Quando eu conheci Holden Caufield

Acho que eu tinha uns 14 anos, talvez 13, não lembro ao certo.

Éramos da mesma sala em um colégio particular como qualquer outro, onde alguns querem ser bonitos, outros querem ser inteligentes, outros querem ser engraçados, outros só querem ser notados e outros só querem sobreviver aquele inferno.

Nós dois pertencíamos ao último grupo. Ele era facilmente identificado como tal, o uniforme amarrotado, às vezes até sujo, o cabelo do mesmo jeito de quando deixou o travesseiro. A expressão era de constante tédio, mas os olhos eram ansiosos.

Grandes olhos negros, redondos, emoldurados por sobrancelhas espessas. Tudo isso ajudava na expressão sisuda, mas a intensidade dos olhares entregava como ele procurava por algo ou alguém para… Algo. Ele não sabia o quê. Até hoje talvez não saiba. Eu não sei.

Eu procurava o mesmo. Procurava alguém que me acompanhasse tanto na jornada de ser uma criança de 13 anos quanto na procura do que estava faltando.

Nós tínhamos isso. Éramos uma dupla inseparável e irritante, pois cada um podia ler o pensamento do outro e os dois acabavam expulsos das aulas porque simplesmente não nos importávamos.

Não se engane, não tinha interesse romântico, era o tipo de amizade entre duas mentes que ansiavam por uma companheira que acompanhasse o raciocínio e os sentimentos.

Ter 13 e 14 anos é difícil. Adolescentes são cruéis, são adultos que ainda não obedecem às regras de convívio social, então podem ser abertamente maus. Nós não nos importávamos novamente. Histórias vis e desnecessárias foram inventadas e nós nos sentíamos quase importantes por saber que pessoas perdiam tempo para criar inverdades. Ah, como era bom chegar na escola e encontrar o mesmo cabelo espetado e o rosto estampado com sono e tédio, mas chegar nos olhos e ver o brilho que provavelmente estava presente nos meus.

O brilho da cumplicidade. Da inocência de achar que sabemos algo do mundo, algo que poucas pessoas sabem. De ter alguém para compartilhar isso.

E em algum dos dias de aula e tédio e conversas sobre tudo e nada, ele tirou um livro velho da mochila, roubado de uma biblioteca. Uma 5ª edição toda remendada de um livro chamado O Apanhador no Campo de Centeio: “Leia, você vai gostar, o principal parece com você”.

Mal sabia ele a diferença daquele livro em uma vida. E que, do mesmo modo que ele o roubou de uma biblioteca, eu roubaria dele.

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