E morreu (eu, no caso) VI

Parte V

Eu gosto de relembrar essas coisas. Amigos, namorado, dias legais, me faz sentir que minha vida foi bem vivida e aproveitada. É estranho uma pessoa suicida dizer isso?

De qualquer forma, agora o velório está mais quieto, minha mãe foi dormir em casa um pouco, então meu pai e irmão ficaram, mas meu irmão precisou dormir no carro para não cair dormindo na minha cara (seria uma baita cena). Então sobrou meu pai, um tio do Paraná que eu vi 1 (uma) vez na vida e eu. Talvez “eu” conte por 2, então até que era uma quantidade respeitável de seres por ali.

Eu, mesmo fantasma ou espírito ou seja lá o que eu virei, conto. Posso não ser um ser vivo, mas eu sou um ser… Sei lá do quê. Segundo o materialismo, nós existimos enquanto sentimos, física e emocionalmente, então eu… Sou. Se você discorda, que vá discutir com o Gottfried Leibniz.

Talvez eu tenha moldado um pouco a teoria a meu favor? Sim, mas como eu morri e vocês não, meu voto vale mais. Obrigada.

E enquanto eu tento relembrar mais sobre materialismo, sei que até o Marx enfiou algo sobre isso no Comunismo, PLAU surge uma pessoa de cabelo longo, calça jeans, camiseta azul clara, chinelo e expressão de quem está fazendo o que não deveria. Um cara. Um cara esquisito. Um cara esquisito que surgiu do nada e que estava olhando diretamente para mim (“mim” leia-se: quem está contando a história, não quem está deitada na caixa de madeira com algodão no nariz, na garganta e em todos os orifícios possíveis [que fase]).

– Olá – disse o jovem esquisitão.

– … Oi? Por que você tá falando comigo e não com meu corpo no caixão? Você é uma daquelas pessoas que fazem projeção astral e ainda enxergam espíritos? Ou eu estou vendo coisas? Tem como um espírito, ou o que quer que eu seja, ser esquizofrênico pós-morte? Porque em vida eu fui muita coisa, mas não fui esquizofrênica. Eu acho. E se eu fui? Será que eu imaginei tudo que aconteceu? Será que eu tô imaginando tudo isso enquanto estou internada em um hospital psiquiátrico? MEU DEUS ALGUÉM ME AJUDA EU NÃO POSSO TER FICADO MALUC – fui interrompida no meio do meu surto psicótico.

– Primeiro: eu posso te ver e falar com você porque sim. Ainda não é hora de explicar; segundo: por favor, não me ofenda dizendo que sou uma daquelas pessoas que ingerem quantidades exageradas de psicotrópicos e saem dizendo que viveram uma “projeção astral”; – sim, ele fez aspas com as mãos – e terceiro: como você consegue falar tanta asneira e tão rápido? Acredito que não seja esquizofrênica, mas talvez tenha acabado de ter um quase ataque de pânico misturado com crise psicótica. Ainda bem que não temos facas por perto – E riu da própria piada.

Ele falava sorrindo o tempo inteiro, um sorriso de canto, como se ele estivesse sendo sarcástico o tempo inteiro, e mesmo assim a sua postura e seu olhar criavam ares de alguém importante. Como se eu estivesse perante um aristocrata do mundo dos mortos.

Ao mesmo tempo que fiz minha análise do indivíduo, tentei pensar numa resposta:

– Não dá para matar quem já morreu.

– Oi?

– Você falou “ainda bem que não temos facas por perto” como se, no meu surto, eu pudesse te matar. Eu já morri, você surgiu do nada, então acredito que também já tenha morrido, ou seja, não tem como te matar novamente. – concluí com um tom de “eu posso ser trouxa, mas não sou só isso, colega”.

– Ah, isso será muito divertido. – ele respondeu com o mesmo sorrido sarcástico e PLAU sumiu como apareceu: do nada.

Definitivamente tem muitas novidades nessa pós-vida. Quando pensava na morte enquanto viva, nunca imaginei que seria tão movimentado, que existisse isso de aparecer e desaparecer e que um cara, que chama drogas de “psicotrópicos”, viria no meu velório para me chamar de maluca.

O que será que vai acontecer quando esse velório infinito acabar? Eu quero ver o cemitério, ver o Assis (espero que não tenham esquecido dele lá na Parte I) e descobrir como é um pós-vida sem gente viva chorando no meu corpo morto.

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13 comentários sobre “E morreu (eu, no caso) VI

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