E morreu (Eu, no caso) VII

Parte VI

Passado o susto do Jovem Cabeludo e Metido, percebi que meu pai finalmente estava falando comigo. Ele parou do lado do caixão, pegou na minha mão, e começou a falar baixinho.

É feio ouvir a conversa dos outros, mas, teoricamente, ele estava falando comigo, então acho que não é ser inconveniente, certo? Certo.

Eu e meu pai sempre tivemos uma relação boa. Boa demais. Ótima. Incrível. Ele sempre foi meu amigo, e não pai-amigo, e sim amigo mesmo. Apesar de às vezes ele ter que ser pai-amigo pra poder me dar umas broncas e usar o tom “a sociedade me deu autoridade sobre você, então se prepara”.

Muitas pessoas acham que precisam ser amigas dos pais porque, bom… são os pais. Mas eu nunca senti essa necessidade, inclusive, a relação com minha mãe sempre foi típica Mãe & Filha, porque não tínhamos a conexão que eu tinha com meu pai. Aposto que ele tentou argumentar por causa das roupas que colocaram no meu corpo, ele sabe que a última coisa que eu iria querer é ser enterrada de roupa social. Minha mãe sempre se orgulhou muito da minha vida profissional, meu curso na faculdade, mas meu pai sabia que não era bem assim.

Só que ele também entende que velórios e enterros não são para os mortos, então ele deve ter cedido ao que minha mãe queria e fim, é o jeito dele. É o que eu faria também.

Talvez vocês queiram saber o que ele disse.

Talvez vocês queiram saber o que eu respondi.

Talvez a única coisa que interesse, nesse ponto, é dizer que ele pediu desculpas por um velório tão longo, por não ter vindo falar comigo antes e por não ter conseguido mudar minha decisão.

E eu respondi que não tem problema, que entendia e que ninguém poderia ter tirado aquela tristeza de mim, o peso de viver só pode ser aliviado de uma forma e somente a dona daquela vida poderia fazer algo sobre. E foi o que eu fiz.

 

Sem título

2º texto enviado para nós pelo projeto de contribuição dos leitores!

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Sou boa em física, sempre fui, sempre gostei desse lance de estudar o porquê das coisas, de entender o universo, talvez porque eu não consigo me entender. Conheci um garoto que me fez encontrar sentido na frase “os opostos se atraem”, lei básica da física: cargas opostas se atraem, positivo e negativo tendem a ficar juntos. Eu de touro, ele de leão. Eu focada no futuro, ele nem acreditava que teria um. Eu  uma tagarela incurável, ele um ouvinte perfeito. Eu acreditando que nunca mais amaria alguém, ele nem sequer tinha amado. Pois é, tinha tudo pra dar errado, mas deu certo, por pouco tempo, mas deu. Eu amei ele, ele me amou, mas tive que deixar ele ir porque ainda não sei amar direito, tenho medo das coisas que sinto, tenho medo das coisas que não sei explicar. A fórmula pra peso é igual a massa vezes gravidade, mas nem ela seria capaz de calcular o peso que caiu sobre o meu coração de ver ele com outra, rindo pra outra, todos os risos eram meus, e agora são dela. Lamento muito tudo isso, mas só tenho a mim mesma pra culpar. Quem sabe um dia eu consiga me entender e consiga amar alguém sem ter medo do que vai acontecer, quem sabe um dia me sobre coragem pra arriscar nas coisas imprevisíveis.
-Anônimo

? – Capítulo 4 (Log #4)

Capítulo 3

50º dia – Log #4

Sabe o tédio? Sabe quando você tem várias coisas do mundo à sua disposição e mesmo assim você não quer fazer nada? Ou mesmo quando acaba a luz, a bateria do celular morre e você realmente não tem o que fazer, apesar de saber que isso é por tempo determinado?

Bom, eu estou vivendo isso. Mas o verdadeiro tédio, o tédio onde os livros que sobraram já foram lidos, não tenho gerador o suficiente para gastar com filmes e séries no computador, inclusive o banho quente também está com os dias contados.

Eu reclamava de tédio sem entender bem o que é. Na verdade, quando o mundo não tinha acabado, eu até gostava. O ócio sempre foi bem-vindo à minha vida, pois acredito que pensamos melhor quando estamos com a cabeça vazia, sem telas e sem barulhos. Eu era um grande apreciador de horas e horas sozinho, só com meu gato e uma música ou até só meu gato e nada de música. Só o teto do quarto, o mundo andando lá fora e eu ali, parado, esvaziando a cabeça. O sentimento de ser uma árvore grande e antiga, com raízes maiores que minhas olheiras atuais, no meio de uma tempestade. Tudo em volta voando, cedendo, mas a árvore lá, parada, só esperando a tempestade acabar.

Eu vivia assim, esperando a tempestade acabar. Como se a vida fosse uma peça de teatro em velocidade rápida e eu estivesse na platéia, assistindo, sozinho.

A cabeça vazia eventualmente me tornou uma pessoa vazia, eu não sentia vontade de nada, ver pessoas, sair da cama, assistir um filme novo, comer uma pizza enquanto converso com os amigos. Nada. Eu vivia no automático, como se eu fosse um robô programado para viver em sociedade, conversar, trabalhar, comer, tomar banho, assistir tv, comentar o jornal com os colegas de trabalho, dar oi para o vizinho, dirigir, ir ao mercado, fazer xixi, ir a encontros com mulheres que me consideravam atraente, dormir, viver.

Agora?

Agora eu continuo vazio, mas não estou no automático. O vácuo dentro de mim foi tomado pela realidade de que o mundo finalmente parou e eu que estou em movimento. Os papéis se inverteram, o resto do mundo assiste enquanto eu vivo.

“Você acha que ser sozinho num cenário pós-apocalíptico é viver?” às vezes eu me questiono.

Pelo menos esse cenário é o que ele é: vazio, quieto, tóxico, deserto. Não há tentativas de parecer o que não é, não há normas sociais. Só o vazio e eu. E meu vazio está mais vivo do que nunca.

E morreu (eu, no caso) VI

Parte V

Eu gosto de relembrar essas coisas. Amigos, namorado, dias legais, me faz sentir que minha vida foi bem vivida e aproveitada. É estranho uma pessoa suicida dizer isso?

De qualquer forma, agora o velório está mais quieto, minha mãe foi dormir em casa um pouco, então meu pai e irmão ficaram, mas meu irmão precisou dormir no carro para não cair dormindo na minha cara (seria uma baita cena). Então sobrou meu pai, um tio do Paraná que eu vi 1 (uma) vez na vida e eu. Talvez “eu” conte por 2, então até que era uma quantidade respeitável de seres por ali.

Eu, mesmo fantasma ou espírito ou seja lá o que eu virei, conto. Posso não ser um ser vivo, mas eu sou um ser… Sei lá do quê. Segundo o materialismo, nós existimos enquanto sentimos, física e emocionalmente, então eu… Sou. Se você discorda, que vá discutir com o Gottfried Leibniz.

Talvez eu tenha moldado um pouco a teoria a meu favor? Sim, mas como eu morri e vocês não, meu voto vale mais. Obrigada.

E enquanto eu tento relembrar mais sobre materialismo, sei que até o Marx enfiou algo sobre isso no Comunismo, PLAU surge uma pessoa de cabelo longo, calça jeans, camiseta azul clara, chinelo e expressão de quem está fazendo o que não deveria. Um cara. Um cara esquisito. Um cara esquisito que surgiu do nada e que estava olhando diretamente para mim (“mim” leia-se: quem está contando a história, não quem está deitada na caixa de madeira com algodão no nariz, na garganta e em todos os orifícios possíveis [que fase]).

– Olá – disse o jovem esquisitão.

– … Oi? Por que você tá falando comigo e não com meu corpo no caixão? Você é uma daquelas pessoas que fazem projeção astral e ainda enxergam espíritos? Ou eu estou vendo coisas? Tem como um espírito, ou o que quer que eu seja, ser esquizofrênico pós-morte? Porque em vida eu fui muita coisa, mas não fui esquizofrênica. Eu acho. E se eu fui? Será que eu imaginei tudo que aconteceu? Será que eu tô imaginando tudo isso enquanto estou internada em um hospital psiquiátrico? MEU DEUS ALGUÉM ME AJUDA EU NÃO POSSO TER FICADO MALUC – fui interrompida no meio do meu surto psicótico.

– Primeiro: eu posso te ver e falar com você porque sim. Ainda não é hora de explicar; segundo: por favor, não me ofenda dizendo que sou uma daquelas pessoas que ingerem quantidades exageradas de psicotrópicos e saem dizendo que viveram uma “projeção astral”; – sim, ele fez aspas com as mãos – e terceiro: como você consegue falar tanta asneira e tão rápido? Acredito que não seja esquizofrênica, mas talvez tenha acabado de ter um quase ataque de pânico misturado com crise psicótica. Ainda bem que não temos facas por perto – E riu da própria piada.

Ele falava sorrindo o tempo inteiro, um sorriso de canto, como se ele estivesse sendo sarcástico o tempo inteiro, e mesmo assim a sua postura e seu olhar criavam ares de alguém importante. Como se eu estivesse perante um aristocrata do mundo dos mortos.

Ao mesmo tempo que fiz minha análise do indivíduo, tentei pensar numa resposta:

– Não dá para matar quem já morreu.

– Oi?

– Você falou “ainda bem que não temos facas por perto” como se, no meu surto, eu pudesse te matar. Eu já morri, você surgiu do nada, então acredito que também já tenha morrido, ou seja, não tem como te matar novamente. – concluí com um tom de “eu posso ser trouxa, mas não sou só isso, colega”.

– Ah, isso será muito divertido. – ele respondeu com o mesmo sorrido sarcástico e PLAU sumiu como apareceu: do nada.

Definitivamente tem muitas novidades nessa pós-vida. Quando pensava na morte enquanto viva, nunca imaginei que seria tão movimentado, que existisse isso de aparecer e desaparecer e que um cara, que chama drogas de “psicotrópicos”, viria no meu velório para me chamar de maluca.

O que será que vai acontecer quando esse velório infinito acabar? Eu quero ver o cemitério, ver o Assis (espero que não tenham esquecido dele lá na Parte I) e descobrir como é um pós-vida sem gente viva chorando no meu corpo morto.

01.01.2016

Projeto de publicação de textos enviados para nós. Aqui vai o primeiro:

(Originalmente escrita em 01/01/2016)

Parecia uma peregrinação. Uma romaria. Para alguns, talvez até mesmo uma cruzada. Um sem-número dos mais variados tipos de pessoas seguia em fila, no escuro, como se tal movimentação fosse uma espécie de sina. Apesar da falta de iluminação, todos ali seguiam o mesmo trajeto que a humanidade faz desde que se estruturou: o caminho do mar. Logo chega a areia. Ainda úmida pela maré do fim da tarde, ainda quente pelo calor que a umidade retém. Apesar da escuridão, é possível distinguir pequenos grupos de pessoas. A maioria é de famílias e amigos próximos, mas há sempre o dos amigos, dos conhecidos e até os dos desconhecidos. Um pouco de tudo, em detrimento de todas as diferenças. As semelhanças, por mais triviais que sejam, são o que chamam a atenção: as garrafas de bebidas — baratas ou caras, nacionais ou importadas: a universalidade do ébrio é inquestionável -, velas acesas e orações sendo murmuradas. Um pouco de aflição mas, principalmente, sorrisos. Dos mais diferentes tipos e intensidades, mas todos carregados do mesmo sentimento. O fim do ano se aproxima. Estamos nos últimos momentos de 2015. Ao longo da praia já são visíveis explosões dos fogos de artifício. O tempo que o som leva pra chegar de lá até o presente local é curto, mas já é o suficiente para fazer com que os mais atentos comecem o estouro de suas bebidas gaseificadas e suas marchas em direção ao infinito onde o céu encontra o mar. O ponto onde os deuses se encontram. Onde há paz. Onde nada chega, mas tudo almeja. O estouro dos fogos faz-se generalizado. Já é ano novo em toda a praia, e não apenas naquele ponto longínqüo. Não era uma corrida, tampouco um só evento, mas foi dada a largada. Independentemente das querelas, angústias e sofrimentos, a costa enche-se de abraços, lágrimas de felicidade, beijos e indistintas declarações de amor. O céu, apesar de claro e aberto, está sem lua, dando à escuridão o direito de reinar. Mas nem mesmo o horizonte permaneceu incólume à contínua linha de frente composta de branco que adentra o atlântico. Uma linha que avança em cada ponto a seu próprio modo, mas continuamente, até onde a vista alcança. Todos olham fixamente para frente. Para o passado. Para o futuro. Para o mais distante do mar. Alguns pulam ondas, alguns contemplam o momento. Alguns simplesmente entram sem muita cerimônia. Mas a constante é o respeito, por mais que dissimulado. É quando colocamos de lado todas as — literalmente — histórias de pescador acerca da temerosidade que o mar nos desperta. Neste dia acolhemos apenas as que envolvem a magnanimidade e a beleza do “azul” em “planeta azul”. O mar é imponente. Ele castiga. Destrói. Mas também afaga. Naufraga embarcações mas também lava almas. Basta saber ter respeito. E, neste dia, almas foram lavadas. Dado fim às formalidades ritualísticas, resta a muda contemplação de tudo o que acontece simultaneamente. Seja a surpresa de um céu limpo, seja o imponente rugido do mar, o sentimento de paz reinante ou o show de fogos. Show de fogos, este, a única fonte de iluminação. Entre zunidos ligeiros, ribombos grosseiros e explosões amorfas, os mais diversos brilhos, cores e sentimentos iluminam por alguns segundos os rostos aliviados e tranqüilos da platéia de branco. E, na intermitência de luzes, sons e olhares, um mudo, silencioso e sincero sorriso resplandece no rosto dos dois, num inefável e imprevisível encontro dos olhos. Um igualmente mudo sentimento do amor ressoa em suas mentes enquanto as faíscas no céu brilham na profundidade de seus olhos. No obscuro de seus corações, ao menos hoje, há um brilho que ilumina todas as cavidades cardíacas, até mesmo as há tempos abandonadas.

Por: Gabriel Teixeira https://medium.com/@gabrieltxg

E morreu (eu, no caso) V

Parte IV

A noite.

3 anos antes.

– Vamos fazer um drinking game do Tinder hoje à noite? Lá em casa?

– Vamos.

Uma noite, 24 latas de cerveja, 3 pessoas, 3 celulares, o mesmo aplicativo aberto em todos eles.

– Mais uma foto de moça com golfinho!

– Mais uma foto de um cara sem camisa!

– Todos bebem!

Na verdade, esse drinking game é meio falho, afinal, nós beberemos a cerveja com ou sem jogo, mas pelo menos nós conseguimos uma desculpa para beber tudo. Só a juventude já não serve mais como justificativa. Passar dos 18 é ruim, sociedade, não acredite no que vendem nos filmes.

Antes do jogo, das cervejas e tirar sarro de fotos esquisitas, policiais posando ao lado de suas ARMAS (sério, gente? Alguém dá um coração para isso?) eu conheci um jovem. Ele é divertido, gosta de séries e filmes e piadas sem graça. E é bonito. Durante o jogo, eu converso com ele, bebo as cervejas e tiro sarro de fotos esquisitas.

Chega uma mensagem “Festa em casa, venham os 3”. Vamos.

Teoricamente era um dia normal, uma festa normal, com meus amigos normais.

Conversas normais, bebidas normais. Eventualmente, não lembro o que aconteceu e não aceito julgamentos pois todo mundo já fez isso alguma vez na vida, ok? Ok. Beber cerveja antes e depois e não comer direito dá nessas coisas. Lembrem disso.

E nesse meio tempo eu pedi cerveja 4 vezes pelo delivery, inventei um sinal com as mãos que virou piada interna no grupo de amigos e falei para o menino divertido, que gostava de séries e filmes e piadas sem graça que eu queria uma injeção na testa.

E dormi. No sofá. Com a bunda para cima e usando minha cabeça como apoio. Definitivamente não foi um dos meus melhores momentos. Obviamente tiraram fotos que foram parar em redes sociais e mensageiros instantâneos. Amizade é uma coisa maravilhosa.

Acordei. Dor. Inferno. Vontade de morrer. Por que beber tanto? Nunca mais vou beber. Minha cabeça vai explodir. A vida dói. Ok, preciso levantar.

Eu e um dos participantes do drinking game pré-festa vamos para a Av. Paulista, comer para tentar sobreviver à maior ressaca da história da minha vida (spoiler: não foi a maior).

Mesmo com a comida, a vontade de dormir até o apocalipse continou, então veio a decisão: cada um para sua respectiva casa, respectiva cama e esperar pela volta da respectiva vontade de viver.

No caminho, o Tinder apita com um “Olar ;)”. Minha reação é “meu deus por que um ;)? Pra quê? Qual a necessidade disso? Que tristeza… Mas ele é bonito… Parece gostar do que eu gosto… Ok, vamos lá, se eu dou chance de 2 episódios com séries, vou dar mais de uma palavra com emoticon pra ele” e mando “Olá. Bão?”.

E começou.

Parte VI

? – Capítulo 3 (Log #3)

Capítulo 2

Dia 42

Ansiedade. Eu sofria de ansiedade. Ela não aparecia apenas quando algo que eu julgava importante estava para acontecer, ou quando algo realmente importante, bom ou ruim, acontecia. Ela estava presente constantemente. Ir em um evento social? Lá estava ela (mesmo com pessoas já conhecidas). Deixar de ir no tal evento social? De mansinho ela aparecia. Eu perdi as contas de quantos ataques de pânico eu tive sem nenhum motivo aparente. Talvez fosse o fato de a vida ser acelerada em todas as vertentes possíveis. Tudo era para ontem. E tudo era esperado de você. Basicamente a gente era criado com base nas expectativas de nossos pais, amigos, conhecidos… da sociedade. Na verdade, pensando agora, não sei se as expectativas eram impostas pela sociedade, ou se as expectativas se impunham sobre ela. Acho que é aquele velho cliché do ovo e da galinha. Quem veio primeiro? A expectativa de que nós vivêssemos de certo modo, ou o certo modo que gerou as expectativas? Não sei. A parte engraçada disso tudo é: eu tô completamente sozinho, não tenho pressão para fazer nada. Como a hora que quero, converso com a Andressa quando quero, acordo quando quero e, mesmo assim, a ansiedade ainda me assombra. Acho que, de certa forma, fui acometido pelo mal de me sentir ansioso por não me sentir ansioso. E eu contando vantagem por ser o único a ter o presságio e ter me preparado para um momento como estes, de não ter sido escutado, por terem me achado louco quando comecei a estocar comida, me tornei um viciado em ansiedade. Eu ri quando me vi sozinho. Ri da ironia. Eles riram de mim. Eu ri deles. Mas, no final, acho que a piada era sobre mim mesmo.

Capítulo 4

Ele & Ela (,) – Capítulo V (Outdoor)

“Okay, isso foi estranho.”, ele pensou sobre o que havia acontecido enquanto continuava sua caminhada em direção ao km 0.

A moça havia sumido, assim como o elevador. O Gabriel desapareceu junto com o forte brilho que emanou da lataria contorcida do que antes fora um carro. Ninguém o respondeu – bombeiros, paramédicos- exceto a moça, e agora ela tinha partido.

Até ali ele tinha: acordado sem saber quem era, aonde estava e o que fazia perambulando no meio da estrada; encontrado um corpo (que era seu, apesar de não conseguir se lembrar); sido ignorado por um bando de pessoas que deveriam ajudá-lo; visto uma pessoa desaparecer com um forte clarão; testemunhado a única pessoa que lhe dirigira uma frase entrar num elevador que apareceu do nada e, puff, subiu em direção ao céu.

Isso era impossível.

Levando-se em conta a chance de algo assim acontecer com alguém, o fato de ele ter pensado somente “Isso foi estranho.” era ainda mais impressionante.

Estatisticamente falando a probabilidade de alguém pensar algo brando como isto em tais circunstâncias era mínima, muito próxima ao 0 em um gráfico x y. Talvez isto sirva como prova de que o comportamento humano é imprevisível. Talvez o choque dos mencionados acontecimentos afetasse a mente dele. Talvez o fato de sua cabeça ter sido atingida por um Celta verde influenciasse nas suas capacidades mentais. Talvez ele fosse apenas louco. De qualquer forma, aquilo foi o que ele pensou.

Ele continuou sua andança.

Foi quando um grande outdoor surgiu bem no canto direito da estrada a sua frente. Eis o que estava escrito nele:

“Siga em frente.”

“Okay…”, ele pensou.

1 quilômetro se passou e novamente um outdoor apareceu.

“Siga em frente.”

Ele continuou andando. 2 quilômetros e novamente o outdoor estava lá com a mesma mensagem.

Ele continuou andando.

3 quilômetros a frente, mesmo outdoor. 5 quilômetros a frente, mesmo outdoor. 8 quilômetros a frente, mesmo outdoor.

Foi quando ele decidiu que não iria mais seguir em frente. Ninguém mandava nele, muito menos uma placa de estrada.

Começou o caminho de volta. Não sabia o que iria fazer, mas as coisas já estavam ruins demais daquela forma. Não havia espaço para piora.

Andou 1 quilômetro na direção contrária e novamente o outdoor apareceu, desta vez com a seguinte mensagem:

“Volte.”

Decidiu ignorá-la e continuou sua caminhada de protesto.

2 quilômetros depois, novamente surgiu um outdoor, desta vez com a seguinte mensagem:

“Você não vai voltar?”

– Dane-se você, outdoor.

Andou por mais 3 quilômetros e eis que novamente aparece um outdoor:

“A gente precisa da sua presença na assembléia do M.E.S.T.I.C.O. Por favor, retorne”

Ele caminhou em direção ao suporte do outdoor e o chutou.

“Mestico? MESTICO??? Dane-se o MESTICO. Eu não sei nem o que tá acontecendo comigo e você vem me falar de assembléia???”

Após chutar o mastro por cerca de seis vezes ele retornou à sua peregrinação.

Mais 5 quilômetros e o maldito outdoor reapareceu:

“Volta, por favor… =(”

– Vá se foder! – disse ele em direção ao outdoor.

Dessa vez ele andou, andou, andou e nada. Nenhum sinal de outdoor. Aparentemente ele havia recuperado seu livre arbítrio. Começou a pensar sobre o que iria fazer agora. Neste momento se aproximava de onde o corpo estava e não fazia ideia de quantos quilômetros mais ele teria que percorrer para chegar em algum tipo de povoado, cidade, casa ou qualquer resquício humano. O que ele sabia era que ele não ia ser mandado por ninguém.

Passou pelo local aonde o carro tinha sofrido o acidente. Não havia mais nada lá.

Caminhou mais um bocado, sempre observando se algum carro passava em alguma direção. Nenhum. As árvores continuavam ali, a única mudança no cenário eram os raios de sol que começavam a aparecer por entre as copas da floresta.

Um coelho surgiu por entre os arbustos. Ele acompanhou o bicho com os olhos. Por sua vez o bicho o acompanhou com suas patas. O bicho começou a correr e correr no meio da estrada. Isso o fez ter vontade de correr também. Começou trotando, ganhando confiança. Foi aumentando de velocidade, paulatinamente. Decidiu dar um pique. Deu de cara com uma parede branca. Era um outdoor.

“Nós pedimos com educação. A sua presença na assembléia do M.E.S.T.I.C.O é OBRIGATÓRIA. Dirija-se ao km 0 da estrada para maiores informações”

Este era o oitavo quilometro desde a última vez que um outdoor havia aparecido.

E morreu (eu, no caso) IV

Parte III

Voltando ao atual status da minha (pós-) vida, chegou uma das piores horas.

Não sei se vocês já tiveram, ou tem, aquela sensação de só olhar para alguém e pensar “eu te amo” enquanto a pessoa está comendo macarrão e com o rosto todo sujo de molho. Eu tive.

E ele chegou. Enquanto tios, tias, avós, avôs, conhecidos, gente que eu nunca vi na vida, cercavam meu caixão marrom-cor-de-depressão, ele ficou na porta do velório. Olhando de longe, com as mãos no bolso da jaqueta (pelo jeito estava frio, todo mundo estava com mil blusas e andando igual aquele fantasma gigante de marshmallow de Caça Fantasmas) e olhando para a direção de onde eu estaria.

Mesmo depois de morrer, mesmo não sentindo coisas, meu Eu Fantasma precisou chegar até ele, ficar perto. Não tive coragem de tentar encostar, porque se eu atravessar ou sentir ou bater em uma barreira invisível, vou querer morrer de novo. E isso deve dar trabalho.

Ele estava triste, mas não chorando. Conheço ele. Chorou muito quando recebeu a notícia, se trancou no banheiro do trabalho e chorou por… Com certeza muito tempo. E em casa ele chorou mais, até dormir, e até chorou um pouco quando acordou, pensando em como seria chegar aqui. Não me levem a mal, não estou dizendo que nossa, eu era tão maravilhosa que mereço as Cataratas do Niagara em água salgada… Eu só o conheço. Ele sofre sozinho, engole tudo, e no meio de todo mundo vira uma pedra onde todos podem se apoiar. Talvez ninguém use o apoio, mas ele tem um jeito que só se olhar para ele você sabe que pode se apoiar. É como uma poltrona muito confortável na loja de móveis que você não precisa sentar, mas que talvez, quem sabe, você sentará só porque ela é confortável.e vai te deixar um pouco mais feliz.

E essa foi a primeira vez que eu meio que me arrependi.

Meus pais chorando? Não. Meu irmão deprimido, mal conseguindo falar? Pfff, por favor. Minha avó dizendo que não aguenta mais perder pessoas amadas? Passeio no parque.

Mas ele, com as mãos na jaquetas, tentando me ver de longe, porque pisar na sala do velório em si seria absurdamente dolorido e tornaria tudo 100% real, doeu.

Doeu tanto que pensei em deitar em cima do meu corpo pra ver se meu Eu Fantasma conectaria de novo com meu Eu Morto, mas eu não conseguia me mexer, não conseguia sair de perto dele, funcionava como um imã, só que para namoradas mortas.

Eu queria pedir desculpa, queria abraçá-lo, queria tirar ele daquele lugar deprimente e levá-lo para comer pizza. Mas não podia. Mal podia sair de perto da porcaria do caixão, quem dirá ir para a pizzaria mais próxima com meu namorado vivo. Fora que a situação toda seria esquisita, ele chegando na pizzaria e pedindo mesa para dois e o atendente vendo só ele e todo desconforto de parecer esquizofrênico.

O quanto você aceitaria libertar seu sofrimento em detrimento do sofrimento alheio? Sofrimento dos seus pais, irmãos, tios, avós, namorad(o/a)?

A nossa existência, normalmente, se limita a nós. Mas, ao mesmo tempo, aos outros.

Qualquer pessoa que já pensou em se matar também considerou como seria a vida após a dela terminar. Como seus pais, filhos, marido/namorado, amigos, parentes reagiriam? Como seria cada postura em frente ao seu caixão? Pois bem, sempre pensei nisso, mas, apesar de imaginar como seria a sua reação, isso não foi alívio.

Talvez tenha sido mais dolorido por saber sua reação e ainda assim seguir em frente com meus planos. Meu egoísmo se cruza com a esperança de perdão e aceitação da  tal dor. A dor de perder um amor da vida. A dor de ver uma pessoa desistir de tudo, inclusive de você. Quanto isso te dói?

Enfim, sim, eu estou meio arrependida.

Parte V

O Incrível Caso do Sr. Vieira – Parte I

A campainha tocou.

Ele a ignorou a princípio, porém quem quer que estivesse do outro lado da porta era realmente persistente.

Virou-se na cama, tirou alguns livros e pastas que estavam na escrivaninha para checar o horário no relógio despertador.

12:51.

Levantou-se tomando cuidado para não pisar nos panfletos e caixas que permeavam o chão de seu quarto. Pegou uma camiseta de uma montanha de peças de roupa amassadas em um canto e a vestiu. Não havia necessidade de calça pois ele dormira com uma.

Encaminhou-se em direção a entrada de sua residência, sempre com cautela para não pisar nos objetos que habitavam o chão de sua casa.

Respirou fundo e abriu a porta.

“O que é?”

“O senhor está sendo despejado. Sinto muito, Sr. Vieira, mas já fazem cinco meses que você não paga o seu aluguel e eu realmente preciso da renda. Não é nada pessoal.”

Paulo lhe entregou uma carta, virou-se e foi em direção a seu carro. Antes de abrir a porta virou-se e disse:

“O senhor irá encontrar todos os detalhes como prazos e trâmites explicados na carta apesar de já termos conversado sobre… Eu realmente sinto muito.”

Paulo entrou em seu carro e partiu.

Vieira já esperava por aquilo.

Ironicamente ele era corretor de imóveis e a crise tinha praticamente acabado com o mercado. Faziam dois meses que não vendia uma casa sequer. Os meses anteriores não foram muito melhores.

Ele navegou em direção a cozinha. Os amontoados de objetos realmente faziam navegar ser a palavra correta para descrever o modo como alguém deveria se locomover pelos cômodos, pois a chance de se estrambelhar em um montante de caixas, revistas e sacos de lixo eram enormes caso o contrário.

Abriu a geladeira e não fez nada além de pensar no que seria de sua vida agora. Seus três filhos já eram casados e ele não os via há mais de dois anos, muito em razão de sua condição. Não possuía uma poupança parruda como esperava ter. Deveria ter escutado sua mulher quando ela dizia “Amor, as crianças já estão crescidas, casadas. Por que não nos mudamos para um local menor e economizamos um dinheirinho?”.

Pegou uma cerveja e um pedaço de pizza amanhecido. Jogou com um movimento brusco de braço todos os objetos que estavam sobre a mesa de frente para a geladeira no chão, sentou e abriu a lata. Tomou um longo gole e então atacou a pizza. Mais um longo gole e a lata agora estava vazia. A jogou em uma montanha que se esguia quase até o teto da cozinha.

Felizmente o Sr. Vieira tinha um pouco de dinheiro no banco. Infelizmente não o bastante para se sustentar e pagar o aluguel. Teria que, enfim, fazer o que tanto sua mulher repetira, procurar um lugar menor.

Esse pensamento lhe provocou um ataque de pânico. Ele tinha tanta coisa que seria impossível levar tudo para um local com menos espaço.

Desde que sua mulher morrera prematuramente aos cinquenta e sete anos, o Sr. Vieira desenvolveu uma condição chamada “acumulação compulsiva”. Basicamente era impossível se desfazer de qualquer coisa que de alguma forma passasse por suas mãos. Delivery de pizza? Ele tinha construído sua própria Torre de Pisa com as centenas de caixas que havia acumulado nos últimos nove anos. Notas fiscais? Poucas livrarias guardavam em suas estantes mais palavras que as contidas nas notas fiscais arquivadas pelo Sr. Vieira. Garrafas PET? Se alguém com uma daquelas carroças de coleta de material reciclável recolhesse todas as que ali estavam ficaria rico.

Agora ele tinha 60 dias para encontrar um local menor e mais barato e decidir o que levaria consigo.