Ele & Ela – Capítulo IV (Perguntas)

Ela voltou correndo em direção ao seu quarto. 

Entrou. Sua mãe continuava chorando, sentada na cadeira quase que de frente para a cama observando a mesma.

Notou algo estranho. Havia um corpo deitado ali.

Aproximou-se. Reconheceu um rosto familiar. Era sua própria face. Respirou por um, dois, três… cinco segundos. E gritou o mais alto que pode, todo o ar saindo de seu pulmão de uma só vez. 

Desmaiou.

Passado um tempo acordou. Estava estirada de bruços no chão. Levantou-se com dificuldade. Olhou mais uma vez para si mesma, ali deitada, com um grande tubo de ventilação em sua boca, soro acoplado a seu braço e uma máquina que fazia um “bip” a cada batimento cardíaco seu. Porém, pensou, não poderia ser seu pois estava ali de pé e não na cama. De acordo com a leis da física vigente era impossível estar em mais de um local em um determinado momento.

Começou a se lembrar do que havia acontecido antes.

A história era basicamente a seguinte:

Ela morava com sua mãe e seu padrasto em uma casa de tijolos em um bairro de classe média. Tinha um cachorro e um gato. Era filha única. Estudava direito em uma renomada faculdade católica de sua cidade. Tinha grandes amigos lá. Ela era uma pessoa considerada “inteligente” (apesar que, para ela, este conceito era completamente equivocado – ser inteligente não era tirar boas notas, ou ser boa em contas, ler, ou saber de fatos; para ela cada pessoa tinha sua própria forma de inteligência: haviam pessoas com habilidade social que ela não possuía; outras com habilidades lógicas que ela mal conseguia entender; outras eram boas em esportes, o que ela nunca foi). Não estudava e ia bem. Tinha tudo em casa. Tinha um carro próprio. Tinha namorado. Ela só não tinha uma coisa: vontade de viver. Eis que um dia ela decidiu resolver este problema, sair dessa e ir para uma melhor. Tomou um bocado de Difenidrin.

Primeiro experimentou uma forte excitação. Depois vieram as alucinações: vira um coelho gigante que lhe perguntava o porquê de ela estar fazendo aquilo. Então começou a chorar. Deitou-se. Foi ficando cansada. Apagou.

Agora estava ali. Era duas. Uma deitada e outra de pé. Aquilo não fazia sentido algum. Nada fazia sentido algum. Como alguém pode ter tudo e sentir não ter nada? Como pode uma pessoa estar deitada e estar de pé? 

Essas eram perguntas as quais ela não tinha resposta.

Solteirice

Acordo e tem algumas notificações no celular: whatsapp, facebook, twiter… Tinder.

Novas mensagens, novas combinações. Ser mulher no Tinder parece fácil, mas é quase como navegar no meio de uma tempestade dentro de um carrinho de supermercado.

Você conhece um cara, ele é super sério, quase esnobe, fala sobre qualquer assunto e no fim é um semi-traficante (acho que o termo seria aviãozinho, é o cara que pega a sua maconha com o traficante, sabe?).

Aí você conhece uma moça que é super maravilhosa, engraçada, foda, a conversa flui, mas sua cabeça tá toda errada e você sabe que não é justo arrastar alguém pra esse buraco negro.

Tem o cara de esquerda que grita “bicha” no tiro de meta no estádio, tem a menina de 19 anos que tá experimentando e você sabe que não tem mais saco pra isso. Tem o cara dos áudios, que te adiciona no whatsapp e te manda 20 áudios de 6 segundos cada e é super animado pra falar sobre qualquer coisa que não te interessa. Tem aquela moça que te conhece há 2 dias e já quer saber quais serão os nomes dos 4 gatos que vocês vão adotar.

Tem seu ex.

Tem seu outro ex.

Tem aquela menina que você ficou uma vez.

Tem aquele outro cara que era seu amigo até vocês ficarem, depois a amizade morreu ali.

Tem uns golfinhos, tem policiais, tem muitos abdomens desnudos.

Tem amigos que namoram e tem uma vida de casal feliz tentando te arranjar com qualquer tranqueira que eles conhecem, porque parece que você tá naquele estágio da solteirice que dói de olhar.

E as conversas?

“Oi, tudo bem?”
“Tudo e com você?”
“Tudo também. O que faz da vida?”
“Ah eu sou monitor de touro mecânico em Barretos aos fins de semana, e você?”
“… professora”

E quando você tenta conversar com algum amigo sobre tudo isso e a resposta automática é “você é maravilhosa sozinha, não precisa de ninguém”
“Não, eu sei, mas é que às vezes eu me sinto sozi-”
“VOCÊ É COMPLETA E MARAVILHOSA SOZINHA”
“Verdade” *eu só queria reclamar um pouco da vida meu deus do céu*

Tem um filme chamado O Lagosta que fala sobre um mundo (não tão) distópico onde ser solteiro é contra a lei. E, caso você atinja certa idade sem ter um parceiro, você é transformado em um animal da sua escolha. Pelo menos a gente pode escolher o bicho, né?

E o filme mostra como a gente faz coisas imbecis para tentar agradar a outra pessoa, pra fazer com quem ela se identifique com a gente, tipo fingir que é um psicopata ou que tem sangramento crônico das vias nasais. Ou, no ápice do medo de não ser aceito por quem você ama, talvez perder a visão para os dois ficarem iguais.

Às vezes eu me pergunto quão ruim seria ter meus pais falando TOMA, SE CASA COM ESSA PESSOA AQUI PORQUE A GENTE TÁ MANDANDO porque pelo menos eu não precisaria escolher e nem lidar com um bando de policial militar no Tinder. A não ser que a pessoa escolhida fosse um PM, daí a vida clandestina seria minha companheira.

 

Carta a quem interessar possa III

Olá, amigo. Tudo bem?

Sei que não estou escrevendo muito, não ando bem. Sabe como é, todos aqueles problemas que eu já te contei… Eles são como pessoas gritando no meu ouvido, não consigo me concentrar e colocar pra fora o que eu preciso. Então eventualmente eu explodo, como aconteceu hoje.

Eu tomei algumas decisões. Sou uma pessoa com 26 anos de idade que vai voltar para a faculdade e fazer o que eu gosto de fazer: escrever e ler. Isso se eu entrar no curso, né, mas essa é outra linha de pensamento e não estou interessada nela agora.

Um amigo, de 19 anos, que está pensando em entrar na faculdade ano que vem, disse que se sente bem de me ver voltando, aos 26, porque faz com que ele se sinta menos atrasado.

Atrasado com o quê? Por que nós precisamos seguir a fórmula que enfiam na nossa cabeça e ainda nos sentir mal se não der certo?

Choose looking up old flames, wishing you’d done it all differently
And choose watching history repeat itself
Choose your future”

Escolhi meu futuro quando tinha 18 anos e não sabia nada da vida. Ainda não sei, mas sei 4% a mais do que naquela época. Por que eu não posso tentar? Por que me sentir um fracasso? Porque é o que todo mundo carrega no olhar quando me vê.

Ainda não aprendi a conseguir ignorar tudo o que pensam de mim, apesar de estar cada vez melhor nisso.

Caso eu descubra como viver 100% impermeável, te conto o segredo. Mas, por enquanto, preciso de você pra me ouvir e me dizer que não, não errei em tentar de novo. Errado é viver infeliz por comodidade e senso comum. Errado é não tentar.

Certo?

O Incrível Caso do Sr. Vieira – Parte I

A campainha tocou.

Ele a ignorou a princípio, porém quem quer que estivesse do outro lado da porta era realmente persistente.

Virou-se na cama, tirou alguns livros e pastas que estavam na escrivaninha para checar o horário no relógio despertador.

12:51.

Levantou-se tomando cuidado para não pisar nos panfletos e caixas que permeavam o chão de seu quarto. Pegou uma camiseta de uma montanha de peças de roupa amassadas em um canto e a vestiu. Não havia necessidade de calça pois ele dormira com uma.

Encaminhou-se em direção a entrada de sua residência, sempre com cautela para não pisar nos objetos que habitavam o chão de sua casa.

Respirou fundo e abriu a porta.

“O que é?”

“O senhor está sendo despejado. Sinto muito, Sr. Vieira, mas já fazem cinco meses que você não paga o seu aluguel e eu realmente preciso da renda. Não é nada pessoal.”

Paulo lhe entregou uma carta, virou-se e foi em direção a seu carro. Antes de abrir a porta virou-se e disse:

“O senhor irá encontrar todos os detalhes como prazos e trâmites explicados na carta apesar de já termos conversado sobre… Eu realmente sinto muito.”

Paulo entrou em seu carro e partiu.

Vieira já esperava por aquilo.

Ironicamente ele era corretor de imóveis e a crise tinha praticamente acabado com o mercado. Faziam dois meses que não vendia uma casa sequer. Os meses anteriores não foram muito melhores.

Ele navegou em direção a cozinha. Os amontoados de objetos realmente faziam navegar ser a palavra correta para descrever o modo como alguém deveria se locomover pelos cômodos, pois a chance de se estrambelhar em um montante de caixas, revistas e sacos de lixo eram enormes caso o contrário.

Abriu a geladeira e não fez nada além de pensar no que seria de sua vida agora. Seus três filhos já eram casados e ele não os via há mais de dois anos, muito em razão de sua condição. Não possuía uma poupança parruda como esperava ter. Deveria ter escutado sua mulher quando ela dizia “Amor, as crianças já estão crescidas, casadas. Por que não nos mudamos para um local menor e economizamos um dinheirinho?”.

Pegou uma cerveja e um pedaço de pizza amanhecido. Jogou com um movimento brusco de braço todos os objetos que estavam sobre a mesa de frente para a geladeira no chão, sentou e abriu a lata. Tomou um longo gole e então atacou a pizza. Mais um longo gole e a lata agora estava vazia. A jogou em uma montanha que se esguia quase até o teto da cozinha.

Felizmente o Sr. Vieira tinha um pouco de dinheiro no banco. Infelizmente não o bastante para se sustentar e pagar o aluguel. Teria que, enfim, fazer o que tanto sua mulher repetira, procurar um lugar menor.

Esse pensamento lhe provocou um ataque de pânico. Ele tinha tanta coisa que seria impossível levar tudo para um local com menos espaço.

Desde que sua mulher morrera prematuramente aos cinquenta e sete anos, o Sr. Vieira desenvolveu uma condição chamada “acumulação compulsiva”. Basicamente era impossível se desfazer de qualquer coisa que de alguma forma passasse por suas mãos. Delivery de pizza? Ele tinha construído sua própria Torre de Pisa com as centenas de caixas que havia acumulado nos últimos nove anos. Notas fiscais? Poucas livrarias guardavam em suas estantes mais palavras que as contidas nas notas fiscais arquivadas pelo Sr. Vieira. Garrafas PET? Se alguém com uma daquelas carroças de coleta de material reciclável recolhesse todas as que ali estavam ficaria rico.

Agora ele tinha 60 dias para encontrar um local menor e mais barato e decidir o que levaria consigo.

Ele & Ela (,) – Capítulo III (A Estrada)

Ele aproximou-se do corpo. Era um jovem em seus 20 e poucos anos. Estava estirado no meio da estrada, a parte superior numa faixa, a parte inferior na outra.

Nitidamente, o que é que houvesse acontecido com aquele rapaz resultou em um grande ferimento em sua cabeça.

Estranhou o fato do corpo estar trajado com uma jaqueta completamente igual a sua. Estranhou também o fato de suas jeans serem completamente idênticas.

(Se não fosse sua perda de memória perceberia que ali jazia o seu próprio corpo. Infelizmente sua falta de recordações lhe privava de lembranças, tais como a vez em que havia ganhado uma bicicleta em um sorteio aos cinco anos, do fato de já ter bebido tequila com larva em um de seus aniversários e o que ele fazia perambulando por ali. Mas, mais importante naquele momento era a sua completa ignorância a respeito de como era sua própria face)

Ele pensou em ligar para o serviço de emergência, porém só lhe restavam 3 tampinhas de longnecks, uma bala mentol, alguns trocados e o papel que havia passado por pelo menos duas vezes na máquina de lavar. Não havia nada a ser feito.

Decidiu seguir a estrada. Ele poderia encontrar algum telefone de emergência a beira da rodovia ou então acenar para algum carro que estivesse passando.

Olhou para os dois lados do caminho. Idênticos. Resolveu seguir um deles.

Caminhou cerca de 800 metros e deparou-se com uma placa.

“41 Km”

Prosseguiu por mais um tanto e encontrou outra sinalização.

“42 Km”

Resolveu voltar. Independente de onde vinha e para onde ia aquela via, suas maiores chances de achar um centro urbano era se dirigir em direção ao kilometro 0.

Passou pelo corpo. Sentiu calafrios ao olhá-lo novamente.

Decidiu ignorá-lo e focar em seu objetivo.

Prosseguiu em sua caminhada. Era difícil se concentrar com sua forte dor de cabeça, que agora estava em um nível nove.

40. 39. 38. 37. 36… Pouco mudava ao seu redor. As árvores continuavam permeando ambas as encostas do caminho. Nenhum carro passou, em nenhuma das direções. A única distração, se é que podemos classificar isto como distração, eram as curvas acentuadas que desenhavam aquela via. Para ele já era difícil caminhar de forma digna em linha reta. As curvas tornavam a tarefa ainda mais difícil.

Decidiu encará-las como um jogo. 20 pontos por curva feita de forma correta. -10 a cada vez que caísse em uma das valas. Após 5 kilometros sua pontuação era de -60.

Caminhou por mais 3 kilometros até que avistou luzes piscando por entre a neblina na distância. Apertou o passo. As cores foram ficando mais nítidas: um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul. Um pisque vermelho, dois pisques brancos, um pisque azul.

Chegou perto o bastante para identificar uma ambulância e um carro de bombeiros estacionados no acostamento. Mais a frente havia um carro capotado, parado bem ao pé de uma árvore no lado direito.

Aproximou-se. Os bombeiros tentavam, ao que parecia, socorrer alguém de dentro do veículo acidentado. Os paramédicos carregavam um corpo já ensacado para dentro da ambulância.

Encostado no caminhão de bombeiros estava um rapaz fazendo rápidas anotações em uma prancheta.

“Ei!”, ele disse.

Nenhuma resposta.

“EI!”

Nenhuma resposta.

O rapaz agora entrava no veículo para guardar a prancheta no guarda luvas.

“Ela morreu instantaneamente na batida”, ouviu um dos paramédicos falar.

Tentou contato com o mesmo.

“Ei!”

Nenhuma resposta.

“EI!!!”

Nenhuma resposta.

“Puta que pariu, será que alguém pode me ajudar???”, ele gritou.

Nenhuma resposta. Nem mesmo olhar para ele eles olharam.

Viu mais a frente uma moça chorando no meio da estrada. Ela observava a cena.

“Ei, moça!”

“Gabriel!!! Por favor, Gabriel!!!”, ela gritou desesperadamente em direção aos entulhos.

“Moça, vai ficar tudo bem!”

“Gabriel, não desiste! Não desiste! Você ainda tem chance, Gabriel!”

“Moça, os bombeiros vão retirá-lo, fica calma.”

Neste momento um forte clarão apareceu por entre os destroços do carro e, assim como veio, se foi.

Ela olhou para ele.

“Não vai ficar tudo bem.”

Um elevador surgiu aonde antes não havia nada. Ela apertou o botão para cima e entrou.

O elevador subiu rapidamente em direção ao céu.

Como acontece II

Parte I

Uma briga sobre um detalhe idiota, o amigo dele faz um comentário que ela não gostou e a discussão, mais uma vez vira algo gigante, os faz terminar.

São meses de vazio, desesperança e desilusão. Onde encontrarei isso de novo? Não existe.

Pessoas vem e vão, semi-relacionamentos ou até relacionamentos sérios, mas nada dura. Nada. Pois sabem que um pertence ao outro e vice versa. No entanto as tentativas são  válidas,  pois acham que juntos nunca darão certo. Não interessa quanto amor sintam, só amor não é o suficiente.

Depois de meses tentando uma amizade falida, o amor fala mais alto e eles decidem estar juntos de novo. Magoam quem estava no meio, quem não deveria ser machucado por algo assim, pois desde o começo a ideia não era essa, não era volta, não era tentar de novo. Ambos se sentem mal, não gostam de machucar pessoas boas por quem eles tem tanto carinho. Isso machuca também.

Só que a vida pode ser óbvia às vezes. Ela pode esfregar na sua cara que, sim, você pode viver e ficar bem sem a outra pessoa. Você pode ser completo sozinho ou com outro que não te complete do mesmo jeito. Só que não é igual, não é o mesmo preenchimento. Sempre falta um pedaço. É como tentar montar um quebra-cabeças e duas peças quase se encaixam completamente, mas falta 0.01% e isso incomoda. Esse 0.01% sempre estará ali e sempre será um grande e se?

Mas a vida também os ensinou que não adianta insistir no mesmo erro.

Que todos temos limites e precisamos ser egoístas algumas vezes, pensar em nós mesmos e nos contentar com o que nos deixa bem. Pode não ser maravilhoso como antes, mas é bom, é calmo, é fácil e confortável. Por que não aceitar? Por que trocar isso pela turbulência e incerteza?

Não, eles não farão isso. Eles não precisam. Eles não querem.

Como acontece I

Primeiro, não conseguem se cansar do outro. Horas e horas conversando, todos os dias, sobre tudo. É como heroína para um viciado, nunca é o bastante e a sensação deve ser o que dizem ser de um cérebro completamente feliz.

Veem coisas na rua e lembram um do outro, fazem mini surpresas com presentinhos – para mostrar como se importam, como lembram, como amam.

Todas as músicas felizes de amor são sobre eles. E, eventualmente, encontram aquela que será marcada para sempre como deles. A vida é boa, faz sentido, ambos tem tudo o que importa.

A primeira viagem juntos é combinada em 2 dias, pois a ansiedade não dá espaço para a espera. Mas não vai embora enquanto o dia marcado não chega, é como finalmente encontrar um poço escrito “felicidade” e ele está a dias de distância.

Um fim de semana sozinhos, conhecendo um novo lugar, um ao outro, comendo, rindo, dormindo… E há quem duvide que perfeição exista.

A viagem acaba, cada um vai para sua casa, mas já estão conversando por mensagem no celular. A distância já dói. Internamente os dois se perguntam quando irão morar na mesma casa e dividir tudo como tanto tem vontade.

Com o passar das semanas a ânsia de conversar o tempo todo diminui mais por um lado do que pelo outro. Um deles está tentando uma promoção no trabalho, o outro quer se demitir. O primeiro não tem mais tempo de falar o dia inteiro no celular, o segundo guarda mágoa por isso.

A primeira briga chega como uma chuva de verão, aquele tipo de chuva quando o céu permanece cinza por dias e, no dia certo, o dia parece noite. As nuvens mais escuras se aproximam lentamente primeiro, depois chegam de uma vez. E a discussão que começou porque um deles dormiu em vez de ligar pro outro, vira uma briga sobre todas as pequenas coisas ignoradas durante o início mágico e perfeito.

As pazes trazem uma sensação ainda maior de felicidade, pois trazem alívio junto, é a prova de que o amor deles pode superar até a pior tempestade dos últimos 5 anos. Tudo é calmo e alegre, como aquele dia perfeito da primavera. Sol, um parque, a grama e crianças correndo em volta. Nada pode acabar com aquilo.

Obviamente outras brigam vem, maiores ou menores do que a primeira, e deixam marcas profundas na memória ou não são lembradas depois de 10 dias. Coisas boas também. A rotina se estabelece com alguns pontos positivos e negativos periodicamente.

O problema da rotina é que ela é como a tempestade da 1ª briga. É o elefante branco na sala. Eles ignoram, fingem que não veem aquele céu cinza escurecendo a cada dia, ou aquele elefante bebendo água da fonte de decoração da estante. Pois ninguém quer brigar, ninguém quer assumir que tem algo errado. Dói pensar que não está dando certo com alguém tão amado. Eles esquecem que a rotina mata.

Esquecem que rotina, brigas, preguiça etc. fazem parte da vida de casal, que tudo isso é normal e precisam enfrentar ou estão estancando o buraco negro com um band-aid super desenvolvido. Se comportam como crianças com medo do bicho-papão, a possível confirmação dos seus medos: aquilo não é para sempre.

Continua.

E então?

Então, a vida nunca foi como eu planejei, acho que nenhuma vida é assim, né?

Pois bem, cá estou eu, numa noite de sexta-feira, bebendo sozinha e sendo babá de um gato. Adicionado à essa equação da diversão está o filme Passageiros. Muito ruim, não vou entrar nesse assunto.

De qualquer forma, o filme me fez pensar sobre as últimas pessoas com quem eu me relacionei de forma romântica e como, mesmo eu querendo, não consegui levar nada pra frente.

Eu sou uma pessoa fácil de se relacionar porque, depois de passar a ansiedade social (hey, é fácil para os outros), eu me sinto confortável para falar muito. Então, você não sendo uma pessoa total e completamente desagradável, assunto provavelmente não vai faltar.

E, assim, eu acabei me envolvendo com algumas pessoas. Ainda me envolvo, na verdade. Esperando aquele frio na barriga e não achando essa porcaria em lugar nenhum.

E agora vem o ponto principal que eu queria chegar: eu baseio minhas relações nas anteriores, situações atuais em situações passadas. Minhas duas relações de peso aconteceram depois de eu me apaixonar rápido e ver a pessoa fazendo o mesmo. Agora isso não acontece. Na verdade, a pessoa pode até sentir algo, mas eu não.

Quando você sou eu e você pensa como eu, você espera as coisas como eu disse aqui em cima, e quando essas coisas não acontecem você simplesmente pensa “ok, não foi dessa vez”.

Mas, entretanto, todavia, e se você também tem a capacidade de crescer o sentimento com o tempo? Mas você, na verdade, foge disso porque, talvez, você não esteja pronto? Ou porque você tem transtorno da personalidade limítrofe e sua cabeça é tão bagunçada quanto o quarto de um adolescente clichê?

Como saber se é você ou o transtorno tomando as decisões?

Então você decide continuar e tentar mais com as pessoas, sentindo que está se traindo e enganando as pessoas, pois não é assim que você se acostumou a lidar com relações. Mas não pode confiar em si mesmo.

E então? Se você não posso confiar em si mesmo, talvez esteja forçando algo que não é real e nunca será porque acha que a doença te controla.

E então… Talvez você só desista?

Mas, o transtorno é na sua cabeça, parte de você. E então?

Um dia perfeito

Bom, já que você perguntou, aqui vai:

“Acordo, sem despertador, porque é domingo e eu não sou obrigada. A cama está quentinha, confortável, como se me abraçasse dizendo “você é só minha”. E então você me abraça e sinto meu corpo se entregando à preguiça, ao sono.

Acordo novamente, agora sozinha na cama, ouço você na sala com a TV, o campeonato inglês passando e você resmungando sobre um impedimento que não aconteceu. Sorrio pra mim mesma e lembro que queria ver esse jogo, então levanto e levo o edredon para o sofá, pois sei que você vai estar lá sem camisa e hoje está frio. Não um frio absurdo, mas 18ºC é frio pra quem viveu meses com a mínima em 23ºC.

Durante o jogo, minha mãe liga. Amanhã é aniversário da minha avó, 79 anos, e hoje iremos levá-la para almoçar em algum lugar, comemoração simples e só com as filhas e a neta. Eu digo que vou me aprontar e peço para que me enviem o endereço do lugar.

Eu conheço minha família, então sei que, como marcaram às 13hrs, chegarão realmente após às 14:45, então deito novamente no sofá, me enfio embaixo do edredon com você e assistimos ao resto do jogo em silêncio, exceto pelos momentos de revolta ou risada porque o Liverpool marcou. Ou quase.

Ajudo você a preparar seu almoço, pois, apesar da minha avó te amar e sempre querer te ver, hoje é dia das filhas e da neta. Fazemos macarrão, como todo domingo. Na verdade, eu faço o macarrão, pois meu molho é muito melhor que o seu, e você se concentra no frango grelhado.

Enquanto você almoça, tomo banho ouvindo Jimmy Eat World e acabo perdida em algumas lembranças dos 18 anos. Não dói, é uma saudade feliz, saudade do que foi bom e valeu o tempo investido.

Já na rua, com o fone de ouvido, vestido, meia calça roxa e rasgada, All Star e jaqueta jeans, penso no que dar de presente de aniversário para a vó. Qualquer coisa que eu der vai deixar ela feliz ao ponto de quase chorar, ao mesmo tempo em que ela me dá uma bronca por ter gasto dinheiro com presentes. Sorrio para o chão.

Chego ao shopping 14:50, pois a senhora avó não queria em lugar nenhum senão o pior shopping da cidade. Menor, com menos opções e com mais gente. Mas é seu aniversário, então ela que manda.

Chego junto com ela e minha mãe, que foi buscá-la em casa, e está feliz por me ver participar desse dia. Normalmente eu invento uma desculpa ou simplesmente não apareço. É difícil lidar com pessoas, especialmente com família, mas quando é sobre a minha avó eu não fujo. Ela é um dos meus maiores presentes.

Almoço, sorvete, conversa na mesa, andança pelo shopping, uma tia compra um casaco, outra tia compra um sapato, eu penso em comprar uma bota, mas deixo para lá porque preciso economizar.

Volto para casa, encontro você me esperando com uma pizza para jantar. Continua do mesmo jeito que o deixei: moletom, chinelo e sem camisa. Pego uma camiseta de manga longa velha pra você, porque não dá pra aguentar te olhar assim nesse frio. 16ºC agora.

Comemos, conto como foi o dia, como a vó perguntou de você, como ela disse que gosta tanto de você e sente saudade. E como ela tirou sarro de mim por segurar sua bengala, dizendo que eu estava “esquentando o pau dela”.

Comemos demais, 3 pedaços e meio cada um, então a única decisão sábia é deitar no sofá e levar 40 minutos para decidir o que assistir na Netflix.

Alguns episódios de um desenho maluco e aleatório depois, vamos deitar na cama.

Você me abraça quentinho, como um aquecedor humano. Seu cheiro é maravilhoso, cheiro de lar, de felicidade.

E decide perguntar: o que seria um dia perfeito para mim?”

Felicidade

A sensação quente enche o braço, transcorre pelas mãos, pelos dedos, pinga em volta.

A mente lembra de momentos aleatórios e desconexos. Como aquele dia em que acordei no parque e o sol estava quente, mas não quente desagradável, e sim como entrar em casa depois de andar na rua quando está frio. Uma quentura que te acolhe e te abraça e passa segurança.

Também lembro do dia em que visitamos um parque novo, sentamos na grama e ouvimos nossa banda preferida enquanto tirávamos fotos e acreditávamos que nunca acabaria.

O dia em que conversamos e concordamos que precisávamos dar um jeito de ficarmos juntos, porque a vida era ok quando separados, mas muito melhor um com o outro.

Aquela vez em que implorei para você não ir embora enquanto as lágrimas escorriam sobre meu rosto. Quentes por menos de 2 segundos, então frias como os seus olhos ao olhar os meus.

O dia em que cozinhamos e brincamos e rimos e comemos e dormimos, um dia tão simples, mas, ainda assim, tão completo e perfeito.

Quando decidimos que éramos eternos.

E o dia em que chorei abraçada em você, porque guardei coisas demais e meu corpo não aguentou o que minha mente planejou. E até hoje lembramos de Vanguart por causa disso.

Todas as vezes que, mesmo sem pedir, amigos me apoiaram e mandaram mensagens ou ligaram para me lembrar de que eles estão sempre ali.

Os cachorros, os gatos, os filhotes. Os livros, os filmes, as discussões, as brigas, as pazes.

Minha mãe. Minha avó. Meus amigos próximos. Ah, é tão bom pensar neles.

Mas a quentura diminui com o passar dos segundos. Um arrepio, o frio, a tensão automática quando meu cérebro percebe que algo deu errado, os músculos relaxando quando meu cérebro percebe que não tem mais o que fazer, então ele resolve desligar.

O sangue fora faz falta dentro, então não sinto mais nada, só algo comparado ao sono.

Não tem mais dor, lembranças, quentura ou frio. Só névoa e a sensação de estar caindo no sono. O sono merecido depois de tanta dor.