E morreu VIII (eu, no caso)

Parte VII

18 nesse antes

Essa viagem vai ser boa demais. Meu deus, eu mal posso esperar pra sair de São Paulo. Amo essa cidade, mas, ao mesmo tempo, todos precisam de férias daqui uma hora ou outra.

Chapada dos Veadeiros. Nunca fui. Fico ansiosa enquanto espero o avião.

Gosto da natureza, apesar de ter muito medo de alguns indivíduos componentes dessa sociedade natual (aranhas). Vamos aproveitar tudo, vamos sentir o vento no rosto, ouvir como ele bate nas folhas e na grama. Essa grama que se mexe ao menor toque do mesmo vento. Sim, eu estou ansiosamente poética.

Cheguei no aeroporto, todos da firma juntos e ansiosos, ninguém veio aqui antes.

Transporte. Hotel. Meu quarto dividido com a moça da recepção, eu gosto dela, ela é calma, mas, ao mesmo tempo, tem uma animação que não me irrita. Sabe? Ela não é AI MEU DEUS VAMOS TODOS PULAR E SE AMAR E SER FELIZES JUNTOS OBAAAA, ela é alguém que não ativa meus ataques de pânico. Nada contra quem ativa, mas prefiro ficar longe.

De qualquer forma, no primeiro dia só chegamos ao hotel, jantamos e ficamos pelo hotel, não tinha o que fazer.

Algumas pessoas deram um perdido nos monitores e foram para outros quartos. Um moço do 4o ano de Ciências Contábeis veio pro meu quarto no lugar da moça da recepção. Nem tive tempo de aprender o nome dela. Acho que é assim que se faz quando você é jovem (ela é mais velha que eu).

Enfim, dormi. Ah, foi bom, foi calmo e acordei com a moça me balançando, como se ela tivesse do meu lado quando dormi.

Café da manhã é marcado pelas fofocas da noite anterior, ressaca para alguns e muita coisa para outros – tipo eu.

Saindo do hotel, entrando no translado que vai nos levar ao parque, tenho a sensação de que esqueci alguma coisa. É sempre assim. Checo a mochila com garrafa de água, celular, uns biscoitos e barras de cereal pra fome e a caixinha dos meus óculos escuros. Eu sei que tô esquecendo algo, mas não dá mais tempo de descobrir.

Chegando no parque, a caminhada é longa e não muito simpática, precisamos subir pedras e o sol está torrando meu ros-ESQUECI O PROTETOR SOLAR. É isso, terei câncer de pele. Que cabeçuda. Quem esquece o protetor solar? Euzinha.

– Vamos na beira da pedra? – diz minha colega de quarto que não dormiu comigo, me tirando da bronca mental que estou dando em mim mesma.

– Achei que você tivesse medo de altura – respondo, mas já me juntando à ela porque quero muito ver a paisagem.

Chegamos na beira de um pico. O instrutor nos explicou qual pico, o porquê daquele nome, sua idade e quanto tempo de existência.

Ignorei tudo.

Ignorei o que o pico foi ou seria.

O que ele poderia passar aos outros.

Na beira do precipício, eu só poderia ouvir vento uivando livremente e como um animal fugido do cativeiro.

Olho para baixo, ouço a grama, as folhas, o vento que nunca me deixa em paz. Sinto uma linha se formando na minha frente, ela corta a beira do pico e o espaço à sua frente, como a linha da plataforma do metrô. Consigo até ouvir a voz metálica dizendo “Favor, não ultrapassa a linha entre a via e a plataforma” porque, no mesmo instante, estou na Estação da Sé, esperando meu metrô e paro com meus pés na plataforma, sentindo aquela atração familiar que me puxa para os trilhos. Sempre uma decisão, sempre uma escolha. Ultrapassar a plataforma? Ultrapassar a linha do penhasco? Por que eu sempre me sinto assim? Por que o desejo de pular, de dar o único passo em direção do que seria o fim? O tão esperado fim… Fim de muitas coisas, da dor invisível aos olhos de todos, da decepção, do desespero, das dúvidas, do sentimento de ser um peso morto. Sim, é um fim esperado, desejado até. Seriam quantos segundos até o chão rochoso lá embaixo? O metrô está vindo, com um passo eu deixaria de ser eu para ser mais uma estatística da Estação Sé. Será que vale à pena?

– Sofia? Vamos voltar?

A colega de quarto que não dormiu no quarto me chamou.

Alguns segundos de vento, de escolha, de pílula azul ou vermelha, se passaram. Escolhi a azul.

– Sim, vamos voltar.

Parte IX

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