Felicidade

A sensação quente enche o braço, transcorre pelas mãos, pelos dedos, pinga em volta.

A mente lembra de momentos aleatórios e desconexos. Como aquele dia em que acordei no parque e o sol estava quente, mas não quente desagradável, e sim como entrar em casa depois de andar na rua quando está frio. Uma quentura que te acolhe e te abraça e passa segurança.

Também lembro do dia em que visitamos um parque novo, sentamos na grama e ouvimos nossa banda preferida enquanto tirávamos fotos e acreditávamos que nunca acabaria.

O dia em que conversamos e concordamos que precisávamos dar um jeito de ficarmos juntos, porque a vida era ok quando separados, mas muito melhor um com o outro.

Aquela vez em que implorei para você não ir embora enquanto as lágrimas escorriam sobre meu rosto. Quentes por menos de 2 segundos, então frias como os seus olhos ao olhar os meus.

O dia em que cozinhamos e brincamos e rimos e comemos e dormimos, um dia tão simples, mas, ainda assim, tão completo e perfeito.

Quando decidimos que éramos eternos.

E o dia em que chorei abraçada em você, porque guardei coisas demais e meu corpo não aguentou o que minha mente planejou. E até hoje lembramos de Vanguart por causa disso.

Todas as vezes que, mesmo sem pedir, amigos me apoiaram e mandaram mensagens ou ligaram para me lembrar de que eles estão sempre ali.

Os cachorros, os gatos, os filhotes. Os livros, os filmes, as discussões, as brigas, as pazes.

Minha mãe. Minha avó. Meus amigos próximos. Ah, é tão bom pensar neles.

Mas a quentura diminui com o passar dos segundos. Um arrepio, o frio, a tensão automática quando meu cérebro percebe que algo deu errado, os músculos relaxando quando meu cérebro percebe que não tem mais o que fazer, então ele resolve desligar.

O sangue fora faz falta dentro, então não sinto mais nada, só algo comparado ao sono.

Não tem mais dor, lembranças, quentura ou frio. Só névoa e a sensação de estar caindo no sono. O sono merecido depois de tanta dor.

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O dia em que fui salvo por John Lennon

Quando completamos 18 anos temos que, obrigatoriamente, nos alistar. Isso não é uma tarefa fácil se seu nome é Roberto Carlos. Ainda mais no ano que um deles jogava no Corinthians e a frase “brilha muito no Corinthians tinha acabado de ser cunhada; e o outro, o cantor, completava 50 anos de carreira. Ou seja, eu ia me ferrar.

Durante as 3 primeiras visitas ao centro militar a mesma coisa:

“Roberto Carlos”

Já começavam os risos, os famosos “esse cara sou eu” e “quando eu estou aqui”, etc.

Lembro que na 4a um dos militares lembrou da frase do Pânico na hora “brilha muito no Corinthians”… rs.

Pois bem. Na última vez, a vez em que eu seria dispensado, colotaram o pessoal sentado em 5 bancos diferentes, distribuídos verticalmente. O militar lá na frente chamava o nome, você levantava e ia até a mesa dele entregar o documento e vê-lo sendo carimbado com o mais doce sabor de liberdade que você pode provar aos 17/18 anos.

Porém, se o seu nome é Roberto Carlos, esse gosto pode ser bem amargo.

O militar começou chamando:

“Artur”

“Bruno”

“Caue”

Enquanto isso eu já suava frio sabendo que iria me ferrar bonitamente em cerca de segundos.

“Diego”

“Eduardo”

“Fabio”

Puta merda, o que que eu faço? Tô ferrado.

“Gabriel”

“Henrique”

“Igor”

Eis que surge um salvador:

“John Lennon”

Todos riram. Eu não. Mas eu sabia que Roberto Carlos não seria tão bom quanto um John Lennon. De lá, até o final foi só alegria. Quando gritaram o meu nome nenhuma reação.

Gostaria de deixar aqui o meu muito obrigado para John Lennon, que se sacrificou para que eu não sofresse o que ele sofreu. Eu te amo, John Lennon, mesmo você não sabendo.

Páginas 2 e 3 de um diário achado no km 427 da BR-116.

Às vezes eu sinto que tenho tantas cicatrizes e tantos traumas que o melhor que eu poderia fazer é me esconder. Viver em uma caverna no meio da mata de vez. Mas aí eu lembro que minhas habilidades de sobrevivência numa escala de 0 a 10 estão bem próximas do zero. Eu não sei acender fogueira. Eu não sei pescar. Não é raro eu me confundir amarrando o meu cadarço. Eu morreria em 3 dias no máximo.

Eu já fui pra caverna. Algumas vezes. Algumas vezes eu pensei em até diminuir o prazo de 3 dias e simplesmente me mudar pro limbo. Não foram poucas vezes, não foram muitas. Foram vezes. Acontece. Não deveria. Não gosto de falar da caverna.

Muitas vezes eu pensei em morar na casa de campo por mais tempo. Já cheguei a viver por anos na casa de campo. Mas sempre acontecia alguma coisa que me fazia voltar para cidade. Um emprego, um momento difícil passado por um parente e, em raras ocasiões, situações em que eu me via compelido por mim mesmo. Nunca valeu a pena. Ia, ficava alguns meses e logo voltava pra quietude do interior, aonde eu poderia fazer o que bem entendesse, na hora que me fosse conveniente.

A cidade, ela é linda de longe. Ela é linda nos primeiros dias. Tudo é encantador até você se dar conta que aquilo é uma forma de histeria coletiva. Bom, pelo menos para mim. Muita gente vive bem na cidade. Eu não. Eu não sei viver na cidade. Eu não sei viver me misturando à maré que de manhã vai do ponto A para o ponto B e de noite faz o caminho inverso, indo do ponto B para o ponto A. Muito menos consigo abdicar da minha liberdade pelo bem comum. Não que a minha liberdade e minhas vontades girem em torno de atos delituosos ou impróprios. Mas veja, a convivência impõe certas restrições naturais. Afinal ninguém nasce livre de verdade – não escolhemos a língua que iremos falar, o sistema político em que iremos viver, a classe social a qual iremos pertencer… tão pouco aonde iremos viver. Você pode dizer: “Ah, mas no campo essa falsa liberdade também existe.”. Sim, é verdade. Mas quando se convive com tantas pessoas, de uma forma muito mais intensa, as regras precisam ser mais duras. É muito mais difícil controlar milhões do que milhares, então é natural que a opressão seja maior.  Para mim maior do que os benefícios de se viver de uma forma coletiva.

Hoje vivo num meio termo. Passo uma temporada no interior e uma temporada na metrópole. Na caverna faz tempo que não passo e espero continuar assim. A tentação é forte mas a umidade e a escuridão são maiores.

Acho que omiti uma parte: eu queria saber viver na cidade. Tenho inveja de quem se adapta e de quem consegue colher os frutos. A cultura, a ciência, a troca de informação que é tão intensa no burgo e a convivência que ele proporciona. Queria poder me tornar parte de um organismo vivo feito de pedra e carne.

A carta a quem interessar possa II

Querido amigo, sou eu novamente.

Como vai? Aproveitou o Carnaval? Pulou, cantou, conheceu pessoas, bebeu, chorou, beijou, fez xixi onde não deveria?

Talvez meu conceito de Carnaval seja meio deturpado. Desculpa.

De qualquer forma, dessa vez não escrevo para saber de você, preciso falar de algumas coisas.

Você conhece doenças como depressão e ansiedade, eu acredito, pois falo muito nelas. Também conhece síndrome da personalidade limítrofe e avpd (um nome chique em inglês pra te chamar de Pessoa Que se Fecha e Isola do Mundo Mesmo Querendo e Precisando de Atenção)?
Fui diagnosticada com essas duas coisas aí. Uma porcaria ser uma porcaria, como diria um amigo.

Essas coisas juntas me fazem sentir como se eu tivesse acabado de acordar em uma nave daquelas enviadas para popular um planeta distante. Você sabe, como nos filmes, a pessoa dorme meio que em conserva, como um picles, e do nada ela acorda, sabe-se lá o porquê, e está sozinha. Apesar de, sim, estar junto de uma quantidade de gente para popular uma porra de um planeta, a pessoa se sente total e completamente solitária, afinal, tá todo mundo dormindo. Então, sim, existem pessoas ali, mas é impossível manter uma comunicação porque o outro lado não ouve.

No caso da nave, ninguém ouve porque estão dormindo, no meu caso é porque eu não falo mesmo.
“Por quê? Você conhece tanta gente e tem tantos amigos” você dirá. E é uma bom ponto.

Os médicos disseram que esse é um dos efeitos das doenças. Me isolar dentro da minha própria cabeça e não falar com ninguém. Quando eu falo, me sinto um peso morto, uma tarefa chata que meus amigos precisam cumprir. Então eu prefiro ficar quieta.
E também porque meus pensamentos sempre soam tão idiotas e inúteis quando ensaio na cabeça o que dizer a eles…
Eu não sou importante, preciso ajudar os outros porque eu não valho a pena.

E, no fim, nem isso eu consigo. Nem ajudar alguém. E então o vazio vem de novo. Mas não é um vazio realmente oco, ele me deixa dormente e com coragem de finalmente acabar com esse peso e essa tarefa que eu sou para todo mundo.

Eu nunca desejaria esse sentimento pra alguém. Essa vontade de só livrar as pessoas da sua companhia. Mas ao mesmo tempo pensar que sua família vai precisar gastar dinheiro com o enterro e essas coisas. E como sua mãe vai se sentir ao enterrar um filho.

São pensamentos esquisitos e bagunçados, amigo, são difíceis de lidar e eles não vão embora tão fácil.

Eu estou escrevendo pra você porque, como não consigo falar com ninguém de carne e osso, você é minha única esperança de conseguir me abrir.
Por favor, não me julgue. Eu quero melhorar, quero voltar a ser aquela pessoa que todo mundo fala que reclama e reclama, mas gosta da vida.
Aquela pessoa que vive. E vive mesmo, não só sobrevive. Sobrevida é algo que eu não quero e então eu preciso melhorar ou o vazio volta.

Quando eu conheci Holden Caulfield de novo

Um grupo enorme de pessoas em um aplicativo de mensagens.

Brigas, discussões, piadas, memes, uma caralhada de gente idiota.

E uma foto de perfil. Um desenho. Um garoto com um cigarro na boca e um chapéu de caça vermelho.

Eu reconheceria aquele desenho em qualquer lugar, aos 26 anos, com aquele livro fazendo parte da minha vida desde os 14, é difícil perder referências.

Ele tem a boca grande, ele fala sem freios, como se soubesse todas as verdades que nós ignoramos, pois somos phonies. Mas é claro como tudo vem com dor, insegurança e medo. É o famoso escudo da insegurança.

Obviamente, a vontade de conhecer, e entender o que fez dele assim, veio. Mas eu não poderia só chegar falando, invadindo. É como tentar juntar polo positivo com positivo de dois ímãs, eu seria repelida ao mesmo tempo em que faria o mesmo. O sentimento é de frustração, porque, ao contrário de quando conheci o Holden aos 13 anos, nós vivíamos na mesma cidade e precisávamos um do outro. Agora, ele não precisa de mim. Ele tem mecanismos de defesa que tomaram conta dele e que ele já não consegue controlar.

Como ele mesmo disse, nós sabemos o que vai acontecer quando chegamos perto de algumas pessoas. Nós sentimos. Mas ainda assim…

Ele sofre, ele sente dor o tempo todo. Ele é bom, ele é puro, ele não quer que as pessoas conheçam essa dor, apesar de ele saber que essa dor o faz enxergar melhor o que muitos ignoram. Mas a dor também o cega para as coisas óbvias, ela o afasta de coisas que poderiam ser boas.

E ele odeia que eu fale dele desse jeito, porque eu não o conheço. Nunca conhecerei.

Quando eu conheci Holden Caufield

Acho que eu tinha uns 14 anos, talvez 13, não lembro ao certo.

Éramos da mesma sala em um colégio particular como qualquer outro, onde alguns querem ser bonitos, outros querem ser inteligentes, outros querem ser engraçados, outros só querem ser notados e outros só querem sobreviver aquele inferno.

Nós dois pertencíamos ao último grupo. Ele era facilmente identificado como tal, o uniforme amarrotado, às vezes até sujo, o cabelo do mesmo jeito de quando deixou o travesseiro. A expressão era de constante tédio, mas os olhos eram ansiosos.

Grandes olhos negros, redondos, emoldurados por sobrancelhas espessas. Tudo isso ajudava na expressão sisuda, mas a intensidade dos olhares entregava como ele procurava por algo ou alguém para… Algo. Ele não sabia o quê. Até hoje talvez não saiba. Eu não sei.

Eu procurava o mesmo. Procurava alguém que me acompanhasse tanto na jornada de ser uma criança de 13 anos quanto na procura do que estava faltando.

Nós tínhamos isso. Éramos uma dupla inseparável e irritante, pois cada um podia ler o pensamento do outro e os dois acabavam expulsos das aulas porque simplesmente não nos importávamos.

Não se engane, não tinha interesse romântico, era o tipo de amizade entre duas mentes que ansiavam por uma companheira que acompanhasse o raciocínio e os sentimentos.

Ter 13 e 14 anos é difícil. Adolescentes são cruéis, são adultos que ainda não obedecem às regras de convívio social, então podem ser abertamente maus. Nós não nos importávamos novamente. Histórias vis e desnecessárias foram inventadas e nós nos sentíamos quase importantes por saber que pessoas perdiam tempo para criar inverdades. Ah, como era bom chegar na escola e encontrar o mesmo cabelo espetado e o rosto estampado com sono e tédio, mas chegar nos olhos e ver o brilho que provavelmente estava presente nos meus.

O brilho da cumplicidade. Da inocência de achar que sabemos algo do mundo, algo que poucas pessoas sabem. De ter alguém para compartilhar isso.

E em algum dos dias de aula e tédio e conversas sobre tudo e nada, ele tirou um livro velho da mochila, roubado de uma biblioteca. Uma 5ª edição toda remendada de um livro chamado O Apanhador no Campo de Centeio: “Leia, você vai gostar, o principal parece com você”.

Mal sabia ele a diferença daquele livro em uma vida. E que, do mesmo modo que ele o roubou de uma biblioteca, eu roubaria dele.