Como acontece I

Primeiro, não conseguem se cansar do outro. Horas e horas conversando, todos os dias, sobre tudo. É como heroína para um viciado, nunca é o bastante e a sensação deve ser o que dizem ser de um cérebro completamente feliz.

Veem coisas na rua e lembram um do outro, fazem mini surpresas com presentinhos – para mostrar como se importam, como lembram, como amam.

Todas as músicas felizes de amor são sobre eles. E, eventualmente, encontram aquela que será marcada para sempre como deles. A vida é boa, faz sentido, ambos tem tudo o que importa.

A primeira viagem juntos é combinada em 2 dias, pois a ansiedade não dá espaço para a espera. Mas não vai embora enquanto o dia marcado não chega, é como finalmente encontrar um poço escrito “felicidade” e ele está a dias de distância.

Um fim de semana sozinhos, conhecendo um novo lugar, um ao outro, comendo, rindo, dormindo… E há quem duvide que perfeição exista.

A viagem acaba, cada um vai para sua casa, mas já estão conversando por mensagem no celular. A distância já dói. Internamente os dois se perguntam quando irão morar na mesma casa e dividir tudo como tanto tem vontade.

Com o passar das semanas a ânsia de conversar o tempo todo diminui mais por um lado do que pelo outro. Um deles está tentando uma promoção no trabalho, o outro quer se demitir. O primeiro não tem mais tempo de falar o dia inteiro no celular, o segundo guarda mágoa por isso.

A primeira briga chega como uma chuva de verão, aquele tipo de chuva quando o céu permanece cinza por dias e, no dia certo, o dia parece noite. As nuvens mais escuras se aproximam lentamente primeiro, depois chegam de uma vez. E a discussão que começou porque um deles dormiu em vez de ligar pro outro, vira uma briga sobre todas as pequenas coisas ignoradas durante o início mágico e perfeito.

As pazes trazem uma sensação ainda maior de felicidade, pois trazem alívio junto, é a prova de que o amor deles pode superar até a pior tempestade dos últimos 5 anos. Tudo é calmo e alegre, como aquele dia perfeito da primavera. Sol, um parque, a grama e crianças correndo em volta. Nada pode acabar com aquilo.

Obviamente outras brigam vem, maiores ou menores do que a primeira, e deixam marcas profundas na memória ou não são lembradas depois de 10 dias. Coisas boas também. A rotina se estabelece com alguns pontos positivos e negativos periodicamente.

O problema da rotina é que ela é como a tempestade da 1ª briga. É o elefante branco na sala. Eles ignoram, fingem que não veem aquele céu cinza escurecendo a cada dia, ou aquele elefante bebendo água da fonte de decoração da estante. Pois ninguém quer brigar, ninguém quer assumir que tem algo errado. Dói pensar que não está dando certo com alguém tão amado. Eles esquecem que a rotina mata.

Esquecem que rotina, brigas, preguiça etc. fazem parte da vida de casal, que tudo isso é normal e precisam enfrentar ou estão estancando o buraco negro com um band-aid super desenvolvido. Se comportam como crianças com medo do bicho-papão, a possível confirmação dos seus medos: aquilo não é para sempre.

Continua.

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7 comentários sobre “Como acontece I

  1. Pingback: Como acontece II | Me desculpem, não foi de propósito!

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