Ele & Ela (,) – Capítulo V (Outdoor)

“Okay, isso foi estranho.”, ele pensou sobre o que havia acontecido enquanto continuava sua caminhada em direção ao km 0.

A moça havia sumido, assim como o elevador. O Gabriel desapareceu junto com o forte brilho que emanou da lataria contorcida do que antes fora um carro. Ninguém o respondeu – bombeiros, paramédicos- exceto a moça, e agora ela tinha partido.

Até ali ele tinha: acordado sem saber quem era, aonde estava e o que fazia perambulando no meio da estrada; encontrado um corpo (que era seu, apesar de não conseguir se lembrar); sido ignorado por um bando de pessoas que deveriam ajudá-lo; visto uma pessoa desaparecer com um forte clarão; testemunhado a única pessoa que lhe dirigira uma frase entrar num elevador que apareceu do nada e, puff, subiu em direção ao céu.

Isso era impossível.

Levando-se em conta a chance de algo assim acontecer com alguém, o fato de ele ter pensado somente “Isso foi estranho.” era ainda mais impressionante.

Estatisticamente falando a probabilidade de alguém pensar algo brando como isto em tais circunstâncias era mínima, muito próxima ao 0 em um gráfico x y. Talvez isto sirva como prova de que o comportamento humano é imprevisível. Talvez o choque dos mencionados acontecimentos afetasse a mente dele. Talvez o fato de sua cabeça ter sido atingida por um Celta verde influenciasse nas suas capacidades mentais. Talvez ele fosse apenas louco. De qualquer forma, aquilo foi o que ele pensou.

Ele continuou sua andança.

Foi quando um grande outdoor surgiu bem no canto direito da estrada a sua frente. Eis o que estava escrito nele:

“Siga em frente.”

“Okay…”, ele pensou.

1 quilômetro se passou e novamente um outdoor apareceu.

“Siga em frente.”

Ele continuou andando. 2 quilômetros e novamente o outdoor estava lá com a mesma mensagem.

Ele continuou andando.

3 quilômetros a frente, mesmo outdoor. 5 quilômetros a frente, mesmo outdoor. 8 quilômetros a frente, mesmo outdoor.

Foi quando ele decidiu que não iria mais seguir em frente. Ninguém mandava nele, muito menos uma placa de estrada.

Começou o caminho de volta. Não sabia o que iria fazer, mas as coisas já estavam ruins demais daquela forma. Não havia espaço para piora.

Andou 1 quilômetro na direção contrária e novamente o outdoor apareceu, desta vez com a seguinte mensagem:

“Volte.”

Decidiu ignorá-la e continuou sua caminhada de protesto.

2 quilômetros depois, novamente surgiu um outdoor, desta vez com a seguinte mensagem:

“Você não vai voltar?”

– Dane-se você, outdoor.

Andou por mais 3 quilômetros e eis que novamente aparece um outdoor:

“A gente precisa da sua presença na assembléia do M.E.S.T.I.C.O. Por favor, retorne”

Ele caminhou em direção ao suporte do outdoor e o chutou.

“Mestico? MESTICO??? Dane-se o MESTICO. Eu não sei nem o que tá acontecendo comigo e você vem me falar de assembléia???”

Após chutar o mastro por cerca de seis vezes ele retornou à sua peregrinação.

Mais 5 quilômetros e o maldito outdoor reapareceu:

“Volta, por favor… =(”

– Vá se foder! – disse ele em direção ao outdoor.

Dessa vez ele andou, andou, andou e nada. Nenhum sinal de outdoor. Aparentemente ele havia recuperado seu livre arbítrio. Começou a pensar sobre o que iria fazer agora. Neste momento se aproximava de onde o corpo estava e não fazia ideia de quantos quilômetros mais ele teria que percorrer para chegar em algum tipo de povoado, cidade, casa ou qualquer resquício humano. O que ele sabia era que ele não ia ser mandado por ninguém.

Passou pelo local aonde o carro tinha sofrido o acidente. Não havia mais nada lá.

Caminhou mais um bocado, sempre observando se algum carro passava em alguma direção. Nenhum. As árvores continuavam ali, a única mudança no cenário eram os raios de sol que começavam a aparecer por entre as copas da floresta.

Um coelho surgiu por entre os arbustos. Ele acompanhou o bicho com os olhos. Por sua vez o bicho o acompanhou com suas patas. O bicho começou a correr e correr no meio da estrada. Isso o fez ter vontade de correr também. Começou trotando, ganhando confiança. Foi aumentando de velocidade, paulatinamente. Decidiu dar um pique. Deu de cara com uma parede branca. Era um outdoor.

“Nós pedimos com educação. A sua presença na assembléia do M.E.S.T.I.C.O é OBRIGATÓRIA. Dirija-se ao km 0 da estrada para maiores informações”

Este era o oitavo quilometro desde a última vez que um outdoor havia aparecido.

Anúncios

Ele & Ela – Capítulo IV (Perguntas)

Ela voltou correndo em direção ao seu quarto. 

Entrou. Sua mãe continuava chorando, sentada na cadeira quase que de frente para a cama observando a mesma.

Notou algo estranho. Havia um corpo deitado ali.

Aproximou-se. Reconheceu um rosto familiar. Era sua própria face. Respirou por um, dois, três… cinco segundos. E gritou o mais alto que pode, todo o ar saindo de seu pulmão de uma só vez. 

Desmaiou.

Passado um tempo acordou. Estava estirada de bruços no chão. Levantou-se com dificuldade. Olhou mais uma vez para si mesma, ali deitada, com um grande tubo de ventilação em sua boca, soro acoplado a seu braço e uma máquina que fazia um “bip” a cada batimento cardíaco seu. Porém, pensou, não poderia ser seu pois estava ali de pé e não na cama. De acordo com a leis da física vigente era impossível estar em mais de um local em um determinado momento.

Começou a se lembrar do que havia acontecido antes.

A história era basicamente a seguinte:

Ela morava com sua mãe e seu padrasto em uma casa de tijolos em um bairro de classe média. Tinha um cachorro e um gato. Era filha única. Estudava direito em uma renomada faculdade católica de sua cidade. Tinha grandes amigos lá. Ela era uma pessoa considerada “inteligente” (apesar que, para ela, este conceito era completamente equivocado – ser inteligente não era tirar boas notas, ou ser boa em contas, ler, ou saber de fatos; para ela cada pessoa tinha sua própria forma de inteligência: haviam pessoas com habilidade social que ela não possuía; outras com habilidades lógicas que ela mal conseguia entender; outras eram boas em esportes, o que ela nunca foi). Não estudava e ia bem. Tinha tudo em casa. Tinha um carro próprio. Tinha namorado. Ela só não tinha uma coisa: vontade de viver. Eis que um dia ela decidiu resolver este problema, sair dessa e ir para uma melhor. Tomou um bocado de Difenidrin.

Primeiro experimentou uma forte excitação. Depois vieram as alucinações: vira um coelho gigante que lhe perguntava o porquê de ela estar fazendo aquilo. Então começou a chorar. Deitou-se. Foi ficando cansada. Apagou.

Agora estava ali. Era duas. Uma deitada e outra de pé. Aquilo não fazia sentido algum. Nada fazia sentido algum. Como alguém pode ter tudo e sentir não ter nada? Como pode uma pessoa estar deitada e estar de pé? 

Essas eram perguntas as quais ela não tinha resposta.

O Incrível Caso do Sr. Vieira – Parte I

A campainha tocou.

Ele a ignorou a princípio, porém quem quer que estivesse do outro lado da porta era realmente persistente.

Virou-se na cama, tirou alguns livros e pastas que estavam na escrivaninha para checar o horário no relógio despertador.

12:51.

Levantou-se tomando cuidado para não pisar nos panfletos e caixas que permeavam o chão de seu quarto. Pegou uma camiseta de uma montanha de peças de roupa amassadas em um canto e a vestiu. Não havia necessidade de calça pois ele dormira com uma.

Encaminhou-se em direção a entrada de sua residência, sempre com cautela para não pisar nos objetos que habitavam o chão de sua casa.

Respirou fundo e abriu a porta.

“O que é?”

“O senhor está sendo despejado. Sinto muito, Sr. Vieira, mas já fazem cinco meses que você não paga o seu aluguel e eu realmente preciso da renda. Não é nada pessoal.”

Paulo lhe entregou uma carta, virou-se e foi em direção a seu carro. Antes de abrir a porta virou-se e disse:

“O senhor irá encontrar todos os detalhes como prazos e trâmites explicados na carta apesar de já termos conversado sobre… Eu realmente sinto muito.”

Paulo entrou em seu carro e partiu.

Vieira já esperava por aquilo.

Ironicamente ele era corretor de imóveis e a crise tinha praticamente acabado com o mercado. Faziam dois meses que não vendia uma casa sequer. Os meses anteriores não foram muito melhores.

Ele navegou em direção a cozinha. Os amontoados de objetos realmente faziam navegar ser a palavra correta para descrever o modo como alguém deveria se locomover pelos cômodos, pois a chance de se estrambelhar em um montante de caixas, revistas e sacos de lixo eram enormes caso o contrário.

Abriu a geladeira e não fez nada além de pensar no que seria de sua vida agora. Seus três filhos já eram casados e ele não os via há mais de dois anos, muito em razão de sua condição. Não possuía uma poupança parruda como esperava ter. Deveria ter escutado sua mulher quando ela dizia “Amor, as crianças já estão crescidas, casadas. Por que não nos mudamos para um local menor e economizamos um dinheirinho?”.

Pegou uma cerveja e um pedaço de pizza amanhecido. Jogou com um movimento brusco de braço todos os objetos que estavam sobre a mesa de frente para a geladeira no chão, sentou e abriu a lata. Tomou um longo gole e então atacou a pizza. Mais um longo gole e a lata agora estava vazia. A jogou em uma montanha que se esguia quase até o teto da cozinha.

Felizmente o Sr. Vieira tinha um pouco de dinheiro no banco. Infelizmente não o bastante para se sustentar e pagar o aluguel. Teria que, enfim, fazer o que tanto sua mulher repetira, procurar um lugar menor.

Esse pensamento lhe provocou um ataque de pânico. Ele tinha tanta coisa que seria impossível levar tudo para um local com menos espaço.

Desde que sua mulher morrera prematuramente aos cinquenta e sete anos, o Sr. Vieira desenvolveu uma condição chamada “acumulação compulsiva”. Basicamente era impossível se desfazer de qualquer coisa que de alguma forma passasse por suas mãos. Delivery de pizza? Ele tinha construído sua própria Torre de Pisa com as centenas de caixas que havia acumulado nos últimos nove anos. Notas fiscais? Poucas livrarias guardavam em suas estantes mais palavras que as contidas nas notas fiscais arquivadas pelo Sr. Vieira. Garrafas PET? Se alguém com uma daquelas carroças de coleta de material reciclável recolhesse todas as que ali estavam ficaria rico.

Agora ele tinha 60 dias para encontrar um local menor e mais barato e decidir o que levaria consigo.

Ele & Ela (,) – Capítulo III (A Estrada)

Ele aproximou-se do corpo. Era um jovem em seus 20 e poucos anos. Estava estirado no meio da estrada, a parte superior numa faixa, a parte inferior na outra.

Nitidamente, o que é que houvesse acontecido com aquele rapaz resultou em um grande ferimento em sua cabeça.

Estranhou o fato do corpo estar trajado com uma jaqueta completamente igual a sua. Estranhou também o fato de suas jeans serem completamente idênticas.

(Se não fosse sua perda de memória perceberia que ali jazia o seu próprio corpo. Infelizmente sua falta de recordações lhe privava de lembranças, tais como a vez em que havia ganhado uma bicicleta em um sorteio aos cinco anos, do fato de já ter bebido tequila com larva em um de seus aniversários e o que ele fazia perambulando por ali. Mas, mais importante naquele momento era a sua completa ignorância a respeito de como era sua própria face)

Ele pensou em ligar para o serviço de emergência, porém só lhe restavam 3 tampinhas de longnecks, uma bala mentol, alguns trocados e o papel que havia passado por pelo menos duas vezes na máquina de lavar. Não havia nada a ser feito.

Decidiu seguir a estrada. Ele poderia encontrar algum telefone de emergência a beira da rodovia ou então acenar para algum carro que estivesse passando.

Olhou para os dois lados do caminho. Idênticos. Resolveu seguir um deles.

Caminhou cerca de 800 metros e deparou-se com uma placa.

“41 Km”

Prosseguiu por mais um tanto e encontrou outra sinalização.

“42 Km”

Resolveu voltar. Independente de onde vinha e para onde ia aquela via, suas maiores chances de achar um centro urbano era se dirigir em direção ao kilometro 0.

Passou pelo corpo. Sentiu calafrios ao olhá-lo novamente.

Decidiu ignorá-lo e focar em seu objetivo.

Prosseguiu em sua caminhada. Era difícil se concentrar com sua forte dor de cabeça, que agora estava em um nível nove.

40. 39. 38. 37. 36… Pouco mudava ao seu redor. As árvores continuavam permeando ambas as encostas do caminho. Nenhum carro passou, em nenhuma das direções. A única distração, se é que podemos classificar isto como distração, eram as curvas acentuadas que desenhavam aquela via. Para ele já era difícil caminhar de forma digna em linha reta. As curvas tornavam a tarefa ainda mais difícil.

Decidiu encará-las como um jogo. 20 pontos por curva feita de forma correta. -10 a cada vez que caísse em uma das valas. Após 5 kilometros sua pontuação era de -60.

Caminhou por mais 3 kilometros até que avistou luzes piscando por entre a neblina na distância. Apertou o passo. As cores foram ficando mais nítidas: um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul. Um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul.

Chegou perto o bastante para identificar uma ambulância e um carro de bombeiros estacionados no acostamento. Mais a frente havia um carro capotado, parado bem ao pé de uma árvore no lado direito.

Aproximou-se. Os bombeiros tentavam, ao que parecia, socorrer alguém de dentro do veículo acidentado. Os paramédicos carregavam um corpo já ensacado para dentro da ambulância.

Encostado no caminhão de bombeiros estava um rapaz fazendo rápidas anotações em uma prancheta.

“Ei!”, ele disse.

Nenhuma resposta.

“EI!”

Nenhuma resposta.

O rapaz agora entrava no veículo para guardar a prancheta no guarda luvas.

“Ela morreu instantaneamente na batida”, ouviu um dos paramédicos falar.

Tentou contato com o mesmo.

“Ei!”

Nenhuma resposta.

“EI!!!”

Nenhuma resposta.

“Puta que pariu, será que alguém pode me ajudar???”, ele gritou.

Nenhuma resposta. Nem mesmo olhar para ele eles olharam.

Viu mais a frente uma moça chorando no meio da estrada. Ela observava a cena.

“Ei, moça!”

“Gabriel!!! Por favor, Gabriel!!!”, ela gritou desesperadamente em direção aos entulhos.

“Moça, vai ficar tudo bem!”

“Gabriel, não desiste! Não desiste! Você ainda tem chance, Gabriel!”

“Moça, os bombeiros vão retirá-lo, fica calma.”

Neste momento um forte clarão apareceu por entre os destroços do carro e, assim como veio, se foi.

Ela olhou para ele.

“Não vai ficar tudo bem.”

Um elevador surgiu aonde antes não havia nada. Ela apertou o botão para cima e entrou.

O elevador subiu rapidamente em direção ao céu.

Ele & Ela (,) – Capítulo II (Ela)

Ela abriu os olhos. Uma única luz amarelada fazia-se notar sobre um cobertor branco. Era um teto.

Estava deitada em uma cama com grades laterais.

Olhou para os lados e conseguiu identificar alguns objetos:

– Um ar-condicionado.

– Uma poltrona reclinável.

– Um banheiro.

– Tomadas.

– Um dispenser de parede para álcool gel.

– Uma janela com travas.

– Uma máquina de ventilação mecânica.

– Um suporte para soro e medicamentos.

Estava em um hospital.

Levantou-se e viu sua mãe sentada em uma cadeira quase que de frente para a cama.

“Mãe?”

Sua mãe a olhou com os olhos já marejados, abaixou a cabeça e começou a chorar.

“Mãe? O que eu tô fazendo aqui?”

Nenhuma resposta.

Deixou a cama. Estranhou o fato de não haver nenhum acesso em seu braço. Caminhou em direção à cadeira.

Aproximou-se e acariciou os cabelos de sua mãe. O pranto da mesma intensificou-se (de um patamar inicial de 85 decibéis, agora atingira o nível de 110 – volume este que é tolerável por apenas 15 minutos aos ouvidos de um ser humano comum).

Sua mãe não emitiu nenhuma resposta, afora as lágrimas que agora caíam mais rapidamente por seu rosto.

Tentou cutucá-la, chacoalhá-la mas, mesmo assim, nenhuma resposta.

Decidiu deixar o quarto e procurar algum enfermeiro que pudesse ajudá-la.

Prosseguiu em direção ao balcão de atendimento. Lá estava uma moça morena que aparentava estar estudando o prontuário de algum paciente.

“Moça.”

Nenhuma resposta.

“Moça!”

Nenhuma resposta.

“MOÇA!”

A enfermeira agora consultava seu celular.

Ela estava vendo um vídeo.

“Senhora? Senhora? A senhora é funcionária da Assembléia?”

“Ai, ai, esse país não tem jeito…”, disse a enfermeira.

“Moça, eu sei, mas quem sabe você pode me…”, disse ela.

A enfermeira agora parecia estar lendo algo muito engraçado em seu celular pois não parava de rir.

“HAHAHAHA, ai meu Deus! Esses memes! Esse povo é tudo louco, viu!”, falou a enfermeira, virando-se e entrando por uma porta.

Ela ficou consternada.

“Que porra tá acontecendo?”, ela pensou.

Decidiu procurar algum outro enfermeiro ou algum médico.

Enquanto passava por um dos quartos notou uma forte luz branca pela janelinha do mesmo. Mais a frente deparou-se com uma saída de emergência, trancada. Cruzou com duas vending machines: uma com salgados e outra com bebidas. Havia também uma máquina de café.

Continuou andando. Encontrou algumas pessoas pelo caminho e tentou fazer contato.

Nenhuma resposta.

Chegou ao fim do corredor.

Haviam ali elevadores com apenas dois botões: um para cima e outro para baixo.

Apertou o botão para cima. Ele se iluminou e se apagou. Apertou o botão para baixo. Ele se iluminou e se apagou. Tentou novamente o botão para cima. Ele se iluminou e se apagou. Tentou novamente o botão para baixo. Ele se iluminou e se apagou. Tentou várias outras vezes e em todas o botão se iluminou e se apagou.

Um rapaz, como que do nada, apareceu do seu lado. Calmamente apertou o botão para baixo. Dessa vez o botão não se apagou.

Em cerca de segundos o elevador chegou. O moço entrou. Ela tentou segui-lo.

“Esse não é seu.”, ele disse.

A porta se fechou.

O dia em que fui salvo por John Lennon

Quando completamos 18 anos temos que, obrigatoriamente, nos alistar. Isso não é uma tarefa fácil se seu nome é Roberto Carlos. Ainda mais no ano que um deles jogava no Corinthians e a frase “brilha muito no Corinthians tinha acabado de ser cunhada; e o outro, o cantor, completava 50 anos de carreira. Ou seja, eu ia me ferrar.

Durante as 3 primeiras visitas ao centro militar a mesma coisa:

“Roberto Carlos”

Já começavam os risos, os famosos “esse cara sou eu” e “quando eu estou aqui”, etc.

Lembro que na 4a um dos militares lembrou da frase do Pânico na hora “brilha muito no Corinthians”… rs.

Pois bem. Na última vez, a vez em que eu seria dispensado, colotaram o pessoal sentado em 5 bancos diferentes, distribuídos verticalmente. O militar lá na frente chamava o nome, você levantava e ia até a mesa dele entregar o documento e vê-lo sendo carimbado com o mais doce sabor de liberdade que você pode provar aos 17/18 anos.

Porém, se o seu nome é Roberto Carlos, esse gosto pode ser bem amargo.

O militar começou chamando:

“Artur”

“Bruno”

“Caue”

Enquanto isso eu já suava frio sabendo que iria me ferrar bonitamente em cerca de segundos.

“Diego”

“Eduardo”

“Fabio”

Puta merda, o que que eu faço? Tô ferrado.

“Gabriel”

“Henrique”

“Igor”

Eis que surge um salvador:

“John Lennon”

Todos riram. Eu não. Mas eu sabia que Roberto Carlos não seria tão bom quanto um John Lennon. De lá, até o final foi só alegria. Quando gritaram o meu nome nenhuma reação.

Gostaria de deixar aqui o meu muito obrigado para John Lennon, que se sacrificou para que eu não sofresse o que ele sofreu. Eu te amo, John Lennon, mesmo você não sabendo.

Páginas 2 e 3 de um diário achado no km 427 da BR-116.

Às vezes eu sinto que tenho tantas cicatrizes e tantos traumas que o melhor que eu poderia fazer é me esconder. Viver em uma caverna no meio da mata de vez. Mas aí eu lembro que minhas habilidades de sobrevivência numa escala de 0 a 10 estão bem próximas do zero. Eu não sei acender fogueira. Eu não sei pescar. Não é raro eu me confundir amarrando o meu cadarço. Eu morreria em 3 dias no máximo.

Eu já fui pra caverna. Algumas vezes. Algumas vezes eu pensei em até diminuir o prazo de 3 dias e simplesmente me mudar pro limbo. Não foram poucas vezes, não foram muitas. Foram vezes. Acontece. Não deveria. Não gosto de falar da caverna.

Muitas vezes eu pensei em morar na casa de campo por mais tempo. Já cheguei a viver por anos na casa de campo. Mas sempre acontecia alguma coisa que me fazia voltar para cidade. Um emprego, um momento difícil passado por um parente e, em raras ocasiões, situações em que eu me via compelido por mim mesmo. Nunca valeu a pena. Ia, ficava alguns meses e logo voltava pra quietude do interior, aonde eu poderia fazer o que bem entendesse, na hora que me fosse conveniente.

A cidade, ela é linda de longe. Ela é linda nos primeiros dias. Tudo é encantador até você se dar conta que aquilo é uma forma de histeria coletiva. Bom, pelo menos para mim. Muita gente vive bem na cidade. Eu não. Eu não sei viver na cidade. Eu não sei viver me misturando à maré que de manhã vai do ponto A para o ponto B e de noite faz o caminho inverso, indo do ponto B para o ponto A. Muito menos consigo abdicar da minha liberdade pelo bem comum. Não que a minha liberdade e minhas vontades girem em torno de atos delituosos ou impróprios. Mas veja, a convivência impõe certas restrições naturais. Afinal ninguém nasce livre de verdade – não escolhemos a língua que iremos falar, o sistema político em que iremos viver, a classe social a qual iremos pertencer… tão pouco aonde iremos viver. Você pode dizer: “Ah, mas no campo essa falsa liberdade também existe.”. Sim, é verdade. Mas quando se convive com tantas pessoas, de uma forma muito mais intensa, as regras precisam ser mais duras. É muito mais difícil controlar milhões do que milhares, então é natural que a opressão seja maior.  Para mim maior do que os benefícios de se viver de uma forma coletiva.

Hoje vivo num meio termo. Passo uma temporada no interior e uma temporada na metrópole. Na caverna faz tempo que não passo e espero continuar assim. A tentação é forte mas a umidade e a escuridão são maiores.

Acho que omiti uma parte: eu queria saber viver na cidade. Tenho inveja de quem se adapta e de quem consegue colher os frutos. A cultura, a ciência, a troca de informação que é tão intensa no burgo e a convivência que ele proporciona. Queria poder me tornar parte de um organismo vivo feito de pedra e carne.

Ele & Ela (,) – Capítulo I (Ele)

Ele abriu os olhos. Tudo o que podia ver eram pontinhos brancos que espalhavam-se sob um manto negro.

“O céu!”, ele pensou.

Percebeu que estava deitado. Haviam poucas nuvens acompanhadas de uma fina brisa naquela noite.

Virou a cabeça para o lado. Viu um coelho.

“Um coelho!”, ele pensou.

Decidiu examinar o que havia do outro lado.

“Árvores!”, ele pensou.

Aos poucos tentou levantar-se – sentiu fortes dores em locais que ele nem imaginava que existiam em seu corpo. Com um grande esforço porém, depois de alguns segundos estava de pé.

Por alguns instantes coelho e árvores revezaram-se ao seu redor. Coelho. Árvores. Coelho. Árvores. Coelho. Árvores. Cambaleou. Por instinto fechou os olhos. O resultado não foi dos melhores. Coelhárvores. Coelhárvores. Coelhárvores. Abriu novamente os olhos e desta vez tentou fixá-los em um sicômoro, árvore que destoava das demais pela sua gigantesca copa. O coelho e as árvores passaram a girar de forma mais lenta, até que finalmente decidiram parar nos seus locais originais. Já o sicômoro havia sumido.

Após se recompor e adquirir coragem caminhou por alguns metros em linha reta.

Algo o estava incomodando. Não sabia se era o fato de não saber quem era, o que tinha feito em sua vida até ali, ter se esquecido do próprio nome, um sicômoro gigantesco ter sumido em sua frente ou a intensa dor de cabeça que agora o acometia.

Depois de alguns momentos de autoanálise decidiu que a prioridade naquele momento era sua dor de cabeça.

Passou as mãos e os olhos sobre o seu corpo para descobrir o que estava vestindo. Poderia existir algum tipo de remédio em algum bolso.

Percebeu estar trajando uma jaqueta verde musgo.

(Uma curiosidade sobre aquela jaqueta: ela havia sido adquirida há alguns anos pela pechincha de 15 euros numa cidadezinha chamada Colônia, na Alemanha, enquanto ele comemorava com seus amigos o carnaval local. Infelizmente ele não tinha nenhuma recordação sobre o fato).

A jaqueta possuía sete bolsos. Mas, ao investigá-los, não encontrou nenhum sinal de remédio. Achou alguns trocados, recibos (em sua maioria de estacionamentos) e duas balas mentol. Colocou uma na boca.

Agora concentrava-se na calça jeans. Quatro bolsos. Três tampinhas de longnecks e um papel com algo escrito, mas ilegível. Percebeu que o papel teria passado por, pelo menos, duas vezes em uma máquina de lavar.

Decidiu olhar para baixo.

“Amarelo. Duas. Cinza.”, pensou.

Estava no meio de uma estrada, com uma faixa que ia para um lugar e voltava de outro, e outra que voltava desse mesmo lugar e levava para outro. Em ambas as pontas a estrada se perdia por entre árvores, nevoeiro e escuridão. Não havia luz, não havia som.

Uma música começou a tocar em sua cabeça:

“There was blood and glass all over and there was nobody there but me…”

Pontadas acompanhavam o baixo e a voz de Bruce Springsteen.

Olhou novamente para onde o coelho estava. Não havia mais nada ali. Neste momento, o animal adentrava a floresta, buscando por sua toca.

“Coelho… quatro patas…”, ele pensou.

Olhou para as árvores, que começavam a balançar devido a fina brisa passava por ali.

“Árvore… verde…”, ele pensou.

Olhou para baixo, e viu marcas de pneu que se estendiam por cerca de dez metros, como se algum carro tivesse tentado brecar bruscamente.

“Estrada…”, ele pensou.

Então, um turbilhão de memórias  veio a sua mente, fazendo com que sua dor, que antes seria categorizada como um oito em uma triagem de pronto socorro, se tornasse um onze.

Em algum momento anterior ao seu despertar tinha sido atingido por um Celta verde enquanto caminhava pela estrada. O que ele fazia perambulando por ali, não fazia ideia.

“Eita.”, ele pensou.

Olhou para trás e viu sangue no meio da estrada. Seguiu a trilha vermelha no asfalto com os olhos até chegar a um vulto inerte estirado no chão…

Um corpo.

? – Capítulo 3 (Log #3)

Capítulo 2

Dia 42

Ansiedade. Eu sofria de ansiedade. Ela não aparecia apenas quando algo que eu julgava importante estava para acontecer, ou quando algo realmente importante, bom ou ruim, acontecia. Ela estava presente constantemente. Ir em um evento social? Lá estava ela (mesmo com pessoas já conhecidas). Deixar de ir no tal evento social? De mansinho ela aparecia. Eu perdi as contas de quantos ataques de pânico eu tive sem nenhum motivo aparente. Talvez fosse o fato de a vida ser acelerada em todas as vertentes possíveis. Tudo era para ontem. E tudo era esperado de você. Basicamente a gente era criado com base nas expectativas de nossos pais, amigos, conhecidos… da sociedade. Na verdade, pensando agora, não sei se as expectativas eram impostas pela sociedade, ou se as expectativas se impunham sobre ela. Acho que é aquele velho cliché do ovo e da galinha. Quem veio primeiro? A expectativa de que nós vivêssemos de certo modo, ou o certo modo que gerou as expectativas? Não sei. A parte engraçada disso tudo é: eu tô completamente sozinho, não tenho pressão para fazer nada. Como a hora que quero, converso com a Andressa quando quero, acordo quando quero e, mesmo assim, a ansiedade ainda me assombra. Acho que, de certa forma, fui acometido pelo mal de me sentir ansioso por não me sentir ansioso. E eu contando vantagem por ser o único a ter o presságio e ter me preparado para um momento como estes, de não ter sido escutado, por terem me achado louco quando comecei a estocar comida, me tornei um viciado em ansiedade. Eu ri quando me vi sozinho. Ri da ironia. Eles riram de mim. Eu ri deles. Mas, no final, acho que a piada era sobre mim mesmo.

Capítulo 4

? – Capítulo I (Log #2)

Esse é um projeto novo meu e da Isa. A intenção é a de escrever uma história colaborativa com um porém: cada um irá escrever um capítulo sem dar ideias sobre o capítulo do outro, e sem pensarmos juntos em uma linha que a história deva seguir! Como não sabemos o que vai acontecer, não temos título ainda. Esse é o primeiro capítulo, espero que gostem!

Log #1

Por que esse anseio de sempre estarmos juntos mas nunca estarmos realmente juntos? O mundo inteiro girava em torno do conceito do “solitário acompanhado”. Veja, mesmo quando estávamos sozinhos sentíamos a necessidade de falar com as pessoas. Postávamos em nossas redes sociais esperando que as pessoas interagissem com nossos links, gifs, vídeos. Mandávamos milhões de mensagens através de aplicativos e esperávamos ser respondidos quase que instantaneamente (quando não nos retribuíam a mensagem no período de tempo em que pensávamos ser o ideal nos tornávamos neuróticos – “Será que eu escrevi algo errado?”, “Será que essa pessoa não gosta de mim?”, “Será que…?”). Teoricamente estávamos disponíveis 24 horas por dia, 7 dias por semana, fosse para atender aquela ligação de cobrança do cartão de crédito, fosse para responder a mensagem do amigo que não víamos há 4 anos mas ainda assim nos parecia ser um completo conhecido porque trocávamos informações esporádicas sobre nossas vidas a cada 15 dias por de trás de teclados, fosse para verificar o e-mail do trabalho em um domingo às 10 horas da noite ou escutaríamos poucas e boas na segunda de manhã. E, veja bem, mesmo quando nos encontrávamos,  no plano físico, não nos doávamos completamente. É difícil lembrar da última vez que eu sai com alguém e a pessoa, ou eu mesmo, não tivesse pego o celular em algum momento para fazer parte desse ciclo. Na verdade é difícil lembrar da última vez que eu vi alguém. Enfim, nada disso importa mais. O mundo teoricamente acabou. E pelo o que eu sei, eu tô realmente sozinho. E mesmo assim eu sinto essa necessidade de registrar os fatos nesse maldito diário. É como diziam: “Antigos hábitos dificilmente morrem”. Bom, tenho que achar algo para comer e reconstruir o braço direito da Andressa.

Capítulo II