Ele & Ela – Capítulo IV (Perguntas)

Ela voltou correndo em direção ao seu quarto. 

Entrou. Sua mãe continuava chorando, sentada na cadeira quase que de frente para a cama observando a mesma.

Notou algo estranho. Havia um corpo deitado ali.

Aproximou-se. Reconheceu um rosto familiar. Era sua própria face. Respirou por um, dois, três… cinco segundos. E gritou o mais alto que pode, todo o ar saindo de seu pulmão de uma só vez. 

Desmaiou.

Passado um tempo acordou. Estava estirada de bruços no chão. Levantou-se com dificuldade. Olhou mais uma vez para si mesma, ali deitada, com um grande tubo de ventilação em sua boca, soro acoplado a seu braço e uma máquina que fazia um “bip” a cada batimento cardíaco seu. Porém, pensou, não poderia ser seu pois estava ali de pé e não na cama. De acordo com a leis da física vigente era impossível estar em mais de um local em um determinado momento.

Começou a se lembrar do que havia acontecido antes.

A história era basicamente a seguinte:

Ela morava com sua mãe e seu padrasto em uma casa de tijolos em um bairro de classe média. Tinha um cachorro e um gato. Era filha única. Estudava direito em uma renomada faculdade católica de sua cidade. Tinha grandes amigos lá. Ela era uma pessoa considerada “inteligente” (apesar que, para ela, este conceito era completamente equivocado – ser inteligente não era tirar boas notas, ou ser boa em contas, ler, ou saber de fatos; para ela cada pessoa tinha sua própria forma de inteligência: haviam pessoas com habilidade social que ela não possuía; outras com habilidades lógicas que ela mal conseguia entender; outras eram boas em esportes, o que ela nunca foi). Não estudava e ia bem. Tinha tudo em casa. Tinha um carro próprio. Tinha namorado. Ela só não tinha uma coisa: vontade de viver. Eis que um dia ela decidiu resolver este problema, sair dessa e ir para uma melhor. Tomou um bocado de Difenidrin.

Primeiro experimentou uma forte excitação. Depois vieram as alucinações: vira um coelho gigante que lhe perguntava o porquê de ela estar fazendo aquilo. Então começou a chorar. Deitou-se. Foi ficando cansada. Apagou.

Agora estava ali. Era duas. Uma deitada e outra de pé. Aquilo não fazia sentido algum. Nada fazia sentido algum. Como alguém pode ter tudo e sentir não ter nada? Como pode uma pessoa estar deitada e estar de pé? 

Essas eram perguntas as quais ela não tinha resposta.

Solteirice

Acordo e tem algumas notificações no celular: whatsapp, facebook, twiter… Tinder.

Novas mensagens, novas combinações. Ser mulher no Tinder parece fácil, mas é quase como navegar no meio de uma tempestade dentro de um carrinho de supermercado.

Você conhece um cara, ele é super sério, quase esnobe, fala sobre qualquer assunto e no fim é um semi-traficante (acho que o termo seria aviãozinho, é o cara que pega a sua maconha com o traficante, sabe?).

Aí você conhece uma moça que é super maravilhosa, engraçada, foda, a conversa flui, mas sua cabeça tá toda errada e você sabe que não é justo arrastar alguém pra esse buraco negro.

Tem o cara de esquerda que grita “bicha” no tiro de meta no estádio, tem a menina de 19 anos que tá experimentando e você sabe que não tem mais saco pra isso. Tem o cara dos áudios, que te adiciona no whatsapp e te manda 20 áudios de 6 segundos cada e é super animado pra falar sobre qualquer coisa que não te interessa. Tem aquela moça que te conhece há 2 dias e já quer saber quais serão os nomes dos 4 gatos que vocês vão adotar.

Tem seu ex.

Tem seu outro ex.

Tem aquela menina que você ficou uma vez.

Tem aquele outro cara que era seu amigo até vocês ficarem, depois a amizade morreu ali.

Tem uns golfinhos, tem policiais, tem muitos abdomens desnudos.

Tem amigos que namoram e tem uma vida de casal feliz tentando te arranjar com qualquer tranqueira que eles conhecem, porque parece que você tá naquele estágio da solteirice que dói de olhar.

E as conversas?

“Oi, tudo bem?”
“Tudo e com você?”
“Tudo também. O que faz da vida?”
“Ah eu sou monitor de touro mecânico em Barretos aos fins de semana, e você?”
“… professora”

E quando você tenta conversar com algum amigo sobre tudo isso e a resposta automática é “você é maravilhosa sozinha, não precisa de ninguém”
“Não, eu sei, mas é que às vezes eu me sinto sozi-”
“VOCÊ É COMPLETA E MARAVILHOSA SOZINHA”
“Verdade” *eu só queria reclamar um pouco da vida meu deus do céu*

Tem um filme chamado O Lagosta que fala sobre um mundo (não tão) distópico onde ser solteiro é contra a lei. E, caso você atinja certa idade sem ter um parceiro, você é transformado em um animal da sua escolha. Pelo menos a gente pode escolher o bicho, né?

E o filme mostra como a gente faz coisas imbecis para tentar agradar a outra pessoa, pra fazer com quem ela se identifique com a gente, tipo fingir que é um psicopata ou que tem sangramento crônico das vias nasais. Ou, no ápice do medo de não ser aceito por quem você ama, talvez perder a visão para os dois ficarem iguais.

Às vezes eu me pergunto quão ruim seria ter meus pais falando TOMA, SE CASA COM ESSA PESSOA AQUI PORQUE A GENTE TÁ MANDANDO porque pelo menos eu não precisaria escolher e nem lidar com um bando de policial militar no Tinder. A não ser que a pessoa escolhida fosse um PM, daí a vida clandestina seria minha companheira.

 

Carta a quem interessar possa III

Olá, amigo. Tudo bem?

Sei que não estou escrevendo muito, não ando bem. Sabe como é, todos aqueles problemas que eu já te contei… Eles são como pessoas gritando no meu ouvido, não consigo me concentrar e colocar pra fora o que eu preciso. Então eventualmente eu explodo, como aconteceu hoje.

Eu tomei algumas decisões. Sou uma pessoa com 26 anos de idade que vai voltar para a faculdade e fazer o que eu gosto de fazer: escrever e ler. Isso se eu entrar no curso, né, mas essa é outra linha de pensamento e não estou interessada nela agora.

Um amigo, de 19 anos, que está pensando em entrar na faculdade ano que vem, disse que se sente bem de me ver voltando, aos 26, porque faz com que ele se sinta menos atrasado.

Atrasado com o quê? Por que nós precisamos seguir a fórmula que enfiam na nossa cabeça e ainda nos sentir mal se não der certo?

Choose looking up old flames, wishing you’d done it all differently
And choose watching history repeat itself
Choose your future”

Escolhi meu futuro quando tinha 18 anos e não sabia nada da vida. Ainda não sei, mas sei 4% a mais do que naquela época. Por que eu não posso tentar? Por que me sentir um fracasso? Porque é o que todo mundo carrega no olhar quando me vê.

Ainda não aprendi a conseguir ignorar tudo o que pensam de mim, apesar de estar cada vez melhor nisso.

Caso eu descubra como viver 100% impermeável, te conto o segredo. Mas, por enquanto, preciso de você pra me ouvir e me dizer que não, não errei em tentar de novo. Errado é viver infeliz por comodidade e senso comum. Errado é não tentar.

Certo?

O Incrível Caso do Sr. Vieira – Parte I

A campainha tocou.

Ele a ignorou a princípio, porém quem quer que estivesse do outro lado da porta era realmente persistente.

Virou-se na cama, tirou alguns livros e pastas que estavam na escrivaninha para checar o horário no relógio despertador.

12:51.

Levantou-se tomando cuidado para não pisar nos panfletos e caixas que permeavam o chão de seu quarto. Pegou uma camiseta de uma montanha de peças de roupa amassadas em um canto e a vestiu. Não havia necessidade de calça pois ele dormira com uma.

Encaminhou-se em direção a entrada de sua residência, sempre com cautela para não pisar nos objetos que habitavam o chão de sua casa.

Respirou fundo e abriu a porta.

“O que é?”

“O senhor está sendo despejado. Sinto muito, Sr. Vieira, mas já fazem cinco meses que você não paga o seu aluguel e eu realmente preciso da renda. Não é nada pessoal.”

Paulo lhe entregou uma carta, virou-se e foi em direção a seu carro. Antes de abrir a porta virou-se e disse:

“O senhor irá encontrar todos os detalhes como prazos e trâmites explicados na carta apesar de já termos conversado sobre… Eu realmente sinto muito.”

Paulo entrou em seu carro e partiu.

Vieira já esperava por aquilo.

Ironicamente ele era corretor de imóveis e a crise tinha praticamente acabado com o mercado. Faziam dois meses que não vendia uma casa sequer. Os meses anteriores não foram muito melhores.

Ele navegou em direção a cozinha. Os amontoados de objetos realmente faziam navegar ser a palavra correta para descrever o modo como alguém deveria se locomover pelos cômodos, pois a chance de se estrambelhar em um montante de caixas, revistas e sacos de lixo eram enormes caso o contrário.

Abriu a geladeira e não fez nada além de pensar no que seria de sua vida agora. Seus três filhos já eram casados e ele não os via há mais de dois anos, muito em razão de sua condição. Não possuía uma poupança parruda como esperava ter. Deveria ter escutado sua mulher quando ela dizia “Amor, as crianças já estão crescidas, casadas. Por que não nos mudamos para um local menor e economizamos um dinheirinho?”.

Pegou uma cerveja e um pedaço de pizza amanhecido. Jogou com um movimento brusco de braço todos os objetos que estavam sobre a mesa de frente para a geladeira no chão, sentou e abriu a lata. Tomou um longo gole e então atacou a pizza. Mais um longo gole e a lata agora estava vazia. A jogou em uma montanha que se esguia quase até o teto da cozinha.

Felizmente o Sr. Vieira tinha um pouco de dinheiro no banco. Infelizmente não o bastante para se sustentar e pagar o aluguel. Teria que, enfim, fazer o que tanto sua mulher repetira, procurar um lugar menor.

Esse pensamento lhe provocou um ataque de pânico. Ele tinha tanta coisa que seria impossível levar tudo para um local com menos espaço.

Desde que sua mulher morrera prematuramente aos cinquenta e sete anos, o Sr. Vieira desenvolveu uma condição chamada “acumulação compulsiva”. Basicamente era impossível se desfazer de qualquer coisa que de alguma forma passasse por suas mãos. Delivery de pizza? Ele tinha construído sua própria Torre de Pisa com as centenas de caixas que havia acumulado nos últimos nove anos. Notas fiscais? Poucas livrarias guardavam em suas estantes mais palavras que as contidas nas notas fiscais arquivadas pelo Sr. Vieira. Garrafas PET? Se alguém com uma daquelas carroças de coleta de material reciclável recolhesse todas as que ali estavam ficaria rico.

Agora ele tinha 60 dias para encontrar um local menor e mais barato e decidir o que levaria consigo.

Ele & Ela (,) – Capítulo III (A Estrada)

Ele aproximou-se do corpo. Era um jovem em seus 20 e poucos anos. Estava estirado no meio da estrada, a parte superior numa faixa, a parte inferior na outra.

Nitidamente, o que é que houvesse acontecido com aquele rapaz resultou em um grande ferimento em sua cabeça.

Estranhou o fato do corpo estar trajado com uma jaqueta completamente igual a sua. Estranhou também o fato de suas jeans serem completamente idênticas.

(Se não fosse sua perda de memória perceberia que ali jazia o seu próprio corpo. Infelizmente sua falta de recordações lhe privava de lembranças, tais como a vez em que havia ganhado uma bicicleta em um sorteio aos cinco anos, do fato de já ter bebido tequila com larva em um de seus aniversários e o que ele fazia perambulando por ali. Mas, mais importante naquele momento era a sua completa ignorância a respeito de como era sua própria face)

Ele pensou em ligar para o serviço de emergência, porém só lhe restavam 3 tampinhas de longnecks, uma bala mentol, alguns trocados e o papel que havia passado por pelo menos duas vezes na máquina de lavar. Não havia nada a ser feito.

Decidiu seguir a estrada. Ele poderia encontrar algum telefone de emergência a beira da rodovia ou então acenar para algum carro que estivesse passando.

Olhou para os dois lados do caminho. Idênticos. Resolveu seguir um deles.

Caminhou cerca de 800 metros e deparou-se com uma placa.

“41 Km”

Prosseguiu por mais um tanto e encontrou outra sinalização.

“42 Km”

Resolveu voltar. Independente de onde vinha e para onde ia aquela via, suas maiores chances de achar um centro urbano era se dirigir em direção ao kilometro 0.

Passou pelo corpo. Sentiu calafrios ao olhá-lo novamente.

Decidiu ignorá-lo e focar em seu objetivo.

Prosseguiu em sua caminhada. Era difícil se concentrar com sua forte dor de cabeça, que agora estava em um nível nove.

40. 39. 38. 37. 36… Pouco mudava ao seu redor. As árvores continuavam permeando ambas as encostas do caminho. Nenhum carro passou, em nenhuma das direções. A única distração, se é que podemos classificar isto como distração, eram as curvas acentuadas que desenhavam aquela via. Para ele já era difícil caminhar de forma digna em linha reta. As curvas tornavam a tarefa ainda mais difícil.

Decidiu encará-las como um jogo. 20 pontos por curva feita de forma correta. -10 a cada vez que caísse em uma das valas. Após 5 kilometros sua pontuação era de -60.

Caminhou por mais 3 kilometros até que avistou luzes piscando por entre a neblina na distância. Apertou o passo. As cores foram ficando mais nítidas: um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul. Um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul.

Chegou perto o bastante para identificar uma ambulância e um carro de bombeiros estacionados no acostamento. Mais a frente havia um carro capotado, parado bem ao pé de uma árvore no lado direito.

Aproximou-se. Os bombeiros tentavam, ao que parecia, socorrer alguém de dentro do veículo acidentado. Os paramédicos carregavam um corpo já ensacado para dentro da ambulância.

Encostado no caminhão de bombeiros estava um rapaz fazendo rápidas anotações em uma prancheta.

“Ei!”, ele disse.

Nenhuma resposta.

“EI!”

Nenhuma resposta.

O rapaz agora entrava no veículo para guardar a prancheta no guarda luvas.

“Ela morreu instantaneamente na batida”, ouviu um dos paramédicos falar.

Tentou contato com o mesmo.

“Ei!”

Nenhuma resposta.

“EI!!!”

Nenhuma resposta.

“Puta que pariu, será que alguém pode me ajudar???”, ele gritou.

Nenhuma resposta. Nem mesmo olhar para ele eles olharam.

Viu mais a frente uma moça chorando no meio da estrada. Ela observava a cena.

“Ei, moça!”

“Gabriel!!! Por favor, Gabriel!!!”, ela gritou desesperadamente em direção aos entulhos.

“Moça, vai ficar tudo bem!”

“Gabriel, não desiste! Não desiste! Você ainda tem chance, Gabriel!”

“Moça, os bombeiros vão retirá-lo, fica calma.”

Neste momento um forte clarão apareceu por entre os destroços do carro e, assim como veio, se foi.

Ela olhou para ele.

“Não vai ficar tudo bem.”

Um elevador surgiu aonde antes não havia nada. Ela apertou o botão para cima e entrou.

O elevador subiu rapidamente em direção ao céu.