Básico

15 minutos olhando para a tela, esperando as palavras chegarem facilmente como acontece quando não estou feliz.

Escrever triste ou com raiva é fácil, escrever quando você está em paz ou alegre é um pouco mais complicado.

Eu digo isso para ele, que preciso de prática. Ele concorda, mas diz que eu consigo. É a sua frase, dizer isso é automático quando alguém tem dificuldade com qualquer coisa: “você consegue”. É engraçado porque, ao mesmo tempo que soa quase irônico, é sincero também. Ele é assim, dificilmente vai ser direto, a piada é seu jeito de esconder como se importa.

Eu sou uma pessoa mais feliz por tê-lo na minha vida, ele é um grande alívio, um porto seguro, um pouco de sanidade no meio de tanta loucura, apesar do jeito caótico e zombeteiro. Em pouco tempo eu já o amo e sinto falta quando não conversamos.

Ele não se abre, não sei se é porque não se acha importante ou interessante o suficiente para falar de si mesmo. Ou porque ele também prefere ouvir em vez de falar. Engraçado, ele é muito melhor que eu nisso, geralmente sou a ouvinte das pessoas, desde amigos próximos ou não tão próximos até gente aleatória que nunca conversou comigo. Mas com ele o assunto sou eu ou coisas da vida. Nunca ele. O único dia que foi sobre ele eu me senti assistindo um cometa que só passa a cada 70 anos, aproveitei cada palavra dita, cada opinião, cada história. O jeito como ele se expressa, como ele se diverte em me enrolar para falar, pois sabe que eu sou curiosa e estou sedenta por mais. Sou um norte americano e ele é um presidente decente. E ele sabe disso.

Lembro da primeira vez que conversamos de verdade, horas depois de eu ter puxado assunto enquanto bêbada, peço desculpas por isso e falamos sobre aleatoriedades como filmes e quadrinhos. A conversa acaba porque ele precisa estudar e eu o chamo de inteligente, ele não gosta, diz que sou condescendente. Nós não nos conhecemos ainda, então obviamente eu não sabia que ele odeia qualquer tipo de rótulo porque isso cria expectativas. E ele não sabia que eu não faço elogios ao vento.

Dias e dias passam e, quando algo ruim acontece comigo e eu preciso ficar longe das pessoas, ele pergunta o que há e se eu estou bem. Bem ali, pouco menos de um mês atrás, começa.

Não parece que o conheço há poucos meses, não parece que viramos amigos há 3 semanas. A falta que sinto quando não estamos falando (normalmente porque um dos dois está dormindo, afinal, diferentes fuso horários) não é de quem se conhece há 3 meses.

E esse título não faz sentido algum, porque de “básico” ele não tem nada, mas a palavra lembra o nome dele, então vou deixar assim.

A volta dos que não foram

Ela nunca parou de se questionar.

O porquê de ela ser assim. Mas a resposta era óbvia, criação em casa somando sociedade igual ao que ela virou.

O porquê da família ser assim. Essa resposta não era óbvia, exigia gráficos, infográficos, folhetos e umas 8 palestras.

O porquê de a vida não ser linear e sair de acordo com os planos. Outra resposta fácil, como diz um pôster do Johan Cruyff, o acaso é óbvio.

O porquê de algumas pessoas fazerem exatamente as coisas que não gostavam que fizessem para elas. Bom, humanos.

O porquê dos comentaristas de portais de notícias. Bom, humanos.

O porquê de ser tão difícil lidar com as perdas que não eram para a morte e sim para o tempo. Error 404 not found.

O porquê de algo que nunca viveu mais do que duas semanas, que viveu puramente de textos e algumas palavras faladas aleatoriamente, doer tanto quando morreu.

O porquê dele não falar.

O porquê da intensidade.

O porquê da dor.

Ela nunca parou de se questionar.

E morreu (Eu, no caso) XI

Parte X

Eu estava contemplando a vida (morte?) e ele entrou.

Ele, sempre com aquele jeito perdido e meio torto, de quem não está 100% confortável na própria pele. Sempre, desde que nos conhecemos, ele tem esse jeito. Como se aguardasse que algo o assustasse do nada, apesar de tentar fingir confiança. Era engraçado.

Nós ficamos juntos por 3 anos. 3 anos marcados por idas e vindas, e mais idas e vindas. Nossas personalidades são explosivas demais, mas não queríamos aceitar a distância, então sempre voltávamos. Até o último dia.

No último dia, nós havíamos terminado há alguns meses, talvez 4? E eu acabei o encontrando em um dos milhões de jogos que nós dois sempre íamos. Como o término não foi brigado, acabamos assistindo o jogo juntos, pois foram 3 anos desse jeito e sentíamos saudade.

Sim, assistimos o jogo. Conversamos um pouco sobre a vida no intervalo, mas nada demais, pois o contato via facebook e telegram ainda existia. Então, não era um encontro tão pesado.

Resolvemos comer umas esfihas depois do jogo, e então a conversa realmente pesou. Falamos sobre os meses separados. Eu, apaixonada por aquele que já contei sobre. Ele, vivendo uma vida sem qualquer tipo de ligação afetiva, era tudo físico. Eu não ligava de ouvir sobre, mas ele nunca se sentiu confortável em falar sobre seus “casos” comigo, afinal, ele foi meu namorado. Ele foi o namorado que eu sempre pensei “finalmente, é ele”, mas não foi. Não era. Nunca foi, na verdade.

Sempre mais melhores amigos do que namorados.

O dia do jogo foi uma sexta-feira, fiquei com ele até domingo à noite.

Domingo, enquanto decidíamos o que assistir antes de dormir, eu estava com sono demais para assistir qualquer coisa. Só queria deitar em silêncio com ele. Ele queria um filme, uma série, um desenho, qualquer coisa, e eu poderia deitar no colo dele. Eu ainda não namorava, mas a culpa pesou durante os 3 dias.

Eventualmente acabamos abraçados no sofá, como dois namorados, como fazíamos antes, e eu percebi que aquela seria a última vez que ele me seguraria daquele jeito. Que ele estaria tão perto. Não, não era questão de estar apaixonada por ele, porque eu não estava, era sobre o fim de um ciclo que foi maravilhoso (apesar de muita dor e mágoa). O fim do ciclo onde eu namorei, mais uma vez, meu meu melhor amigo. As lágrimas vieram e eu só conseguia o abraçar como se o que estivesse embaixo fosse um penhasco com estacas e fogo e vários Michel Temer embaixo. Ele percebeu as lágrimas e as beijou. Beijou minhas bochechas, meus olhos, minha testa, meu pescoço, meus lábios. E o abraço apertado virou um beijo apertado. O beijo aperto virou a fusão de duas mentes e dois corpos que sabiam que nunca mais se encontrariam daquela forma. A dor tão presente quanto o amor. A esperança dele e a minha culpa também, ambas olhando de lado.

Do sofá acabamos na cama. O dia estava quente e com o passar do tempo, o suor mais parecia nossa pele derretida, se fundindo, nos conectando, estávamos derretendo um no outro.

No fim, declarações de ex-namorados, abraços, respirações descompassadas e pesadas. Era o fim de tudo, apesar de eu só ir embora no outro dia de manhã. Sabíamos que tinha acabado e que não se repetiria. E, assim, ficamos lado a lado, com calor demais para nos abraçar, mas com as mãos entrelaçadas, suor escorrendo pelo corpo como se tivéssemos acabado de tomar banho, a dor e o amor entrelaçados entre nossas mãos. A esperança dele e a minha culpa ainda olhando de lado, aguardando.

Engraçado, tem uma música chamada 23, da banda Americana Jimmy Eat World. Eu sempre a relacionei com meu outro ex-namorado, pois JEW era “nossa banda”, mas essa música… Ela não é de um namoro, ela é sobre mim enquanto em um relacionamento.

No one else will know these lonely dreams
No one else will know that part of me

(…)

It was my turn to decide
I knew this was our time
No one else will have me like you do
No one else will have me, only you

A carta endereçada a quem interessar possa

Querido amigo, como vai?

Estou escrevendo porque sei que não mantemos contato há algum tempo e isso me incomoda, então vou aproveitar esse simbólico início de um novo ciclo. Sei que eu poderia enviar uma mensagem no Whatsapp ou Telegram, ou até no Facebook, talvez um e-mail? Mas prefiro escrever aqui, é mais pessoal.

Imagino que sua primeira pergunta seja “como vai a vida?” e eu só posso responder com: na mesma velocidade de sempre, com destaque para as novas exceções – muitos relacionamentos a menos, outros relacionamentos a mais. Sabe aquela amizade que você jura de pé junto que nunca vai acabar? Ah, vai. E vai ser do jeito mais idiota possível, pois assim é a vida e os relacionamentos, idiotas. Todos nós. A diferença é, com o tempo, às vezes nós nos enchemos da idiotice alheia e por isso a amizade/namoro/casamento/parceria comercial acaba.

Além, aprendi a valorizar mais minha saúde mental ao dinheiro. Gostaria de destacar que esse tipo de escolha vem acompanhada de um caminhão de privilégios e, também, de consequências que não são tão fáceis de lidar. Mas é isso ou desistir, e eu já tentei desistir algumas vezes, as cicatrizes coçam (literalmente), me lembram como eu tô sempre a um passo do precipício, mas que também tô a um outro passo de me distanciar mais dele. Ou seja, perspectiva?

Não, não virei uma otimista. Deus me livre desse tipo de maldição. Mas gosto de fingir que ganhei mais conhecimento sobre um aspecto que seja da vida. Se não for pra aprender, tomar na cabeça vira mais uma coisa que fazemos mecanicamente sem nos perguntamos que porra tá acontecendo. E de trejeitos, manias e rotinas mecânicas já nos basta o trabalho e 98,8% das relações com as pessoas em volta.

Também tem aquela coisa das pessoas ficando mais malucas. Sabia que, após morrer esfaqueado, o morto foi chamado de culpado por ter provocado quem o matou. Sim, a provocação realmente fez jus à morte, afinal, quem aquele moleque pensava que é para se assumir gay para a família? O pai teve direito de fazer o que fez. O moleque também tinha direito de se assumir gay, mas aí ele deu espaço pro pai também exercer o direito dele de matar, né? Mundo maluco.

Amigo, eu sinto sua falta, você some desse jeito, pois você também pode enviar uma mensagem pra mim, sabe? Mas você não o faz. E enquanto escrevo essa carta penso se não estou sendo deselegante ou chata, afinal, por que as relações se resumem à mão única? Sempre ouço pessoas reclamando que o outro não foi atrás, não falou nada, então eu pergunto “mas o que você falou?” e a resposta normalmente é “nada! Mas não sou eu que preciso falar primeiro”. A vida anda tão maluca que existe uma Guerra Fria para início de conversas. Vai entender.

Mas se você não me responder, eu também não tento mais. Afinal, isso é um passo, certo? Isso é um sinal, é uma abertura. Eu tô aqui, tirando um tempo das minhas 24hrs para escrever para você. Agora é sua vez, afinal, existe uma Guerra Fria nas conversas.

E morreu X (eu, no caso)

Parte IX

Três anos antes

Viajar e encontrar as duas pessoas que eu talvez ame do jeito mais romântico possível, pois o contato é limitado e a comunicação completamente escassa, então fica tudo na minha cabeça. Mas são meus padrinhos, são meus pais-caso-eu-fique-sem-pais, são as pessoas para quem meus pais biológicos cederam meus cuidados e vida em caso de necessidade.

Se você parar para pensar, é algo grande. Escolher alguém para ser você quando você não estiver aqui.

O normal é ser um parente de sangue, acho, pelo menos a maioria dos meus amigos tem tios e tias como padrinhos e madrinhas.

Mas eu não. Meu padrinho e madrinha são dois amigos da família, duas pessoas que meus pais pensaram “ok, eles podem fazer nosso trabalho bem feito caso TUDO DÊ ERRADO”.

E olha… Eles poderiam mesmo.

Chegar naquela cidade e encontrar aquele que eu sinto falta quase todos os dias, pois com ele sim há diálogo, há proximidade, há um laço criado além do laço imposto socialmente. Ele é conforto, é segurança, é conversa, abraço, risada. Ele não precisa de nada além de uma frase para me fazer falar como não falo nem com amigos. Ele é um dos principais personagens da minha vida tão curta.

Ela? Ela é tudo que eu queria ser. Ela chuta bundas, sabe que carrega um poder tão grande que poderia dominar o mundo, pois é daquelas que sempre sabe o que dizer, como dizer e para quem dizer.

Os dois tem o melhor abraço do mundo.

Moram em uma cidade linda, calma, onde não tenho ansiedade ou depressão, só tenho vento e mar e areia. A cidade é deles, pois eles são a cidade.

Estando ali, apesar de meu consciente não pensar no que está por vir, o inconsciente deixa claro que está tudo bem.

“Sofi, como anda a vida?” é a pergunta quando estamos só eu e ele.

A resposta vem vomitada, como se eu fosse uma criança que acabou de brincar de pega-pega e precisa de água. Ele é o copo de água e eu sou a criança. Ele é o alívio. Ele ouve, balança a cabeça, não julga, não faz cara feia. Pergunta se eu estou bem, se tudo o que tenho decidido está me fazendo bem. Ele não quer controle, ele quer informações e participar mesmo que seja só ouvindo.

O que mais eu poderia querer?

Nesses momentos, nunca pensava que acabaria onde acabei.

Um dia bom

Eu cresci em uma família disfuncional.

Essa frase talvez seja um pleonasmo, afinal, qual família é inteiramente funcional? Uma família funcional, por isso mesmo, já pode ser considerada disfuncional.

A minha sempre foi, ainda o é e continuará sendo. Já aceitei meu destino.

Meu pai, alcoólatra, com mais traumas do que eu pensei ser humanamente possível carregar, era meu herói. Quando criança o amor era incondicional. E exatamente por isso os “dias ruins”, quando ele estava “triste” eram tão assustadores. Quem fez aquilo com meu pai?

Mas nem todos eram dias ruins. E mesmo os dias ruins podiam ser bons. Como no dia da pizza esquecida no teto do carro.

Mas com a idade, fui percebendo como a nossa relação ficava mais e mais complicada. Até chegar ao ponto onde nos tratávamos como vizinhos no elevador. Ele nunca deixou de ser meu pai, e eu nunca deixei de ser sua filha, mas ninguém sabia como se relacionar.

Hoje, li a seguinte frase em um texto “Maurício, meu amigo, quando o Palmeiras ganha, o melhor que eu consigo sentir é alívio”.

Quando eu era jovem, ficava feliz em dia de jogo, pulava, comemorava, contava vantagem. Dia de Palmeiras era dia de alegria e emoção. Dias ruins eram respondidos com “no próximo vai ficar tudo bem”.

Mas, assim como toda paixão por um time, a relação é disfuncional. Outro pleonasmo.

Depois de alguns anos e decepções, algumas desclassificações, gols que não deveriam ter sido tomados, caminhadas embaixo de chuva após derrotas amargas, a relação ficou difícil. Até o ponto onde a gente se ama, mas não sabe mais lidar um com o outro.

Ontem, 30 mil pessoas gritavam “DA-LE,  DA-LE DA-LE PORCO,  SEREMOS CAMPEÕES,  MAIS UMA VEZ” e eu não estava feliz ou extasiada. Eu tinha 7 anos e via meu pai chegar em casa num “dia bom”. Eu só senti alívio.

E morreu IX (eu, no caso)

Parte VIII

18 nesse antes

Essa viagem vai ser boa demais. Meu deus, eu mal posso esperar pra sair de São Paulo. Amo essa cidade, mas, ao mesmo tempo, todos precisam de férias daqui eventualmente.

Chapada dos Veadeiros. Nunca fui. Estou ansiosa enquanto espero o avião.

Gosto da natureza, apesar de ter muito medo de alguns indivíduos componentes dessa sociedade natual. Vamos aproveitar tudo, vamos sentir o vento no rosto, ouvir como ele bate nas folhas e na grama. Essa grama que se mexe ao menor toque do mesmo vento. Sim, eu estou ansiosa.

Cheguei no aeroporto, todos da firma juntos e ansiosos, ninguém veio para cá antes.

Transporte. Hotel. Meu quarto dividido com a moça da recepção, eu gosto dela, ela é calma, mas, ao mesmo tempo, tem uma animação que não me irrita. Sabe? Ela não é AI MEU DEUS VAMOS TODOS PULAR E SE AMAR E SER FELIZES JUNTOS OBAAAA, ela é alguém que não ativa minha ansiedade. Nada contra quem ativa, mas prefiro ficar longe.

De qualquer forma, no primeiro dia só chegamos ao hotel, jantamos e ficamos pelo hotel, não tinha o que fazer.

Algumas pessoas deram um perdido nos monitores e foram para outros quartos. Um moço do 4o ano de Ciências Contábeis veio pro meu quarto no lugar da moça da recepção. Nem tive tempo de aprender o nome dela. Acho que é assim que se faz.

Enfim, dormi. Ah, foi bom, foi calmo e acordei com a mesma moça me balançando, como se ela tivesse do meu lado quando dormi. Ahhhhh a juventude.

Café da manhã com muita comida, doces, opções. Nossa, comi demais, quero dormir de novo.

Não, vamos para um dos passeios.

Tênis, calça leggin, camiseta e óculos escuros. Pronta. Vamos.

Mais vento, mais grama agradecendo ao carinho daquele vento, como se esperasse por uma massagem há dias e ela não decepcionasse.

– Vamos na beira da pedra? – diz minha colega de quarto que não dormiu comigo.

– Vamos! A vista deve ser maravilhosa – é minha resposta automática.

Chegamos na beira de um pico. O instrutor nos explicou qual pico, o porquê daquele nome, sua idade e quanto tempo de existência.

Ignorei tudo.

Ignorei o que o pico foi ou seria

O que ele poderia passar aos outros.

Naquela hora, decidi ser somente eu e o pico. O pico e eu. Mas ele insistia em envolver o vento: “ouça o que ele te diz” e eu decidi que deveria ouvir o que o pico me aconselhava.

“Sabe a liberdade que você espera? Você terá, não tenha dúvida. A liberdade dada por esse tipo de pico é absoluta. Mas os sussuros que você ouvirá depois? Ah, eles também serão absolutos, então decida bem”.

Na beira do precipício, eu só poderia ouvir vento uivando livremente e como um animal finalmente solto de um zoológico. Mas… Estaria eu preparada para isso?

O vento bate mais forte e eu vacilo. Escorrego. Caio. Uma mão segurando no precipício. Qual será a decisão? Quero tentar? Quero batalhar? Ou quero largar tudo e viver como sempre imaginei?

Uma mão me puxa antes que a decisão seja tomada. Essa mão está pálida, assim como o rosto do meu padrinho. “Eu viveria aqui com você se pudesse”, “eu sei”.

Ah, que belo jeito de se despedir para sempre de quem seria seu maior porto seguro e nunca mais veria. Talvez, ele soubesse do meu destino, talvez ele só estivesse “acostumado”.

– Sofia? Vamos voltar?

A colega de quarto que não dormiu no quarto me chamou.

Alguns segundos de vento, de escolha, de pílula azul ou vermelha, se passaram. Escolhi a azul.

– Sim, vamos voltar.

E morreu (eu, no caso) VIII

Parte VII

– Isso foi muito bonitinho, pena que ele não ouviu nada, né?

Aquele pequeno indivíduo chato, de cabelos longos, tinha voltado. Sério, ele não ficou nem 1 (uma) hora longe. Espero sinceramente que ele não seja o Assis.

Não respondi, afinal, ele foi muito intrometido de ouvir o que eu respondi ao meu pai, não sou obrigada.

– Vai me dar o tratamento de silêncio? – Perguntou me olhando como eu olhava para o professor que usava o cabelo penteado pro lado para cobrir a careca, com vontade de rir.

– Não, ué, só não tinha o que comentar sobre a sua observação tão perspicaz. – Eu realmente não estava muito bem humorada, mexeu com meu pai, mexeu comigo. E eu posso ser mortalmente sarcástica, literalmente.

– Perdão por ter ouvido. Não era da minha conta. Mas eu preciso ficar de olho em você, então aconteceu de eu ouvir. Também não deveria ter falado daquele jeito, não foi nada polido. – Eu que precisei segurar a risada agora, que tipo de jovem fala “polido”?

– Olha, colega, eu realmente não tô nem aí se você se arrepende ou não, ninguém mandou ser curios-Espera um pouco, como assim “preciso ficar de olho em você”? Você tá me vigiando? Quem te mandou me vigiar? E o que eu fiz? EXISTE ABUSO POLICIAL TAMBÉM NA MORTE? Você é o Assis? Espero que não, tavam falando muito bem dele agora pouco, e você é meio chato. E pomposo. E metido. E com o cabelo longo. – Sim, eu falei tudo isso. Não, eu não tenho Tourette.

– Eu não sou seu colega – Ele pronunciou a palavra como se fosse uma barata morta em cima do vinho francês que ele toma antes do jantar, trazido pelo seu mordomo Bóris – e não lhe devo explicações, apesar de poder afirmar categoricamente que não sou o Assis. Para ser mais sincero ainda, não faço ideia de quem essa pessoa seja. – Pela primeira vez ele não soou irritante. Gostei disso. Gosto de saber algo que gente sabe-tudo não sabe. É deveras proveitoso, como o cabeludo diria.

– COMO ASSIM, tinha um padre ou um pastor, alguém que se diz mensageiro de deus, gritando no velório da frente sobre o Assis. Dizendo como ele foi uma grande pessoa, bondoso, querido blablabla. E junto tinha alguém chorando muito alto, então eu fiquei curiosa pra conhecer o Assis. Aí você me aparece do nada, com esse ar de quem sabe tudo, e nem sabe quem é o Assis. Que vergonha.

– Eu não perco meu tempo ouvindo aos vivos, eles falam demais e escutam de menos. Falam alto, como se precisassem que tudo e todos em volta lhes dessem atenção. Não, obrigado, eu me tornei incrivelmente bom em ignorar vivos. – E o tom pomposo, como se ele tivesse sido engolido por um poodle de concurso de cachorros, voltou.

– Tá bom, tanto faz, Sr. Bom Demais Para Quem Ainda Não Morreu, seu argumento tem um ponto, mas ainda não explica o porquê de você não saber quem é o Assis. Ele não deveria estar vagando por aqui? Pelo menos, acho, perto do corpo dele? Eu não posso sair de perto do meu, então estou imaginando que ele também não.

– Fui orientado a vir até você, então aqui estou. Não visitei outras salas ou procurei por outros Emperrados, gosto de cumprir minhas tarefas sem procrastinar.

– Emperrados? Tá me chamando de emperrada? Olha aqui…

– Emperrado é quem está aqui, entre os vivos, apesar de estar morto. Emperrados são os que não voltaram ou não subiram.

– Tô entendendo tudo isso igual entendia minhas aulas de Física na escola.

Novamente o olhar de “sou muito superior, tinha esquecido, vamos iluminar a cabeça desse ser tão desprovido de esperteza”

– Emperrados são os espíritos que não voltaram para a reencarnação, ou seja, os Retornados, e não subiram para a vida eterna, os Altos. Concluindo, você. Emperrada.

– Então existe reencarnação E paraíso? E inferno não? Nossa, ainda bem que eu não sou religiosa, talvez estivesse entrando em crise depois de ouvir isso.

– O que os vivos chamam de inferno, para nós é isso aqui. Continuar na Terra. Preso no que sua vida foi. Os Altos vivem no que os gregos chamavam de Elísios, você vai para lá quando viveu uma vida que você considere como plena e certa. Por isso, nem os gregos acertaram, afinal, nem todos percebem quão egoístas, mesquinhos ou maus foram, e mesmo assim se tornam Altos. Entre eles temos de tudo: santos, agiotas, jogadores de futebol, professores, advogados, pescadores, engenheiros, garis, aposentados. Os Retornados são viciados em viver, gostam de voltar para a vida apesar de não saberem como, quando, onde, irão parar; ou estão arrependidos de algo em vida e precisam voltar para compensar. São espíritos deveras esquisitos e chatos, na minha opinião. Já os Emperrados, você, consistem no maior grupo. O grupo imparcial, não se veem como grandes heróis (Altos), mas também não possuem grandes arrependimentos ou vontade de viver (Retornados), vocês só estão aqui. Na minha concepção, formam o grupo mais interessante, afinal, somente vocês tem como mudarem de status, podem virar Retornados ou Altos. Ou continuar como Emperrados. É muito interessante.

E morreu (Eu, no caso) VII

Parte VI

Passado o susto do Jovem Cabeludo e Metido, percebi que meu pai finalmente estava falando comigo. Ele parou do lado do caixão, pegou na minha mão, e começou a falar baixinho.

É feio ouvir a conversa dos outros, mas, teoricamente, ele estava falando comigo, então acho que não é ser inconveniente, certo? Certo.

Eu e meu pai sempre tivemos uma relação boa. Boa demais. Ótima. Incrível. Ele sempre foi meu amigo, e não pai-amigo, e sim amigo mesmo. Apesar de às vezes ele ter que ser pai-amigo pra poder me dar umas broncas e usar o tom “a sociedade me deu autoridade sobre você, então se prepara”.

Muitas pessoas acham que precisam ser amigas dos pais porque, bom… são os pais. Mas eu nunca senti essa necessidade, inclusive, a relação com minha mãe sempre foi típica Mãe & Filha, porque não tínhamos a conexão que eu tinha com meu pai. Aposto que ele tentou argumentar por causa das roupas que colocaram no meu corpo, ele sabe que a última coisa que eu iria querer é ser enterrada de roupa social. Minha mãe sempre se orgulhou muito da minha vida profissional, meu curso na faculdade, mas meu pai sabia que não era bem assim.

Só que ele também entende que velórios e enterros não são para os mortos, então ele deve ter cedido ao que minha mãe queria e fim, é o jeito dele. É o que eu faria também.

Talvez vocês queiram saber o que ele disse.

Talvez vocês queiram saber o que eu respondi.

Talvez a única coisa que interesse, nesse ponto, é dizer que ele pediu desculpas por um velório tão longo, por não ter vindo falar comigo antes e por não ter conseguido mudar minha decisão.

E eu respondi que não tem problema, que entendia e que ninguém poderia ter tirado aquela tristeza de mim, o peso de viver só pode ser aliviado de uma forma e somente a dona daquela vida poderia fazer algo sobre. E foi o que eu fiz.

 

Sem título

2º texto enviado para nós pelo projeto de contribuição dos leitores!

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Sou boa em física, sempre fui, sempre gostei desse lance de estudar o porquê das coisas, de entender o universo, talvez porque eu não consigo me entender. Conheci um garoto que me fez encontrar sentido na frase “os opostos se atraem”, lei básica da física: cargas opostas se atraem, positivo e negativo tendem a ficar juntos. Eu de touro, ele de leão. Eu focada no futuro, ele nem acreditava que teria um. Eu  uma tagarela incurável, ele um ouvinte perfeito. Eu acreditando que nunca mais amaria alguém, ele nem sequer tinha amado. Pois é, tinha tudo pra dar errado, mas deu certo, por pouco tempo, mas deu. Eu amei ele, ele me amou, mas tive que deixar ele ir porque ainda não sei amar direito, tenho medo das coisas que sinto, tenho medo das coisas que não sei explicar. A fórmula pra peso é igual a massa vezes gravidade, mas nem ela seria capaz de calcular o peso que caiu sobre o meu coração de ver ele com outra, rindo pra outra, todos os risos eram meus, e agora são dela. Lamento muito tudo isso, mas só tenho a mim mesma pra culpar. Quem sabe um dia eu consiga me entender e consiga amar alguém sem ter medo do que vai acontecer, quem sabe um dia me sobre coragem pra arriscar nas coisas imprevisíveis.
-Anônimo