E morreu (Eu, no caso) X

Parte IX

Eu estava contemplando a vida (morte?) e ele entrou.

Ele, sempre com aquele jeito perdido e meio torto, de quem não está 100% confortável na própria pele. Sempre, desde que nos conhecemos, ele tem esse jeito. Como se aguardasse que algo o assustasse do nada, apesar de tentar fingir confiança. Era engraçado.

Nós ficamos juntos por 3 anos. 3 anos marcados por idas e vindas, e mais idas e vindas. Nossas personalidades são explosivas demais, mas não queríamos aceitar a distância, então sempre voltávamos. Até o último dia.

No último dia, nós havíamos terminado há alguns meses, talvez 4? E eu acabei o encontrando em um dos milhões de jogos que nós dois sempre íamos. Como o término não foi brigado, acabamos assistindo o jogo juntos, pois foram 3 anos desse jeito e sentíamos saudade.

Sim, assistimos o jogo. Conversamos um pouco sobre a vida no intervalo, mas nada demais, pois o contato via facebook e telegram ainda existia. Então, não era um encontro tão pesado.

Resolvemos comer umas esfihas depois do jogo, e então a conversa realmente pesou. Falamos sobre os meses separados. Eu, apaixonada por aquele que já contei sobre. Ele, vivendo uma vida sem qualquer tipo de ligação afetiva, era tudo físico. Eu não ligava de ouvir sobre, mas ele nunca se sentiu confortável em falar sobre seus “casos” comigo, afinal, ele foi meu namorado. Ele foi o namorado que eu sempre pensei “finalmente, é ele”, mas não foi. Não era. Nunca foi, na verdade.

Sempre mais melhores amigos do que namorados.

O dia do jogo foi uma sexta-feira, fiquei com ele até domingo à noite.

Domingo, enquanto decidíamos o que assistir antes de dormir, eu estava com sono demais para assistir qualquer coisa. Só queria deitar em silêncio com ele. Ele queria um filme, uma série, um desenho, qualquer coisa, e eu poderia deitar no colo dele. Eu ainda não namorava, mas a culpa pesou durante os 3 dias.

Eventualmente acabamos abraçados no sofá, como dois namorados, como fazíamos antes, e eu percebi que aquela seria a última vez que ele me seguraria daquele jeito. Que ele estaria tão perto. Não, não era questão de estar apaixonada por ele, porque eu não estava, era sobre o fim de um ciclo que foi maravilhoso (apesar de muita dor e mágoa). O fim do ciclo onde eu namorei, mais uma vez, meu meu melhor amigo. As lágrimas vieram e eu só conseguia o abraçar como se o que estivesse embaixo fosse um penhasco com estacas e fogo e vários Michel Temer embaixo. Ele percebeu as lágrimas e as beijou. Beijou minhas bochechas, meus olhos, minha testa, meu pescoço, meus lábios. E o abraço apertado virou um beijo apertado. O beijo aperto virou a fusão de duas mentes e dois corpos que sabiam que nunca mais se encontrariam daquela forma. A dor tão presente quanto o amor. A esperança dele e a minha culpa também, ambas olhando de lado.

Do sofá acabamos na cama. O dia estava quente e com o passar do tempo, o suor mais parecia nossa pele derretida, se fundindo, nos conectando, estávamos derretendo um no outro.

No fim, declarações de ex-namorados, abraços, respirações descompassadas e pesadas. Era o fim de tudo, apesar de eu só ir embora no outro dia de manhã. Sabíamos que tinha acabado e que não se repetiria. E, assim, ficamos lado a lado, com calor demais para nos abraçar, mas com as mãos entrelaçadas, suor escorrendo pelo corpo como se tivéssemos acabado de tomar banho, a dor e o amor entrelaçados entre nossas mãos. A esperança dele e a minha culpa ainda olhando de lado, aguardando.

Engraçado, tem uma música chamada 23, da banda Americana Jimmy Eat World. Eu sempre a relacionei com meu outro ex-namorado, pois JEW era “nossa banda”, mas essa música… Ela não é de um namoro, ela é sobre mim enquanto em um relacionamento.

No one else will know these lonely dreams
No one else will know that part of me

(…)

It was my turn to decide
I knew this was our time
No one else will have me like you do
No one else will have me, only you

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