Vermelho

Acordei sozinha, sem despertador. A situação não exigia mais nenhum despertador, pois não havia trabalho para ir. Ah não, não vou contar a história de uma mulher desempregada e deprimida que tirará lágrimas dos seus olhos.

Essa é uma história sobre o fim do mundo.

Pois é, fim do mundo, apocalipse, o juízo final, a volta de jesus, chame como quiser.

Acordei, olhei para o teto e pensei no que faria aquele dia, como viver seu último dia de vida? Como aproveitar o último dia daquele mundo?

Claro que eu já planejei tudo, até parece que não, afinal, há 9 meses o tal meteoro foi descoberto vindo para o nosso planeta, daí veio o caos, o desespero, a falta de esperança, a negação, a tecnologia e a saída. Sim, a humanidade conseguiu formas de sobreviver em Marte, trabalhar sob pressão realmente faz efeito nos cientistas.

A população começou a ser enviada para lá há 3 meses, há 2 semanas todos foram evacuados. Menos os que preferiram ficar. Quem ficou, além de aceitar a morte certa, se afundou em burocracia, pois a eutanásia e suicídio assistido são legais em alguns países, mas parece que no caso de meteoro e fim do mundo a papelada é correspondente ao tamanho do desastre.

Como vocês perceberam, eu escolhi ficar.

A decisão foi fácil, pois eu já não estava empolgada com a ideia de viver anos antes do tal meteoro aparecer, mas não queria ser a filha que se matou. A neta que não quis mais viver. A namorada que foi fraca demais para superar seus problemas. Problemas estes que estão só na minha cabeça, pois minha vida sempre foi confortável. Casa, comida, família carinhosa, namorado, faculdade de nome, sucesso profissional, gato e cachorro. O pacote.

Mas minha cabeça precisava de mais. Não no sentido material ou físico, mas precisava de coisas que nem meu cérebro sabia o quê. Às vezes uma árvore com o sol batendo do ângulo certo fazia meu dia. Outras vezes, um olhar torto de um desconhecido desabava meu ânimo como um castelo de cartas na frente do ventilador.

Depressão e ansiedade estão comigo desde a adolescência, a terapia desde os vinte e os remédios controlados desde os vinte e quatro.

Então, quando anunciaram o meteoro, eu primeiramente achei triste quanta gente, que não quer morrer, iria morrer. Depois me preocupei com meus pais entrando em depressão junto comigo, seríamos uma família que só vê série embaixo da coberta. A princípio isso parece bom, mas se vocês conhecessem meus pais iam ver como é errado. Eles são felizes e agitados e falantes. Mas, como pessoas felizes, ele entraram no modus operandi pensamento positivo e deu certo, afinal, há 1 mês eles foram para Marte com meu irmão, minha cunhada e minhas duas avós.

O namorado? Bom, a morte iminente o iluminou e ele percebeu que não queria passar a vida comigo. Justo, afinal, eu também não queria passar a vida com ele.

O que mais doeu? Dar tchau para a avó materna e minha mãe. Elas foram as primeiras a aceitar minha decisão de ficar, mas não disfarçavam a dor nos seus rostos. Não deve ser fácil, não queria obrigá-las a viver isso, mas não seria desonesta comigo.

O lado bom é que minha gata ficou. Primeiro ela ia junto, mas na hora de ir embora ela, que sempre era obediente, fugiu da caixinha de viagem e se enfiou num canto da cama que só outro gato conseguiria alcançar e nós não tínhamos tempo de treinar um bicho para isso. Então ela está aqui comigo, na cama, me olhando enquanto eu crio coragem para levantar.

Levantei e passei o dia lendo, comendo e assistindo coisas baixadas no meu computador. Netflix, Youtube, sites para baixar filmes, a internet em si, não existiam, então eu agradeci minha mania de gostar de rever filmes e, por isso, não excluí-los após assistir uma vez.

Quando deu o horário, 15:35, peguei a gata e fui para o parque atrás de casa. Ele estava abandonado há meses, então as plantas estavam altas e quase cobrindo meu banco preferido, mas ainda conseguia sentar lá.

Sentei, olhei para o céu, ele estava vermelho. Não vermelho bonito-como-o-por-do-sol, um vermelho assustador, vivo, nunca visto e que não seria considerado natural há 9 meses. Mas eu gostei, sempre gostei de vermelho, qualquer tom. É a cor da paixão, da força, e ironicamente são sentimentos que faltavam em mim há anos.

Mais ironicamente, esse céu, que deveria me causar pânico e vontade de correr e esconder embaixo da cama até minha mãe me socorrer, me deu paz. O tipo de paz que, talvez, só quem alcançou o nirvana experimentou. A paz de quem sabe que sua dor vai acabar finalmente, a dor que foi carregada por anos, que nunca foi dividida. A dor da vida, que só acaba com um infarte fulminante, um câncer terminal, um ônibus te atropelando ou um meteoro gigantesco acabando com seu planeta.

A paz da morte.

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E morreu (eu, no caso) I

O clima é sempre muito pesado. O vento frio, que lá fora bate na nossa cara sem dó, aqui não entra. Aqui o ar é parado no tempo e, se você prestar atenção, pode ver o pó congelado no meio do ar.

No fundo, é possível ouvir um padre ou ministro ou pastor ou alguém que gosta de falar de deus. E falar alto: ASSIS SE FOI APÓS VIVER PLENAMENTE. E choro. Um choro alto, dolorido e que sai como uma torneira quebrada.

Já no primeiro plano: Sinto muito; meus pêsames; ela era uma ótima pessoa; foi tão cedo, era tão jovem; tinha a vida toda pela frente.
E o corpo. O meu corpo inerte, coberto por flores e um véu, dentro da caixa marrom, a mesma que alguns estão mais mais acostumados a ver em séries e filmes de vampiro. Outros encontram, encontraram ou encontrarão mais do que qualquer um gostaria.

Eu realmente pareço estar dormindo, totalmente alheia ao estardalhaço à minha volta. Tanto o choro próximo, quanto o em volta de Assis. Assis continua em seu caixão com o padre ou ministro ou pastor ou alguém que gosta de falar de deus, e falar alto, gritando quão plena foi sua vida.
Se o Assis foi metade do que o Cara Que Gosta de Falar de Deus Bem Alto diz que foi, queria ter sido amiga dele.
Será que fazemos amizade no além-vida?

Eu ainda não sei muito sobre esse assunto, afinal, eu acordei agora. Normalmente, pelo menos nos filmes, o espírito da pessoa aparece assim que o monitor cardíaco mostra 0 de atividades cardíacas, né? Quando aquela linha, que fica pra cima e pra baixo, fica reta. As séries médicas me ensinaram que chamam de flatline.
Bom, comigo não foi assim. Eu acordei aqui, com o pó parado no tempo, o choro, o Assis, minha família, mais choro, gritos e palavras de deus. Ou seja, eu tava perdida. Perdida tipo criança no mercado, na véspera de natal. Não é legal.

Enfim, comecei a divagar. Mas não me julguem, é o que me sobra já que não posso ir muito longe do meu corpo. Ainda não sei se isso é uma regra, e se for, descobrimos a origem dos mitos de fantasmas em cemitérios. E eu poderei conhecer o Assis, afinal, ele vai ser enterrado no mesmo cemitério que eu. Oba.

As flores, o caixão, até a roupa que eu estou usando, tudo é muito errado. Se você me conheceu bem, vai olhar e pensar que eu não aprovaria aquelas coisas. Na verdade, quando viva, eu tinha várias exigências sobre minha morte, mas como morri jovem ninguém lembrou de anotar.
Eis o ponto: eu não me importo. Essa cerimônia, esse choro, essas flores, o vestido, meu corpo exposto como um boneco de cera daquele museu inglês, essas coisas todas, não são pra mim.

O circo armado no velório municipal da cidade é para conforto de quem ficou.
Eu? Eu morri. Assumo que não acho totalmente divertido ver gente se debruçando no meu corpo e chorando (gente, sério, é um corpo. Sabe. Sei lá? Um defunto, parem de encostar, beijar, cheirar um DEFUNTO), mas o que se pode fazer? Acho que traz paz para quem faz isso e eu que não vou julgar ninguém por isso. Na verdade, eu estou julgando muito e achando bem esquisito, como achava em vida, então esqueçam essa parte onde pareci altruísta e legal. Morte dá direito de ser babaca gratuitamente?

De qualquer forma, o que eu poderia fazer? Ninguém me vê, ninguém me ouve, o que pode ser considerado bom.
Se a pessoa que está sendo velada começasse a falar, acho que metade do pessoal morreria do coração e a outra metade filmaria e tiraria selfies. Eu não quero selfies pós-vida, obrigada.

Parte II