E morreu (Eu, no caso) VII

Parte VI

Passado o susto do Jovem Cabeludo e Metido, percebi que meu pai finalmente estava falando comigo. Ele parou do lado do caixão, pegou na minha mão, e começou a falar baixinho.

É feio ouvir a conversa dos outros, mas, teoricamente, ele estava falando comigo, então acho que não é ser inconveniente, certo? Certo.

Eu e meu pai sempre tivemos uma relação boa. Boa demais. Ótima. Incrível. Ele sempre foi meu amigo, e não pai-amigo, e sim amigo mesmo. Apesar de às vezes ele ter que ser pai-amigo pra poder me dar umas broncas e usar o tom “a sociedade me deu autoridade sobre você, então se prepara”.

Muitas pessoas acham que precisam ser amigas dos pais porque, bom… são os pais. Mas eu nunca senti essa necessidade, inclusive, a relação com minha mãe sempre foi típica Mãe & Filha, porque não tínhamos a conexão que eu tinha com meu pai. Aposto que ele tentou argumentar por causa das roupas que colocaram no meu corpo, ele sabe que a última coisa que eu iria querer é ser enterrada de roupa social. Minha mãe sempre se orgulhou muito da minha vida profissional, meu curso na faculdade, mas meu pai sabia que não era bem assim.

Só que ele também entende que velórios e enterros não são para os mortos, então ele deve ter cedido ao que minha mãe queria e fim, é o jeito dele. É o que eu faria também.

Talvez vocês queiram saber o que ele disse.

Talvez vocês queiram saber o que eu respondi.

Talvez a única coisa que interesse, nesse ponto, é dizer que ele pediu desculpas por um velório tão longo, por não ter vindo falar comigo antes e por não ter conseguido mudar minha decisão.

E eu respondi que não tem problema, que entendia e que ninguém poderia ter tirado aquela tristeza de mim, o peso de viver só pode ser aliviado de uma forma e somente a dona daquela vida poderia fazer algo sobre. E foi o que eu fiz.

Parte VIII

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