Vivendo com Ansiedade I

É tudo sobre as pequenas coisas.

Meia hora de distração significa meia hora sem lembrar da pedra que carrego no fundo do estômago e que me deixa nervosa o tempo todo, como se a vida estivesse passando numa tela bem na minha frente em slow motion e eu só estivesse assistindo enquanto vivo a 200km/h.
Um episódio de uma série que eu gosto, alguns capítulos de um livro bom, conversa com alguém que faça o relógio andar numa velocidade normal: pequenas coisas que fazem a existência um pouco menos dolorida.

Eu conto o dia de meia em meia hora. “Daqui a meia hora posso me trocar”, “daqui a meia hora posso sair”, “em meia hora posso começar a limpar o quarto, então termino quando tiver faltando 1 hora para almoçar, então posso ver 2 episódios de meia hora de uma série”.

E não pode ser qualquer série, quem dera fosse. Séries trazem sensações e algumas dessas sensações não distraem da pedra no estômago, na verdade só me fazem lembrar dela mais ainda.

Não estar trabalhando também não ajuda, não tenho com o que me distrair o dia todo, não fico cansada como normalmente ficaria. Fico mentalmente cansada, mas meu corpo continua bem e desperto porque eu não fiz nada com ele.
Exercícios físicos são uma resposta óbvia para esse problema, mas eles me deixam ansiosa também. 15 minutos correndo e eu me pergunto “por que ainda não me distrai? Por que ainda tenho a pedra aqui comigo? Qual o meu problema?” e desisto. O ponto deve ser “não desistir” nesse caso, mas entro em pânico percebendo que ainda estou ansiosa mesmo correndo e isso acaba me deixando pior.

Talvez o problema não seja esquecer a pedra ou sumir com ela, mas só aprender a conviver em harmonia. Provavelmente ela não vai embora e eu não posso só me deixar afundar como ela afundou na minha barriga.

Só que eu não sei se estou no caminho certo. Tenho remédios, tenho terapia, tenho amigos, tenho tudo. Mas ainda sinto como se estivesse vivendo na 5ª marcha enquanto o resto do mundo está na 2ª.

Anúncios

E morreu (Eu, no caso) XI

Parte X

2 meses antes.

Qual é o meu problema? Por que não consigo ser feliz? Por que tanta ansiedade e desconforto na minha própria vida? Eu não assinei nada disso no contrato.

Ir dormir virou mais uma parte deprimente do meu dia, pois eu sei que não vou conseguir ter um sono decente e ainda vou acordar super cedo e ter um dia longo. Longo porque eu não tenho nada pra fazer o dia todo, longo porque passo o dia ansiosa e desesperada por algo que não sei o que é.

Meus pulsos já não aguentam mais tantas cicatrizes. E eu já não aguento mais tantos olhares sobre eles quando estou no ônibus ou no trem.

Meu limite parece me esperar a cada esquina, a cada 5 minutos que levam 20 pra passar. Quando que eu deixei de ser a pessoa feliz e com vontade de viver para ser esse fantasma que mal reflete o que um dia já fui?

Não sei se os remédios ajudam ou atrapalham, não sei o que fazer ou o que pensar pois não sei se sou eu, a depressão ou os remédios pensando. Quem toma as decisões? Quem está no comando?

Eu não sei.

Sinto que não sou eu, eu não sou assim, eu não vivo assim. Mas se eu não faço nada, se eu só me deixo afundar, a culpa é tão minha quanto da doença e dos comprimidos.

Sinto saudade de sentir prazer. De sentir alegria. De esperar por algo, qualquer coisa.

Na verdade nem tudo está perdido, tem alguém que me faz pensar no “e se”, que me faz esperar pelo fim de semana, que é quando poderemos nos ver. Tem. Mas eu sou muita coisa pra ele lidar, muita coisa pra qualquer um lidar.

Eu mesma não sei lidar.