Vivendo com Ansiedade I

É tudo sobre as pequenas coisas.

Meia hora de distração significa meia hora sem lembrar da pedra que carrego no fundo do estômago e que me deixa nervosa o tempo todo, como se a vida estivesse passando numa tela bem na minha frente em slow motion e eu só estivesse assistindo enquanto vivo a 200km/h.
Um episódio de uma série que eu gosto, alguns capítulos de um livro bom, conversa com alguém que faça o relógio andar numa velocidade normal: pequenas coisas que fazem a existência um pouco menos dolorida.

Eu conto o dia de meia em meia hora. “Daqui a meia hora posso me trocar”, “daqui a meia hora posso sair”, “em meia hora posso começar a limpar o quarto, então termino quando tiver faltando 1 hora para almoçar, então posso ver 2 episódios de meia hora de uma série”.

E não pode ser qualquer série, quem dera fosse. Séries trazem sensações e algumas dessas sensações não distraem da pedra no estômago, na verdade só me fazem lembrar dela mais ainda.

Não estar trabalhando também não ajuda, não tenho com o que me distrair o dia todo, não fico cansada como normalmente ficaria. Fico mentalmente cansada, mas meu corpo continua bem e desperto porque eu não fiz nada com ele.
Exercícios físicos são uma resposta óbvia para esse problema, mas eles me deixam ansiosa também. 15 minutos correndo e eu me pergunto “por que ainda não me distrai? Por que ainda tenho a pedra aqui comigo? Qual o meu problema?” e desisto. O ponto deve ser “não desistir” nesse caso, mas entro em pânico percebendo que ainda estou ansiosa mesmo correndo e isso acaba me deixando pior.

Talvez o problema não seja esquecer a pedra ou sumir com ela, mas só aprender a conviver em harmonia. Provavelmente ela não vai embora e eu não posso só me deixar afundar como ela afundou na minha barriga.

Só que eu não sei se estou no caminho certo. Tenho remédios, tenho terapia, tenho amigos, tenho tudo. Mas ainda sinto como se estivesse vivendo na 5ª marcha enquanto o resto do mundo está na 2ª.

Ele & Ela (,) – Capítulo V (Outdoor)

“Okay, isso foi estranho.”, ele pensou sobre o que havia acontecido enquanto continuava sua caminhada em direção ao km 0.

A moça havia sumido, assim como o elevador. O Gabriel desapareceu junto com o forte brilho que emanou da lataria contorcida do que antes fora um carro. Ninguém o respondeu – bombeiros, paramédicos- exceto a moça, e agora ela tinha partido.

Até ali ele tinha: acordado sem saber quem era, aonde estava e o que fazia perambulando no meio da estrada; encontrado um corpo (que era seu, apesar de não conseguir se lembrar); sido ignorado por um bando de pessoas que deveriam ajudá-lo; visto uma pessoa desaparecer com um forte clarão; testemunhado a única pessoa que lhe dirigira uma frase entrar num elevador que apareceu do nada e, puff, subiu em direção ao céu.

Isso era impossível.

Levando-se em conta a chance de algo assim acontecer com alguém, o fato de ele ter pensado somente “Isso foi estranho.” era ainda mais impressionante.

Estatisticamente falando a probabilidade de alguém pensar algo brando como isto em tais circunstâncias era mínima, muito próxima ao 0 em um gráfico x y. Talvez isto sirva como prova de que o comportamento humano é imprevisível. Talvez o choque dos mencionados acontecimentos afetasse a mente dele. Talvez o fato de sua cabeça ter sido atingida por um Celta verde influenciasse nas suas capacidades mentais. Talvez ele fosse apenas louco. De qualquer forma, aquilo foi o que ele pensou.

Ele continuou sua andança.

Foi quando um grande outdoor surgiu bem no canto direito da estrada a sua frente. Eis o que estava escrito nele:

“Siga em frente.”

“Okay…”, ele pensou.

1 quilômetro se passou e novamente um outdoor apareceu.

“Siga em frente.”

Ele continuou andando. 2 quilômetros e novamente o outdoor estava lá com a mesma mensagem.

Ele continuou andando.

3 quilômetros a frente, mesmo outdoor. 5 quilômetros a frente, mesmo outdoor. 8 quilômetros a frente, mesmo outdoor.

Foi quando ele decidiu que não iria mais seguir em frente. Ninguém mandava nele, muito menos uma placa de estrada.

Começou o caminho de volta. Não sabia o que iria fazer, mas as coisas já estavam ruins demais daquela forma. Não havia espaço para piora.

Andou 1 quilômetro na direção contrária e novamente o outdoor apareceu, desta vez com a seguinte mensagem:

“Volte.”

Decidiu ignorá-la e continuou sua caminhada de protesto.

2 quilômetros depois, novamente surgiu um outdoor, desta vez com a seguinte mensagem:

“Você não vai voltar?”

– Dane-se você, outdoor.

Andou por mais 3 quilômetros e eis que novamente aparece um outdoor:

“A gente precisa da sua presença na assembléia do M.E.S.T.I.C.O. Por favor, retorne”

Ele caminhou em direção ao suporte do outdoor e o chutou.

“Mestico? MESTICO??? Dane-se o MESTICO. Eu não sei nem o que tá acontecendo comigo e você vem me falar de assembléia???”

Após chutar o mastro por cerca de seis vezes ele retornou à sua peregrinação.

Mais 5 quilômetros e o maldito outdoor reapareceu:

“Volta, por favor… =(”

– Vá se foder! – disse ele em direção ao outdoor.

Dessa vez ele andou, andou, andou e nada. Nenhum sinal de outdoor. Aparentemente ele havia recuperado seu livre arbítrio. Começou a pensar sobre o que iria fazer agora. Neste momento se aproximava de onde o corpo estava e não fazia ideia de quantos quilômetros mais ele teria que percorrer para chegar em algum tipo de povoado, cidade, casa ou qualquer resquício humano. O que ele sabia era que ele não ia ser mandado por ninguém.

Passou pelo local aonde o carro tinha sofrido o acidente. Não havia mais nada lá.

Caminhou mais um bocado, sempre observando se algum carro passava em alguma direção. Nenhum. As árvores continuavam ali, a única mudança no cenário eram os raios de sol que começavam a aparecer por entre as copas da floresta.

Um coelho surgiu por entre os arbustos. Ele acompanhou o bicho com os olhos. Por sua vez o bicho o acompanhou com suas patas. O bicho começou a correr e correr no meio da estrada. Isso o fez ter vontade de correr também. Começou trotando, ganhando confiança. Foi aumentando de velocidade, paulatinamente. Decidiu dar um pique. Deu de cara com uma parede branca. Era um outdoor.

“Nós pedimos com educação. A sua presença na assembléia do M.E.S.T.I.C.O é OBRIGATÓRIA. Dirija-se ao km 0 da estrada para maiores informações”

Este era o oitavo quilometro desde a última vez que um outdoor havia aparecido.

E morreu (Eu, no caso) XI

Parte X

2 meses antes.

Qual é o meu problema? Por que não consigo ser feliz? Por que tanta ansiedade e desconforto na minha própria vida? Eu não assinei nada disso no contrato.

Ir dormir virou mais uma parte deprimente do meu dia, pois eu sei que não vou conseguir ter um sono decente e ainda vou acordar super cedo e ter um dia longo. Longo porque eu não tenho nada pra fazer o dia todo, longo porque passo o dia ansiosa e desesperada por algo que não sei o que é.

Meus pulsos já não aguentam mais tantas cicatrizes. E eu já não aguento mais tantos olhares sobre eles quando estou no ônibus ou no trem.

Meu limite parece me esperar a cada esquina, a cada 5 minutos que levam 20 pra passar. Quando que eu deixei de ser a pessoa feliz e com vontade de viver para ser esse fantasma que mal reflete o que um dia já fui?

Não sei se os remédios ajudam ou atrapalham, não sei o que fazer ou o que pensar pois não sei se sou eu, a depressão ou os remédios pensando. Quem toma as decisões? Quem está no comando?

Eu não sei.

Sinto que não sou eu, eu não sou assim, eu não vivo assim. Mas se eu não faço nada, se eu só me deixo afundar, a culpa é tão minha quanto da doença e dos comprimidos.

Sinto saudade de sentir prazer. De sentir alegria. De esperar por algo, qualquer coisa.

Na verdade nem tudo está perdido, tem alguém que me faz pensar no “e se”, que me faz esperar pelo fim de semana, que é quando poderemos nos ver. Tem. Mas eu sou muita coisa pra ele lidar, muita coisa pra qualquer um lidar.

Eu mesma não sei lidar.