E morreu (eu, no caso) II

Parte I

Enquanto penso sobre selfies com espíritos e quanto sucesso eu faria no famigerado site assustador.com, uma amiga tentava colocar chá no copo e, quando colocou a garrafa térmica no lugar, a garrafa encostou no interruptor de luz. Aqui temos dois pontos importantes: 1) era chá de erva doce. O chá certo para momentos de nervosismo não é de camomila?; 2) que tipo de arquiteto coloca o interruptor na mesa do café do velório?

Agora ficou meio óbvio o que aconteceu, né?! E foi engraçado. A luz piscou e, como eu previ, metade das pessoas gritaram para alguma divindade, a outra metade falou EITA e começou a procurar o celular. Enquanto isso, minha amiga fazia cara de quem não viu nada e, ao mesmo tempo, de quem tinha engolido três filhotes de panda de uma vez só.

Minha mãe olhou em volta, inclusive para (ou através de) mim, provavelmente achando que foi um sinal meu, um jeito de mostrar que eu estou lá. Sim, mãe, eu estou aqui. Não, mãe, não fui eu que pisquei a luz. Mas isso me fez rir muito, se servir de consolo. Talvez não sirva, pois a filha dela morreu, mas não é menos dolorido imaginar que a pessoa está rindo em vez de chorando e querendo voltar para aquela vida chata, difícil e sem graça?

A minha mãe é uma senhora que foi classificada como a tia legal pelos meus amigos que sempre viviam em casa, casa essa que mais parecia uma estação rodoviária graças à grande rotação de pessoas todos os dias.
Receber amigos e conversar e fazer bagunça sempre foi uma característica da minha família, e o sangue italiano adicionava outros elementos: falar alto, mexer as mãos e, consequentemente, quebrar muitos copos, vasos, bater a mão na parede sem querer etc. E, por mais improvável que pareça, eu sempre tive esse humor… diferente, e mesmo assim tive uma montanha de amigos legais. Pessoas que eram atraídas pela minha personalidade brilhante assim como mariposas são atraídas pela luz, mas sem a parte de queimar e morrer. A única que morreu no ciclo de amigos fui eu.

De qualquer forma, a minha mãe conversava, fazia comida e pronto, ganhou todo mundo. Comida é o caminho. Fica a lição de quem morreu e, consequentemente, já sabe quais são as prioridades na vida.
E acabo de perceber que morto não come.
Nunca mais irei em uma festa junina, comer um monte de fogazza e pizza e churrasco e milho e caldo de feijão.
Rodízio de pizza? Dê adeus. Festival de foundue? Tchau. Arroz, feijão, bife e farofa da minha mãe? Foi bom te conhecer e ter o privilégio de te comer como se estivesse passando fome há uma semana.

É, agora esse negócio de morrer realmente me abateu. Desculpem, preciso de uns momentos para me recuperar desse choque.

Parte III

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10 comentários sobre “E morreu (eu, no caso) II

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