Um dia perfeito

Bom, já que você perguntou, aqui vai:

“Acordo, sem despertador, porque é domingo e eu não sou obrigada. A cama está quentinha, confortável, como se me abraçasse dizendo “você é só minha”. E então você me abraça e sinto meu corpo se entregando à preguiça, ao sono.

Acordo novamente, agora sozinha na cama, ouço você na sala com a TV, o campeonato inglês passando e você resmungando sobre um impedimento que não aconteceu. Sorrio pra mim mesma e lembro que queria ver esse jogo, então levanto e levo o edredon para o sofá, pois sei que você vai estar lá sem camisa e hoje está frio. Não um frio absurdo, mas 18ºC é frio pra quem viveu meses com a mínima em 23ºC.

Durante o jogo, minha mãe liga. Amanhã é aniversário da minha avó, 79 anos, e hoje iremos levá-la para almoçar em algum lugar, comemoração simples e só com as filhas e a neta. Eu digo que vou me aprontar e peço para que me enviem o endereço do lugar.

Eu conheço minha família, então sei que, como marcaram às 13hrs, chegarão realmente após às 14:45, então deito novamente no sofá, me enfio embaixo do edredon com você e assistimos ao resto do jogo em silêncio, exceto pelos momentos de revolta ou risada porque o Liverpool marcou. Ou quase.

Ajudo você a preparar seu almoço, pois, apesar da minha avó te amar e sempre querer te ver, hoje é dia das filhas e da neta. Fazemos macarrão, como todo domingo. Na verdade, eu faço o macarrão, pois meu molho é muito melhor que o seu, e você se concentra no frango grelhado.

Enquanto você almoça, tomo banho ouvindo Jimmy Eat World e acabo perdida em algumas lembranças dos 18 anos. Não dói, é uma saudade feliz, saudade do que foi bom e valeu o tempo investido.

Já na rua, com o fone de ouvido, vestido, meia calça roxa e rasgada, All Star e jaqueta jeans, penso no que dar de presente de aniversário para a vó. Qualquer coisa que eu der vai deixar ela feliz ao ponto de quase chorar, ao mesmo tempo em que ela me dá uma bronca por ter gasto dinheiro com presentes. Sorrio para o chão.

Chego ao shopping 14:50, pois a senhora avó não queria em lugar nenhum senão o pior shopping da cidade. Menor, com menos opções e com mais gente. Mas é seu aniversário, então ela que manda.

Chego junto com ela e minha mãe, que foi buscá-la em casa, e está feliz por me ver participar desse dia. Normalmente eu invento uma desculpa ou simplesmente não apareço. É difícil lidar com pessoas, especialmente com família, mas quando é sobre a minha avó eu não fujo. Ela é um dos meus maiores presentes.

Almoço, sorvete, conversa na mesa, andança pelo shopping, uma tia compra um casaco, outra tia compra um sapato, eu penso em comprar uma bota, mas deixo para lá porque preciso economizar.

Volto para casa, encontro você me esperando com uma pizza para jantar. Continua do mesmo jeito que o deixei: moletom, chinelo e sem camisa. Pego uma camiseta de manga longa velha pra você, porque não dá pra aguentar te olhar assim nesse frio. 16ºC agora.

Comemos, conto como foi o dia, como a vó perguntou de você, como ela disse que gosta tanto de você e sente saudade. E como ela tirou sarro de mim por segurar sua bengala, dizendo que eu estava “esquentando o pau dela”.

Comemos demais, 3 pedaços e meio cada um, então a única decisão sábia é deitar no sofá e levar 40 minutos para decidir o que assistir na Netflix.

Alguns episódios de um desenho maluco e aleatório depois, vamos deitar na cama.

Você me abraça quentinho, como um aquecedor humano. Seu cheiro é maravilhoso, cheiro de lar, de felicidade.

E decide perguntar: o que seria um dia perfeito para mim?”

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