Um dia bom

Eu cresci em uma família disfuncional.

Essa frase talvez seja um pleonasmo, afinal, qual família é inteiramente funcional? Uma família funcional, por isso mesmo, já pode ser considerada disfuncional.

A minha sempre foi, ainda o é e continuará sendo. Já aceitei meu destino.

Meu pai, alcoólatra, com mais traumas do que eu pensei ser humanamente possível carregar, era meu herói. Quando criança o amor era incondicional. E exatamente por isso os “dias ruins”, quando ele estava “triste” eram tão assustadores. Quem fez aquilo com meu pai?

Mas nem todos eram dias ruins. E mesmo os dias ruins podiam ser bons. Como no dia da pizza esquecida no teto do carro.

Mas com a idade, fui percebendo como a nossa relação ficava mais e mais complicada. Até chegar ao ponto onde nos tratávamos como vizinhos no elevador. Ele nunca deixou de ser meu pai, e eu nunca deixei de ser sua filha, mas ninguém sabia como se relacionar.

Hoje, li a seguinte frase em um texto “Maurício, meu amigo, quando o Palmeiras ganha, o melhor que eu consigo sentir é alívio”.

Quando eu era jovem, ficava feliz em dia de jogo, pulava, comemorava, contava vantagem. Dia de Palmeiras era dia de alegria e emoção. Dias ruins eram respondidos com “no próximo vai ficar tudo bem”.

Mas, assim como toda paixão por um time, a relação é disfuncional. Outro pleonasmo.

Depois de alguns anos e decepções, algumas desclassificações, gols que não deveriam ter sido tomados, caminhadas embaixo de chuva após derrotas amargas, a relação ficou difícil. Até o ponto onde a gente se ama, mas não sabe mais lidar um com o outro.

Ontem, 30 mil pessoas gritavam “DA-LE,  DA-LE DA-LE PORCO,  SEREMOS CAMPEÕES,  MAIS UMA VEZ” e eu não estava feliz ou extasiada. Eu tinha 7 anos e via meu pai chegar em casa num “dia bom”. Eu só senti alívio.

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