Carta a Quem Interessar Possa IV

Oi amigo, tudo bem? Aqui as coisas até que vão bem. Eu tô com uma tosse há semanas, talvez devesse ir ao médico.

Mas não tô escrevendo pra falar de tosse.

Queria te contar que visitei onde eu morei por 10 anos, dos 9 aos 19. É um condomínio onde eu aprendi tanta coisa… Conheci sentimentos importantes também, como amizade, amor, traição, vingança. Foram 10 anos importantes e voltar pra esse lugar, mesmo que por 40 minutos, me fez chorar muito quando eu ia embora.

Não sei porque chorei tanto, não sei de verdade. Talvez saudade de quem eu era, da vida naquela época. Talvez.

Talvez seja o sentimento de comparar minhas lembranças infantis com a nova perspectiva. Aquele condomínio parecia gigante, com infinitos lugares para se esconder, para brincar, para beijar o primeiro amor, para contar segredos sem medo de quem ouviria. Era imponente.

E agora é tudo tão pequeno, tão simples, não intimida, não dá medo, mas continua a passar segurança. Sempre será a casa de primeiras vezes, será a casa da criança assustada, com 9 anos de idade, que não sabia se faria amigos. Da adolescente de 15 que se descobria, que achava que sabia o que queria e não queria. Do meu primeiro beijo, do meu primeiro amor não correspondido, do primeiro amor correspondido, das primeiras brigas entre amigos e amores, entre vizinhos.

A expectativa e exaltação de quando novas crianças ou adolescentes apareciam, primos ou sobrinhos de moradores. Criando laços e intrigas.

A guerra não declarada com os condomínios vizinhos e com o bairro de cima. Que nunca foi real, pois no fim todos acabaram amigos.

É assustador ver como as coisas mudam e, mais assustador ainda, como eu mudei. Como eu mal lembro de quem era. Me pergunto o que a Isadora de 12 anos acharia da Isadora de 26. Ela tinha tantos planos e ideias que eu não alcancei, que não consegui atingir. É doloroso pisar onde isso fica tão evidente, onde a Isadora de 12 está me olhando e me perguntando o que aconteceu, pra onde foi tudo o que ela queria ser.

Crescer dói. A gente esquece disso, mas eu tive a sorte de ser relembrada, de ter isso esfregado na minha cara. Muita gente esquece e não tem quem ou o que lembre eles, acho que isso não é bom. Da mesma forma que ficar preso ao passado faz mal, não visitá-lo às vezes também faz.

Sempre falam de equilíbrio e balanço, né?

Bom, no momento o único balanço que eu consigo pensar é no balanço do parquinho onde eu brincava e ralava os joelhos.

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Paixão, amor e arco-íris

É esquisito se abrir pro mundo de novo depois de meses e meses se enganando, dizendo pra si mesma que você estava bem e pronto. Que você não conseguia se envolver com ninguém simplesmente porque não encontrou alguém que clicasse com você.

Mas não é bem assim. Leva tempo. E eu namorei, basicamente, por 9 anos direto com alguns meses de pausa aqui e ali, mas sempre voltando ao relacionamento sério.

Quando você vive tanto tempo envolvida seriamente com alguém (ou alguéns), voltar à vida solteira é difícil. Principalmente se você é como eu e seus namorados/namoradas eram seus melhores amigos, aquelas pessoas pra quem você conta tudo: desde a pessoa que tropeçou na escada do metrô hoje de manhã até o medo irracional que veio de lugar nenhum de que você vai ser demitida hoje.

Então, quando você perde isso, esse conforto, vem a tentativa de se abrir igualmente para os amigos. Muitos conseguem, fazem isso mesmo quando estão namorando. Eu não, eu sou mais fechada, prefiro não concentrar muita informação minha em mais de uma pessoa. Tenho pequenos satélites, pessoas com quem eu converso sobre assuntos X e Y, mas não sobre Z. E com quem eu converso sobre Z, não me aprofundo sobre X e Y etc.

Consequentemente, você se sente sozinha e, por isso, acaba com algumas paixões platônicas. É uma tentativa inútil de dizer “estou aberta sim, olha aí, eu sinto algo por essa pessoa” mas é tipo tirar a água de um barco afundando com uma colher. É só uma desculpa, um band-aid, uma pequena mentira que você diz pra si mesma para que não precise lidar com seu fechamento. É o estado de negação.

E assim vão os dias, as semanas, os meses, as pessoas. Pessoas legais entram e saem da sua vida, tentam te deixar à vontade para falar, para dividir e, por óbvio, você não consegue. E não é de propósito, não é porque você não quer, só não acontece, não sai. Você quer confiar, quer se apoiar, mas não dá.

Até que um dia a vida te dá um tapa na cabeça: tem alguém que te fez sentir algo, que te fez querer se abrir de novo, que só de estar ali já te deixa bem. E o que você faz? Surta. Surta bonito, porque foram meses longe desse sentimento, você até se convenceu de que não queria nada com ninguém, mas na verdade você só não tinha encontrado esse alguém ainda.

E não, esse não é um texto sobre amor, paixão e arco-íris.

Porque apesar de ter alguém que finalmente te tirou daquele coma emocional, não quer dizer que vocês serão um casal feliz para sempre. Na verdade, não quer dizer nem que vocês serão um casal pra começo de conversa. Só quer dizer que você finalmente tá pronta, que você não precisa mais se esconder ou fugir, quer dizer que você se deu tempo para se recuperar e voltar ao normal.

Essa pessoa, a que te ajudou a perceber isso, ela não te deve nada e você não deve nada pra ela. Caso vocês acabem sendo um casal: ótimo. Senão: ótimo também, tem várias pessoas por aí. Essa primeira só foi a o sinal verde de que internamente você se respeitou e se deu espaço para curar o que precisava ser curado, para mudar o que precisava ser mudado e criar novas ideias, novos desejos.

Esse não é um texto sobre amor, paixão e arco-íris. Esse é um texto sobre você parar de se enganar e aceitar que as coisas levam tempo, gafanhoto.

Uma história triste sobre Tristeza

Desde que me lembro nunca consegui entender porque ele é assim. Quando era criança, a minha mãe dizia que ele estava triste e por isso gritava e quebrava as coisas, televisão e som altos era culpa de uma surdez causada por ouvir walkman alto demais. Mas não era sempre que isso acontecida, nos finais de semana ele não estava triste e, por isso, não gritava e não quebrava nada, e a surdez também não dava as caras. Tudo era calmo em casa, quieto, a não ser por vezes que minha mãe chorava escondido e não falava com ninguém. Acho que ela fica triste de um jeito diferente.

A partir dos 9 anos eu comecei a ter amigos com quem brincar e tinha vergonha quando ele chegava cambelando e passava por mim e pelas outras crianças. Os mais velhos, com 12 ou 13 anos, desviavam o olhar, envergonhados por mim e por ele, os mais novos olhavam curiosos pra entender porque ele estava daquele jeito. Era uma doença? Uma brincadeira? Eu ainda achava que ele estava triste mas não absolvia o porquê da situação ser tão diferente de quando os outros estavam infelizes. Quando eu ficava triste só chorava, às vezes escondido e às vezes não, mas não precisava fazer que nem ele: cambalear, cheirar estranho e gritar comigo e com o meu irmão por coisas que eu não entendia.

Com 12 anos veio o câncer. Algo que os médicos poderiam ter descoberto antes, mas uns achavam que era um borrão no exame, outros nem enxergavam o “borrão”. Eu só fiquei triste, minha mãe estava triste e eu não conseguia ficar bem olhando ela daquele jeito. O tumor era operável e a porcentagem de tudo dar certo era alta, mas ela estava desesperada porque seu marido, seu amor, tinha um tumor. No dia da operação eu fui até o hospital com toda a família, incluindo tios e avós, ele já estava internado desde o dia anterior e eu o vi, dei um abraço e fui embora. Chorava muito, não queria dormir fora da minha casa, longe da minha cama e do meu irmão, que iria para a casa da Tia Lene e eu para a casa da Vó Ivone. Foram horas chorando sem parar e até hoje eu acho que não foi por ele, acho que foi pelo sofrimento da minha mãe e do meu irmão que eu observei tão de perto.

Três anos depois eu já era uma adolescente rebelde, com amigos virtuais e um ex namorado. Ele era um sobrevivente do câncer, que estava bebendo e fumando de novo. A nossa relação já não podia ser chamada assim, de “relação”, era uma convivência amigável nas noites e fins de semana sóbrios, nas noites em que ele chegava em casa, dava um beijo na testa de todo mundo e ficava sozinho no quarto, assistindo filmes antigos ou trabalhando. Noites felizes, ao contrário da maioria em que ele chegava e ainda gritava e quebrava coisas. Mas agora eu entendia o que ele falava, entendia os palavrões, os insultos e as revoltas. Revoltado com pessoas da empresa, do bar ou da televisão, mas ele descontava em mim, a filha mais velha que ficava tempo demais no computador, que nunca falava com ele e nunca respondia nada quando ele perguntava qualquer coisa de porre. A raiva que sentia por ele aumentava e comecei a sentir a mesma coisa pela minha mãe e irmão. Ela observa o sofrimento dos filhos e ainda está casada com ele, enquanto meu irmão sofria mas conseguia perdoar tudo rapidamente, como se o que a gente ouvisse fosse algo bobo, de uma criança. Acho que a raiva vinha da inveja de não ter essa capacidade de perdoar e esquecer.

22 anos, eu trabalho, estudo e não fico em casa direito. Saio as 11 e volto meia noite, quem aguenta tudo é a minha mãe. Com ele a relação continua tão monossilábica quanto antes, há mágoa demais e perdão de menos pelas duas partes. Ele não se perdoa e eu também não o perdoo, ele tem mágoa por isso e eu tenho mágoa por tudo.

35 anos, casada, dois filhos e um emprego que eu amo. Minha família é o contrário do que foi aquela onde eu cresci. Ninguém berra, xinga ou deixa a mágoa impregnar no corpo, o diálogo existe e somos quase uma porcaria de clichê de filme americano. Recebo o telefonema do meu irmão. Ele morreu. Teve um enfarte fulminante em casa, sóbrio, mas nem chegou ao hospital e minha mãe precisa de ajuda. Ela não está em choque, chorando sem parar ou algo assim, na verdade ela não chorou e não consegue parar quieta. É assim que ela fez em 2010 com o meu avô, alguns anos depois com a minha avó e agora com ele. Há meses eu não o via, muito menos meus filhos que sempre perguntam do vô e da vó, mas eu ainda não conseguia lidar com as pessoas que me ajudaram a ser tão amarga.
Agora ele se foi, nunca mais terei a oportunidade de tentar e ter um pai de verdade, que eu ligo quando preciso de conselhos e que joga bola com meus filhos nos feriados.
A verdade é que eu estou brava, não pelos mesmos motivos de antes, mas por ele ter ido sem eu conseguir conversar, sem ter dito “tudo bem, pai, já passou e ficar guardando essas coisas não adianta, não fica assim”, ou “pai, eu já te desculpei e agora vamos mudar de assunto porque o Palmeiras vai jogar”, ou só “claro que eu te desculpo”.

Vivendo com Ansiedade I

É tudo sobre as pequenas coisas.

Meia hora de distração significa meia hora sem lembrar da pedra que carrego no fundo do estômago e que me deixa nervosa o tempo todo, como se a vida estivesse passando numa tela bem na minha frente em slow motion e eu só estivesse assistindo enquanto vivo a 200km/h.
Um episódio de uma série que eu gosto, alguns capítulos de um livro bom, conversa com alguém que faça o relógio andar numa velocidade normal: pequenas coisas que fazem a existência um pouco menos dolorida.

Eu conto o dia de meia em meia hora. “Daqui a meia hora posso me trocar”, “daqui a meia hora posso sair”, “em meia hora posso começar a limpar o quarto, então termino quando tiver faltando 1 hora para almoçar, então posso ver 2 episódios de meia hora de uma série”.

E não pode ser qualquer série, quem dera fosse. Séries trazem sensações e algumas dessas sensações não distraem da pedra no estômago, na verdade só me fazem lembrar dela mais ainda.

Não estar trabalhando também não ajuda, não tenho com o que me distrair o dia todo, não fico cansada como normalmente ficaria. Fico mentalmente cansada, mas meu corpo continua bem e desperto porque eu não fiz nada com ele.
Exercícios físicos são uma resposta óbvia para esse problema, mas eles me deixam ansiosa também. 15 minutos correndo e eu me pergunto “por que ainda não me distrai? Por que ainda tenho a pedra aqui comigo? Qual o meu problema?” e desisto. O ponto deve ser “não desistir” nesse caso, mas entro em pânico percebendo que ainda estou ansiosa mesmo correndo e isso acaba me deixando pior.

Talvez o problema não seja esquecer a pedra ou sumir com ela, mas só aprender a conviver em harmonia. Provavelmente ela não vai embora e eu não posso só me deixar afundar como ela afundou na minha barriga.

Só que eu não sei se estou no caminho certo. Tenho remédios, tenho terapia, tenho amigos, tenho tudo. Mas ainda sinto como se estivesse vivendo na 5ª marcha enquanto o resto do mundo está na 2ª.

Ele & Ela (,) – Capítulo V (Outdoor)

“Okay, isso foi estranho.”, ele pensou sobre o que havia acontecido enquanto continuava sua caminhada em direção ao km 0.

A moça havia sumido, assim como o elevador. O Gabriel desapareceu junto com o forte brilho que emanou da lataria contorcida do que antes fora um carro. Ninguém o respondeu – bombeiros, paramédicos- exceto a moça, e agora ela tinha partido.

Até ali ele tinha: acordado sem saber quem era, aonde estava e o que fazia perambulando no meio da estrada; encontrado um corpo (que era seu, apesar de não conseguir se lembrar); sido ignorado por um bando de pessoas que deveriam ajudá-lo; visto uma pessoa desaparecer com um forte clarão; testemunhado a única pessoa que lhe dirigira uma frase entrar num elevador que apareceu do nada e, puff, subiu em direção ao céu.

Isso era impossível.

Levando-se em conta a chance de algo assim acontecer com alguém, o fato de ele ter pensado somente “Isso foi estranho.” era ainda mais impressionante.

Estatisticamente falando a probabilidade de alguém pensar algo brando como isto em tais circunstâncias era mínima, muito próxima ao 0 em um gráfico x y. Talvez isto sirva como prova de que o comportamento humano é imprevisível. Talvez o choque dos mencionados acontecimentos afetasse a mente dele. Talvez o fato de sua cabeça ter sido atingida por um Celta verde influenciasse nas suas capacidades mentais. Talvez ele fosse apenas louco. De qualquer forma, aquilo foi o que ele pensou.

Ele continuou sua andança.

Foi quando um grande outdoor surgiu bem no canto direito da estrada a sua frente. Eis o que estava escrito nele:

“Siga em frente.”

“Okay…”, ele pensou.

1 quilômetro se passou e novamente um outdoor apareceu.

“Siga em frente.”

Ele continuou andando. 2 quilômetros e novamente o outdoor estava lá com a mesma mensagem.

Ele continuou andando.

3 quilômetros a frente, mesmo outdoor. 5 quilômetros a frente, mesmo outdoor. 8 quilômetros a frente, mesmo outdoor.

Foi quando ele decidiu que não iria mais seguir em frente. Ninguém mandava nele, muito menos uma placa de estrada.

Começou o caminho de volta. Não sabia o que iria fazer, mas as coisas já estavam ruins demais daquela forma. Não havia espaço para piora.

Andou 1 quilômetro na direção contrária e novamente o outdoor apareceu, desta vez com a seguinte mensagem:

“Volte.”

Decidiu ignorá-la e continuou sua caminhada de protesto.

2 quilômetros depois, novamente surgiu um outdoor, desta vez com a seguinte mensagem:

“Você não vai voltar?”

– Dane-se você, outdoor.

Andou por mais 3 quilômetros e eis que novamente aparece um outdoor:

“A gente precisa da sua presença na assembléia do M.E.S.T.I.C.O. Por favor, retorne”

Ele caminhou em direção ao suporte do outdoor e o chutou.

“Mestico? MESTICO??? Dane-se o MESTICO. Eu não sei nem o que tá acontecendo comigo e você vem me falar de assembléia???”

Após chutar o mastro por cerca de seis vezes ele retornou à sua peregrinação.

Mais 5 quilômetros e o maldito outdoor reapareceu:

“Volta, por favor… =(”

– Vá se foder! – disse ele em direção ao outdoor.

Dessa vez ele andou, andou, andou e nada. Nenhum sinal de outdoor. Aparentemente ele havia recuperado seu livre arbítrio. Começou a pensar sobre o que iria fazer agora. Neste momento se aproximava de onde o corpo estava e não fazia ideia de quantos quilômetros mais ele teria que percorrer para chegar em algum tipo de povoado, cidade, casa ou qualquer resquício humano. O que ele sabia era que ele não ia ser mandado por ninguém.

Passou pelo local aonde o carro tinha sofrido o acidente. Não havia mais nada lá.

Caminhou mais um bocado, sempre observando se algum carro passava em alguma direção. Nenhum. As árvores continuavam ali, a única mudança no cenário eram os raios de sol que começavam a aparecer por entre as copas da floresta.

Um coelho surgiu por entre os arbustos. Ele acompanhou o bicho com os olhos. Por sua vez o bicho o acompanhou com suas patas. O bicho começou a correr e correr no meio da estrada. Isso o fez ter vontade de correr também. Começou trotando, ganhando confiança. Foi aumentando de velocidade, paulatinamente. Decidiu dar um pique. Deu de cara com uma parede branca. Era um outdoor.

“Nós pedimos com educação. A sua presença na assembléia do M.E.S.T.I.C.O é OBRIGATÓRIA. Dirija-se ao km 0 da estrada para maiores informações”

Este era o oitavo quilometro desde a última vez que um outdoor havia aparecido.

E morreu (Eu, no caso) XI

Parte X

2 meses antes.

Qual é o meu problema? Por que não consigo ser feliz? Por que tanta ansiedade e desconforto na minha própria vida? Eu não assinei nada disso no contrato.

Ir dormir virou mais uma parte deprimente do meu dia, pois eu sei que não vou conseguir ter um sono decente e ainda vou acordar super cedo e ter um dia longo. Longo porque eu não tenho nada pra fazer o dia todo, longo porque passo o dia ansiosa e desesperada por algo que não sei o que é.

Meus pulsos já não aguentam mais tantas cicatrizes. E eu já não aguento mais tantos olhares sobre eles quando estou no ônibus ou no trem.

Meu limite parece me esperar a cada esquina, a cada 5 minutos que levam 20 pra passar. Quando que eu deixei de ser a pessoa feliz e com vontade de viver para ser esse fantasma que mal reflete o que um dia já fui?

Não sei se os remédios ajudam ou atrapalham, não sei o que fazer ou o que pensar pois não sei se sou eu, a depressão ou os remédios pensando. Quem toma as decisões? Quem está no comando?

Eu não sei.

Sinto que não sou eu, eu não sou assim, eu não vivo assim. Mas se eu não faço nada, se eu só me deixo afundar, a culpa é tão minha quanto da doença e dos comprimidos.

Sinto saudade de sentir prazer. De sentir alegria. De esperar por algo, qualquer coisa.

Na verdade nem tudo está perdido, tem alguém que me faz pensar no “e se”, que me faz esperar pelo fim de semana, que é quando poderemos nos ver. Tem. Mas eu sou muita coisa pra ele lidar, muita coisa pra qualquer um lidar.

Eu mesma não sei lidar.

Ele & Ela – Capítulo IV (Perguntas)

Ela voltou correndo em direção ao seu quarto. 

Entrou. Sua mãe continuava chorando, sentada na cadeira quase que de frente para a cama observando a mesma.

Notou algo estranho. Havia um corpo deitado ali.

Aproximou-se. Reconheceu um rosto familiar. Era sua própria face. Respirou por um, dois, três… cinco segundos. E gritou o mais alto que pode, todo o ar saindo de seu pulmão de uma só vez. 

Desmaiou.

Passado um tempo acordou. Estava estirada de bruços no chão. Levantou-se com dificuldade. Olhou mais uma vez para si mesma, ali deitada, com um grande tubo de ventilação em sua boca, soro acoplado a seu braço e uma máquina que fazia um “bip” a cada batimento cardíaco seu. Porém, pensou, não poderia ser seu pois estava ali de pé e não na cama. De acordo com a leis da física vigente era impossível estar em mais de um local em um determinado momento.

Começou a se lembrar do que havia acontecido antes.

A história era basicamente a seguinte:

Ela morava com sua mãe e seu padrasto em uma casa de tijolos em um bairro de classe média. Tinha um cachorro e um gato. Era filha única. Estudava direito em uma renomada faculdade católica de sua cidade. Tinha grandes amigos lá. Ela era uma pessoa considerada “inteligente” (apesar que, para ela, este conceito era completamente equivocado – ser inteligente não era tirar boas notas, ou ser boa em contas, ler, ou saber de fatos; para ela cada pessoa tinha sua própria forma de inteligência: haviam pessoas com habilidade social que ela não possuía; outras com habilidades lógicas que ela mal conseguia entender; outras eram boas em esportes, o que ela nunca foi). Não estudava e ia bem. Tinha tudo em casa. Tinha um carro próprio. Tinha namorado. Ela só não tinha uma coisa: vontade de viver. Eis que um dia ela decidiu resolver este problema, sair dessa e ir para uma melhor. Tomou um bocado de Difenidrin.

Primeiro experimentou uma forte excitação. Depois vieram as alucinações: vira um coelho gigante que lhe perguntava o porquê de ela estar fazendo aquilo. Então começou a chorar. Deitou-se. Foi ficando cansada. Apagou.

Agora estava ali. Era duas. Uma deitada e outra de pé. Aquilo não fazia sentido algum. Nada fazia sentido algum. Como alguém pode ter tudo e sentir não ter nada? Como pode uma pessoa estar deitada e estar de pé? 

Essas eram perguntas as quais ela não tinha resposta.

Solteirice

Acordo e tem algumas notificações no celular: whatsapp, facebook, twiter… Tinder.

Novas mensagens, novas combinações. Ser mulher no Tinder parece fácil, mas é quase como navegar no meio de uma tempestade dentro de um carrinho de supermercado.

Você conhece um cara, ele é super sério, quase esnobe, fala sobre qualquer assunto e no fim é um semi-traficante (acho que o termo seria aviãozinho, é o cara que pega a sua maconha com o traficante, sabe?).

Aí você conhece uma moça que é super maravilhosa, engraçada, foda, a conversa flui, mas sua cabeça tá toda errada e você sabe que não é justo arrastar alguém pra esse buraco negro.

Tem o cara de esquerda que grita “bicha” no tiro de meta no estádio, tem a menina de 19 anos que tá experimentando e você sabe que não tem mais saco pra isso. Tem o cara dos áudios, que te adiciona no whatsapp e te manda 20 áudios de 6 segundos cada e é super animado pra falar sobre qualquer coisa que não te interessa. Tem aquela moça que te conhece há 2 dias e já quer saber quais serão os nomes dos 4 gatos que vocês vão adotar.

Tem seu ex.

Tem seu outro ex.

Tem aquela menina que você ficou uma vez.

Tem aquele outro cara que era seu amigo até vocês ficarem, depois a amizade morreu ali.

Tem uns golfinhos, tem policiais, tem muitos abdomens desnudos.

Tem amigos que namoram e tem uma vida de casal feliz tentando te arranjar com qualquer tranqueira que eles conhecem, porque parece que você tá naquele estágio da solteirice que dói de olhar.

E as conversas?

“Oi, tudo bem?”
“Tudo e com você?”
“Tudo também. O que faz da vida?”
“Ah eu sou monitor de touro mecânico em Barretos aos fins de semana, e você?”
“… professora”

E quando você tenta conversar com algum amigo sobre tudo isso e a resposta automática é “você é maravilhosa sozinha, não precisa de ninguém”
“Não, eu sei, mas é que às vezes eu me sinto sozi-”
“VOCÊ É COMPLETA E MARAVILHOSA SOZINHA”
“Verdade” *eu só queria reclamar um pouco da vida meu deus do céu*

Tem um filme chamado O Lagosta que fala sobre um mundo (não tão) distópico onde ser solteiro é contra a lei. E, caso você atinja certa idade sem ter um parceiro, você é transformado em um animal da sua escolha. Pelo menos a gente pode escolher o bicho, né?

E o filme mostra como a gente faz coisas imbecis para tentar agradar a outra pessoa, pra fazer com quem ela se identifique com a gente, tipo fingir que é um psicopata ou que tem sangramento crônico das vias nasais. Ou, no ápice do medo de não ser aceito por quem você ama, talvez perder a visão para os dois ficarem iguais.

Às vezes eu me pergunto quão ruim seria ter meus pais falando TOMA, SE CASA COM ESSA PESSOA AQUI PORQUE A GENTE TÁ MANDANDO porque pelo menos eu não precisaria escolher e nem lidar com um bando de policial militar no Tinder. A não ser que a pessoa escolhida fosse um PM, daí a vida clandestina seria minha companheira.

 

Carta a quem interessar possa III

Olá, amigo. Tudo bem?

Sei que não estou escrevendo muito, não ando bem. Sabe como é, todos aqueles problemas que eu já te contei… Eles são como pessoas gritando no meu ouvido, não consigo me concentrar e colocar pra fora o que eu preciso. Então eventualmente eu explodo, como aconteceu hoje.

Eu tomei algumas decisões. Sou uma pessoa com 26 anos de idade que vai voltar para a faculdade e fazer o que eu gosto de fazer: escrever e ler. Isso se eu entrar no curso, né, mas essa é outra linha de pensamento e não estou interessada nela agora.

Um amigo, de 19 anos, que está pensando em entrar na faculdade ano que vem, disse que se sente bem de me ver voltando, aos 26, porque faz com que ele se sinta menos atrasado.

Atrasado com o quê? Por que nós precisamos seguir a fórmula que enfiam na nossa cabeça e ainda nos sentir mal se não der certo?

Choose looking up old flames, wishing you’d done it all differently
And choose watching history repeat itself
Choose your future”

Escolhi meu futuro quando tinha 18 anos e não sabia nada da vida. Ainda não sei, mas sei 4% a mais do que naquela época. Por que eu não posso tentar? Por que me sentir um fracasso? Porque é o que todo mundo carrega no olhar quando me vê.

Ainda não aprendi a conseguir ignorar tudo o que pensam de mim, apesar de estar cada vez melhor nisso.

Caso eu descubra como viver 100% impermeável, te conto o segredo. Mas, por enquanto, preciso de você pra me ouvir e me dizer que não, não errei em tentar de novo. Errado é viver infeliz por comodidade e senso comum. Errado é não tentar.

Certo?

O Incrível Caso do Sr. Vieira – Parte I

A campainha tocou.

Ele a ignorou a princípio, porém quem quer que estivesse do outro lado da porta era realmente persistente.

Virou-se na cama, tirou alguns livros e pastas que estavam na escrivaninha para checar o horário no relógio despertador.

12:51.

Levantou-se tomando cuidado para não pisar nos panfletos e caixas que permeavam o chão de seu quarto. Pegou uma camiseta de uma montanha de peças de roupa amassadas em um canto e a vestiu. Não havia necessidade de calça pois ele dormira com uma.

Encaminhou-se em direção a entrada de sua residência, sempre com cautela para não pisar nos objetos que habitavam o chão de sua casa.

Respirou fundo e abriu a porta.

“O que é?”

“O senhor está sendo despejado. Sinto muito, Sr. Vieira, mas já fazem cinco meses que você não paga o seu aluguel e eu realmente preciso da renda. Não é nada pessoal.”

Paulo lhe entregou uma carta, virou-se e foi em direção a seu carro. Antes de abrir a porta virou-se e disse:

“O senhor irá encontrar todos os detalhes como prazos e trâmites explicados na carta apesar de já termos conversado sobre… Eu realmente sinto muito.”

Paulo entrou em seu carro e partiu.

Vieira já esperava por aquilo.

Ironicamente ele era corretor de imóveis e a crise tinha praticamente acabado com o mercado. Faziam dois meses que não vendia uma casa sequer. Os meses anteriores não foram muito melhores.

Ele navegou em direção a cozinha. Os amontoados de objetos realmente faziam navegar ser a palavra correta para descrever o modo como alguém deveria se locomover pelos cômodos, pois a chance de se estrambelhar em um montante de caixas, revistas e sacos de lixo eram enormes caso o contrário.

Abriu a geladeira e não fez nada além de pensar no que seria de sua vida agora. Seus três filhos já eram casados e ele não os via há mais de dois anos, muito em razão de sua condição. Não possuía uma poupança parruda como esperava ter. Deveria ter escutado sua mulher quando ela dizia “Amor, as crianças já estão crescidas, casadas. Por que não nos mudamos para um local menor e economizamos um dinheirinho?”.

Pegou uma cerveja e um pedaço de pizza amanhecido. Jogou com um movimento brusco de braço todos os objetos que estavam sobre a mesa de frente para a geladeira no chão, sentou e abriu a lata. Tomou um longo gole e então atacou a pizza. Mais um longo gole e a lata agora estava vazia. A jogou em uma montanha que se esguia quase até o teto da cozinha.

Felizmente o Sr. Vieira tinha um pouco de dinheiro no banco. Infelizmente não o bastante para se sustentar e pagar o aluguel. Teria que, enfim, fazer o que tanto sua mulher repetira, procurar um lugar menor.

Esse pensamento lhe provocou um ataque de pânico. Ele tinha tanta coisa que seria impossível levar tudo para um local com menos espaço.

Desde que sua mulher morrera prematuramente aos cinquenta e sete anos, o Sr. Vieira desenvolveu uma condição chamada “acumulação compulsiva”. Basicamente era impossível se desfazer de qualquer coisa que de alguma forma passasse por suas mãos. Delivery de pizza? Ele tinha construído sua própria Torre de Pisa com as centenas de caixas que havia acumulado nos últimos nove anos. Notas fiscais? Poucas livrarias guardavam em suas estantes mais palavras que as contidas nas notas fiscais arquivadas pelo Sr. Vieira. Garrafas PET? Se alguém com uma daquelas carroças de coleta de material reciclável recolhesse todas as que ali estavam ficaria rico.

Agora ele tinha 60 dias para encontrar um local menor e mais barato e decidir o que levaria consigo.