A volta dos que não foram

Ela nunca parou de se questionar.

O porquê de ela ser assim. Mas a resposta era óbvia, criação em casa somando sociedade igual ao que ela virou.

O porquê da família ser assim. Essa resposta não era óbvia, exigia gráficos, infográficos, folhetos e umas 8 palestras.

O porquê de a vida não ser linear e sair de acordo com os planos. Outra resposta fácil, como diz um pôster do Johan Cruyff, o acaso é óbvio.

O porquê de algumas pessoas fazerem exatamente as coisas que não gostavam que fizessem para elas. Bom, humanos.

O porquê dos comentaristas de portais de notícias. Bom, humanos.

O porquê de ser tão difícil lidar com as perdas que não eram para a morte e sim para o tempo. Error 404 not found.

O porquê de algo que nunca viveu mais do que duas semanas, que viveu puramente de textos e algumas palavras faladas aleatoriamente, doer tanto quando morreu.

O porquê dele não falar.

O porquê da intensidade.

O porquê da dor.

Ela nunca parou de se questionar.

E morreu (Eu, no caso) X

Parte IX

Eu estava contemplando a vida (morte?) e ele entrou.

Ele, sempre com aquele jeito perdido e meio torto, de quem não está 100% confortável na própria pele. Sempre, desde que nos conhecemos, ele tem esse jeito. Como se aguardasse que algo o assustasse do nada, apesar de tentar fingir confiança. Era engraçado.

Nós ficamos juntos por 3 anos. 3 anos marcados por idas e vindas, e mais idas e vindas. Nossas personalidades são explosivas demais, mas não queríamos aceitar a distância, então sempre voltávamos. Até o último dia.

No último dia, nós havíamos terminado há alguns meses, talvez 4? E eu acabei o encontrando em um dos milhões de jogos que nós dois sempre íamos. Como o término não foi brigado, acabamos assistindo o jogo juntos, pois foram 3 anos desse jeito e sentíamos saudade.

Sim, assistimos o jogo. Conversamos um pouco sobre a vida no intervalo, mas nada demais, pois o contato via facebook e telegram ainda existia. Então, não era um encontro tão pesado.

Resolvemos comer umas esfihas depois do jogo, e então a conversa realmente pesou. Falamos sobre os meses separados. Eu, apaixonada por aquele que já contei sobre. Ele, vivendo uma vida sem qualquer tipo de ligação afetiva, era tudo físico. Eu não ligava de ouvir sobre, mas ele nunca se sentiu confortável em falar sobre seus “casos” comigo, afinal, ele foi meu namorado. Ele foi o namorado que eu sempre pensei “finalmente, é ele”, mas não foi. Não era. Nunca foi, na verdade.

Sempre mais melhores amigos do que namorados.

O dia do jogo foi uma sexta-feira, fiquei com ele até domingo à noite.

Domingo, enquanto decidíamos o que assistir antes de dormir, eu estava com sono demais para assistir qualquer coisa. Só queria deitar em silêncio com ele. Ele queria um filme, uma série, um desenho, qualquer coisa, e eu poderia deitar no colo dele. Eu ainda não namorava, mas a culpa pesou durante os 3 dias.

Eventualmente acabamos abraçados no sofá, como dois namorados, como fazíamos antes, e eu percebi que aquela seria a última vez que ele me seguraria daquele jeito. Que ele estaria tão perto. Não, não era questão de estar apaixonada por ele, porque eu não estava, era sobre o fim de um ciclo que foi maravilhoso (apesar de muita dor e mágoa). O fim do ciclo onde eu namorei, mais uma vez, meu meu melhor amigo. As lágrimas vieram e eu só conseguia o abraçar como se o que estivesse embaixo fosse um penhasco com estacas e fogo e vários Michel Temer embaixo. Ele percebeu as lágrimas e as beijou. Beijou minhas bochechas, meus olhos, minha testa, meu pescoço, meus lábios. E o abraço apertado virou um beijo apertado. O beijo aperto virou a fusão de duas mentes e dois corpos que sabiam que nunca mais se encontrariam daquela forma. A dor tão presente quanto o amor. A esperança dele e a minha culpa também, ambas olhando de lado.

Do sofá acabamos na cama. O dia estava quente e com o passar do tempo, o suor mais parecia nossa pele derretida, se fundindo, nos conectando, estávamos derretendo um no outro.

No fim, declarações de ex-namorados, abraços, respirações descompassadas e pesadas. Era o fim de tudo, apesar de eu só ir embora no outro dia de manhã. Sabíamos que tinha acabado e que não se repetiria. E, assim, ficamos lado a lado, com calor demais para nos abraçar, mas com as mãos entrelaçadas, suor escorrendo pelo corpo como se tivéssemos acabado de tomar banho, a dor e o amor entrelaçados entre nossas mãos. A esperança dele e a minha culpa ainda olhando de lado, aguardando.

Engraçado, tem uma música chamada 23, da banda Americana Jimmy Eat World. Eu sempre a relacionei com meu outro ex-namorado, pois JEW era “nossa banda”, mas essa música… Ela não é de um namoro, ela é sobre mim enquanto em um relacionamento.

No one else will know these lonely dreams
No one else will know that part of me

(…)

It was my turn to decide
I knew this was our time
No one else will have me like you do
No one else will have me, only you

A carta endereçada a quem interessar possa

Querido amigo, como vai?

Estou escrevendo porque sei que não mantemos contato há algum tempo e isso me incomoda, então vou aproveitar esse simbólico início de um novo ciclo. Sei que eu poderia enviar uma mensagem no Whatsapp ou Telegram, ou até no Facebook, talvez um e-mail? Mas prefiro escrever aqui, é mais pessoal.

Imagino que sua primeira pergunta seja “como vai a vida?” e eu só posso responder com: na mesma velocidade de sempre, com destaque para as novas exceções – muitos relacionamentos a menos, outros relacionamentos a mais. Sabe aquela amizade que você jura de pé junto que nunca vai acabar? Ah, vai. E vai ser do jeito mais idiota possível, pois assim é a vida e os relacionamentos, idiotas. Todos nós. A diferença é, com o tempo, às vezes nós nos enchemos da idiotice alheia e por isso a amizade/namoro/casamento/parceria comercial acaba.

Além, aprendi a valorizar mais minha saúde mental ao dinheiro. Gostaria de destacar que esse tipo de escolha vem acompanhada de um caminhão de privilégios e, também, de consequências que não são tão fáceis de lidar. Mas é isso ou desistir, e eu já tentei desistir algumas vezes, as cicatrizes coçam (literalmente), me lembram como eu tô sempre a um passo do precipício, mas que também tô a um outro passo de me distanciar mais dele. Ou seja, perspectiva?

Não, não virei uma otimista. Deus me livre desse tipo de maldição. Mas gosto de fingir que ganhei mais conhecimento sobre um aspecto que seja da vida. Se não for pra aprender, tomar na cabeça vira mais uma coisa que fazemos mecanicamente sem nos perguntamos que porra tá acontecendo. E de trejeitos, manias e rotinas mecânicas já nos basta o trabalho e 98,8% das relações com as pessoas em volta.

Também tem aquela coisa das pessoas ficando mais malucas. Sabia que, após morrer esfaqueado, o morto foi chamado de culpado por ter provocado quem o matou. Sim, a provocação realmente fez jus à morte, afinal, quem aquele moleque pensava que é para se assumir gay para a família? O pai teve direito de fazer o que fez. O moleque também tinha direito de se assumir gay, mas aí ele deu espaço pro pai também exercer o direito dele de matar, né? Mundo maluco.

Amigo, eu sinto sua falta, você some desse jeito, pois você também pode enviar uma mensagem pra mim, sabe? Mas você não o faz. E enquanto escrevo essa carta penso se não estou sendo deselegante ou chata, afinal, por que as relações se resumem à mão única? Sempre ouço pessoas reclamando que o outro não foi atrás, não falou nada, então eu pergunto “mas o que você falou?” e a resposta normalmente é “nada! Mas não sou eu que preciso falar primeiro”. A vida anda tão maluca que existe uma Guerra Fria para início de conversas. Vai entender.

Mas se você não me responder, eu também não tento mais. Afinal, isso é um passo, certo? Isso é um sinal, é uma abertura. Eu tô aqui, tirando um tempo das minhas 24hrs para escrever para você. Agora é sua vez, afinal, existe uma Guerra Fria nas conversas.