa.
Primeiro você conversa, então beija.
Primeiro você beija, então você transa.
Primeiro você transa, então decide como ir.

Primeiro você diz “eu te amo”, então você faz promessas.
Primeiro você faz promessas, então você as cumpre.
Primeiro você cumpre as promessas e então… Não mais.

Primeiro você toma um gole, então você toma um copo.
Primeiro você toma um copo, então você toma meia garrafa.
Primeiro você toma meia garrafa, então você não se lembra.

Então você não se lembra e continua bebendo até esquecer, então você para, continua, decide como ir, não cumpre as promessas… Então não se lembra.

Eu tenho um problema

Eu tenho um problema. Eu sei disso, oficialmente, há 3 meses. Conscientemente, há uns bons 5 anos. Inconscientemente… Provavelmente desde o primeiro gole.

“O primeiro gole é o pior”.

Pode ser o primeiro da vida, ou o primeiro daquele dia, o primeiro gole é quando eu fecho a porta e digo “tudo bem, eu consigo controlar e vai ficar tudo bem”.

Andando até a reunião, perto de casa, eu me pergunto como é, como são as pessoas. Será que eu sou a mais nova ali? Será que vão me julgar e achar que é charme? Será que é como entrar em qualquer grupo? Eu sempre sinto que ninguém gosta de mim de primeira…

A sala é pequena, com algumas cadeiras de plástico, café, água, uns biscoitos, uma lousa que mostra quantos membros, visitantes e ingressantes estão lá. Cheguei atrasada, um senhor já está falando.

Peço desculpas, licença e boa noite. Sento na primeira cadeira que vejo e ouço enquanto o senhor, na cadeira de destaque, fala. Ele dá a sua perspectiva sobre o mesmo problema que compartilhamos. Ele é um alcoólatra e um dependente químico em reabilitação.

Depois, ele lê o texto de introdução dos Alcoólicos Anônimos. O texto diz que ninguém é obrigado a falar, dar nome ou está filiado a qualquer coisa. É puramente pessoal e aberto. Não há pressão. E realmente não há.

Ele me olha, pede desculpas pois ele precisa do meu nome (não precisa ser o verdadeiro) somente para anotar e poder se dirigir a mim durante a reunião. Pergunta se tenho interesse em ingressar ou não, então eu terei meu token e a palavra por 8 minutos.

São 2 segundos em que eu penso eu realmente preciso disso? Será que não consigo manter no controle como eu venho mantendo? Mas na verdade eu não mantive controle algum. Você acha que tem, você pensa “um dia só de bar não faz diferença” ou “uma cerveja hoje e tá tudo bem”. E dias ou semanas depois você bebe até apagar porque ficou doente e não pôde ir trabalhar, então acha que será demitida. Sim, eu preciso disso.

Pego o token, o símbolo de que, em teoria, eu estou escolhendo um novo caminho para mim. Sento na cadeira e divido com aqueles desconhecidos algumas situações e sentimentos que amigos conhecem, mas não sabem como é de verdade. Todos eles já estiveram onde eu estive, nada do que eu digo é novidade, mas não sinto que os estou sendo entediante. Não é difícil, não me sinto desconfortável. Ao mesmo tempo fico triste de lembrar de coisas que fiz e machucaram outros, que isso poderia ter sido evitado. Não olho ninguém, enquanto falo mantenho os olhos no token.

Quando levanto, todos batem palmas e “você é a pessoa mais importante aqui hoje” é a frase que ouço de todos.
Os presentes tem oportunidade de falar e uma senhora, com uma vibe muito mais jovial do que de muitos de 20-e-poucos que conheço toma a palavra. Ela senta na cadeira e diz “você é a pessoa mais importante aqui hoje” e depois diz “Meu nome é <insira um nome aqui> e eu sou uma alcoólatra em recuperação”. Ela fala para todos, mas olha para mim, o tempo todo, contando como as coisas estão e como ela fica feliz de ver alguém novo tentando mudar e melhorar, que eu lembro ela mesma, mas mais calma. Ela só procurou ajuda quando não mordia só as correntes, mas sim tudo e todos.

Todos têm seus minutos para falar, dois preferem se abster.

“Boas próximas 24hrs a todos” é como você se despede saindo da cadeira.

“O importante são as próximas 24hrs, o resto você vê depois”.

É engraçado como um grupo de desconhecidos podem passar a sensação de familiaridade. Eles sabem, eles não fazem cara de espanto, eles não te julgam. Eles pensam “sim, já fiz isso” assim como eu penso enquanto os escuto.

Dividir problemas, dividir as dores, pedir ajuda… Coisas sempre difíceis para mim, mas que pareceram fáceis hoje.

Hoje foi um bom dia.

Dias ruins virão, pois eles sempre vem, assim como os bons dias.

Mas a realização e aceitação de que eu tenho um problema com bebida, e que eu preciso de ajuda, vieram hoje. E isso nunca é ruim.

“Boas próximas 24hrs”.

“Não tome o primeiro gole”.

Meu nome é Isadora e eu sou uma alcoólatra em recuperação.